O
que a derrota de Viktor Orbán na Hungria significa para Putin, Ucrânia e o
resto da Europa
A
icônica ponte das Correntes de Budapeste liga os dois lados da cidade — a bela
Buda à vibrante Peste — sobre o rio Danúbio. À noite, as luzes que iluminam a
ponte refletem como pequenas luas na água.
Geralmente,
o local fica lotado de turistas tirando selfies. Mas no último domingo (12/04),
o cenário era outro.
Após um
resultado eleitoral histórico que levou à derrota do primeiro-ministro Viktor
Orbán depois de 16 anos no poder, a ponte foi iluminada de verde, branco e
vermelho, as cores da bandeira húngara.
Os
apoiadores do vitorioso Péter Magyar e de seu partido Tisza descreveram seu
sentimento como de reconquista do seu próprio país. Uma sensação que Magyar
transmitiu a eles em seu discurso de vitória.
"Nós
conseguimos", disse. "Derrubamos o regime de Orbán; juntos libertamos
a Hungria. Reivindicamos nossa pátria! Obrigado! Obrigado a todos!"
A
atmosfera era histórica. A participação eleitoral foi recorde.
Apesar
do controle férreo de Orbán sobre a mídia estatal, das mudanças que ele
introduziu no sistema eleitoral para favorecer seu partido e da enorme
influência que seus amigos e familiares exercem em posições de poder na
"democracia iliberal" que ele alega ter criado na Hungria, o líder do
Fidesz sofreu uma derrota esmagadora nas urnas.
Vi
multidões de eleitores que estavam votando pela primeira vez dançando pelas
ruas estreitas de Budapeste, embriagados por uma mistura de esperança e
incredulidade nas primeiras horas da manhã de segunda-feira (13/04).
"Chorei
quando marquei o X na minha cédula", Zofia me contou. "Ainda não
consigo acreditar. Mas nós conseguimos!"
Enquanto
Zofia falava, seu grupo de amigos gritava em coro: "Russos, voltem para
casa!"
Para
Orbán, o ocorrido representa uma irônica reviravolta da história.
O líder
da direita radical ascendeu à fama em 1989, na então Hungria comunista, ao
instar os russos a deixarem o país em um discurso apaixonado proferido durante
os últimos dias da União Soviética (URSS).
Essa
mensagem ecoou pela primeira vez em Budapeste durante a fracassada revolta
anticomunista húngara de 1956.
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Mudança de rumo
Mas, ao
longo dos anos, a trajetória política de Orbán mudou. Ele se deslocou ainda
mais para a direita, adotando uma postura autoritária.
Durante
esta última campanha eleitoral, sua antiga retórica da década de 1990 foi usada
contra ele por críticos indignados com seu longo e estreito relacionamento com
o presidente russo Vladimir Putin.
A
derrota de Orbán representa um grande golpe para Putin, que se beneficiava de
um aliado dentro da União Europeia.
Orbán
atrasou a implementação das sanções após a invasão da Ucrânia pela Rússia e vem
bloqueando um importante empréstimo da UE para Kiev, essencial para a
sobrevivência da Ucrânia.
Mas a
perda da Rússia é o ganho da Ucrânia. O presidente Volodymyr Zelensky foi
rápido em parabenizar a Hungria no domingo à noite, escrevendo no X que
aguardava com expectativa um "trabalho construtivo" conjunto.
A
mensagem não é exatamente efusiva, como se poderia esperar. Zelensky está bem
ciente de que muitos húngaros desconfiam do seu país.
Orbán
usou cartazes de campanha e comícios para alertar os eleitores de que só ele
poderia garantir a segurança da população e impedir que a guerra na Ucrânia se
alastrasse para o outro lado da fronteira, pondo em risco a vida dos seus entes
queridos.
É
provável que Magyar aja com cautela quando estiver no governo. É improvável que
ele reverta a decisão de Orbán de não enviar ajuda militar à Ucrânia, por
receio de alienar os húngaros, embora tenha prometido a Bruxelas que o seu país
deixará de obstruir o empréstimo de US$ 105 bilhões (R$ 524 bilhões) a Kiev,
que Orbán bloqueou.
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Adeus ao "Obstrutor"
Poucos
líderes europeus lamentarão a saída de Orbán. Em Bruxelas, ele era apelidado de
"o Obstrutor".
Mas de
forma mais ampla, era visto como a brecha em uma frente europeia unida contra
as ameaças de Moscou, Pequim e, mais recentemente, dos Estados Unidos.
Na
noite de domingo, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, descreveu o
resultado da eleição como histórico para a democracia europeia. A presidente da
Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que a Hungria escolheu a
Europa.
Em
Washington, o presidente americano Donald Trump provavelmente ficou muito menos
eufórico.
Os
eleitores húngaros tiraram de cena seu aliado mais próximo na Europa. O
republicano apoiou Orbán, e chegou até mesmo a enviar o seu vice-presidente,
J.D. Vance, a Budapeste em plena guerra contra o Irã para participar de um
comício a favor do primeiro-ministro.
Por
quê? Ambos admiram o primeiro-ministro húngaro como uma figura de destaque da
direita nacionalista cristã e "antiglobalista". Steve Bannon,
ex-estrategista-chefe de Trump e defensor de movimentos nacionalistas
populistas na Europa, descreveu Orbán como um "herói".
Embora
alguns analistas apontem a derrota de Orbán como um sinal de que o nacionalismo
populista na Europa atingiu um patamar de estagnação, prefiro adotar uma
postura mais cautelosa antes de endossar essa leitura.
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Família e papéis de gênero tradicionais
É
verdade que o partido Reunião Nacional de Marine Le Pen teve um desempenho
abaixo do esperado nas eleições locais francesas do mês passado e que a
primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, foi recentemente punida pelos
eleitores em um referendo sobre reformas judiciais que se tornou um julgamento
sobre seu mandato — mas todos esses exemplos são permeados por peculiaridades
nacionais.
Orbán
havia alienado setores da sociedade húngara por muito tempo: a esquerda, a
comunidade LGBTQ+, muitas mulheres que sentiam que seus direitos estavam sendo
corroídos pela agenda "pró-família, pró-papéis de gênero
tradicionais" de Orbán.
Mas o
prego final no caixão político de Orbán foi colocado quando até mesmo os seus
apoiadores mais fiéis o abandonaram em massa.
Um dia
antes da votação, visitamos Felcsút, a aldeia natal de Orbán.
Outrora
de origem humilde, ele investiu muito dinheiro na comunidade local, construindo
seu próprio estádio e academia de futebol. Seu genro está ligado a um luxuoso
campo de golfe na região, enquanto seu pai está reconstruindo uma propriedade
privada próxima, cujo custo estimado é de cerca de US$ 30 milhões ( R$ 150
milhões).
Orbán
sempre negou acusações de corrupção e, quando a economia da Hungria estava mais
saudável, muitos estavam dispostos a praticamente ignorar o problema.
Mas,
nos últimos anos, a inflação disparou e o padrão de vida caiu, enquanto o
círculo íntimo de Orbán parecia estar ficando cada vez mais rico.
"Ele
nos decepcionou. Decepcionou o país. Nos enganou", me disse Gyárfás Oláh,
ex-entusiasta de Orbán e ex-prefeito local, com ar cansado.
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Quem é Peter Magyar?
Entre
os eleitores de Magyar, há um número significativo de húngaros que votaram
contra Orbán, e não a favor do próprio Magyar. Ele ainda não provou seu valor
no governo.
Então,
quem é ele? Que tipo de primeiro-ministro será em casa, ou como interlocutor
para os aliados da Hungria no exterior?
Bem,
ele é um homem enérgico (durante a campanha, participava de quatro a seis
comícios por dia), inteligente e fotogênico, de 45 anos, ex-membro do partido
Fidesz, de Orbán.
Isso
significa que, assim como Orbán, ele é um nacionalista conservador. Ele adora
levar uma bandeira húngara consigo a todos os eventos políticos.
Pode-se
argumentar que os eleitores húngaros precisavam de um candidato de
centro-direita para se unirem antes de considerarem abandonar Orbán. A Hungria
é um país socialmente conservador.
É de se
esperar que as atitudes anti-imigração de Orbán continuem sob o novo governo,
por exemplo.
Magyar,
no entanto, prometeu reformas abrangentes "para derrubar o regime de
Orbán", incluindo o enfraquecimento dos laços com a Rússia e a
reconstrução de pontes com a Europa.
Por
enquanto, a maioria dos húngaros diz que suas prioridades são internas:
melhorar a economia e os serviços públicos do país, que estão em declínio,
reduzir a inflação e o custo de vida. Há muito a ser feito.
Com um
sorriso radiante no final da noite de domingo, cercado por apoiadores
eufóricos, Magyar disse à multidão: "Esta noite celebramos. Amanhã, mãos à
obra!"
Magyar
só se tornará oficialmente primeiro-ministro quando o presidente da Hungria lhe
pedir para formar um governo. Espera-se que isso aconteça em cerca de um mês.
Fonte:
BBC News

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