O
fim do princípio-Adão
A vida
já existe na terra, há 3,8 bilhões de anos. O antepassado comum de todos os
viventes foi provavelmente uma bactéria unicelular sem núcleo que se
multiplicava espantosamente por divisão interna ou por clonagem. Na clonagem,
se não houver controle sobre a bactéria, em três dias ela toma conta do
planeta, tal é sua vontade de vida e de automultiplicação. Mas sempre prevalece
um equilíbrio que autolimita este processo, caso contrário teríamos graves
desequilíbrios ecológicos a ponto de a vida se tornar impossível. Isso durou
cerca de um bilhão de anos.
Em
seguida, surgiu uma célula com membrana e dois núcleos, dentro dos quais se
encontravam os cromossomos. Nela se identifica a origem do sexo. Quando ocorria
a troca de núcleos entre duas células binucleadas, gerava-se um único núcleo
com os cromossomos em pares. Antes, as células se subdividiam por clonagem,
agora se dá pela troca entre duas diferentes com seus núcleos. Revela-se assim
a simbiose – composição de diferentes elementos – que junto com a seleção
natural representa uma, não a única, das forças mais importantes da evolução.
O que
muitos biólogos sustentam – inclusive o astrofísico Stephen Hawking, em seu
livro O universo numa casca de noz (Ed. Mandarim) – na evolução e no processo
biogênico não há simplesmente o triunfo do mais adaptável como pretendia
Charles Darwin. Tal visão é ainda insuficiente, pois não toma em conta as
interdependências existentes entre todos os seres, já no seu nível
físico-químico, bem antes do surgimento da vida. É essa interdependência, a
cooperação de todos com todos que constitui a linha mestra do processo
evolucionário.
A
competição com a chance do mais adaptável triunfar só é possível no interior da
interdependência e cooperação universal. O fraco também possui a sua chance e o
seu lugar e graças à interdependência sobrevive. Este princípio originário da
interdependência de todos com todos funda a sustentabilidade e explica a
biodiversidade e a pujança da vida.
Christian
de Duve, prêmio Nobel de medicina, chega a dizer em seu conhecido livro Poeira
vital: a vida como imperativo cósmico, (Ed. Campus): “a vida, é como uma praga
tão violenta que jamais se conseguiu exterminá-la” (p. 368). Ocorreram na
história da Terra quinze grandes dizimações de espécies vivas, mas ela, a Terra
viva, conseguiu sempre refazer a biodiversidade e ainda enriquecê-la.
Quando
surgiu a sexualidade com a bipolaridade masculino / feminino, veio junto a
grande diversidade e a singularidade dos seres vivos. A troca do material
genético se dá sempre sob um quociente quântico, isto é, sempre está vigente o
princípio de indeterminação de Werner Heisenberg. Não se sabe jamais exatamente
o que resulta das conjunções e que enriquecimentos ocorrem a partir dos dois
tipos de capital genético, do feminino e do masculino.
Tal
fato tem consequências filosóficas: a vida é tecida mais de trocas, de
cooperação e de simbiose do que da luta competitiva pela sobrevivência e pela
concorrência como no nível dos negócios.
Quando
se alcança o nível consciente e livre, essa riqueza e essa troca, passam da
dimensão da exterioridade biológica, para a interioridade subjetiva, vale
dizer, para o projeto pessoal. A sexualidade pode se transformar em um
propósito de vida, vivido a dois e em liberdade, expresso pelo amor.
Esta
opção não é mais regida pelo código genético que a biologia descreve. Aqui
valem outros princípios ligados à inovação, à liberdade, à cooperação
consciente, ao cuidado, ao amor sobre os quais se estruturam relações novas,
criativas e livres também entre homem com homem ou mulher com mulher.
Retomando
o fio da meada: nos dois primeiros bilhões de anos, nos oceanos ou nos lagos,
de onde irrompeu a vida, não existiam órgãos sexuais específicos. Existia uma
existência feminina generalizada que no grande útero dos oceanos, lagos e rios,
gerava vidas. Nesse sentido podemos dizer que o princípio feminino é primeiro e
originário e não o masculino. Assim se invalida o mito bíblico e cultural da
primazia de Adão (do masculino).
Só
quando os seres vivos deixaram o mar, lentamente foi surgindo o pênis, algo
masculino, que tocando a célula fêmea passava a ela parte de seu DNA, onde
estão os genes.
Com o
aparecimento dos vertebrados, os répteis, há 370 milhões de anos, estes criaram
o ovo amniótico cheio de nutrientes e consolidaram a vida em terra firme. Com o
aparecimento dos mamíferos há cerca de 125 milhões de anos já surgiu uma
sexualidade definida de macho e de fêmea. Aí emerge o cuidado, o amor e a
proteção da cria. Há 70 milhões de anos compareceu o nosso ancestral humano que
vivia na copa das árvores, nutrindo-se de brotos e de flores. Com o
desaparecimento dos dinossauros há 67 milhões de anos, ele pode ganhar o chão e
se desenvolver chegando até aos dias de hoje.
Cabe
detalhar melhor a complexidade implicada na sexualidade.
O sexo
genético-celular humano apresenta o seguinte quadro: a mulher se caracteriza
por 22 pares de cromossomos somáticos mais dois cromossomos X (XX). O do homem
possui também 22 pares, mas com apenas um cromossomo X e outro Y (XY). Daí se
depreende que o sexo-base é feminino (XX) sendo que o masculino (XY) representa
uma derivação dele por um único cromossomo (Y). Portanto, não há um sexo
absoluto, apenas um dominante. Em cada um de nós, homens e mulheres, existe “um
segundo sexo”.
Com
referência ao sexo genital-gonodal importa reter que nas primeiras semanas, o
embrião apresenta-se andrógino, vale dizer, possui ambas as possibilidades
sexuais, feminina ou masculina. A partir da oitava semana, se um cromossomo
masculino Y penetrar no óvulo feminino, mediante o hormônio androgênio a
definição sexual será masculina. Se nada ocorrer, prevalece a base comum,
feminina. Em termos do sexo genital-gonodal podemos dizer: o caminho feminino é
primordial. A partir do feminino se dá a diferenciação, o que desautoriza o
fantasioso “princípio-Adão”. A rota do masculino é uma modificação da matriz
feminina, por causa da secreção do androgênio.
Existe
ainda o sexo hormonal. Todas as glândulas sexuais no homem e na mulher são
comandadas pela hipófise, sexualmente neutra e pelo hipotálamo que é sexuado.
Estas glândulas secretam no homem e na mulher os dois hormônios: o androgênio
(masculino) e o estrogênio (feminino).
São
responsáveis pelas características secundárias da sexualidade. A predominância
de um ou de outro hormônio, produzirá uma configuração e um comportamento com
características femininas ou masculinas. Se no homem houver uma impregnação
maior do estrogênio, terá alguns traços femininos; o mesmo se dá com a mulher
com referência ao androgênio, aparecendo alguns traços masculinos.
Por
fim, importa dizer que a sexualidade possui uma dimensão ontológica. Quer
dizer, o ser humano não possui sexo. Ele é sexuado em todas as suas dimensões,
corporais, mentais e espirituais. Antes da emergência da sexualidade, o mundo é
dos mesmos e dos idênticos. Com a sexualidade emerge a diferenciação pela troca
entre diferentes. São diferentes para poderem estabelecer laços de convivência
e de inter- relação.
Tal
fato tem consequências antropológicas: a vida é tecida mais de trocas, de
cooperação e de simbiose do que da luta competitiva pela sobrevivência.
É o que
ocorre com a sexualidade humana: cada um, além da força instintiva que sente em
si, sente também a necessidade racional-afetiva de canalizar e sublimar tal
força. Quer amar e ser amado, não por imposição, mas por liberdade. A
sexualidade desabrocha no amor, a força mais poderosa “que move o céu e as
estrelas” (Dante) e também nossos corações. É a suprema realização que o ser
humano pode almejar.
Mas
retenhamos: o feminino é anterior, ele surge primeiro e é básico. O masculino
só veio muito mais tarde no processo da sexogênese. Mas ambos se encontram para
compor a unidade diversificada da espécie humana, de mulher e de homem.
Fonte:
Por Leonardo Boff, em A Terra é Redonda

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