sábado, 18 de abril de 2026

Vaga de emprego expõe dinâmica de misoginia do capital erótico

Não muito tempo atrás, circulava nas redes uma página chamada “vagas arrombadas”, dedicada a expor exigências absurdas (para não dizer outra coisa) e incompatíveis com as funções e os salários oferecidos. O que parecia caricatural segue, no entanto, bastante atual. Nos últimos dias, uma reportagem da EPTV mostrou que uma adolescente de 17 anos recebeu a proposta de trabalhar como freelancer em uma hamburgueria em Ribeirão Preto (SP) com a condição de que, usando decote, roupas curtas ou calça justa, teria um adicional de R$ 400 em seu pagamento. O caso – que ganhou repercussão e agora será investigado pelo Ministério Público do Trabalho – nos leva a algumas considerações que podem ser interpretadas à luz do capital erótico, que sustenta a misoginia.

Segundo Catherine Hakim, capital erótico é composto de alguns elementos como beleza física, atratividade sexual, social, dinamismo, capacidade de se vestir de modo compatível às mais variadas situações e, em alguns casos, pode considerar a fertilidade também. A tese da autora é que se aprimorado e utilizado de forma adequada no mercado de trabalho, esse capital pode alavancar carreiras, sobretudo das mulheres. Sob essa perspectiva, a proposta anunciada pela lanchonete no interior de São Paulo mobilizaria o capital erótico visando estrategicamente a ampliação do público, afinal, o corpo feminino e a simpatia de suas atendentes atrairia mais clientela, sobretudo, masculina.

Ainda que essa interpretação encontre respaldo em estudos como um publicado em 2019 sobre trabalhadores na indústria hoteleira, não deixa de ser problemática em muitos sentidos. Isso porque, como observa o filósofo José Luis Moreno Pestaña, a valorização diferencial de atributos corporais reforça hierarquias sociais, estereótipos de gênero, padrões estéticos excludentes e discriminatórios de raça. Assim, o que aparece como “recurso” opera, ao mesmo tempo, como um mecanismo de seleção e exclusão.

Em uma pesquisa realizada com trabalhadoras europeias dos mais diversos ramos, Moreno Pestaña identificou um padrão no recrutamento de mão de obra. No caso de fast fashion como Zara, Mango, H&M, Lefties, Massimo Dutti e outras, é preciso haver uma certa compatibilidade entre clientela e vendedoras (representantes da identidade da loja) e, para isso, há uma obrigatoriedade, por exemplo, de usarem sempre roupas da própria marca, portarem uma certa estética e modos de apresentação cuidadosamente regulados – sem que tais exigências sejam reconhecidas como trabalho adicional ou devidamente remuneradas.

Nesses contextos, o chamado capital erótico não funciona como vantagem livremente mobilizada, mas sim, como obrigação implícita. Casos como o de corpos que fogem ao padrão considerado ideal são compensados por expectativas adicionais de desempenho, como maior simpatia ou disponibilidade de trabalho em horas extras. Em ambientes marcados por metas e condições precárias, essa lógica se intensifica: comer menos, trabalhar mais, emagrecer – tudo ao mesmo tempo. Dois em um. Isto é, a precarização material e a disciplina corporal caminham juntas.

Em alguns espaços inclusive, não há sequer micro-ondas ou locais adequados para a realização das refeições. E sabemos bem que esse quadro não se restringe às lojas de roupas, mas expressa tendências mais amplas de precarização do trabalho, marcadas pela exploração da mão de obra e a ausência de condições mínimas de bem-estar dos funcionários.

Esse tipo de dinâmica não se restringe ao setor de serviços. Na arena política, também é possível observar como o investimento em aparência se torna parte das exigências informais para mulheres que aspiram a posições de poder. Em pesquisa de doutorado, identifiquei que a construção da legitimidade política feminina frequentemente passa por ajustes estéticos e performáticos. O caso da ex-presidenta Dilma Rousseff é ilustrativo pois sua imagem pública foi significativamente transformada ao longo dos anos com apoio de profissionais como Celso Kamura, em um esforço de suavização que procurava torná-la mais aceitável eleitoralmente – passando de guerrilheira à “Dilmãe”. A obrigatoriedade do pagamento de uma “taxa de beleza” evidencia a naturalização cotidiana das violências simbólicas às mulheres que ousam ingressar em âmbitos majoritariamente masculinizados como os espaços de poder.

Mas por que essa exigência recai de maneira mais intensa sobre as mulheres?

Não é que homens também não possam e não façam uso de capital erótico. Para eles, qualquer investimento será muito bem recompensado se comparado com as mulheres. Ao passo que para elas as exigências são mais altas, mais instáveis e mais difíceis de satisfazer. Há, portanto, uma disparidade entre as cobranças estéticas e as expectativas sociais quando fazemos um recorte de gênero.

Cada vez mais vemos aumentar a quantidade de “galãs” feios por aí, enquanto os padrões direcionados às mulheres sobem desproporcionalmente: não podem portar traços de idade, ora precisam ser musa fitness com músculos marcando, ora ser modelos da Victoria Secret… A mudança constante nos padrões de beleza também nos leva a outro ponto que é a insatisfação estética e a busca pela compatibilidade com o que é considerado bonito (hoje em dia, ser magro está em alta, amanhã, quem sabe…) e que movimenta a economia com o mercado de cosméticos, das indústrias fitness, farmacêutica e de cirurgias plásticas.

Segundo Naomi Wolf, essa insatisfação produz um controle social, sobretudo das mulheres, pois às mantem em um regime constante de autoavaliação e disciplina. No contexto atual, a reiteração do mito da beleza é vantajoso a setores masculinistas que têm percebido os movimentos feministas irem “longe demais” em suas demandas.

Nesse sentido, casos como o da hamburgueria não devem ser lidos como exceção, mas como expressão condensada de uma lógica mais ampla. Isso porque a exploração do corpo feminino, longe de ser um desvio, integra formas contemporâneas de organização do trabalho e de produção de valor.

A misoginia, nesse contexto, não é apenas um resquício cultural como também é economicamente funcional e, justamente por isso, tende a se reproduzir com notável persistência. Assim, corpos femininos cada vez mais magros, mais jovens, mais objetificados e vulneráveis seguem alimentando uma indústria que nos quer em posição de subserviência e à disposição para servi-los.

 

Fonte: Por Jéssica Melo Rivetti, no Le Monde

 

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