Armando
Boito: Lula 3 não é um governo neoliberal
Alguns
intelectuais e dirigentes políticos dos campos progressista e socialistas
criticam o Governo Lula 3 afirmando ser ele um governo neoliberal. Essa tese,
que nós consideramos equivocada, tem obtido alguma audiência e poderá
prejudicar a campanha e a votação da candidatura Lula na batalha eleitoral que
já se encontra em curso.
De
nossa parte, consideramos o governo Lula 3 um governo neodesenvolvimentista
como o foram os governos Lula 1e Lula 2. Neodesenvolvimentista por que, no
plano interno, a política econômica e a política social dos três governos Lula
consiste em praticar a intervenção do Estado na economia para estimular o
crescimento econômico e para reduzir a pobreza e, no plano internacional, a sua
política externa procura ampliar a margem de manobra do Estado brasileiro
diante do imperialismo. E essas duas dimensões, a interna e a externa,
encontram-se indissoluvelmente ligadas.
Entendemos
que a tese que identifica o Lula 3 como governo neoliberal comete dois
equívocos básicos. Primeiro, erra na tarefa de elaboração conceitual –
neoliberalismo, desenvolvimentismo, neodesenvolvimentismo. Segundo, confunde o
estágio ou modelo de capitalismo – no caso o modelo capitalista neoliberal –
com a política governamental, isto é, tal tese ignora a distinção entre a
política de Estado (neoliberal ou outra), que não é a política dos governos do
PT, e o modelo (neoliberal), com o qual esses governos não chegaram a romper.
Circula
nos debates sobre o tema uma concepção empiricista do conceito de
desenvolvimentismo. Essa concepção tem sido o ponto de partido para a ideia
segundo a qual o governo Lula seria neoliberal. E isso por que, considerando o
capitalismo latino-americano, podemos afirmar que do conceito que se tem de
desenvolvimentismo, dependem, evidentemente, o seu correlato
neodesenvolvimentismo e o seu contrário, que é o conceito de neoliberalismo.
Essa
concepção empiricista compara casos em que se considera ter sido aplicada a
política desenvolvimentista durante o século XX e procura extrair dessa
comparação as características que seriam comuns a todos eles. Chega-se a uma
definição, que considero meramente descritiva, que consiste numa lista de
atributos ou características mais ou menos assim: (a) o desenvolvimentismo é
uma política consciente do Estado (b) para aumentar a produção e a
produtividade, (c) centrada na industrialização e (d) sem extrapolar o sistema
capitalista.
Utilizando
tal definição, alguns intelectuais progressistas chegam à conclusão de que o
Governo Lula 3 não faz parte do gênero desenvolvimentista, à qual pertence a
espécie neodesenvolvimementismo, pela boa e simples razão de que os governos do
PT não centraram a sua política econômica na industrialização ou, mais
exatamente, na reindustrialização do país, mas sim na acumulação financeira.
Não
vamos nos reter na avaliação do procedimento, teoricamente arbitrário, que
consiste em selecionar apenas um dos quatro atributos que são listados no
conceito para julgar este ou aquele governo – teoricamente arbitrário por que a
definição não justifica o número de atributos que selecionou, não indica o que
é principal e o que é secundário, e sequer se preocupa em justificar por que
devem ser exigidos os quatro atributos e não apenas dois ou três para que se
pudesse considerar uma política como desenvolvimentista.
Diremos
o seguinte: esses atributos devem sim ser tomados em conta, mas para que se
entenda o seu real significado, e se possa utilizá-los de modo correto sem
colocar no mesmo saco fenômenos semelhantes apenas na aparência ou apenas em
aspectos secundários, é preciso inserir tais atributos no contexto do qual
fazem parte e que determina o seu real significado. Procedendo assim,
chegaremos a uma definição bem diferente, e mais adequada segundo nos parece,
para os três conceitos em tela – desenvolvimentismo, neoliberalismo e
neodesenvolvimentismo.
O
desenvolvimentismo é a política de países dependentes que almejam acelerar o
desenvolvimento do capitalismo e que, ao fazê-lo, defrontam-se com o obstáculo
representado pelo imperialismo. O desenvolvimentismo não é, portanto, qualquer
política de Estado que persegue, de modo consciente, a industrialização. No seu
sentido exato, essa é uma política de Estados e economias dependentes da
América Latina. A política de Otto von Bismark e a chamada Revolução Meiji não
poderiam, adequadamente, serem denominadas desenvolvimentistas, embora tenham
representado uma política de Estado consciente de industrialização da Alemanha
e do Japão.
Por que
o desenvolvimentismo encontra obstáculo no imperialismo? Por que a relação do
imperialismo com o desenvolvimento do capitalismo na periferia é uma relação
contraditória. De um lado, o imperialismo estimula o desenvolvimento do
capitalismo na periferia – mencionemos dois fatos maiores da história do
capitalismo no Brasil: no século XIX, a pressão diplomática, econômica e
militar da Inglaterra para que fosse abolida a escravidão e, no século XX, a
participação do capital imperialista na industrialização brasileira.
Ocorre
que, de outro lado, esse mesmo imperialismo impõe limites ao desenvolvimento do
capitalismo na periferia – o chamado Consenso de Washington induziu a regressão
do desenvolvimento capitalista no Brasil levando à desindustrialização e a
reprimiarização da economia brasileira. O fato é que dependendo da época e da
região consideradas, um desses dois vetores, estímulo e limite ao
desenvolvimento capitalista, será o vetor dominante.
Na era
neoliberal e da novíssima dependência predomina, considerando os maiores países
da América Latina, o aspecto limitador do imperialismo sobre o desenvolvimento
capitalista da Argentina, do Brasil e do México. Numa situação como essa, o
Estado dependente brasileiro vê-se diante de três opções: (i) política de recuo
em toda linha e de adesão passiva à novíssima dependência; (ii) política
defensiva de resistência; e (iii) política ofensiva de superação da novíssima
dependência mesmo que sem romper com o imperialismo.
A
primeira opção é aquela dos governos neoliberais; a terceira seria uma opção
desenvolvimentista; a segunda, que é uma opção intermediária, é a opção dos
governos do PT – o neodesenvolvimentismo.
O
desenvolvimentismo clássico, dos anos 1930-1980, sem ser anti-imperialista, foi
ambicioso. Reformulou a inserção do capitalismo brasileiro na antiga divisão
internacional do trabalho de modo a fazer avançar a industrialização. Era uma
política ofensiva.
Um
governo desenvolvimentista hoje seria o governo que adotasse uma política de
romper com a novíssima dependência, isto é, com a primarização e a
financeirização, sem que isso signifique necessariamente romper com o
imperialismo – somente um Estado nacional autônomo, nascido de uma revolução
democrática e popular, e não um Estado dependente, pode se colocar a tarefa de
romper com o imperialismo.
Os
governos neoliberais são aqueles que aderem ativamente à novíssima dependência:
abertura comercial em detrimento da indústria local; desregulamentação
financeira em detrimento do controle do Estado nacional sobre o movimento de
capitais; privatizações em proveito do grande capital brasileiro e,
principalmente, do grande capital internacional; supressão dos direitos
trabalhistas e sociais.
Os
governos neodesenvolvimentistas representam a posição intermediária entre os
dois polos mencionados. E é essa a política dos governos do PT, inclusive do
governo Lula 3.
Cada
uma dessas políticas – desenvolvimentista, neoliberal e neodesenvolvimentista
–, no que diz respeito à política econômica, expressam, prioritariamente, os
interesses de uma ou de outra fração da burguesia e expressam também, ainda que
em menor medida, a necessidade de o bloco no poder responder à pressão das
classes populares. Essa dimensão do fenômeno, isto é, o seu caráter de classe e
as alianças e conflitos de classes e frações de classe subjacentes às políticas
governamentais, está presente neste texto, mas não será examinada
sistematicamente.
Voltemos
para a política de resistência à novíssima dependência. Ela aparece nas medidas
de política econômica, nas medidas de política social e nas medidas de política
externa de todos os governos do PT, inclusive do governo Lula 3. Consistem, em
alguns casos, em eliminar e, na maioria deles, em apenas moderar os efeitos
danosos da novíssima dependência e do modelo neoliberal sobre o desenvolvimento
do capitalismo brasileiro, sobre as condições de trabalho e sobre os
rendimentos dos trabalhadores.
A
política econômica neodesenvolvimentista contém um elenco de medidas para
moderar os efeitos danosos da política econômica neoliberal sobre o capitalismo
brasileiro: prioridade para as empresas locais nas compras governamentais;
política de conteúdo local na cadeia do petróleo e gás; política de compras da
Petrobrás para barcos, navios petroleiros e plataformas de exploração de
petróleo fabricados no Brasil; incentivos financeiros do Fundo da Marinha
Mercante para os estaleiros nacionais; empréstimos subsidiados do BNDES para os
grandes grupos econômicos nacionais, livrando-os dos juros extorsivos do
sistema financeiro privado; manutenção do controle dos grandes bancos nacionais
sobre o mercado bancário etc.
Essas
políticas, que impõem restrições à abertura comercial, à desindustrialização e
à desnacionalização da economia brasileira não foram abandonadas pelo governo
Lula 3. Ao contrário, foram retomadas, após os dois governos neoliberais de
Michel Temer e de Jair Bolsonaro as terem revogado ou reduzido o seu escopo.
A
política social neodesenvolvimentista contém um elenco de medidas que vai na
contramão da política social neoliberal cuja dinâmica consiste na permanente, e
cada vez mais radical, supressão de direitos trabalhistas e sociais. O Lula 3
retomou a política de valorização do salário mínimo que fora abandonada por
Bolsonaro; retomou o Minha Casa, Minha vida; a política de expansão da rede
pública federal de escolas técnicas e de universidades; criou os programas Gás
do Povo, Pé-de-meia e outros.
No
plano internacional, o Lula 3 retomou o BRICS e participou de iniciativas
práticas visando, no longo prazo, a eliminar o monopólio do dólar sobre o
sistema financeiro e o comercial internacional.
Basta
olharmos para a Argentina, que representa muito bem o neoliberalismo dependente
latino-americano na sua fase atual, basta fazermos essa comparação, para
percebermos a diferença entre as políticas econômica, social e externa
neodesenvolvimentistas do governo Lula 3 e a política neoliberal na Argentina
de Javier Milei.
Além do
procedimento metodológico equivocado na definição dos conceitos, temos um outro
equívoco que consiste em não perceber a distinção conceitual entre a política
neoliberal e o modelo econômico neoliberal. As medidas de política de Estado e
o modelo de capitalismo, embora multidimensionalmente relacionados, não são uma
mesma e única coisa. Dentro de certos limites, a primeira pode variar, sem que
o segundo seja suprimido.
Tanto a
política neoliberal, quanto a política neodesenvolvimentista, cabem dentro do
modelo capitalista neoliberal. A primeira política consiste em manter
intocadas, ou reforçar e aprofundar, as características do modelo; a segunda
consiste em impedir o aprofundamento do modelo e em flexibilizar ou até
suprimir algumas de suas características.
É certo
que a variação de políticas de Estado está limitada pelo próprio modelo. Como a
política neodesenvolvimentista dos governos do PT não rompe com o modelo
capitalista neoliberal, o seu alcance é limitado, mas seria um erro subestimar
tal variação. Eu defino o neodesenvolvimentismo como o desenvolvimentismo
possível dentro do modelo capitalista neoliberal. Aliás, no limite, essas
variações dentro do modelo podem se converter, dependendo da situação política,
numa política de superação do próprio modelo.
O
modelo desenvolvimentista vigente entre as décadas de 1930 e 1980, cujo
objetivo era superar por intermédio da industrialização a antiga dependência
baseada na chamada vocação agrícola do país e na exploração financeira via
capital de empréstimo, esse modelo foi sendo gradativamente construído em seus
atributos mais fundamentais: forte protecionismo do mercado interno;
centralização do câmbio; empresas estatais nos setores de infraestrutura,
indústria de base e outros; financiamento público dos investimentos;
regulamentação protetiva do mercado de trabalho e outros.
Pois
bem, dentro desse mesmo modelo tivemos, sucessivamente, quatro governos com
três tipos de política econômica, social e externa muito distintas: Eurico
Gaspar Dutra, Getúlio Vargas, Café Filho e Juscelino. Sem que nenhum deles
tenha rompido com modelo de capitalismo vigente, os quatro apresentaram
diferenças significativas no que tange aos interesses das empresas nacionais,
do capital estrangeiro e dos trabalhadores.
Eurico
Gaspar Dutra, principalmente no primeiro biênio do seu governo, procurou
moderar a política desenvolvimentista, chegou até a ameaçá-la ao facilitar a
importação de manufaturados, enquanto Vargas a retomou com força. Café Filho,
tal qual Eurico Gaspar Dutra, desviou-se da política desenvolvimentista.
Juscelino retomou-a, mas, diferentemente de Vargas, reduziu a ênfase nas
empresas estatais e aumentou a participação do capital estrangeiro na política
de desenvolvimento. Diferença ainda maior tivemos durante a ditadura militar.
Os generais mantiveram o modelo desenvolvimentista, mas a sua política social –
arrocho salarial, proibição da luta sindical etc. – foi muito pior para os
trabalhadores.
Voltando
ao modelo capitalista neoliberal, constatamos um fenômeno semelhante. Enquanto
a política neoliberal dos dois governos de FH Cardoso priorizou o desmonte do
Estado desenvolvimentista no plano da política econômica, os governos de Michel
Temer e de Jair Bolsonaro, num estágio mais avançado do modelo, priorizaram o
desmonte do Estado social, com destaque para a reforma trabalhista, a
generalização da terceirização, uma reforma mais dura da previdência e o
estabelecimento de um teto de gasto público que passou a ameaçar o sistema de
saúde e de educação.
Os
governos do PT, por sua vez, procuram com a política neodesenvolvimentista
reduzir ou, em alguns casos, suprimir os efeitos danosos do modelo capitalista
neoliberal sobre o crescimento do capitalismo brasileiro e sobre a vida dos
trabalhadores, tensionando os limites desse modelo. Ao fazê-lo, os governos do
PT se defrontam, no que respeita a muitas medidas de política social, com a
oposição do conjunto da burguesia brasileira, como está ocorrendo agora em
abril de 2026 devido à iniciativa do governo de adotar posição favorável ao fim
da escala de trabalho 6 X 1; e, no que tange à política econômica, esses
governos se defrontam, principalmente, com a oposição da fração burguesa
constituída pela parte da grande burguesia brasileira perfeitamente integrada,
e de maneiras variadas, ao capital internacional e aos governos imperialistas.
A
primeira fração, sem ser anti-imperialista, nutre conflitos pontuais com alguns
interesses do capital estrangeiro e, por isso, podemos denominá-la grande
burguesia interna; a segunda fração é a própria extensão dos interesses do
capital internacional na economia brasileira e é a fração que denominamos
grande burguesia associada. Sim, o neodesenvolvimentismo e o neoliberalismo
são, ambos, programas burgueses, mas o impacto de um e de outro nas condições
de vida e de trabalho das classes populares são bem diferentes.
É certo
que o neodesenvolvimentismo do governo Lula 3 perdeu força se comparado com
aquele do Lula 1 e do Lula 2. Dois fatos indicam esse enfraquecimento:
crescimento econômico é menor e a recuperação do salário mínimo, agora, tem
limitação legal. Segundo nosso entendimento, isso ocorreu, acima de tudo,
embora não exclusivamente, por que mudaram as condições objetivas externas e
internas, econômicas, sociais e políticas.
Primeiramente,
vou enumerar as principais mudanças que, no essencial, independem da política
do Partido dos Trabalhadores e que evidenciam o contraste ente a década de 2000
e a década de 2020: ofensiva imperialista dos EUA sob o governo de Donald Trump
contra a China, contra os seus aliados e contra a América Latina; a perda de
dinamismo da economia capitalista desde a crise financeira de 2008 e,
posteriormente, da crise provocada pela pandemia de Covid 19; aprofundamento
econômico e institucional do modelo capitalista neoliberal durante os governos
Temer e Bolsonaro – novas leis e novas instituições funcionais para a
reprodução do modelo de acumulação neoliberal.
Perda
de poder econômico de importantes segmentos da fração da burguesia brasileira,
a grande burguesia interna, que apoia a política neodesenvolvimentista – a
Lava-Jato e o golpe de 2016 praticamente destruíram as grandes empreiteiras e
os estaleiros nacionais; perda de capacidade de intervenção política do
sindicalismo operário e de classe média que foram e são uma das bases de apoio
da política neodesenvolvimentista.
Surgimento
e consolidação do movimento neofascista que deu novo alento ao neoliberalismo
cujo impacto ideológico na sociedade vinha em declínio como indicam as
sucessivas vitórias eleitorais do PT – é muito diferente da década de 1990
quando FHC vencia as eleições no primeiro turno; declínio do
hiperpresidencialismo brasileiro com o correspondente aumento da capacidade
decisória do Legislativo inclusive no plano do orçamento federal, legislativo
no qual a fraqueza eleitoral do PT contrasta com a sua força na eleição
presidencial.
Essas
sete e significativas diferenças objetivas da década de 2020 em relação à
década de 2000 concorreram, todas elas, para o mesmo resultado: o estreitamento
da margem de manobra de que podem dispor os governos do PT – seja diante do
imperialismo, seja diante do modelo capitalista neoliberal – para aplicar a sua
política econômica, social e externa neodesenvolvimentista.
Porém,
como já sugeri, o enfraquecimento do neodesenvolvimentismo ocorreu também
devido às características estruturais do PT e do lulismo. Refiro-me à ausência
de organização das massas, à tendência à conciliação política e à recusa em
mobilizar os trabalhadores mesmo nos momentos mais críticos – o governo Lula 1
não mobilizou os trabalhadores para se defender na chamada crise do “mensalão”
e o governo Dilma 2 tampouco recorreu à mobilização popular para defender o seu
mandato na crise do impeachment.
Contudo,
repito, pelo que apontei anteriormente, entendo poder afirmar que esse
enfraquecimento não justifica caracterizar o governo Lula 3 como neoliberal.
Neoliberalismo virá, e na sua versão mais dura que é a sua versão atual, se
Flávio Bolsonaro vencer a eleição de outubro deste ano. E não somente isso.
Hoje, além do conflito entre neoliberalismo e neodesenvolvimentismo, temos
outro: o conflito entre ditadura e democracia. Não pode haver dúvida de que com
a volta da família Bolsonaro ao governo a democracia estará ameaçada.
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário