Eldorado
do Carajás: vítimas esperam por justiça há 30 anos
Em 17
de abril de 1996, há exatos 30 anos, uma bala disparada por um policial contra
sem-terras em uma estrada em Eldorado do Carajás alojou-se entre o olho direito
e o crânio de José Carlos Agarito – e segue lá até hoje, com sequelas para sua
visão e sua capacidade de trabalhar.
Sobrevivente
do massacre no sul do Pará que deixou oficialmente 19 mortos e 69 feridos,
Agarito retorna nesta sexta-feira (17/04) à fatídica Curva do S da PA-150, onde
ele e seus companheiros foram encurralados por policiais militares. Ele
participa de uma marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
para relembrar o ocorrido – mas, aos 47 anos de idade, perdeu a esperança de
ver justiça para as vítimas.
"Justiça
eu não peço mais, porque não tem, não adianta", afirma ele à DW. "No
dia 17 [de abril] sempre passa um filme na cabeça. É muito triste, nós que
pegamos balaço estamos morrendo devagarzinho."
Dos 155
policiais que participaram da operação, apenas dois foram responsabilizados,
após responderem por 16 anos em liberdade: o coronel Mário Colares Pantoja e o
major José Maria Pereira Oliveira. O primeiro, condenado a 280 anos de prisão,
morreu em 2020 após cumprir quatro anos em regime fechado e quatro anos em
prisão domiciliar; o segundo, condenado a 158 anos de prisão, ficou seis anos
em regime fechado até progredir para a prisão domiciliar.
O então
governador Almir Gabriel (PSDB), de quem partiu a ordem para liberar a PA-150,
seu secretário de Segurança Pública Paulo Sette Câmara e seu comandante da
Polícia Militar Fabiano Lopes não foram sequer indiciados. Na época, ainda não
havia a opção de transferir a investigação de crimes desse tipo para a Polícia
Federal, e coube à Polícia Civil do Pará, subordinada ao governo, apurar o
massacre.
Agarito
usa uma prótese em seu olho direito, e a visão do olho esquerdo está muito
reduzida. Há quatro anos, ele enfrenta também um problema nos rins que o obriga
a fazer hemodiálise três vezes por semana. "A bala dói, a minha cabeça
dói, o sofrimento da gente vai até quando Deus permitir", diz. "Para
mim, o massacre não foi julgado. Prisão mesmo foi a dos nossos companheiros que
morreram."
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Como foi o massacre
A Curva
do S, onde ocorreram as mortes, ficava próxima à Fazenda Macaxeira, um
latifúndio improdutivo de 6 mil hectares ocupado alguns meses antes do massacre
por cerca de 3 mil famílias do MST, como forma de pressionar por sua
desapropriação para a reforma agrária.
À
época, havia um acirramento das tensões entre o MST, grandes proprietários de
terra da região e o governo local, em uma região historicamente marcada por
latifúndios obtidos por meio de incentivos públicos e titulações de terra
contestadas.
Às
vésperas do massacre, cerca de 1.500 integrantes do MST faziam uma marcha na
PA-150 para pressionar o governo estadual a interceder junto ao Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para desapropriar a Fazenda
Macaxeira, mas os canais de negociação haviam se esgotado e os sem-terra
decidiram bloquear a rodovia na altura da Curva do S no dia 16 de abril. Um dos
objetivos era exigir que o governo providenciasse ônibus para que eles fossem
até Marabá, onde fica um escritório da autarquia federal.
A
reivindicação não foi atendida. No dia seguinte, alguns ônibus chegaram à Curva
do S, mas cheios de policiais militares. Os sem-teto foram cercados por dois
batalhões, um vindo de Marabá, ao norte, e outro de Parauapebas, a oeste, e os
policiais iniciaram uma operação para desocupar a pista, com bombas de efeito
moral e tiros de armas de fogo. Dezenas de sem-terra caíram na pista mortos ou
feridos, e os sobreviventes, em desespero, tentaram fugir por estradas vicinais
e matas da região.
Dezenove
corpos foram retirados do local pela própria Polícia Militar, sem a realização
de perícia, e levados ao necrotério de Curionópolis. Laudos indicaram tiros a
curta distância e ferimentos provocados por instrumentos corto-contusos, e um
médico legista que analisou os corpos concluiu que 10 das 19 vítimas haviam
sido executadas à queima roupa.
Pressionado
pela grande repercussão nacional e internacional, o Palácio do Planalto, então
comandado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), determinou ao Incra que
reavaliasse a situação da Fazenda Macaxeira – cerca de um mês depois, foi
publicado um laudo apontando que a propriedade era improdutiva e, em 22 de
junho daquele ano, o presidente assinou um decreto de desapropriação da
fazenda. O assentamento foi batizado como 17 de abril e existe até hoje,
produzindo uma variedade de alimentos.
A Via
Campesina, uma organização internacional de camponeses, declarou após o
massacre o 17 de abril como Dia Internacional da Luta Camponesa. Em 2002, no
final do governo Fernando Henrique Cardoso, uma lei também instituiu a data
como Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.
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Como foi o julgamento
O
processo jurídico que levou à condenação do coronel Pantoja e do major Oliveira
foi lento e marcado por anulação de julgamentos – ambos começaram a cumprir
suas penas apenas em 2012.
A
primeira sessão do Tribunal do Júri para avaliar os crimes ocorreu em 1999 e
analisou as denúncias contra Pantoja, Oliveira e o capitão Raimundo José
Almendra Lameira. Os três foram absolvidos, em um julgamento que, segundo o
MST, foi marcado por cerceamento da acusação e impedimento do uso de provas.
Esse
julgamento foi anulado no ano seguinte em segunda instância, e um novo Tribunal
do Júri foi marcado para 2001 – mas acabou adiado após o MST recorrer contra a
retirada de um parecer técnico elaborado pela Unicamp que apontava que os
policiais haviam sido os principais a atirar.
Um novo
julgamento ocorreu então em 2002, com 144 denunciados, e 142 deles foram
absolvidos. Os soldados não tiveram suas condutas individualizadas, o que na
prática impedia a apuração de suas responsabilidades, e apenas os dois
comandantes que estavam no local foram condenados. Em 2004, o Tribunal de
Justiça do Pará confirmou o veredito.
Os dois
condenados recorreram em liberdade, e em 2009 tiveram seus recursos negados
pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Nos dois anos seguintes, impetraram
novos recursos ao STJ e ao Supremo Tribunal Federal (STF), sem sucesso, até que
em março de 2012 uma decisão do ministro Gilmar Mendes determinou o cumprimento
imediato das penas.
Para
defensores dos sem-terra, foi muito pouco. José Batista Afonso, advogado da
Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Pará, lamenta que o julgamento não alcançou
os que estavam no topo da cadeia de comando nem as dezenas de policiais
envolvidos no massacre.
"Não
houve nenhuma investigação que pudesse responsabilizar aqueles que deram ordem
para que a rodovia fosse desocupada a qualquer custo. Não houve perícia no
local, não houve reconstituição do crime, não houve esforço suficiente para
individualizar as condutas, o que é necessário na legislação penal
brasileira", afirma.
Ayala
Ferreira, da direção nacional do MST, tem avaliação semelhante. "Temos um
sentimento de omissão do Estado brasileiro com os mutilados e sobreviventes de
Eldorado do Carajás. Os mandantes foram todos retirados do processo, e os dois
únicos condenados puderam ficar em prisão domiciliar menos de seis anos depois
de detidos. Isso alimenta a impunidade, e é o que chamamos de continuidade das
violências", diz.
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Como ficaram as indenizações
Logo
após o massacre, o governo do Pará concedeu pensões para as viúvas dos mortos,
mas sem estabelecer um mecanismo de correção – com o passar do tempo, o valor
do benefício caiu para muito abaixo do salário mínimo, até que em um 2012 uma
lei estadual corrigisse a distorção.
Em
1998, o advogado Walmir Brelaz, que representa diversos sem-terra, entrou com
uma ação judicial pedindo indenização para 20 sobreviventes que tinham todos os
documentos comprobatórios de que estavam no massacre. No ano seguinte, a
Justiça determinou o pagamento de pensão de um salário mínimo para os autores e
a prestação de atendimento médico aos necessitados.
Em
2003, uma nova decisão judicial de primeira instância determinou que o estado
do Pará deveria pagar aos 20 sobreviventes um total de R$ 2,9 milhões (R$ 145
mil para cada um) a título de indenização, e o governo recorreu. Na segunda
instância, o valor foi reduzido para R$ 1,2 milhão (R$ 63 mil para cada um).
Sob a
gestão da governadora Ana Júlia (PT), em 2007, o governo do Pará firmou um
acordo para que todos as vítimas do massacre recebessem uma pensão mensal,
mesmo as pessoas não contempladas pela ação judicial proposta em 1998.
Em
2012, uma lei estadual estabeleceu um mecanismo de correção das pensões para os
familiares de vítimas e sobreviventes do massacre, para que o valor não fosse
inferior a um salário mínimo. Segundo Brelaz, à época algumas viúvas recebiam
apenas R$ 300.
No
mesmo ano, o governo do Pará se anunciou que pagaria uma indenização de R$ 30
mil a dependentes de vítimas fatais do massacre e de R$ 20 mil a sobreviventes
que ainda não haviam sido contemplados pelo processo judicial.
Segundo
Brelaz, cerca de 55 vítimas do massacre até o momento já receberam indenizações
e pensões, algumas em valores defasados, e outras 10 a 15 vítimas ainda não
receberam nada e teriam direito se o critério de comprovação fosse alterado.
Ele
relata também que a obrigação de prestar atendimento médico aos sobreviventes
nunca foi cumprida de forma plena, apesar de muitos terem mutilações e
resquícios de balas nos corpos. "Eles sempre receberam um tratamento muito
precário, apesar de isso ter sido determinado pela Justiça", afirma. José
Carlos Agarito, que tem a bala alojada no crânio até hoje, relatou à DW ter
sido obrigado a contrair dívidas e vender bens para pagar pelo diagnóstico e
tratamento da sua doença nos rins.
Em
1999, o MST e outras organizações apresentaram uma denúncia à Comissão
Interamericana de Direitos Humanos, vinculada à Organização dos Estados
Americanos, pedindo a responsabilização do Estado e o pagamento de reparações a
todos os afetados, em valores considerados adequados pelo órgão. O processo
está pronto para ser julgado, mas não há previsão de quando isso ocorrerá.
A DW
pediu uma posição do governo do Pará sobre o pagamento das indenizações, mas
não obteve resposta até a publicação desta reportagem.
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O que mudou de lá pra cá
Apesar
de o Brasil seguir sendo um dos países mais perigosos para integrantes de
movimentos sociais e ativistas de direitos humanos, a possibilidade de a
Polícia Federal (PF) atuar na investigação de crimes do tipo permitiu a
responsabilização de culpados em alguns casos mais recentes, aponta Afonso, da
CPT.
Ele
cita o caso da missionária Dorothy Stang, uma ativista social e ambiental
atuante no Pará que foi morta em 2005. "O inquérito conduzido pela Polícia
Federal conseguiu identificar pistoleiros, intermediários e mandantes, e foram
todos condenados", afirma.
Afonso
lembra também do massacre de Pau d'Arco, em 2017, quando dez trabalhadores
rurais sem-terra foram mortos em uma operação das polícias Civil e Militar no
sudeste do Pará. A investigação, também conduzida pela PF, individualizou as
condutas e resultou na denúncia de 17 policiais envolvidos na operação. Até o
momento, porém, nenhum foi julgado.
O
cenário da reforma agrária no país também se transformou nesses últimos 30
anos, diz Ferreira, do MST. Hoje a organização está "consolidada
nacionalmente", com muitas famílias assentadas e que mantém na agenda
política o tema, apesar de ser uma política "que não se concretizou ainda
da forma como necessitamos".
"Somos um movimento que se reinventou a partir da dor, e a
transformamos em luta e organização. Entre os frutos desse processo estão
assentamentos de reforma agrária espalhados no país inteiro."
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O que não mudou
A
região do Pará onde ocorreu o massacre segue sendo a mais violenta do estado em
conflitos fundiários, segundo a CPT. O órgão contabiliza, de 1980 a 2025, 1.003
assassinatos de trabalhadores rurais no Pará, dos quais em 94% dos casos os
responsáveis não foram a julgamento. "A maioria absoluta das lideranças
assassinadas, das chacinas e dos massacres ocorreram na região de Eldorado do
Carajás", afirma Afonso.
Ele
aponta que isso está relacionado ao "modelo de desenvolvimento imposto
para a região, baseado na concentração da terra e na expansão do desmatamento
para a formação de grandes fazendas para a criação extensiva de gado".
Afonso também diz que o massacre expressou uma forma de o Estado lidar com
problemas sociais que ainda não foi superada.
"Problema
social não pode ser encarado como caso de polícia, se resolve com diálogo,
negociação e política pública", afirma. "Aquelas famílias ali lutavam
por direitos constitucionalmente assegurados, a desapropriação de imóveis
improdutivos e a destinação para a reforma agrária. Quando o Estado não faz,
não cumpre, a sociedade tem o direito de cobrar – era o que eles estavam
fazendo."
Ferreira,
do MST, pontua que a impunidade, no geral, segue como um elemento "muito
presente" em crimes ligados à disputa por terras no país. E afirma que a
política para reforma agrária do atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva,
apesar de, na visão dela, ter registrado avanços em relação às gestões de
Michel Temer e Jair Bolsonaro, segue insuficiente.
Fonte:
DW Brasil

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