sábado, 18 de abril de 2026

Quem decide quem pode disputar a presidência do Brasil?

Ela é dentista do SUS, mãe de dois filhos, militante do movimento negro e de mulheres, e foi escolhida por unanimidade pelo Partido Unidade Popular (UP) para disputar a Presidência da República em 2026. Seu nome é Samara Martins. Mas, para parte da imprensa brasileira, Samara simplesmente não existe.

Enquanto veículos de grande circulação anunciam uma corrida presidencial formada exclusivamente por homens, Samara Martins acumula agenda, percorre o país e constrói uma pré-candidatura formalizada desde fevereiro. Há uma mulher negra disputando a Presidência, mas a mídia decidiu que ela não existe. Vale acrescentar que esta não é a primeira vez de Samara em uma chapa presidencial: em 2022, ela foi vice de Léo Péricles, seu companheiro de partido.

Há quatro anos, Léo Péricles já denunciava o apagamento de sua chapa na disputa presidencial. O então candidato não foi convidado para nenhum debate. O mesmo aconteceu com a candidata do PSTU naquele mesmo pleito. Vera Lúcia Martins, mulher negra, sindicalista e nordestina, concorria à Presidência pela segunda vez, numa chapa puro-sangue que tinha como vice Raquel Tremembé, indígena maranhense e defensora de direitos humanos.

Fica evidente que há uma predileção entre os responsáveis por comunicar sobre a política e as eleições que apenas um determinado perfil de candidatos é merecedor de atenção. Trata-se de estratégia na disputa de narrativa, não de mero desconhecimento. Uma atitude deliberada que põe em xeque o direito do eleitor e da eleitora de fazer uma escolha bem informada. Somadas, as chapas de Léo e Samara e a de Vera Lúcia e Raquel tiveram cerca de 80 mil votos. Um número muito distante do necessário para a vitória, mas que não pode passar em branco.

A imprensa tradicional estrutura a cobertura eleitoral em torno de critérios de viabilidade definidos por ela mesma – pesquisas de intenção de voto, alianças partidárias, tempo de televisão. Quem não aparece nas pesquisas não aparece nas páginas, quem não aparece nas páginas não aparece nas pesquisas. E aqui cabe estender a crítica também aos institutos de pesquisa que, mesmo notificados pelos partidos sobre as candidaturas, escolhem não incluir os nomes dos postulantes nos levantamentos. Os canais se fecham para as candidaturas que desafiam o perfil histórico de quem ocupa o poder, ou seja, homens brancos, e uma parcela significativa do eleitorado fica impossibilitado de se ver melhor representado por quem tem muito mais em comum do ponto de vista da origem, do perfil sócio-demográfico e de agendas.

Samara Martins rompe com o perfil do mainstream da política em todas as dimensões. É mulher, é negra, é de esquerda, é de um partido fundado numa conjuntura política totalmente diferente dos demais – pós-crise de 2008, pós-jornadas de junho de 2013 e pós-impeachment da primeira e única mulher a assumir a Presidência do Brasil. Sua ausência na cobertura levanta uma pergunta direta ao sistema político e à mídia que o cobre: quem decide quem pode disputar o poder?

O apagamento de candidaturas como a de Samara Martins, mais do que uma omissão jornalística, é uma forma de violência política de gênero e raça. Para além de ameaças e agressões físicas, a violência política contra mulheres, sobretudo negras, também opera pelo silêncio, incidindo diretamente sobre aquilo de que uma candidatura mais necessita: a visibilidade.

A ausência de cobertura, a recusa em reconhecer sua legitimidade, a decisão editorial de tratar certas candidaturas como irrelevantes antes que o voto aconteça – tudo isso é violência. Quando parte da imprensa ignora uma candidata, não há neutralidade e sim uma escolha que viola frontalmente princípios democráticos básicos, como a igualdade de condições na disputa e o pluralismo político. Esse mecanismo tem consequências: candidaturas invisibilizadas atraem menos financiamento, menos filiações, menos tempo de mídia. O apagamento midiático retroalimenta a exclusão estrutural, que, por sua vez, justifica o apagamento midiático. Para mulheres negras, essa porta é ainda mais estreita: elas enfrentam simultaneamente o filtro de gênero e o filtro racial numa imprensa que, segundo o Reuters Institute, não tem nenhum editor-chefe negro em veículos da mídia hegemônica brasileira. Nenhum homem negro, muito menos uma mulher negra.

O padrão se repete dentro dos próprios partidos: nas eleições de 2024, 26 legendas descumpriram a cota mínima de 30% de candidaturas femininas em mais de 700 municípios. Nesse mesmo ano o Congresso Nacional aprovou a PEC da Anistia, que concedeu perdão aos partidos que descumpriram, nas eleições anteriores, as cotas estabelecidas de distribuição de recursos públicos para mulheres e negros. Além de isentá-los de sanções como multas, devolução de valores ou suspensão de fundo partidário, a norma permitiu que os valores que deveriam ser aplicados, mas não foram, sejam reinvestidos nas eleições seguintes.

Tudo isso converge para o debate que o Brasil trava agora em torno do PL 896/2023, aprovado pelo Senado em março. A criminalização da misoginia vai definir que tipo de ambiente político e midiático o país quer construir. Quando parte da mídia apaga candidaturas de mulheres negras ao mesmo tempo em que noticia a aprovação de uma lei contra a misoginia, o paradoxo é revelador: o problema que a lei quer combater está também nas escolhas editoriais de quem cobre o debate.

Visibilidade é poder. Decidir quem aparece é decidir quem existe politicamente. E numa democracia que ainda engatinha na representação de mulheres, a imprensa tem responsabilidade sobre o que reproduz e o que silencia.

Samara Martins é pré-candidata. O resto é escolha editorial.

 

Fonte: Por Tainah Pereira  e Marília Nascimento, no Le Monde

 

Nenhum comentário: