sábado, 18 de abril de 2026

Programa nuclear do Irã: economia ou geopolítica?

Os representantes dos Estados Unidos e do Irã nas negociações de paz em Islamabad, na semana passada, não conseguiram chegar a um acordo, com uma questão fundamental que se mostrou o principal ponto de discórdia: o programa nuclear iraniano.

Esta semana, o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, afirmou que a principal exigência de Washington é que Teerã se comprometa a "não possuir armas nucleares".

Há mais de duas décadas, as ambições nucleares do Irã têm sido o maior obstáculo à normalização das relações com o Ocidente. O programa nuclear do país é apontando como o principal motivo dos ataques contra Teerã promovidos pelos EUA e Israel neste ano e em junho de 2025.

<><> Ambições nucleares do Irã: irrealistas ou desonestas?

No campo da economia da engenharia, fatores como a relação custo-benefício, taxa de retorno, período de retorno do investimento, engenharia de valor e métricas semelhantes são considerações importantes. Para determinar se uma usina nuclear é economicamente viável, esses fatores devem ser avaliados para estabelecer a justificativa de custo benefício do projeto. O programa nuclear do Irã não é exceção.

O objetivo declarado de Teerã é a geração de energia e a segurança energética, não a produção de armas nucleares. Os dados disponíveis, no entanto, sugerem o contrário.O Irã anunciou que planeja aumentar sua capacidade de geração de eletricidade nuclear para 20 gigawatts até 2041.

A usina nuclear de Bushehr, construída pela Rússia no sul do Irã e inaugurada comercialmente em 2013, tem capacidade de mil megawatts e continua sendo a única instalação nuclear operacional do país. Ela gera apenas cerca de 1% da eletricidade do Irã. Dessa maneira, a geração de energia no país depende fortemente de gás natural e petróleo.

"O Irã detém algumas das maiores reservas de gás natural e petróleo do mundo, o que permite a geração de eletricidade a custos significativamente menores do que a energia nuclear", afirma Umud Shokri, estrategista de energia e pesquisador da Universidade George Mason, nos Estados Unidos.

Para compensar o déficit existente de 25 mil megawatts na rede elétrica do Irã, seriam necessárias cerca de 25 usinas semelhantes a Bushehr, cuja construção levou cerca de 20 anos para ser concluída.

<><> "Economicamente irracional"

Segundo algumas estimativas, a usina de Bushehr custou aproximadamente 5 bilhões de dólares (cerca de R$ 25 bilhões), ou seja, de acordo com especialistas, cinco vezes o valor projetado inicialmente.

Algumas estimativas vão ainda mais longe, sugerindo que, mesmo sem levar em conta os altos custos das sanções e considerando apenas o custo final e o desempenho da usina de Bushehr, o projeto pode ter custado ao Irã até dez vezes o valor estimado inicialmente. A falta de acesso a observadores estrangeiros independentes torna extremamente difícil determinar os custos precisos.

Esse nível relativamente baixo de geração de eletricidade representa um benefício mínimo obtido a um custo muito alto. A insistência do Irã em afirmar que seu enriquecimento de urânio se destina à geração de eletricidade sujeitou o país a pesadas sanções, que, segundo algumas estimativas, somam entre 2 e 3 trilhões de dólares em perdas econômicas diretas.

Para usos civis, como a geração de eletricidade, o urânio precisa ser enriquecido apenas de 3% a 5%. De acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o Irã desenvolveu estoques de urânio enriquecido a 60% – para armas nucleares, é necessário que o enriquecimento do urânio seja de 90%.

"O programa nuclear do Irã, quando analisado estritamente como um projeto de energia civil, não parece economicamente racional", afirma Shokri. "A estrutura de custos também diverge drasticamente dos programas nucleares civis típicos. Bushehr-1 enfrentou décadas de atrasos e estouros de orçamento, com custos totais de construção estimados entre 8 e 11 bilhões de dólares, o que o torna a energia gerada excepcionalmente cara."

O Irã também investiu pesadamente em infraestruturas de enriquecimento e de ciclo de combustível, "o que adiciona despesas substanciais, mas oferece justificativa econômica limitada, dados seus modestos recursos de urânio e acesso a combustível importado", pontua Shokri.

Além das tensões políticas e diplomáticas decorrentes do programa nuclear iraniano, sua insistência no enriquecimento doméstico de urânio faz pouco sentido quando vista de uma perspectiva econômica e de custo-benefício.

<><> Sem justificativa civil legítima

Em uma declaração conjunta de 2021 dirigida ao Conselho de Governadores da AIEA, França, Reino Unido e Alemanha afirmaram que o Irã não possui justificativa civil crível para enriquecer urânio a 20% ou 60%, e que a produção de urânio enriquecido nesses níveis é inédita para um país sem programa armamentista.

De acordo com um relatório de 2013 do think tank Fundo Carnegie para a Paz Internacional, as reservas de urânio do Irã são escassas. A AIEA afirma que a República Islâmica não figura sequer entre os 40 países com maiores reservas de urânio.

Segundo dados publicados em 2011, as reservas comprovadas de urânio do Irã totalizavam apenas 700 toneladas, a maior parte das quais se enquadra em categorias de altos custos de extração. Além da quantidade, a qualidade do urânio também é baixa, elevando ainda mais os custos tecnológicos necessários para a extração.

Em outras palavras, a exploração de urânio de depósitos de baixa qualidade é dispendiosa e tecnicamente complexa. Algumas estimativas sugerem que as reservas conhecidas de urânio do Irã poderiam, na melhor das hipóteses, abastecer a usina nuclear de Bushehr por apenas cerca de nove anos.

Ao mesmo tempo, a extração de urânio requer milhões de litros de água doce por dia. Considerando que as minas de urânio do Irã estão localizadas em regiões áridas e semiáridas, isso gera também sérias preocupações ambientais.

<><> Isolamento internacional agrava a situação

A necessidade de uma transição para reduzir o uso de combustíveis fósseis levou muitas nações a optarem pela energia nuclear como uma fonte relativamente limpa. Para muitos países, como a Bélgica e a Suécia, importar urânio enriquecido é mais rentável do que produzi-lo internamente.

A Bélgica opera sete reatores que geram mais da metade da eletricidade do país sem qualquer enriquecimento de urânio doméstico. A Suécia também importa todo o combustível necessário para os seus dez reatores, que produzem cerca de 40% de sua eletricidade.

"Programas nucleares civis bem-sucedidos em países como França, Coreia do Sul ou Emirados Árabes Unidos dependem de economias de escala, projetos de reatores padronizados e cadeias de suprimentos globais integradas", afirma Shokri.

Mas o status de pária internacional atribuído ao Irã em muitas capitais ocidentais significa que essas vias não estão disponíveis para o país. "A abordagem do Irã, marcada pelo isolamento, desenvolvimento autóctone e cronogramas extensos, aumentou significativamente os custos e reduziu a eficiência", explica Shokri.

As alegações de autoridades iranianas que argumentam que a energia nuclear dá ao Irã mais espaço para exportar gás e petróleo e gerar receitas também são altamente questionáveis, acrescenta o especialista. "Alternativas de menor custo, incluindo fontes renováveis, poderiam gerar eletricidade de forma mais eficiente e com menos riscos financeiros e geopolíticos."

Quando avaliado puramente em termos energéticos, o programa nuclear de Teerã "não se alinha bem com a lógica de custo-benefício das estratégias convencionais de energia nuclear civil e parece economicamente ineficiente", conclui.

¨      Irã desmente declaração de Trump sobre ter aceitado entregar urânio, afirma Al Jazeera

Segundo informações do canal Al Jazeera, o Irã teria desmentido, nesta quinta-feira (16/04), uma declaração feita horas antes pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que alegou ter feito Teerã concordar com a suspensão do seu programa nuclear por 20 anos como condição para possíveis negociações para um cessar-fogo.

Também de acordo com a emissora do Catar, a Repúblcia Islâmica estaria elaborando uma contraproposta em cima da última oferta feita por Washington.

A polêmica surgiu quando Trump, em declaração a repórteres na Casa Branca, afirmou que o Irã teria concordado em entregar suas reservas de urânio enriquecido e declarou que as negociações para um possível cessar-fogo estariam próximas de um acordo.

A matéria da Al Jazeera desmentindo a informação foi publicada horas depois, citando fontes internas do governo iraniano. No entanto, Teerão não apresentou posicionamento oficial até o momento.

<><> Novas ameaças

Na mesma entrevista, o mandatário norte-americano disse que “há uma chance muito boa” de um entendimento ser alcançado. Em suas palavras, Teerã teria aceitado devolver a “poeira nuclear”, que seria um dos mecanismos para a produção de armas atômicas.

Trump afirmou que o Irã pretende realizar um acordo e que o país mantém um bom relacionamento nesse contexto. “Precisamos que o acordo garanta que o país não possa obter armas nucleares, isso é um grande fator. E eles estão dispostos a fazer coisas hoje que não estavam dispostos a fazer há dois meses”, disse o presidente.

“Parece muito bom que façamos um acordo com o Irã, e será um bom acordo. Será um acordo sem armas nucleares”, acrescentou.

Além disso, Trump disse que a assinatura do acordo poderá ocorrer em breve, em novas rodadas de negociações em Islamabad, no Paquistão.

O presidente norte-americano não descartou viajar a Islamabad caso o acordo seja formalizado neste fim de semana, sem necessidade de estender o cessar-fogo.

Essas medidas do atual presidente dos Estados Unidos acompanham um anúncio realizado nesta quinta, com aprovação do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e do presidente do Líbano, Joseph Aoun, de que haverá um cessar-fogo de dez dias entre Israel e Hezbollah, que entrará em vigor às 18h, no horário de Brasília.

¨      Axios: EUA e Irã devem retomar negociações em Islamabad neste domingo (19)

Delegações dos Estados Unidos e do Irã devem se reunir em Islamabad, no Paquistão, neste domingo (19/04), para uma nova rodada de negociação de paz, segundo informações do site norte-americano Axios, citadas por fontes familiarizadas com o assunto. A chancelaria paquistanesa está mediando as negociações, com apoio do Egito e da Turquia.

Washington e Teerã estão negociando um plano de três páginas para encerrar a guerra, sendo um dos pontos em discussão a liberação, pela Casa Branca, de US$ 20 bilhões em fundos iranianos congelados em troca da renúncia do país persa ao seu estoque de urânio enriquecido, segundo dois funcionários norte-americanos e duas outras fontes a par das negociações.

O memorando de entendimento (MOU) de três páginas que as duas partes estão negociando também inclui uma moratória “voluntária” sobre o enriquecimento nuclear pelo Irã, acrescenta o site norte-americano.

Enquanto isso, de acordo com a emissora catari Al Jazeera, houve um reforço na segurança por meio do aumento das forças policiais: cerca de dez mil policiais já estão na capital e outros dez mil estão sendo adicionados, vindos de províncias vizinhas. Há esforços diplomáticos ativos por meio do primeiro-ministro do Paquistão, bem como do chefe do exército e dos chefes das forças armadas, forças paramilitares e polícia.

O presidente Donald Trump disse que o cessar-fogo de duas semanas, que termina na próxima semana, poderia ser prorrogado, embora não acreditasse que isso fosse necessário, já que Teerã queria um acordo.

“Vamos ver o que acontece. Mas acho que estamos muito perto de fechar um acordo com o Irã”, disse ele a repórteres, acrescentando que, se um acordo for alcançado e assinado na capital paquistanesa, Islamabad, ele poderá ir até lá para a ocasião.

No entanto, fontes iranianas disseram à Reuters que ainda existem “lacunas a serem resolvidas” antes de se chegar a um acordo preliminar.

ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irã começou em 28 de fevereiro e matou milhares de pessoas, inclusive o líder supremo Aiatolá Ali Khamenei.

¨      Irã celebra cessar-fogo no Líbano e cobra retirada completa de Israel do país

O Irã recebeu com entusiasmo o anúncio do cessar-fogo no Líbano. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Ismail Baghaei, afirmou nesta sexta-feira (17/04) que Teerã defendia uma trégua desde o início do diálogo com o objetivo de pôr fim às hostilidades.

“Desde o início das negociações com várias partes regionais e internacionais, incluindo as negociações em Islamabad, a República Islâmica do Irã tem enfatizado consistentemente a necessidade urgente de um cessar-fogo simultâneo em toda a região, incluindo o Líbano”, disse Baghaei.

“Após as negociações em Islamabad, o Irã buscou esse objetivo com a máxima seriedade”, comentou ele, expressando também sua profunda gratidão pelos esforços do Paquistão, especialmente nas últimas 24 horas, que se mostraram cruciais para alcançar o cessar-fogo de 10 dias.

Ele enfatizou que o cessar-fogo deve agora abrir caminho para uma verdadeira justiça e estabilidade duradoura, a retirada completa de Israel do sul do Líbano, a libertação imediata de todos os prisioneiros, o retorno seguro de todos os refugiados deslocados para suas casas e a reconstrução da infraestrutura devastada do Líbano com o apoio da comunidade internacional.

Após prestar uma homenagem emocionante à “perseverança lendária” do povo libanês e dos combatentes da resistência que se mantiveram firmes contra a agressão e a ocupação israelenses, o porta-voz ofereceu condolências às famílias dos “mártires da resistência libanesa”, reiterando a total solidariedade do Irã com o povo e o governo do Líbano.

Israel e Líbano concordaram com a cessação das hostilidades na quinta-feira (16/04) em Washington, D.C., após mais de seis semanas de confrontos em território libanês, anunciou o presidente dos EUA, Donald Trump.

No entanto, Beirute acusou Tel Aviv de violar o cessar-fogo em diversas ocasiões e pediu à população que não se aproximasse de áreas perigosas no sul do país.

¨      Irã reabre Estreito de Ormuz durante cessar-fogo no Líbano; Trump mantém bloqueio naval

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, anunciou a reabertura completa do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz nesta sexta-feira (17/04). “Em conformidade com o cessar-fogo no Líbano, a passagem para todas as embarcações comerciais está declarada completamente aberta pelo período restante do cessar-fogo”, disse em comunicado oficial.

Apesar de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter agradecido a Teerã pela reabertura da passagem estratégica, o republicano acrescentou que o bloqueio naval norte-americano ao Irã permanecerá em vigor até que um acordo com o Irã seja alcançado.

“O bloqueio naval permanecerá em pleno vigor e efeito no que diz respeito ao Irã — e somente ao Irã — até que nossa transação com o Irã esteja 100% concluída”, disse Trump, acrescentando que esse processo “deve ser muito rápido”, já que a maioria dos pontos já foi negociada.

Por sua vez, o presidente Recep Tayyip Erdogan destacou a importância de manter o fluxo comercial na região. Durante discurso em um fórum diplomático em Antália, o líder afirmou que “a prioridade é garantir a liberdade de navegação” e preservar o Estreito de Ormuz aberto ao tráfego internacional.

Em paralelo, França e Reino Unido lideram, nesta sexta-feira (17/04), em Paris, uma ampla reunião internacional com cerca de 40 países para discutir a criação de uma coalizão voltada à segurança da navegação no Estreito de Ormuz, que se encontra fechado pelo Irã aos países aliados dos Estados Unidos e Israel, por conta da guerra. A iniciativa não inclui, por ora, Washington ou Teerã.

Após o início da agressão conjunta entre os EUA e Israel em 28 de fevereiro, a República Islâmica do Irã bloqueou quase completamente a rota marítima por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo e gás comercializado no mundo.

Entretanto, na segunda-feira (13/04), as forças estadunidenses começaram a bloquear todo o tráfego marítimo que entrava ou saía dos portos iranianos. Nesse contexto, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, condenou a ação na quarta-feira (15/04) e alertou que ela viola o cessar-fogo.

 

Fonte: DW Brasil/Opera Mundi

 

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