Vaga
de emprego expõe dinâmica de misoginia do capital erótico
Não
muito tempo atrás, circulava nas redes uma página chamada “vagas arrombadas”,
dedicada a expor exigências absurdas (para não dizer outra coisa) e
incompatíveis com as funções e os salários oferecidos. O que parecia
caricatural segue, no entanto, bastante atual. Nos últimos dias, uma reportagem
da EPTV mostrou que uma adolescente de 17 anos recebeu a proposta de trabalhar
como freelancer em uma hamburgueria em Ribeirão Preto (SP) com a condição de
que, usando decote, roupas curtas ou calça justa, teria um adicional de R$ 400
em seu pagamento. O caso – que ganhou repercussão e agora será investigado pelo
Ministério Público do Trabalho – nos leva a algumas considerações que podem ser
interpretadas à luz do capital erótico, que sustenta a misoginia.
Segundo
Catherine Hakim, capital erótico é composto de alguns elementos como beleza
física, atratividade sexual, social, dinamismo, capacidade de se vestir de modo
compatível às mais variadas situações e, em alguns casos, pode considerar a
fertilidade também. A tese da autora é que se aprimorado e utilizado de forma
adequada no mercado de trabalho, esse capital pode alavancar carreiras,
sobretudo das mulheres. Sob essa perspectiva, a proposta anunciada pela
lanchonete no interior de São Paulo mobilizaria o capital erótico visando
estrategicamente a ampliação do público, afinal, o corpo feminino e a simpatia
de suas atendentes atrairia mais clientela, sobretudo, masculina.
Ainda
que essa interpretação encontre respaldo em estudos como um publicado em 2019
sobre trabalhadores na indústria hoteleira, não deixa de ser problemática em
muitos sentidos. Isso porque, como observa o filósofo José Luis Moreno Pestaña,
a valorização diferencial de atributos corporais reforça hierarquias sociais,
estereótipos de gênero, padrões estéticos excludentes e discriminatórios de
raça. Assim, o que aparece como “recurso” opera, ao mesmo tempo, como um
mecanismo de seleção e exclusão.
Em uma
pesquisa realizada com trabalhadoras europeias dos mais diversos ramos, Moreno
Pestaña identificou um padrão no recrutamento de mão de obra. No caso de fast
fashion como Zara, Mango, H&M, Lefties, Massimo Dutti e outras, é preciso
haver uma certa compatibilidade entre clientela e vendedoras (representantes da
identidade da loja) e, para isso, há uma obrigatoriedade, por exemplo, de
usarem sempre roupas da própria marca, portarem uma certa estética e modos de
apresentação cuidadosamente regulados – sem que tais exigências sejam
reconhecidas como trabalho adicional ou devidamente remuneradas.
Nesses
contextos, o chamado capital erótico não funciona como vantagem livremente
mobilizada, mas sim, como obrigação implícita. Casos como o de corpos que fogem
ao padrão considerado ideal são compensados por expectativas adicionais de
desempenho, como maior simpatia ou disponibilidade de trabalho em horas extras.
Em ambientes marcados por metas e condições precárias, essa lógica se
intensifica: comer menos, trabalhar mais, emagrecer – tudo ao mesmo tempo. Dois
em um. Isto é, a precarização material e a disciplina corporal caminham juntas.
Em
alguns espaços inclusive, não há sequer micro-ondas ou locais adequados para a
realização das refeições. E sabemos bem que esse quadro não se restringe às
lojas de roupas, mas expressa tendências mais amplas de precarização do
trabalho, marcadas pela exploração da mão de obra e a ausência de condições
mínimas de bem-estar dos funcionários.
Esse
tipo de dinâmica não se restringe ao setor de serviços. Na arena política,
também é possível observar como o investimento em aparência se torna parte das
exigências informais para mulheres que aspiram a posições de poder. Em pesquisa
de doutorado, identifiquei que a construção da legitimidade política feminina
frequentemente passa por ajustes estéticos e performáticos. O caso da
ex-presidenta Dilma Rousseff é ilustrativo pois sua imagem pública foi
significativamente transformada ao longo dos anos com apoio de profissionais
como Celso Kamura, em um esforço de suavização que procurava torná-la mais
aceitável eleitoralmente – passando de guerrilheira à “Dilmãe”. A
obrigatoriedade do pagamento de uma “taxa de beleza” evidencia a naturalização
cotidiana das violências simbólicas às mulheres que ousam ingressar em âmbitos
majoritariamente masculinizados como os espaços de poder.
Mas por
que essa exigência recai de maneira mais intensa sobre as mulheres?
Não é
que homens também não possam e não façam uso de capital erótico. Para eles,
qualquer investimento será muito bem recompensado se comparado com as mulheres.
Ao passo que para elas as exigências são mais altas, mais instáveis e mais
difíceis de satisfazer. Há, portanto, uma disparidade entre as cobranças
estéticas e as expectativas sociais quando fazemos um recorte de gênero.
Cada
vez mais vemos aumentar a quantidade de “galãs” feios por aí, enquanto os
padrões direcionados às mulheres sobem desproporcionalmente: não podem portar
traços de idade, ora precisam ser musa fitness com músculos marcando, ora ser
modelos da Victoria Secret… A mudança constante nos padrões de beleza também
nos leva a outro ponto que é a insatisfação estética e a busca pela
compatibilidade com o que é considerado bonito (hoje em dia, ser magro está em
alta, amanhã, quem sabe…) e que movimenta a economia com o mercado de
cosméticos, das indústrias fitness, farmacêutica e de cirurgias plásticas.
Segundo
Naomi Wolf, essa insatisfação produz um controle social, sobretudo das
mulheres, pois às mantem em um regime constante de autoavaliação e disciplina.
No contexto atual, a reiteração do mito da beleza é vantajoso a setores
masculinistas que têm percebido os movimentos feministas irem “longe demais” em
suas demandas.
Nesse
sentido, casos como o da hamburgueria não devem ser lidos como exceção, mas
como expressão condensada de uma lógica mais ampla. Isso porque a exploração do
corpo feminino, longe de ser um desvio, integra formas contemporâneas de
organização do trabalho e de produção de valor.
A
misoginia, nesse contexto, não é apenas um resquício cultural como também é
economicamente funcional e, justamente por isso, tende a se reproduzir com
notável persistência. Assim, corpos femininos cada vez mais magros, mais
jovens, mais objetificados e vulneráveis seguem alimentando uma indústria que
nos quer em posição de subserviência e à disposição para servi-los.
Fonte:
Por Jéssica Melo Rivetti, no Le Monde

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