sábado, 18 de abril de 2026

Retórica cristã e ataque ao Papa podem “sair pela culatra” para Trump

Eu sou o salvador escolhido por Deus. Foi essa a mensagem que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comunicou ao se igualar à figura de Cristo numa imagem gerada por IA, onde aparece curando um doente ao tocá-lo com uma luz divina que emana das suas mãos. O conteúdo, que parece um meme bizarro, foi compartilhado depois que ele fez duras críticas ao Papa Leão 14. Segundo a doutrina católica, o Pontífice é o representante máximo de Jesus Cristo na terra.

Trump chamou Leão 14 de “fraco no combate ao crime e em política externa” e afirmou que o líder católico não teria sido escolhido se ele “não estivesse na Casa Branca”. Como quase sempre faz, o presidente recuou logo depois, apagando a postagem. Disse que não tinha a intenção de se igualar a Cristo, mas o impacto do tom abertamente bélico contra o Vaticano já tinha aberto um novo flanco na narrativa de batalha espiritual trumpista, que tem sido ativada para justificar a guerra contra o Irã e tem potencial para gerar um racha no campo cristão conservador. Ou seja, dessa vez, o “chute na santa” pode sair pela culatra.

Declaradamente cristão não denominacional, mas de formação presbiteriana, Trump costuma ativar a retórica cristã quando convém, assim como Bolsonaro, que se porta à sua imagem e semelhança. Este é um recurso narrativo que o precede, vide todas as “guerras santas” históricas, mas que tem ganhado novos elementos no seu atual governo, observa a socióloga da religião pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP) Tabata Tesser.

“Ele adota um discurso das batalhas espirituais, onde a criação de antagonismos é fundamental – o capitalismo versus o comunismo, Oriente contra Ocidente, por exemplo. Mas faz isso combinando com táticas de especulação trazidas do mercado imobiliário. Ele esgarça a relação para depois aliviar. E, quando volta atrás, a regressão também é uma tática de especulação discursiva”, explica.

Acontece que, no caso de Leão 14, o esgarçamento pode ser maior do que o esperado, segundo Tesser, uma vez que o catolicismo conservador, muito ligado a movimentos antiaborto, é uma das principais bases de apoio do governo Trump, assim como evangelicalismo nacionalista branco. Do lado evangélico, figuras como Ralph Drollinger, líder do grupo de estudos bíblicos Capitol Ministries, os chamados “pastores de Trump”, o evangelista Franklin Graham e a conselheira espiritual do presidente estadunidense, a chefe do “Gabinete da Fé”, Paula White, que comparam o presidente dos EUA a Jesus em suas falas, ajudam a amplificar a narrativa do bem contra o mal na guerra do Irã.

No setor católico conservador, o próprio vice-presidente, JD Vance e Sean Duffy, secretário de transportes do governo Trump, estão entre os principais propagadores desse discurso. Mas, desse lado, as relações de apoio podem ser mais complexas. Vance, que se converteu ao catolicismo já adulto, representa o crescimento da religião nos EUA, onde aproximadamente 20% da população é católica, segundo dados recentes do Pew Research.

“Num mundo polarizado, a Igreja Católica pode ser lida como uma lógica de espiritualidade que segue pelo caminho do meio, uma espécie de terceira via”, explica Tesser. O atual Papa, nascido nos EUA Robert Francis Prevost, é visto como símbolo desse comportamento moderado por parte dos cristãos. “Trump desagradou tanto católicos como evangélicos conservadores, que têm também um respeito à figura do Papa”, diz Tesser. 

A diplomacia vaticana tem uma relação histórica com os Estados Unidos, mas já vinha dando sinais de desgaste. O Papa disse, sem citar nomes, que “Deus rejeita as orações de líderes que iniciam guerras” e, durante as orações semanais do Angelus, em março, denunciou a violência atroz contra o Irã. No sábado passado, 11 de abril, o Pontífice reuniu mais de sete mil pessoas na Praça de São Pedro em uma oração pela paz, o que foi interpretado por Trump como um levante contra ele.

Leão 14 respondeu às críticas afirmando que não tem medo do presidente dos EUA e que seu papel não é o de um político, embora seja chefe de Estado do Vaticano e tenha um papel importante na diplomacia mundial. O presidente dos bispos nos EUA, Paul Coakley, também reagiu. Ele se disse desconfortável com as palavras de Trump. “O Papa Leão não é seu rival, nem o Papa é um político. É o Vigário de Cristo que fala a partir da verdade do Evangelho e pela cura das almas”, afirmou.

No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) emitiu nota em apoio ao Pontífice. Para Tesser, ainda é cedo para falar em um cisma entre o governo dos EUA e a Igreja Católica. Contudo, já é possível afirmar que “a declaração impactou o nacionalismo cristão norte-americano, porque, por mais que a maioria seja evangélica, existe um respeito ao Papa Leão 14, por ele não ser lido como um papa político, como era Francisco, que tinha uma postura mais combativa”, diz a socióloga.

Ela acrescenta que, “na perspectiva bíblica, quando você tem um líder mundial que se associa à imagem de Deus, se rompe com uma dimensão teológica e isso pegou muito forte”, avalia. “Ou seja, ele ficou sendo odiado por ambos os lados. É algo inédito. O fato de um representante dos EUA questionar a legitimidade da Igreja Católica é o tipo de conflito que pode causar um racha no campo da ultradireita cristã conservadora”, conclui Tabata Tesser.

•        Trump de novo se associa a Jesus: provocação ou blasfêmia?

Enquanto dá contornos religiosos à guerra no Irã, o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, voltou a publicar na quarta-feira (15/04) uma imagem que o associa a Jesus Cristo.

De olhos fechados, o chefe da Casa Branca aparece abraçado a Jesus, numa pose similar à dele. Uma luz emana dos dois, com uma bandeira dos EUA ao fundo.

Originalmente, a imagem teria sido publicada por uma conta fã de Trump, que sugere que o presidente americano é a uma carta de trunfo jogada por Deus contra "monstros satânicos, demoníacos e que sacrificam crianças".

Ao republicar o conteúdo, a conta de Trump adicionou: "Os lunáticos da esquerda radical podem não gostar disso, mas eu acho que é bem legal!!!". Foi a segunda vez em cinco dias que o presidente apostou na controversa estratégia de evocar a religião para se referir a si mesmo.

No início da semana, ele já publicara uma imagem que, gerada por inteligência artificial (IA), colocava ele próprio caracterizado como Jesus. O gesto foi chamado de blasfêmia por diversos críticos, inclusive entre cristãos, que ocupam lugar importante na base trumpista.

<><> Onda de críticas

Diversas figuras que costumam apoiar publicamente Trump ou sua agenda conservadora saíram em ataque contra ele, exigindo uma retratação, postura rara para o republicano.

"Não sei se o presidente achou que estava sendo engraçado, se está sob a influência de alguma substância ou qual possível explicação ele poderia ter para essa blasfêmia escandalosa," escreveu Megan Basham, uma escritora e comentadora cristã e conservadora, na rede social X. "Mas ele precisa retirar isso imediatamente e pedir perdão ao povo americano e depois a Deus."

Diante da enxurrada de críticas, a publicação foi apagada, e o presidente tentou mudar de assunto argumentando ter acreditado inicialmente que a imagem o mostrava como "um médico", e não como Jesus. A deculpa de Trump acabou sendo ridicularizada nas redes sociais.

Para Meghan J. Clark, da Universidade de Saint John, em Nova York, vários elementos apontam para o tom religioso da imagem. Dentre elas, estão a pose das mãos de Trump, a luz que emana dele e as vestes branca e vermelha — todas tradicionalmente associadas à figura de Jesus. Os arredores evocam, ainda, "o nacionalismo cristão" que vem marcando a gestão Trump na Casa Branca, afirma a especialista.

Na sua avaliação, esta imagem deu um passo além em relação a outras publicações ousadas já compartilhadas por contas oficiais do presidente. "A imagem é blasfema, de um ponto de vista cristão. A base de apoio (de Trump) não a achou engraçada, como acontecera antes. Ela ficou ofendida (...), porque não é uma figura humana sendo personificada, mas, sim, Jesus."

Em maio do ano passado, por exemplo, fora a vez de uma imagem artificial que o apresentava vestido de papa. À época, os cardeais se reuniam no Vaticano para escolher um novo pontífice, dias após a morte de Francisco.

<><> Ousadia ou blasfêmia?

Em artigo para o site The Conversation, Philip C. Almond, professor de História do Pensamento Religioso da Universidade de Queensland, na Austrália, explica que, de forma geral, a definição de blasfêmia abarca "palavras, pensamentos ou atos que demonstrem desprezo ou zombaria em relação a Deus e às questões sagradas."

O conceito, entretanto, não é fixo e muda ao longo da História. Foi na Idade Média que fazer-se passar por Jesus ou reivindicar poderes que pertencem exclusivamente a ele passou a ser entendido como blasfêmia.

"Se acreditarmos que sua postagem apagada no Truth Social (a rede social de Trump) tinha a intenção de sugerir que ele é Jesus — ou, de alguma forma, divino —, então os cristãos têm o direito de considerá-la blasfema," escreveu Almond. "De uma perspectiva secular, trata-se mais de uma tolice egocêntrica."

A reação online à publicação de Trump da quarta-feira, em que ele aparece abraçado com Jesus, e não no seu lugar, foi mais contida do que a indignação que acompanhou a imagem anterior.

<><> Enfrentamento com papa

Outro ponto sensível para a estratégia religiosa de Trump tem sido os ataques que o presidente americano tem direcionado ao papa Leão 14. O pontífice vem criticando a guerra no Oriente Médio, afastando qualquer forma de conflito dos valores cristãos, a contragosto do governo americano.

Ele tem o apoio de parte dos atores de influência nos mundos da política e do catolicismo.

"O papa Leão 14 tem defendido de forma consistente a paz, o diálogo e a moderação em um mundo marcado pela guerra e pelo sofrimento", disse a organização norte-americana Knights of Columbus, a maior fraternidade masculina católica do mundo, numa declaração atribuída ao seu Cavaleiro Supremo, Patrick Kelly. "As palavras do Santo Padre não são discursos políticos — são reflexos do próprio Evangelho."

Por sua vez, numa publicação na própria rede social, Trump chamou o papa de "fraco" e pediu que "alguém, por favor, diga a Leão" sobre as mortes de manifestantes pelo Irã e afirmou que a República Islâmica "ter uma bomba nuclear é absolutamente inaceitável".

Já o vice-presidente JD Vance, que se converteu ao catolicismo em 2019, disse que o papa estava errado ao afirmar que os discípulos de Cristo "nunca estão ao lado daqueles que antes empunhavam a espada e hoje lançam bombas" e que "é muito, muito importante que o papa tenha cuidado ao falar sobre questões de teologia".

Já Leão disse que "não tem medo" do governo Trump e que continuaria a se manifestar. Durante sua visita a países africanos desta semana, ele denunciou potências mundiais "neocoloniais" que, segundo ele, estariam violando o direito internacional, sem citar países específicos.

<><>"Cruzada" no Oriente Médio

A Casa Branca tem recorrido ao vocabulário cristão para angariar entusiasmo com a guerra no Irã. Trump chamou o resgate de um aviador americano abatido no Irã de "milagre de Páscoa" e sugeriu que os ataques dos Estados Unidos e de Israel têm a bênção de Deus.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, foi ainda mais longe, citando supostas passagens bíblicas para justificar o uso de "ira esmagadora" contra inimigos que, segundo ele, "não merecem misericórdia".

No entanto, alguns veículos da imprensa dos EUA notaram que os supostos versículos na realidade eram um trecho de uma fala do filme Pulp Fiction (1994), dirigido por Quentin Tarantino, no qual um personagem recita as frases - que não estão na Bíblia - quando está prestes a executar um homem.

"Eles (Trump e Hegseth) estão invocando Deus na guerra contra o Irã de modos que não ouvimos para a ação na Venezuela," afirma Clark. Para ela, a Casa Branca pode estar tentando surfar no sentimento islamofóbico, "que é amplamente difundido no movimento Maga".

A mensagem religiosa tem sido ecoada por líderes cristãos conservadores — desde figuras próximas a Trump, como Robert Jeffress, um influente pastor do Texas, até pregadores de pequenas cidades. Eles têm enfatizado o significado bíblico do Estado moderno de Israel, que muitos evangélicos associam a uma profecia sobre a Segunda Vinda de Jesus Cristo.

"PeRetórica cristã e ataque ao Papa podem “sair pela culatra” para Trump

Eu sou o salvador escolhido por Deus. Foi essa a mensagem que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comunicou ao se igualar à figura de Cristo numa imagem gerada por IA, onde aparece curando um doente ao tocá-lo com uma luz divina que emana das suas mãos. O conteúdo, que parece um meme bizarro, foi compartilhado depois que ele fez duras críticas ao Papa Leão 14. Segundo a doutrina católica, o Pontífice é o representante máximo de Jesus Cristo na terra.

Trump chamou Leão 14 de “fraco no combate ao crime e em política externa” e afirmou que o líder católico não teria sido escolhido se ele “não estivesse na Casa Branca”. Como quase sempre faz, o presidente recuou logo depois, apagando a postagem. Disse que não tinha a intenção de se igualar a Cristo, mas o impacto do tom abertamente bélico contra o Vaticano já tinha aberto um novo flanco na narrativa de batalha espiritual trumpista, que tem sido ativada para justificar a guerra contra o Irã e tem potencial para gerar um racha no campo cristão conservador. Ou seja, dessa vez, o “chute na santa” pode sair pela culatra.

Declaradamente cristão não denominacional, mas de formação presbiteriana, Trump costuma ativar a retórica cristã quando convém, assim como Bolsonaro, que se porta à sua imagem e semelhança. Este é um recurso narrativo que o precede, vide todas as “guerras santas” históricas, mas que tem ganhado novos elementos no seu atual governo, observa a socióloga da religião pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP) Tabata Tesser.

“Ele adota um discurso das batalhas espirituais, onde a criação de antagonismos é fundamental – o capitalismo versus o comunismo, Oriente contra Ocidente, por exemplo. Mas faz isso combinando com táticas de especulação trazidas do mercado imobiliário. Ele esgarça a relação para depois aliviar. E, quando volta atrás, a regressão também é uma tática de especulação discursiva”, explica.

Acontece que, no caso de Leão 14, o esgarçamento pode ser maior do que o esperado, segundo Tesser, uma vez que o catolicismo conservador, muito ligado a movimentos antiaborto, é uma das principais bases de apoio do governo Trump, assim como evangelicalismo nacionalista branco. Do lado evangélico, figuras como Ralph Drollinger, líder do grupo de estudos bíblicos Capitol Ministries, os chamados “pastores de Trump”, o evangelista Franklin Graham e a conselheira espiritual do presidente estadunidense, a chefe do “Gabinete da Fé”, Paula White, que comparam o presidente dos EUA a Jesus em suas falas, ajudam a amplificar a narrativa do bem contra o mal na guerra do Irã.

No setor católico conservador, o próprio vice-presidente, JD Vance e Sean Duffy, secretário de transportes do governo Trump, estão entre os principais propagadores desse discurso. Mas, desse lado, as relações de apoio podem ser mais complexas. Vance, que se converteu ao catolicismo já adulto, representa o crescimento da religião nos EUA, onde aproximadamente 20% da população é católica, segundo dados recentes do Pew Research.

“Num mundo polarizado, a Igreja Católica pode ser lida como uma lógica de espiritualidade que segue pelo caminho do meio, uma espécie de terceira via”, explica Tesser. O atual Papa, nascido nos EUA Robert Francis Prevost, é visto como símbolo desse comportamento moderado por parte dos cristãos. “Trump desagradou tanto católicos como evangélicos conservadores, que têm também um respeito à figura do Papa”, diz Tesser. 

A diplomacia vaticana tem uma relação histórica com os Estados Unidos, mas já vinha dando sinais de desgaste. O Papa disse, sem citar nomes, que “Deus rejeita as orações de líderes que iniciam guerras” e, durante as orações semanais do Angelus, em março, denunciou a violência atroz contra o Irã. No sábado passado, 11 de abril, o Pontífice reuniu mais de sete mil pessoas na Praça de São Pedro em uma oração pela paz, o que foi interpretado por Trump como um levante contra ele.

Leão 14 respondeu às críticas afirmando que não tem medo do presidente dos EUA e que seu papel não é o de um político, embora seja chefe de Estado do Vaticano e tenha um papel importante na diplomacia mundial. O presidente dos bispos nos EUA, Paul Coakley, também reagiu. Ele se disse desconfortável com as palavras de Trump. “O Papa Leão não é seu rival, nem o Papa é um político. É o Vigário de Cristo que fala a partir da verdade do Evangelho e pela cura das almas”, afirmou.

No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) emitiu nota em apoio ao Pontífice. Para Tesser, ainda é cedo para falar em um cisma entre o governo dos EUA e a Igreja Católica. Contudo, já é possível afirmar que “a declaração impactou o nacionalismo cristão norte-americano, porque, por mais que a maioria seja evangélica, existe um respeito ao Papa Leão 14, por ele não ser lido como um papa político, como era Francisco, que tinha uma postura mais combativa”, diz a socióloga.

Ela acrescenta que, “na perspectiva bíblica, quando você tem um líder mundial que se associa à imagem de Deus, se rompe com uma dimensão teológica e isso pegou muito forte”, avalia. “Ou seja, ele ficou sendo odiado por ambos os lados. É algo inédito. O fato de um representante dos EUA questionar a legitimidade da Igreja Católica é o tipo de conflito que pode causar um racha no campo da ultradireita cristã conservadora”, conclui Tabata Tesser.

•        Trump de novo se associa a Jesus: provocação ou blasfêmia?

Enquanto dá contornos religiosos à guerra no Irã, o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, voltou a publicar na quarta-feira (15/04) uma imagem que o associa a Jesus Cristo.

De olhos fechados, o chefe da Casa Branca aparece abraçado a Jesus, numa pose similar à dele. Uma luz emana dos dois, com uma bandeira dos EUA ao fundo.

Originalmente, a imagem teria sido publicada por uma conta fã de Trump, que sugere que o presidente americano é a uma carta de trunfo jogada por Deus contra "monstros satânicos, demoníacos e que sacrificam crianças".

Ao republicar o conteúdo, a conta de Trump adicionou: "Os lunáticos da esquerda radical podem não gostar disso, mas eu acho que é bem legal!!!". Foi a segunda vez em cinco dias que o presidente apostou na controversa estratégia de evocar a religião para se referir a si mesmo.

No início da semana, ele já publicara uma imagem que, gerada por inteligência artificial (IA), colocava ele próprio caracterizado como Jesus. O gesto foi chamado de blasfêmia por diversos críticos, inclusive entre cristãos, que ocupam lugar importante na base trumpista.

<><> Onda de críticas

Diversas figuras que costumam apoiar publicamente Trump ou sua agenda conservadora saíram em ataque contra ele, exigindo uma retratação, postura rara para o republicano.

"Não sei se o presidente achou que estava sendo engraçado, se está sob a influência de alguma substância ou qual possível explicação ele poderia ter para essa blasfêmia escandalosa," escreveu Megan Basham, uma escritora e comentadora cristã e conservadora, na rede social X. "Mas ele precisa retirar isso imediatamente e pedir perdão ao povo americano e depois a Deus."

Diante da enxurrada de críticas, a publicação foi apagada, e o presidente tentou mudar de assunto argumentando ter acreditado inicialmente que a imagem o mostrava como "um médico", e não como Jesus. A deculpa de Trump acabou sendo ridicularizada nas redes sociais.

Para Meghan J. Clark, da Universidade de Saint John, em Nova York, vários elementos apontam para o tom religioso da imagem. Dentre elas, estão a pose das mãos de Trump, a luz que emana dele e as vestes branca e vermelha — todas tradicionalmente associadas à figura de Jesus. Os arredores evocam, ainda, "o nacionalismo cristão" que vem marcando a gestão Trump na Casa Branca, afirma a especialista.

Na sua avaliação, esta imagem deu um passo além em relação a outras publicações ousadas já compartilhadas por contas oficiais do presidente. "A imagem é blasfema, de um ponto de vista cristão. A base de apoio (de Trump) não a achou engraçada, como acontecera antes. Ela ficou ofendida (...), porque não é uma figura humana sendo personificada, mas, sim, Jesus."

Em maio do ano passado, por exemplo, fora a vez de uma imagem artificial que o apresentava vestido de papa. À época, os cardeais se reuniam no Vaticano para escolher um novo pontífice, dias após a morte de Francisco.

<><> Ousadia ou blasfêmia?

Em artigo para o site The Conversation, Philip C. Almond, professor de História do Pensamento Religioso da Universidade de Queensland, na Austrália, explica que, de forma geral, a definição de blasfêmia abarca "palavras, pensamentos ou atos que demonstrem desprezo ou zombaria em relação a Deus e às questões sagradas."

O conceito, entretanto, não é fixo e muda ao longo da História. Foi na Idade Média que fazer-se passar por Jesus ou reivindicar poderes que pertencem exclusivamente a ele passou a ser entendido como blasfêmia.

"Se acreditarmos que sua postagem apagada no Truth Social (a rede social de Trump) tinha a intenção de sugerir que ele é Jesus — ou, de alguma forma, divino —, então os cristãos têm o direito de considerá-la blasfema," escreveu Almond. "De uma perspectiva secular, trata-se mais de uma tolice egocêntrica."

A reação online à publicação de Trump da quarta-feira, em que ele aparece abraçado com Jesus, e não no seu lugar, foi mais contida do que a indignação que acompanhou a imagem anterior.

<><> Enfrentamento com papa

Outro ponto sensível para a estratégia religiosa de Trump tem sido os ataques que o presidente americano tem direcionado ao papa Leão 14. O pontífice vem criticando a guerra no Oriente Médio, afastando qualquer forma de conflito dos valores cristãos, a contragosto do governo americano.

Ele tem o apoio de parte dos atores de influência nos mundos da política e do catolicismo.

"O papa Leão 14 tem defendido de forma consistente a paz, o diálogo e a moderação em um mundo marcado pela guerra e pelo sofrimento", disse a organização norte-americana Knights of Columbus, a maior fraternidade masculina católica do mundo, numa declaração atribuída ao seu Cavaleiro Supremo, Patrick Kelly. "As palavras do Santo Padre não são discursos políticos — são reflexos do próprio Evangelho."

Por sua vez, numa publicação na própria rede social, Trump chamou o papa de "fraco" e pediu que "alguém, por favor, diga a Leão" sobre as mortes de manifestantes pelo Irã e afirmou que a República Islâmica "ter uma bomba nuclear é absolutamente inaceitável".

Já o vice-presidente JD Vance, que se converteu ao catolicismo em 2019, disse que o papa estava errado ao afirmar que os discípulos de Cristo "nunca estão ao lado daqueles que antes empunhavam a espada e hoje lançam bombas" e que "é muito, muito importante que o papa tenha cuidado ao falar sobre questões de teologia".

Já Leão disse que "não tem medo" do governo Trump e que continuaria a se manifestar. Durante sua visita a países africanos desta semana, ele denunciou potências mundiais "neocoloniais" que, segundo ele, estariam violando o direito internacional, sem citar países específicos.

<><>"Cruzada" no Oriente Médio

A Casa Branca tem recorrido ao vocabulário cristão para angariar entusiasmo com a guerra no Irã. Trump chamou o resgate de um aviador americano abatido no Irã de "milagre de Páscoa" e sugeriu que os ataques dos Estados Unidos e de Israel têm a bênção de Deus.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, foi ainda mais longe, citando supostas passagens bíblicas para justificar o uso de "ira esmagadora" contra inimigos que, segundo ele, "não merecem misericórdia".

No entanto, alguns veículos da imprensa dos EUA notaram que os supostos versículos na realidade eram um trecho de uma fala do filme Pulp Fiction (1994), dirigido por Quentin Tarantino, no qual um personagem recita as frases - que não estão na Bíblia - quando está prestes a executar um homem.

"Eles (Trump e Hegseth) estão invocando Deus na guerra contra o Irã de modos que não ouvimos para a ação na Venezuela," afirma Clark. Para ela, a Casa Branca pode estar tentando surfar no sentimento islamofóbico, "que é amplamente difundido no movimento Maga".

A mensagem religiosa tem sido ecoada por líderes cristãos conservadores — desde figuras próximas a Trump, como Robert Jeffress, um influente pastor do Texas, até pregadores de pequenas cidades. Eles têm enfatizado o significado bíblico do Estado moderno de Israel, que muitos evangélicos associam a uma profecia sobre a Segunda Vinda de Jesus Cristo.

"Pessoas más existem, e se você não lidar com elas, elas lidarão com você", afirma Jackson Lahmeyer, um pastor evangélico e apoiador de Trump que concorre ao Congresso dos Estados Unidos. "Bem e mal — essa é a história da Bíblia. A boa notícia é que, no final, o bem sempre vence."

Os evangélicos brancos estão entre os maiores apoiadores de Trump: mais de 80% votaram nele em 2024, segundo pesquisas de boca de urna, e levantamentos mostram que eles representam cerca de um terço da base de apoio.

 

Fonte: Por Mariama Correia, da Agência Pública/Reutersssoas más existem, e se você não lidar com elas, elas lidarão com você", afirma Jackson Lahmeyer, um pastor evangélico e apoiador de Trump que concorre ao Congresso dos Estados Unidos. "Bem e mal — essa é a história da Bíblia. A boa notícia é que, no final, o bem sempre vence."

Os evangélicos brancos estão entre os maiores apoiadores de Trump: mais de 80% votaram nele em 2024, segundo pesquisas de boca de urna, e levantamentos mostram que eles representam cerca de um terço da base de apoio.

 

Fonte: Por Mariama Correia, da Agência Pública/Reuters

 

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