Retórica
cristã e ataque ao Papa podem “sair pela culatra” para Trump
Eu sou
o salvador escolhido por Deus. Foi essa a mensagem que o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, comunicou ao se igualar à figura de Cristo numa imagem
gerada por IA, onde aparece curando um doente ao tocá-lo com uma luz divina que
emana das suas mãos. O conteúdo, que parece um meme bizarro, foi compartilhado
depois que ele fez duras críticas ao Papa Leão 14. Segundo a doutrina católica,
o Pontífice é o representante máximo de Jesus Cristo na terra.
Trump
chamou Leão 14 de “fraco no combate ao crime e em política externa” e afirmou
que o líder católico não teria sido escolhido se ele “não estivesse na Casa
Branca”. Como quase sempre faz, o presidente recuou logo depois, apagando a
postagem. Disse que não tinha a intenção de se igualar a Cristo, mas o impacto
do tom abertamente bélico contra o Vaticano já tinha aberto um novo flanco na
narrativa de batalha espiritual trumpista, que tem sido ativada para justificar
a guerra contra o Irã e tem potencial para gerar um racha no campo cristão
conservador. Ou seja, dessa vez, o “chute na santa” pode sair pela culatra.
Declaradamente
cristão não denominacional, mas de formação presbiteriana, Trump costuma ativar
a retórica cristã quando convém, assim como Bolsonaro, que se porta à sua
imagem e semelhança. Este é um recurso narrativo que o precede, vide todas as
“guerras santas” históricas, mas que tem ganhado novos elementos no seu atual
governo, observa a socióloga da religião pela Fundação Escola de Sociologia e
Política de São Paulo (Fesp-SP) Tabata Tesser.
“Ele
adota um discurso das batalhas espirituais, onde a criação de antagonismos é
fundamental – o capitalismo versus o comunismo, Oriente contra Ocidente, por
exemplo. Mas faz isso combinando com táticas de especulação trazidas do mercado
imobiliário. Ele esgarça a relação para depois aliviar. E, quando volta atrás,
a regressão também é uma tática de especulação discursiva”, explica.
Acontece
que, no caso de Leão 14, o esgarçamento pode ser maior do que o esperado,
segundo Tesser, uma vez que o catolicismo conservador, muito ligado a
movimentos antiaborto, é uma das principais bases de apoio do governo Trump,
assim como evangelicalismo nacionalista branco. Do lado evangélico, figuras
como Ralph Drollinger, líder do grupo de estudos bíblicos Capitol Ministries,
os chamados “pastores de Trump”, o evangelista Franklin Graham e a conselheira
espiritual do presidente estadunidense, a chefe do “Gabinete da Fé”, Paula
White, que comparam o presidente dos EUA a Jesus em suas falas, ajudam a
amplificar a narrativa do bem contra o mal na guerra do Irã.
No
setor católico conservador, o próprio vice-presidente, JD Vance e Sean Duffy,
secretário de transportes do governo Trump, estão entre os principais
propagadores desse discurso. Mas, desse lado, as relações de apoio podem ser
mais complexas. Vance, que se converteu ao catolicismo já adulto, representa o
crescimento da religião nos EUA, onde aproximadamente 20% da população é
católica, segundo dados recentes do Pew Research.
“Num
mundo polarizado, a Igreja Católica pode ser lida como uma lógica de
espiritualidade que segue pelo caminho do meio, uma espécie de terceira via”,
explica Tesser. O atual Papa, nascido nos EUA Robert Francis Prevost, é visto
como símbolo desse comportamento moderado por parte dos cristãos. “Trump
desagradou tanto católicos como evangélicos conservadores, que têm também um
respeito à figura do Papa”, diz Tesser.
A
diplomacia vaticana tem uma relação histórica com os Estados Unidos, mas já
vinha dando sinais de desgaste. O Papa disse, sem citar nomes, que “Deus
rejeita as orações de líderes que iniciam guerras” e, durante as orações
semanais do Angelus, em março, denunciou a violência atroz contra o Irã. No
sábado passado, 11 de abril, o Pontífice reuniu mais de sete mil pessoas na
Praça de São Pedro em uma oração pela paz, o que foi interpretado por Trump
como um levante contra ele.
Leão 14
respondeu às críticas afirmando que não tem medo do presidente dos EUA e que
seu papel não é o de um político, embora seja chefe de Estado do Vaticano e
tenha um papel importante na diplomacia mundial. O presidente dos bispos nos
EUA, Paul Coakley, também reagiu. Ele se disse desconfortável com as palavras
de Trump. “O Papa Leão não é seu rival, nem o Papa é um político. É o Vigário
de Cristo que fala a partir da verdade do Evangelho e pela cura das almas”,
afirmou.
No
Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) emitiu nota em apoio ao
Pontífice. Para Tesser, ainda é cedo para falar em um cisma entre o governo dos
EUA e a Igreja Católica. Contudo, já é possível afirmar que “a declaração
impactou o nacionalismo cristão norte-americano, porque, por mais que a maioria
seja evangélica, existe um respeito ao Papa Leão 14, por ele não ser lido como
um papa político, como era Francisco, que tinha uma postura mais combativa”,
diz a socióloga.
Ela
acrescenta que, “na perspectiva bíblica, quando você tem um líder mundial que
se associa à imagem de Deus, se rompe com uma dimensão teológica e isso pegou
muito forte”, avalia. “Ou seja, ele ficou sendo odiado por ambos os lados. É
algo inédito. O fato de um representante dos EUA questionar a legitimidade da
Igreja Católica é o tipo de conflito que pode causar um racha no campo da
ultradireita cristã conservadora”, conclui Tabata Tesser.
• Trump de novo se associa a Jesus:
provocação ou blasfêmia?
Enquanto
dá contornos religiosos à guerra no Irã, o presidente Donald Trump, dos Estados
Unidos, voltou a publicar na quarta-feira (15/04) uma imagem que o associa a
Jesus Cristo.
De
olhos fechados, o chefe da Casa Branca aparece abraçado a Jesus, numa pose
similar à dele. Uma luz emana dos dois, com uma bandeira dos EUA ao fundo.
Originalmente,
a imagem teria sido publicada por uma conta fã de Trump, que sugere que o
presidente americano é a uma carta de trunfo jogada por Deus contra
"monstros satânicos, demoníacos e que sacrificam crianças".
Ao
republicar o conteúdo, a conta de Trump adicionou: "Os lunáticos da
esquerda radical podem não gostar disso, mas eu acho que é bem legal!!!".
Foi a segunda vez em cinco dias que o presidente apostou na controversa
estratégia de evocar a religião para se referir a si mesmo.
No
início da semana, ele já publicara uma imagem que, gerada por inteligência
artificial (IA), colocava ele próprio caracterizado como Jesus. O gesto foi
chamado de blasfêmia por diversos críticos, inclusive entre cristãos, que
ocupam lugar importante na base trumpista.
<><>
Onda de críticas
Diversas
figuras que costumam apoiar publicamente Trump ou sua agenda conservadora
saíram em ataque contra ele, exigindo uma retratação, postura rara para o
republicano.
"Não
sei se o presidente achou que estava sendo engraçado, se está sob a influência
de alguma substância ou qual possível explicação ele poderia ter para essa
blasfêmia escandalosa," escreveu Megan Basham, uma escritora e comentadora
cristã e conservadora, na rede social X. "Mas ele precisa retirar isso
imediatamente e pedir perdão ao povo americano e depois a Deus."
Diante
da enxurrada de críticas, a publicação foi apagada, e o presidente tentou mudar
de assunto argumentando ter acreditado inicialmente que a imagem o mostrava
como "um médico", e não como Jesus. A deculpa de Trump acabou sendo
ridicularizada nas redes sociais.
Para
Meghan J. Clark, da Universidade de Saint John, em Nova York, vários elementos
apontam para o tom religioso da imagem. Dentre elas, estão a pose das mãos de
Trump, a luz que emana dele e as vestes branca e vermelha — todas
tradicionalmente associadas à figura de Jesus. Os arredores evocam, ainda,
"o nacionalismo cristão" que vem marcando a gestão Trump na Casa
Branca, afirma a especialista.
Na sua
avaliação, esta imagem deu um passo além em relação a outras publicações
ousadas já compartilhadas por contas oficiais do presidente. "A imagem é
blasfema, de um ponto de vista cristão. A base de apoio (de Trump) não a achou
engraçada, como acontecera antes. Ela ficou ofendida (...), porque não é uma
figura humana sendo personificada, mas, sim, Jesus."
Em maio
do ano passado, por exemplo, fora a vez de uma imagem artificial que o
apresentava vestido de papa. À época, os cardeais se reuniam no Vaticano para
escolher um novo pontífice, dias após a morte de Francisco.
<><>
Ousadia ou blasfêmia?
Em
artigo para o site The Conversation, Philip C. Almond, professor de História do
Pensamento Religioso da Universidade de Queensland, na Austrália, explica que,
de forma geral, a definição de blasfêmia abarca "palavras, pensamentos ou
atos que demonstrem desprezo ou zombaria em relação a Deus e às questões
sagradas."
O
conceito, entretanto, não é fixo e muda ao longo da História. Foi na Idade
Média que fazer-se passar por Jesus ou reivindicar poderes que pertencem
exclusivamente a ele passou a ser entendido como blasfêmia.
"Se
acreditarmos que sua postagem apagada no Truth Social (a rede social de Trump)
tinha a intenção de sugerir que ele é Jesus — ou, de alguma forma, divino —,
então os cristãos têm o direito de considerá-la blasfema," escreveu
Almond. "De uma perspectiva secular, trata-se mais de uma tolice
egocêntrica."
A
reação online à publicação de Trump da quarta-feira, em que ele aparece
abraçado com Jesus, e não no seu lugar, foi mais contida do que a indignação
que acompanhou a imagem anterior.
<><>
Enfrentamento com papa
Outro
ponto sensível para a estratégia religiosa de Trump tem sido os ataques que o
presidente americano tem direcionado ao papa Leão 14. O pontífice vem
criticando a guerra no Oriente Médio, afastando qualquer forma de conflito dos
valores cristãos, a contragosto do governo americano.
Ele tem
o apoio de parte dos atores de influência nos mundos da política e do
catolicismo.
"O
papa Leão 14 tem defendido de forma consistente a paz, o diálogo e a moderação
em um mundo marcado pela guerra e pelo sofrimento", disse a organização
norte-americana Knights of Columbus, a maior fraternidade masculina católica do
mundo, numa declaração atribuída ao seu Cavaleiro Supremo, Patrick Kelly.
"As palavras do Santo Padre não são discursos políticos — são reflexos do
próprio Evangelho."
Por sua
vez, numa publicação na própria rede social, Trump chamou o papa de
"fraco" e pediu que "alguém, por favor, diga a Leão" sobre
as mortes de manifestantes pelo Irã e afirmou que a República Islâmica
"ter uma bomba nuclear é absolutamente inaceitável".
Já o
vice-presidente JD Vance, que se converteu ao catolicismo em 2019, disse que o
papa estava errado ao afirmar que os discípulos de Cristo "nunca estão ao
lado daqueles que antes empunhavam a espada e hoje lançam bombas" e que
"é muito, muito importante que o papa tenha cuidado ao falar sobre
questões de teologia".
Já Leão
disse que "não tem medo" do governo Trump e que continuaria a se
manifestar. Durante sua visita a países africanos desta semana, ele denunciou
potências mundiais "neocoloniais" que, segundo ele, estariam violando
o direito internacional, sem citar países específicos.
<><>"Cruzada"
no Oriente Médio
A Casa
Branca tem recorrido ao vocabulário cristão para angariar entusiasmo com a
guerra no Irã. Trump chamou o resgate de um aviador americano abatido no Irã de
"milagre de Páscoa" e sugeriu que os ataques dos Estados Unidos e de
Israel têm a bênção de Deus.
O
secretário de Defesa, Pete Hegseth, foi ainda mais longe, citando supostas
passagens bíblicas para justificar o uso de "ira esmagadora" contra
inimigos que, segundo ele, "não merecem misericórdia".
No
entanto, alguns veículos da imprensa dos EUA notaram que os supostos versículos
na realidade eram um trecho de uma fala do filme Pulp Fiction (1994), dirigido
por Quentin Tarantino, no qual um personagem recita as frases - que não estão
na Bíblia - quando está prestes a executar um homem.
"Eles
(Trump e Hegseth) estão invocando Deus na guerra contra o Irã de modos que não
ouvimos para a ação na Venezuela," afirma Clark. Para ela, a Casa Branca
pode estar tentando surfar no sentimento islamofóbico, "que é amplamente
difundido no movimento Maga".
A
mensagem religiosa tem sido ecoada por líderes cristãos conservadores — desde
figuras próximas a Trump, como Robert Jeffress, um influente pastor do Texas,
até pregadores de pequenas cidades. Eles têm enfatizado o significado bíblico
do Estado moderno de Israel, que muitos evangélicos associam a uma profecia
sobre a Segunda Vinda de Jesus Cristo.
"PeRetórica cristã e ataque ao Papa podem “sair pela culatra” para Trump
Eu sou
o salvador escolhido por Deus. Foi essa a mensagem que o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, comunicou ao se igualar à figura de Cristo numa imagem
gerada por IA, onde aparece curando um doente ao tocá-lo com uma luz divina que
emana das suas mãos. O conteúdo, que parece um meme bizarro, foi compartilhado
depois que ele fez duras críticas ao Papa Leão 14. Segundo a doutrina católica,
o Pontífice é o representante máximo de Jesus Cristo na terra.
Trump
chamou Leão 14 de “fraco no combate ao crime e em política externa” e afirmou
que o líder católico não teria sido escolhido se ele “não estivesse na Casa
Branca”. Como quase sempre faz, o presidente recuou logo depois, apagando a
postagem. Disse que não tinha a intenção de se igualar a Cristo, mas o impacto
do tom abertamente bélico contra o Vaticano já tinha aberto um novo flanco na
narrativa de batalha espiritual trumpista, que tem sido ativada para justificar
a guerra contra o Irã e tem potencial para gerar um racha no campo cristão
conservador. Ou seja, dessa vez, o “chute na santa” pode sair pela culatra.
Declaradamente
cristão não denominacional, mas de formação presbiteriana, Trump costuma ativar
a retórica cristã quando convém, assim como Bolsonaro, que se porta à sua
imagem e semelhança. Este é um recurso narrativo que o precede, vide todas as
“guerras santas” históricas, mas que tem ganhado novos elementos no seu atual
governo, observa a socióloga da religião pela Fundação Escola de Sociologia e
Política de São Paulo (Fesp-SP) Tabata Tesser.
“Ele
adota um discurso das batalhas espirituais, onde a criação de antagonismos é
fundamental – o capitalismo versus o comunismo, Oriente contra Ocidente, por
exemplo. Mas faz isso combinando com táticas de especulação trazidas do mercado
imobiliário. Ele esgarça a relação para depois aliviar. E, quando volta atrás,
a regressão também é uma tática de especulação discursiva”, explica.
Acontece
que, no caso de Leão 14, o esgarçamento pode ser maior do que o esperado,
segundo Tesser, uma vez que o catolicismo conservador, muito ligado a
movimentos antiaborto, é uma das principais bases de apoio do governo Trump,
assim como evangelicalismo nacionalista branco. Do lado evangélico, figuras
como Ralph Drollinger, líder do grupo de estudos bíblicos Capitol Ministries,
os chamados “pastores de Trump”, o evangelista Franklin Graham e a conselheira
espiritual do presidente estadunidense, a chefe do “Gabinete da Fé”, Paula
White, que comparam o presidente dos EUA a Jesus em suas falas, ajudam a
amplificar a narrativa do bem contra o mal na guerra do Irã.
No
setor católico conservador, o próprio vice-presidente, JD Vance e Sean Duffy,
secretário de transportes do governo Trump, estão entre os principais
propagadores desse discurso. Mas, desse lado, as relações de apoio podem ser
mais complexas. Vance, que se converteu ao catolicismo já adulto, representa o
crescimento da religião nos EUA, onde aproximadamente 20% da população é
católica, segundo dados recentes do Pew Research.
“Num
mundo polarizado, a Igreja Católica pode ser lida como uma lógica de
espiritualidade que segue pelo caminho do meio, uma espécie de terceira via”,
explica Tesser. O atual Papa, nascido nos EUA Robert Francis Prevost, é visto
como símbolo desse comportamento moderado por parte dos cristãos. “Trump
desagradou tanto católicos como evangélicos conservadores, que têm também um
respeito à figura do Papa”, diz Tesser.
A
diplomacia vaticana tem uma relação histórica com os Estados Unidos, mas já
vinha dando sinais de desgaste. O Papa disse, sem citar nomes, que “Deus
rejeita as orações de líderes que iniciam guerras” e, durante as orações
semanais do Angelus, em março, denunciou a violência atroz contra o Irã. No
sábado passado, 11 de abril, o Pontífice reuniu mais de sete mil pessoas na
Praça de São Pedro em uma oração pela paz, o que foi interpretado por Trump
como um levante contra ele.
Leão 14
respondeu às críticas afirmando que não tem medo do presidente dos EUA e que
seu papel não é o de um político, embora seja chefe de Estado do Vaticano e
tenha um papel importante na diplomacia mundial. O presidente dos bispos nos
EUA, Paul Coakley, também reagiu. Ele se disse desconfortável com as palavras
de Trump. “O Papa Leão não é seu rival, nem o Papa é um político. É o Vigário
de Cristo que fala a partir da verdade do Evangelho e pela cura das almas”,
afirmou.
No
Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) emitiu nota em apoio ao
Pontífice. Para Tesser, ainda é cedo para falar em um cisma entre o governo dos
EUA e a Igreja Católica. Contudo, já é possível afirmar que “a declaração
impactou o nacionalismo cristão norte-americano, porque, por mais que a maioria
seja evangélica, existe um respeito ao Papa Leão 14, por ele não ser lido como
um papa político, como era Francisco, que tinha uma postura mais combativa”,
diz a socióloga.
Ela
acrescenta que, “na perspectiva bíblica, quando você tem um líder mundial que
se associa à imagem de Deus, se rompe com uma dimensão teológica e isso pegou
muito forte”, avalia. “Ou seja, ele ficou sendo odiado por ambos os lados. É
algo inédito. O fato de um representante dos EUA questionar a legitimidade da
Igreja Católica é o tipo de conflito que pode causar um racha no campo da
ultradireita cristã conservadora”, conclui Tabata Tesser.
• Trump de novo se associa a Jesus:
provocação ou blasfêmia?
Enquanto
dá contornos religiosos à guerra no Irã, o presidente Donald Trump, dos Estados
Unidos, voltou a publicar na quarta-feira (15/04) uma imagem que o associa a
Jesus Cristo.
De
olhos fechados, o chefe da Casa Branca aparece abraçado a Jesus, numa pose
similar à dele. Uma luz emana dos dois, com uma bandeira dos EUA ao fundo.
Originalmente,
a imagem teria sido publicada por uma conta fã de Trump, que sugere que o
presidente americano é a uma carta de trunfo jogada por Deus contra
"monstros satânicos, demoníacos e que sacrificam crianças".
Ao
republicar o conteúdo, a conta de Trump adicionou: "Os lunáticos da
esquerda radical podem não gostar disso, mas eu acho que é bem legal!!!".
Foi a segunda vez em cinco dias que o presidente apostou na controversa
estratégia de evocar a religião para se referir a si mesmo.
No
início da semana, ele já publicara uma imagem que, gerada por inteligência
artificial (IA), colocava ele próprio caracterizado como Jesus. O gesto foi
chamado de blasfêmia por diversos críticos, inclusive entre cristãos, que
ocupam lugar importante na base trumpista.
<><>
Onda de críticas
Diversas
figuras que costumam apoiar publicamente Trump ou sua agenda conservadora
saíram em ataque contra ele, exigindo uma retratação, postura rara para o
republicano.
"Não
sei se o presidente achou que estava sendo engraçado, se está sob a influência
de alguma substância ou qual possível explicação ele poderia ter para essa
blasfêmia escandalosa," escreveu Megan Basham, uma escritora e comentadora
cristã e conservadora, na rede social X. "Mas ele precisa retirar isso
imediatamente e pedir perdão ao povo americano e depois a Deus."
Diante
da enxurrada de críticas, a publicação foi apagada, e o presidente tentou mudar
de assunto argumentando ter acreditado inicialmente que a imagem o mostrava
como "um médico", e não como Jesus. A deculpa de Trump acabou sendo
ridicularizada nas redes sociais.
Para
Meghan J. Clark, da Universidade de Saint John, em Nova York, vários elementos
apontam para o tom religioso da imagem. Dentre elas, estão a pose das mãos de
Trump, a luz que emana dele e as vestes branca e vermelha — todas
tradicionalmente associadas à figura de Jesus. Os arredores evocam, ainda,
"o nacionalismo cristão" que vem marcando a gestão Trump na Casa
Branca, afirma a especialista.
Na sua
avaliação, esta imagem deu um passo além em relação a outras publicações
ousadas já compartilhadas por contas oficiais do presidente. "A imagem é
blasfema, de um ponto de vista cristão. A base de apoio (de Trump) não a achou
engraçada, como acontecera antes. Ela ficou ofendida (...), porque não é uma
figura humana sendo personificada, mas, sim, Jesus."
Em maio
do ano passado, por exemplo, fora a vez de uma imagem artificial que o
apresentava vestido de papa. À época, os cardeais se reuniam no Vaticano para
escolher um novo pontífice, dias após a morte de Francisco.
<><>
Ousadia ou blasfêmia?
Em
artigo para o site The Conversation, Philip C. Almond, professor de História do
Pensamento Religioso da Universidade de Queensland, na Austrália, explica que,
de forma geral, a definição de blasfêmia abarca "palavras, pensamentos ou
atos que demonstrem desprezo ou zombaria em relação a Deus e às questões
sagradas."
O
conceito, entretanto, não é fixo e muda ao longo da História. Foi na Idade
Média que fazer-se passar por Jesus ou reivindicar poderes que pertencem
exclusivamente a ele passou a ser entendido como blasfêmia.
"Se
acreditarmos que sua postagem apagada no Truth Social (a rede social de Trump)
tinha a intenção de sugerir que ele é Jesus — ou, de alguma forma, divino —,
então os cristãos têm o direito de considerá-la blasfema," escreveu
Almond. "De uma perspectiva secular, trata-se mais de uma tolice
egocêntrica."
A
reação online à publicação de Trump da quarta-feira, em que ele aparece
abraçado com Jesus, e não no seu lugar, foi mais contida do que a indignação
que acompanhou a imagem anterior.
<><>
Enfrentamento com papa
Outro
ponto sensível para a estratégia religiosa de Trump tem sido os ataques que o
presidente americano tem direcionado ao papa Leão 14. O pontífice vem
criticando a guerra no Oriente Médio, afastando qualquer forma de conflito dos
valores cristãos, a contragosto do governo americano.
Ele tem
o apoio de parte dos atores de influência nos mundos da política e do
catolicismo.
"O
papa Leão 14 tem defendido de forma consistente a paz, o diálogo e a moderação
em um mundo marcado pela guerra e pelo sofrimento", disse a organização
norte-americana Knights of Columbus, a maior fraternidade masculina católica do
mundo, numa declaração atribuída ao seu Cavaleiro Supremo, Patrick Kelly.
"As palavras do Santo Padre não são discursos políticos — são reflexos do
próprio Evangelho."
Por sua
vez, numa publicação na própria rede social, Trump chamou o papa de
"fraco" e pediu que "alguém, por favor, diga a Leão" sobre
as mortes de manifestantes pelo Irã e afirmou que a República Islâmica
"ter uma bomba nuclear é absolutamente inaceitável".
Já o
vice-presidente JD Vance, que se converteu ao catolicismo em 2019, disse que o
papa estava errado ao afirmar que os discípulos de Cristo "nunca estão ao
lado daqueles que antes empunhavam a espada e hoje lançam bombas" e que
"é muito, muito importante que o papa tenha cuidado ao falar sobre
questões de teologia".
Já Leão
disse que "não tem medo" do governo Trump e que continuaria a se
manifestar. Durante sua visita a países africanos desta semana, ele denunciou
potências mundiais "neocoloniais" que, segundo ele, estariam violando
o direito internacional, sem citar países específicos.
<><>"Cruzada"
no Oriente Médio
A Casa
Branca tem recorrido ao vocabulário cristão para angariar entusiasmo com a
guerra no Irã. Trump chamou o resgate de um aviador americano abatido no Irã de
"milagre de Páscoa" e sugeriu que os ataques dos Estados Unidos e de
Israel têm a bênção de Deus.
O
secretário de Defesa, Pete Hegseth, foi ainda mais longe, citando supostas
passagens bíblicas para justificar o uso de "ira esmagadora" contra
inimigos que, segundo ele, "não merecem misericórdia".
No
entanto, alguns veículos da imprensa dos EUA notaram que os supostos versículos
na realidade eram um trecho de uma fala do filme Pulp Fiction (1994), dirigido
por Quentin Tarantino, no qual um personagem recita as frases - que não estão
na Bíblia - quando está prestes a executar um homem.
"Eles
(Trump e Hegseth) estão invocando Deus na guerra contra o Irã de modos que não
ouvimos para a ação na Venezuela," afirma Clark. Para ela, a Casa Branca
pode estar tentando surfar no sentimento islamofóbico, "que é amplamente
difundido no movimento Maga".
A
mensagem religiosa tem sido ecoada por líderes cristãos conservadores — desde
figuras próximas a Trump, como Robert Jeffress, um influente pastor do Texas,
até pregadores de pequenas cidades. Eles têm enfatizado o significado bíblico
do Estado moderno de Israel, que muitos evangélicos associam a uma profecia
sobre a Segunda Vinda de Jesus Cristo.
"Pessoas
más existem, e se você não lidar com elas, elas lidarão com você", afirma
Jackson Lahmeyer, um pastor evangélico e apoiador de Trump que concorre ao
Congresso dos Estados Unidos. "Bem e mal — essa é a história da Bíblia. A
boa notícia é que, no final, o bem sempre vence."
Os
evangélicos brancos estão entre os maiores apoiadores de Trump: mais de 80%
votaram nele em 2024, segundo pesquisas de boca de urna, e levantamentos
mostram que eles representam cerca de um terço da base de apoio.
Fonte:
Por Mariama Correia, da Agência Pública/Reutersssoas
más existem, e se você não lidar com elas, elas lidarão com você", afirma
Jackson Lahmeyer, um pastor evangélico e apoiador de Trump que concorre ao
Congresso dos Estados Unidos. "Bem e mal — essa é a história da Bíblia. A
boa notícia é que, no final, o bem sempre vence."
Os
evangélicos brancos estão entre os maiores apoiadores de Trump: mais de 80%
votaram nele em 2024, segundo pesquisas de boca de urna, e levantamentos
mostram que eles representam cerca de um terço da base de apoio.
Fonte:
Por Mariama Correia, da Agência Pública/Reuters

Nenhum comentário:
Postar um comentário