sexta-feira, 17 de abril de 2026

Embaixador do Brasil no Irã relata explosões, tremor de paredes e mortes no conflito

"Guerra não é videogame."

Assim o embaixador do Brasil em Teerã, André Veras Guimarães, 59 anos, sintetiza o que viu, ouviu e sentiu durante as primeiras semanas da Guerra do Irã, quando bombardeios cotidianos dos Estados Unidos e Israel destruíram alvos na capital e no resto do país.

Morador do último andar de um prédio residencial, Veras perdeu as contas das vezes em que, ao longo desse período, despertou de madrugada com estrondos e tremor de paredes e assistiu, pela janela, à explosão de prédios.

"Ninguém consegue passar incólume por uma situação dessas. Eu vejo aqui tudo acontecendo", afirma o diplomata, por telefone, à BBC News Brasil durante entrevista na última terça-feira (14/4), quando o conflito completou 46 dias.

Ele lembra que, pela estimativa mais recente do governo do Irã, a guerra já causou a morte de mais de 3,5 mil iranianos em investidas que nada têm de precisas ou cirúrgicas, apesar de "toda a tecnologia existente, de satélites a detectores de calor".

"Uma autoridade iraniana morta em um bombardeio leva consigo mais 15 pessoas, outros tantos feridos e muitas estruturas destruídas", afirma o embaixador.

Veras cita o exemplo da Escola Primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, para assinalar que, por vezes, os alvos atingidos são pouco ilustres, e o número de vítimas, mais elevado.

No primeiro dia da guerra, a instituição foi destruída por um míssil americano, deixando 175 mortos, a maioria meninas.

Questionado sobre o incidente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse: "Eu não sei nada sobre isso".

Veras critica a definição de "dano colateral", frequentemente invocada em referência a ataques a alvos civis, como uma maneira de "suavizar o impacto e humanizar a guerra".

"Dano colateral é a destruição de prédios que não eram os alvos [militares]. Dano colateral são os feridos, os mortos. Dano colateral é o hospital atingido porque o prédio ao lado foi atacado. São os ataques a universidades, casas de professores, cientistas", desabafa.

E acrescenta: "É muito importante que a gente pense na normalização de certos atos e no apoio a certas medidas que não queremos [que aconteçam] no nosso próprio país".

Um levantamento do jornal The New York Times identificou danos a 22 escolas e 17 instituições de saúde desde o início do conflito. A verificação foi feita com base em imagens de satélite de alta resolução e na checagem de vídeos da mídia estatal e de redes sociais como o X.

Mas os estragos podem ser ainda maiores.

A Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano, principal organização humanitária do Irã, afirmou em 2 de abril que ao menos 763 escolas e 316 unidades de saúde foram danificadas ou destruídas desde o início do conflito.

A rotina de bombardeios interrompeu-se no dia 7 de abril, quando Estados Unidos e Irã anunciaram um cessar-fogo de duas semanas, condicionado à abertura do Estreito de Ormuz.

"Até aquele momento [7 de abril], os ataques eram diários e podiam acontecer a qualquer momento, de dia ou à noite", descreve.

Os alvos mais cobiçados foram estruturas relacionadas ao Estado iraniano, diz Veras.

"Podiam ser instalações da Guarda Revolucionária [estrutura paramilitar do regime iraniano] ou delegacias de polícia."

Embora Teerã esteja em relativa calma desde o início da trégua, a expectativa entre a população, segundo Veras, é de que as hostilidades recomecem após o fracasso da rodada de negociações entre os dois lados ocorrida em Islamabad, Paquistão, no último fim de semana.

A atmosfera local é descrita pelo embaixador como de "apreensão, expectativa e medo sobre o que possa ser agora objeto desses ataques [dos Estados Unidos e de Israel]".

Dias antes da trégua, Trump havia ameaçado reiteradamente destruir pontes e usinas elétricas do Irã e, na véspera, escreveu em sua rede social Truth Social: "Uma civilização inteira morrerá hoje à noite".

O embaixador observa que, quando um chefe de Estado utiliza esse tipo de linguagem, a população visada crê que "[está sob ameaça de ser vítima de] crime de guerra ou genocídio".

"É claro que a gente prefere pensar que isso [a ameaça de Trump] seja muito mais um elemento de pressão sobre o regime [iraniano]. Quando vem de um país que dispõe de armas nucleares e num sistema internacional em que as próprias autoridades americanas dizem que as regras não valem mais, que a regra é a do mais forte, isso [a ameaça] causa muita apreensão."

Se a retórica de Trump ao anunciar a guerra despertou esperanças de mudança de regime na parcela da população, assinala Veras, a promessa de aniquilação teve o efeito oposto.

"Há um sentimento de decepção e um choque muito grande, porque [a declaração de Trump] desconsidera uma história de 4 mil anos da civilização persa-iraniana", comenta.

"Essa segunda ameaça [de Trump] só vem confirmar que não eram verdadeiras as razões identificadas no início [da guerra] e que há objetivos outros que não foram ainda professados."

Segundo o embaixador, são hoje frequentes as manifestações populares pró-governo no país durante a noite.

"No Irã há aqueles que defendem [o governo], aqueles que são contra, aqueles que não emitem sua opinião, mas nós temos os que defendem o Estado tal qual é, definido por uma constituição, por instituições e mecanismos", descreve.

"As divergências que existem [no Irã] são ultrapassadas pelas ameaças externas, especialmente as que põem em risco a própria existência do Estado. A reação natural é o país se juntar na sua [própria] defesa."

O anúncio pelos Estados Unidos de um suposto bloqueio a portos do Irã no Golfo Pérsico no início da semana não produziu, segundo Veras, nenhum impacto visível na vida cotidiana.

A sociedade iraniana viveu sob sanções econômicas diretas e indiretas dos Estados Unidos pela maior parte da história recente, o que, na avaliação do embaixador, fez com que ela se tornasse resiliente e autossuficiente em diversos segmentos.

"Desde o dia 28 de fevereiro, os iranianos agem com altivez e força [diante da guerra]. Os supermercados em nenhum momento ficaram desabastecidos. Em nenhum momento faltou energia e, quando aconteceu em alguma região específica, foi rapidamente resolvido."

Especialistas locais afirmam que, para ser eficazes, bombardeios à infraestrutura civil de energia, teriam de ocorrer em grande número e por muito tempo, segundo o diplomata.

Veras foi nomeado para o posto no dia 6 de junho de 2025, exatos sete dias antes do início da chamada Guerra dos 12 Dias, quando forças norte-americanas e israelenses atingiram instalações nucleares e militares no Irã, e chegou a Teerã antes do final do mês.

Dos cerca de 180 brasileiros que havia no país antes de 28 de fevereiro, quando se iniciaram os ataques deste ano, ele calcula que cerca de 60 a 70 tenham deixado o país sem dificuldade por via rodoviária (as fronteiras do Irã com Turquia, Armênia, Azerbaijão, Afeganistão e Paquistão permanecem abertas).

¨      Bloqueio de estreito de Ormuz afeta economia dos EUA e mina posição de Trump, diz analista

O fechamento do estreito de Ormuz teria consequências negativas a longo prazo para os Estados Unidos, disse à Sputnik Malek Dudakov, analista político russo.

Dudakov apontou que nos Estados Unidos houve um aumento significativo nos preços da gasolina, do diesel e do combustível de aviação, e a inflação está em alta, o que, por sua vez, afeta negativamente as notas de classificação do governo.

"A longo prazo, é claro, isso também afetará os próprios Estados Unidos", ressaltou o especialista político.

Além disso, Dudakov salientou que as declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a abertura do estreito de Ormuz são uma manipulação política.

Ele observou que a abertura do estreito de Ormuz não está acontecendo do lado norte-americano e que as declarações de Trump são uma tentativa de pressionar o Irã.

Ao mesmo tempo, Trump aspira a demonstrar boa vontade e disposição para desbloquear o estreito de Ormuz para a comunidade mundial.

"Considero as declarações de Donald Trump um elemento de manipulação política. Trata-se de uma tentativa de mostrar o Irã como um país irracional", detalhou.

Portanto, o analista concluiu que a questão do desbloqueio do estreito de Ormuz permanecerá em aberto por algum tempo.

O Irã e os Estados Unidos iniciaram negociações em Islamabad no dia 11 de abril, após Trump anunciar que havia chegado a um acordo com Teerã sobre um cessar-fogo de duas semanas.

No entanto, no dia 12 de abril, o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, chefe da delegação norte-americana, anunciou que não foi possível chegar a um acordo.

No dia 13 de abril, a Marinha dos EUA começou a bloquear todo o tráfego marítimo que entrava e saía dos portos iranianos em ambos os lados do estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do petróleo, dos produtos petrolíferos e dos suprimentos de gás natural liquefeito comercializados globalmente.

Washington garante que navios não relacionados ao Irã podem circular livremente pelo estreito de Ormuz caso não tenham pago pela passagem a Teerã. As autoridades iranianas não anunciaram a cobrança de taxas, mas mencionaram a possibilidade.

¨      Estados Unidos e Irã em negociações indiretas para estender o cessar-fogo de duas semanas

Os Estados Unidos e o Irã têm mantido conversas indiretas com o objetivo de estender o cessar-fogo de duas semanas para além do seu término em 22 de abril, enquanto o chefe do exército do Paquistão chegou a Teerã para dar continuidade aos esforços de mediação.

Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, negou na quarta-feira que os EUA tivessem solicitado "formalmente" a prorrogação do cessar-fogo de duas semanas, mas acrescentou que Washington continua "muito empenhado nessas negociações".

Uma segunda rodada de negociações "muito provavelmente" será realizada em Islamabad, disse ela, acrescentando que a Casa Branca se sente "otimista quanto às perspectivas de um acordo", poucos dias após o fracasso das negociações para alcançar um acordo de paz.

“Nada é oficial até que vocês ouçam isso de nós aqui na Casa Branca”, acrescentou ela.

As declarações surgiram no momento em que autoridades paquistanesas lançaram uma nova rodada de diplomacia itinerante, em um esforço para negociar o fim do conflito, viajando ao Irã e a outros países da região para angariar apoio diplomático para um acordo de paz.

O marechal de campo Asim Munir liderou uma delegação paquistanesa a Teerã na quarta-feira para transmitir uma mensagem de Washington, enquanto trabalhava para organizar uma segunda rodada de negociações de cessar-fogo entre os EUA e o Irã. A delegação de alto nível também incluía o ministro do Interior, Mohsin Naqvi, disseram autoridades em Islamabad.

No mesmo dia, Shehbaz Sharif, primeiro-ministro do Paquistão, partiu para uma viagem de quatro dias à Arábia Saudita, Catar e Turquia, numa tentativa de reforçar os esforços de paz, coordenando o apoio de outras potências regionais.

Relatos vindos da região sugeriam que ambos os lados eram favoráveis ​​à prorrogação da trégua, embora Donald Trump tenha indicado que uma extensão talvez nem fosse necessária para garantir um acordo de paz.

“Durante esta visita, é provável que os pontos de vista de ambos os lados sejam discutidos em detalhes”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, acrescentando que a troca de mensagens entre Washington e Teerã continuou mesmo após o término das negociações de cessar-fogo em Islamabad, que duraram 21 horas no fim de semana .

Fontes em Teerã afirmaram que o Irã exigiu o fim dos ataques israelenses ao Líbano como condição prévia para uma nova rodada de negociações com os Estados Unidos. Israel tem apresentado suas conversas com o governo libanês em Washington como uma “oportunidade histórica” para pôr fim ao domínio do Hezbollah, milícia aliada do Irã, sobre o Líbano.

Mas Benjamin Netanyahu , o primeiro-ministro israelense, indicou em uma declaração em vídeo na noite de quarta-feira que não havia se comprometido com um cessar-fogo, afirmando que as Forças de Defesa de Israel continuavam a "atacar o Hezbollah" em seu reduto no Líbano, em Bint Jbeil, e que havia dado instruções para ampliar uma "zona de segurança" com a continuidade das operações no Líbano.

“Nossas forças continuam a atacar o Hezbollah, estamos prestes a conquistar Bint Jbeil”, disse ele. “Paralelamente, ontem dei instruções às Forças de Defesa de Israel para continuarem reforçando a zona de segurança.”

O tenente-general Eyal Zamir, chefe do Estado-Maior do Exército israelense, visitou as tropas israelenses na quarta-feira e prometeu eliminar a presença do Hezbollah ao sul do rio Litani, a cerca de 30 km (19 milhas) da fronteira israelense.

“Ordenei que toda a área do sul do Líbano até a Linha Litani seja transformada em uma zona de extermínio de terroristas do Hezbollah”, disse Zamir, acrescentando: “Estamos avançando e atacando o Hezbollah, e eles estão recuando”.

Dois funcionários libaneses disseram à Reuters que esperavam que um cessar-fogo com Israel pudesse ser anunciado "em breve", mas não deram mais detalhes sobre as negociações.

As Forças Armadas dos EUA afirmaram que o bloqueio naval aos portos iranianos, imposto após o fim das negociações em Islamabad, foi "totalmente implementado" e que navios de guerra americanos impediram a entrada de nove embarcações, incluindo o petroleiro Rich Starry, de propriedade chinesa, que tentou cruzar o Estreito de Ormuz na terça-feira. O navio foi alvo de sanções impostas pelos EUA.

O major-general Ali Abdollahi, líder do comando militar conjunto do Irã, afirmou na quarta-feira que suas forças armadas poderiam interromper o comércio na região do Golfo se os EUA não suspendessem o bloqueio aos portos iranianos.

Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, afirmou que os Estados Unidos estavam prontos para intensificar a pressão financeira sobre o Irã, preparando-se para o “equivalente financeiro” da campanha de bombardeio americana. O governo “avisou às empresas e aos países que, se estiverem comprando petróleo iraniano, se houver dinheiro iraniano em seus bancos, estamos dispostos a aplicar sanções secundárias, uma medida muito severa”, disse ele. “E os iranianos devem saber que isso será o equivalente financeiro do que vimos nas atividades militares.”

A China manifestou suas objeções ao bloqueio naval, mas Trump afirmou na quarta-feira que obteve a concordância de Xi Jinping, presidente chinês, em não enviar armas ao Irã. O Ministério das Relações Exteriores em Pequim negou, ao longo da guerra, que a China estivesse fornecendo armas ao Irã.

No entanto, o Financial Times noticiou na quarta-feira que a força aeroespacial da Guarda Revolucionária do Irã adquiriu um satélite espião chinês em 2024 e o utilizou para atacar bases americanas na região durante as cinco semanas de guerra.

Trump reiterou suas previsões de um fim rápido para a guerra, que ele mantém desde o início do conflito em parceria com Netanyahu. Ele disse ao correspondente da ABC News, Jonathan Karl: "Acho que vocês vão presenciar dois dias incríveis pela frente."

O presidente disse a Karl que a guerra poderia terminar antes do vencimento do cessar-fogo na próxima quarta-feira, argumentando que os EUA poderiam simplesmente se retirar após terem infligido danos significativos às forças armadas iranianas, ou sair após um acordo com Teerã.

“Pode terminar de qualquer maneira, mas acho que um acordo é preferível porque assim eles podem se reerguer”, disse ele.

Trump também disse à Fox News que a guerra poderia terminar "muito em breve" e que, então, haveria uma queda acentuada no preço do petróleo, que girava em torno de US$ 95 na quarta-feira, enquanto os investidores permaneciam incertos sobre o futuro das negociações de paz.

Após o término das negociações em Islamabad no domingo, Trump ordenou um bloqueio naval à navegação que entra ou sai dos portos iranianos no Golfo, como resposta ao fechamento quase total, pelo Irã, da via navegável estratégica que dá acesso ao Golfo, o Estreito de Ormuz, desde o início da guerra, e para aumentar a pressão econômica.

Ali Abdollahi alertou que o Irã bloquearia todas as exportações e importações da região, incluindo o Golfo Pérsico, o Golfo de Omã e o Mar Vermelho, caso o bloqueio dos EUA continuasse.

“O Irã agirá com firmeza para defender sua soberania nacional e seus interesses”, disse Ali Abdollahi.

 

Fonte: BBC News Brasil/Sputnik Brasil/The Guardian

 

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