Programa
nuclear do Irã: economia ou geopolítica?
Os
representantes dos Estados Unidos e do Irã nas negociações de paz em Islamabad,
na semana passada, não conseguiram chegar a um acordo, com uma questão
fundamental que se mostrou o principal ponto de discórdia: o programa nuclear iraniano.
Esta
semana, o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, afirmou que a
principal exigência de Washington é que Teerã se comprometa a "não possuir
armas nucleares".
Há mais
de duas décadas, as ambições nucleares do Irã têm sido o maior obstáculo à
normalização das relações com o Ocidente. O programa nuclear do país é
apontando como o principal motivo dos ataques contra Teerã promovidos pelos EUA
e Israel neste ano e em junho de 2025.
<><>
Ambições nucleares do Irã: irrealistas ou desonestas?
No
campo da economia da engenharia, fatores como a relação custo-benefício, taxa
de retorno, período de retorno do investimento, engenharia de valor e métricas
semelhantes são considerações importantes. Para determinar se uma usina nuclear
é economicamente viável, esses fatores devem ser avaliados para estabelecer a
justificativa de custo benefício do projeto. O programa nuclear do Irã não é
exceção.
O
objetivo declarado de Teerã é a geração de energia e a segurança energética,
não a produção de armas nucleares. Os dados disponíveis, no entanto, sugerem o
contrário.O Irã anunciou que planeja aumentar sua capacidade de geração de
eletricidade nuclear para 20 gigawatts até 2041.
A usina
nuclear de Bushehr, construída pela Rússia no sul do Irã e inaugurada
comercialmente em 2013, tem capacidade de mil megawatts e continua sendo a
única instalação nuclear operacional do país. Ela gera apenas cerca de 1% da
eletricidade do Irã. Dessa maneira, a geração de energia no país depende
fortemente de gás natural e petróleo.
"O
Irã detém algumas das maiores reservas de gás natural e petróleo do mundo, o
que permite a geração de eletricidade a custos significativamente menores do
que a energia nuclear", afirma Umud Shokri, estrategista de energia e
pesquisador da Universidade George Mason, nos Estados Unidos.
Para
compensar o déficit existente de 25 mil megawatts na rede elétrica do Irã,
seriam necessárias cerca de 25 usinas semelhantes a Bushehr, cuja construção
levou cerca de 20 anos para ser concluída.
<><>
"Economicamente irracional"
Segundo
algumas estimativas, a usina de Bushehr custou aproximadamente 5 bilhões de
dólares (cerca de R$ 25 bilhões), ou seja, de acordo com especialistas, cinco
vezes o valor projetado inicialmente.
Algumas
estimativas vão ainda mais longe, sugerindo que, mesmo sem levar em conta os
altos custos das sanções e considerando apenas o custo final e o desempenho da
usina de Bushehr, o projeto pode ter custado ao Irã até dez vezes o valor
estimado inicialmente. A falta de acesso a observadores estrangeiros
independentes torna extremamente difícil determinar os custos precisos.
Esse
nível relativamente baixo de geração de eletricidade representa um benefício
mínimo obtido a um custo muito alto. A insistência do Irã em afirmar que
seu enriquecimento de urânio se destina à
geração de eletricidade sujeitou o país a pesadas sanções, que, segundo algumas
estimativas, somam entre 2 e 3 trilhões de dólares em perdas econômicas
diretas.
Para
usos civis, como a geração de eletricidade, o urânio precisa ser enriquecido
apenas de 3% a 5%. De acordo com a Agência Internacional de Energia
Atômica (AIEA),
o Irã desenvolveu estoques de urânio enriquecido a 60% – para
armas nucleares, é necessário que o enriquecimento do urânio seja de 90%.
"O
programa nuclear do Irã, quando analisado estritamente como um projeto de
energia civil, não parece economicamente racional", afirma Shokri.
"A estrutura de custos também diverge drasticamente dos programas
nucleares civis típicos. Bushehr-1 enfrentou décadas de atrasos e estouros de
orçamento, com custos totais de construção estimados entre 8 e 11 bilhões de
dólares, o que o torna a energia gerada excepcionalmente cara."
O Irã
também investiu pesadamente em infraestruturas de enriquecimento e de ciclo de
combustível, "o que adiciona despesas substanciais, mas oferece
justificativa econômica limitada, dados seus modestos recursos de urânio e
acesso a combustível importado", pontua Shokri.
Além
das tensões políticas e diplomáticas decorrentes do programa nuclear iraniano,
sua insistência no enriquecimento doméstico de urânio faz pouco sentido quando
vista de uma perspectiva econômica e de custo-benefício.
<><>
Sem justificativa civil legítima
Em uma
declaração conjunta de 2021 dirigida ao Conselho de Governadores da AIEA,
França, Reino Unido e Alemanha afirmaram que o Irã não possui justificativa
civil crível para enriquecer urânio a 20% ou 60%, e que a produção de urânio
enriquecido nesses níveis é inédita para um país sem programa armamentista.
De
acordo com um relatório de 2013 do think tank Fundo Carnegie
para a Paz Internacional, as reservas de urânio do Irã são escassas. A AIEA
afirma que a República Islâmica não figura sequer entre os 40 países com
maiores reservas de urânio.
Segundo
dados publicados em 2011, as reservas comprovadas de urânio do Irã totalizavam
apenas 700 toneladas, a maior parte das quais se enquadra em categorias de
altos custos de extração. Além da quantidade, a qualidade do urânio também é
baixa, elevando ainda mais os custos tecnológicos necessários para a extração.
Em
outras palavras, a exploração de urânio de depósitos de baixa qualidade é
dispendiosa e tecnicamente complexa. Algumas estimativas sugerem que as
reservas conhecidas de urânio do Irã poderiam, na melhor das hipóteses,
abastecer a usina nuclear de Bushehr por apenas cerca de nove anos.
Ao
mesmo tempo, a extração de urânio requer milhões de litros de água doce por
dia. Considerando que as minas de urânio do Irã estão localizadas em regiões
áridas e semiáridas, isso gera também sérias preocupações ambientais.
<><>
Isolamento internacional agrava a situação
A
necessidade de uma transição para reduzir o uso de combustíveis fósseis levou
muitas nações a optarem pela energia nuclear como uma fonte relativamente
limpa. Para muitos países, como a Bélgica e a Suécia, importar urânio
enriquecido é mais rentável do que produzi-lo internamente.
A
Bélgica opera sete reatores que geram mais da metade da eletricidade do país
sem qualquer enriquecimento de urânio doméstico. A Suécia também importa todo o
combustível necessário para os seus dez reatores, que produzem cerca de 40% de
sua eletricidade.
"Programas
nucleares civis bem-sucedidos em países como França, Coreia do Sul ou Emirados
Árabes Unidos dependem de economias de escala, projetos de reatores
padronizados e cadeias de suprimentos globais integradas", afirma Shokri.
Mas o
status de pária internacional atribuído ao Irã em muitas capitais ocidentais
significa que essas vias não estão disponíveis para o país. "A abordagem
do Irã, marcada pelo isolamento, desenvolvimento autóctone e cronogramas
extensos, aumentou significativamente os custos e reduziu a eficiência",
explica Shokri.
As
alegações de autoridades iranianas que argumentam que a energia nuclear dá ao
Irã mais espaço para exportar gás e petróleo e gerar receitas também são
altamente questionáveis, acrescenta o especialista. "Alternativas de menor
custo, incluindo fontes renováveis, poderiam gerar eletricidade de forma mais
eficiente e com menos riscos financeiros e geopolíticos."
Quando
avaliado puramente em termos energéticos, o programa nuclear de Teerã "não
se alinha bem com a lógica de custo-benefício das estratégias convencionais de
energia nuclear civil e parece economicamente ineficiente", conclui.
¨
Irã desmente declaração de Trump sobre ter aceitado
entregar urânio, afirma Al Jazeera
Segundo
informações do canal Al Jazeera, o Irã teria desmentido, nesta quinta-feira
(16/04), uma declaração feita horas antes pelo presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, que alegou ter feito Teerã concordar com a suspensão do seu
programa nuclear por 20 anos como condição para possíveis negociações para um
cessar-fogo.
Também
de acordo com a emissora do Catar, a Repúblcia Islâmica estaria elaborando uma
contraproposta em cima da última oferta feita por Washington.
A
polêmica surgiu quando Trump, em declaração a repórteres na
Casa Branca, afirmou
que o Irã teria concordado em entregar suas reservas de urânio enriquecido e
declarou que as negociações para um possível cessar-fogo estariam próximas de
um acordo.
A
matéria da Al Jazeera desmentindo a informação foi publicada horas depois,
citando fontes internas do governo iraniano. No entanto, Teerão não apresentou
posicionamento oficial até o momento.
<><>
Novas ameaças
Na
mesma entrevista, o mandatário norte-americano disse que “há uma chance muito
boa” de um entendimento ser alcançado. Em suas palavras, Teerã teria aceitado
devolver a “poeira nuclear”, que seria um dos mecanismos para a produção de
armas atômicas.
Trump afirmou que o Irã pretende
realizar um acordo e
que o país mantém um bom relacionamento nesse contexto. “Precisamos que o
acordo garanta que o país não possa obter armas nucleares, isso é um grande
fator. E eles estão dispostos a fazer coisas hoje que não estavam dispostos a
fazer há dois meses”, disse o presidente.
“Parece
muito bom que façamos um acordo com o Irã, e será um bom acordo. Será um acordo
sem armas nucleares”, acrescentou.
Além
disso, Trump disse que a assinatura do acordo poderá ocorrer em breve, em novas
rodadas de negociações em Islamabad, no Paquistão.
O
presidente norte-americano não descartou viajar a Islamabad caso o acordo seja
formalizado neste fim de semana, sem necessidade de estender o cessar-fogo.
Essas
medidas do atual presidente dos Estados Unidos acompanham um anúncio realizado
nesta quinta, com aprovação do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu
e do presidente do Líbano, Joseph Aoun, de que haverá um cessar-fogo de dez dias entre Israel
e Hezbollah, que
entrará em vigor às 18h, no horário de Brasília.
¨
Axios: EUA e Irã devem retomar negociações em Islamabad
neste domingo (19)
Delegações dos
Estados Unidos e do Irã devem se reunir em Islamabad, no Paquistão, neste
domingo (19/04), para uma nova rodada de negociação de paz, segundo informações
do site norte-americano Axios, citadas por fontes familiarizadas
com o assunto. A chancelaria paquistanesa está mediando as negociações, com
apoio do Egito e da Turquia.
Washington
e Teerã estão negociando um plano de três páginas para encerrar a guerra, sendo
um dos pontos em discussão a liberação, pela Casa Branca, de US$ 20 bilhões em
fundos iranianos congelados em troca da renúncia do país persa ao seu estoque de urânio
enriquecido,
segundo dois funcionários norte-americanos e duas outras fontes a par das
negociações.
O
memorando de entendimento (MOU) de três páginas que as duas partes estão
negociando também inclui uma moratória “voluntária” sobre o enriquecimento
nuclear pelo Irã, acrescenta o site norte-americano.
Enquanto
isso, de acordo com a emissora catari Al Jazeera, houve um reforço na segurança
por meio do aumento das forças policiais: cerca de dez mil policiais já estão na
capital e outros dez mil estão sendo adicionados, vindos de províncias
vizinhas. Há esforços diplomáticos ativos por meio do primeiro-ministro do
Paquistão, bem como do chefe do exército e dos chefes das forças armadas,
forças paramilitares e polícia.
O presidente Donald
Trump disse
que o cessar-fogo de duas semanas, que termina na próxima semana, poderia ser
prorrogado, embora não acreditasse que isso fosse necessário, já que Teerã
queria um acordo.
“Vamos
ver o que acontece. Mas acho que estamos muito perto de fechar um acordo com o
Irã”, disse ele a repórteres, acrescentando que, se um acordo for alcançado e
assinado na capital paquistanesa, Islamabad, ele poderá ir até lá para a
ocasião.
No
entanto, fontes iranianas disseram à Reuters que ainda existem
“lacunas a serem resolvidas” antes de se chegar a um acordo preliminar.
O ataque conjunto dos
EUA e de Israel ao Irã começou em 28 de fevereiro e matou milhares de
pessoas, inclusive o líder supremo
Aiatolá Ali Khamenei.
¨
Irã celebra cessar-fogo no Líbano e cobra retirada
completa de Israel do país
O Irã
recebeu com entusiasmo o anúncio do
cessar-fogo no Líbano.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Ismail Baghaei,
afirmou nesta sexta-feira (17/04) que Teerã defendia uma trégua desde o início
do diálogo com o objetivo de pôr fim às hostilidades.
“Desde
o início das negociações com várias partes regionais e internacionais,
incluindo as negociações em
Islamabad, a República Islâmica do Irã tem enfatizado consistentemente a
necessidade urgente de um cessar-fogo simultâneo em toda a região, incluindo o
Líbano”, disse Baghaei.
“Após
as negociações em Islamabad, o Irã buscou esse objetivo com a máxima
seriedade”, comentou ele, expressando também sua profunda gratidão pelos
esforços do Paquistão, especialmente nas últimas 24 horas, que se mostraram
cruciais para alcançar o cessar-fogo de 10 dias.
Ele
enfatizou que o cessar-fogo deve agora abrir caminho para uma verdadeira
justiça e estabilidade duradoura, a retirada completa de Israel do sul do
Líbano, a libertação imediata de todos os prisioneiros, o retorno seguro de
todos os refugiados deslocados para suas casas e a reconstrução da
infraestrutura devastada do Líbano com o apoio da comunidade
internacional.
Após
prestar uma homenagem emocionante à “perseverança lendária” do povo libanês e
dos combatentes da resistência que se mantiveram firmes
contra a agressão e a ocupação israelenses, o porta-voz ofereceu condolências às
famílias dos “mártires da resistência libanesa”, reiterando a total
solidariedade do Irã com o povo e o governo do Líbano.
Israel
e Líbano concordaram com a cessação das hostilidades na quinta-feira (16/04) em
Washington, D.C., após mais de seis semanas de
confrontos em território libanês, anunciou o presidente dos EUA, Donald
Trump.
No
entanto, Beirute acusou Tel Aviv de violar o cessar-fogo em diversas ocasiões e
pediu à população que não se aproximasse de áreas perigosas no sul do país.
¨
Irã reabre Estreito de Ormuz durante cessar-fogo no
Líbano; Trump mantém bloqueio naval
O
ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, anunciou a
reabertura completa do tráfego marítimo no
Estreito de Ormuz nesta
sexta-feira (17/04). “Em conformidade com o cessar-fogo no Líbano, a passagem
para todas as embarcações comerciais está declarada completamente aberta pelo
período restante do cessar-fogo”, disse em comunicado oficial.
Apesar
de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter agradecido a Teerã pela
reabertura da passagem estratégica, o republicano acrescentou que o bloqueio naval
norte-americano ao Irã permanecerá em vigor até que um acordo com o Irã
seja alcançado.
“O
bloqueio naval permanecerá em pleno vigor e efeito no que diz respeito ao Irã —
e somente ao Irã — até que nossa transação com o Irã esteja 100% concluída”,
disse Trump, acrescentando que esse processo “deve ser muito rápido”, já que a
maioria dos pontos já foi negociada.
Por sua
vez, o presidente Recep Tayyip Erdogan destacou a importância de manter o fluxo
comercial na região. Durante discurso em um fórum diplomático em Antália, o
líder afirmou que “a prioridade é garantir a liberdade de navegação” e
preservar o Estreito de Ormuz aberto ao tráfego internacional.
Em
paralelo, França e Reino Unido lideram, nesta sexta-feira (17/04), em Paris,
uma ampla reunião internacional com cerca de 40 países para discutir a criação
de uma coalizão voltada à segurança da navegação no Estreito de Ormuz, que se encontra
fechado pelo Irã aos países aliados dos Estados Unidos e Israel, por conta da
guerra. A iniciativa não inclui, por ora, Washington ou Teerã.
Após o
início da agressão conjunta
entre os EUA e Israel em
28 de fevereiro, a República Islâmica do Irã bloqueou quase completamente a
rota marítima por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo e gás
comercializado no mundo.
Entretanto,
na segunda-feira (13/04), as forças estadunidenses começaram a bloquear todo o
tráfego marítimo que entrava ou saía dos portos iranianos. Nesse contexto, o
porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei,
condenou a ação na quarta-feira (15/04) e alertou que ela
viola o cessar-fogo.
Fonte:
DW Brasil/Opera Mundi

Nenhum comentário:
Postar um comentário