Walden
Bello: Uma nova era feudal?
Desde
que a Internet nasceu na década de 1990, e com ela as “big techs”, temos a
sensação de que entramos numa nova era em termos de economia política global.
Muitos tentaram apontar em que consiste essa transformação. Talvez aquela mais
famosa entre esses pensadores críticos seja Shoshana Zuboff. Essa autora, como
se sabe, afirmou num longo livro que estamos vivendo numa era de “capitalismo
de vigilância”.
O
aparelho informacional do sistema coleta as informações que deixamos, sem ter
consciência disso, no ciberespaço. As empresas como Google, Microsoft e outros
titãs da tecnologia colhem esses dados, processam essas informações para
elaborar nossos perfis digitais. Esses perfis são então usados por eles ou por
suas empresas clientes para nos manipular como compradores ou como mercadorias
que são vendidas para o Estado que quer nos controlar.
Outro
esforço importante para definir esse novo capitalismo veio de Mckenzie Wark,
que o descreveu em seu influente Manifesto Hacker. Aí, ela disse que a
contradição de classe central da nova era não se encontrava mais naquela entre
capitalistas e trabalhadores, mas entre os “hackers”, inovadores criativos que
lutam para manter a informação livre, e a “classe vetorial” agora dominante,
que busca expropriar o conhecimento com o fim de transformá-lo em mercadoria.
Reconhecendo
sua dívida com Shoshana Zuboff e Mckenzie Wark, Yanis Varoufakis diz em seu
livro que, embora tenham eles insights importantes, esses autores não levaram
as suas teses a uma conclusão lógica final: eis que o capitalismo, enquanto um
modo de produção distinto, parece ter sido superado historicamente. Pois,
aquilo que agora temos, segundo Yanis Varoufakis, consiste no que ele chama de
“tecnofeudalismo”.
Ele não
diz que os capitalistas deixaram de ser importantes. Eles o são já que ainda se
envolvem com a extração de mais-valor ou lucro dos trabalhadores no processo de
produção. Contudo, agora eles próprios estão subordinados a uma nova elite, os
“capitalistas da nuvem” ou “nuvenlistas” (cloudalists), que privatizaram os
bens comuns constituído pelo ciberespaço, controlando o acesso a ele.
Entre
os “nuvemlistas” mais poderosos estão os donos da Google, Microsoft, Apple,
Amazon e a fabricante de chips Nvidia. E eles o são porque controlam os canais
por onde fluem as informações globalmente; eis que esse processo é sustentado
materialmente por enormes centros de dados (data centers) localizados em
diferentes partes do mundo, assim como por uma rede de cabos submarinos e de
satélites.
Acessar
agora essas redes entrelaçadas no ciberespaço, conhecidas como “nuvens”, é
vital para os capitalistas tradicionais ou “terrestres”; só assim eles têm
acesso aos consumidores para vender os seus produtos. Essas portas de entrada
(gatekeepers) ao mundo virtual são corporações que ganham dinheiro cobrando
aluguel (rent) dos velhos capitalistas.
Pois,
sem acesso à rede, tais capitalistas não podem obter lucros. Yanis Varoufakis
considera que essa situação é muito parecida com a dos senhores feudais de
outrora que detinham o controle da terra. Pois, o controle monopolista da nuvem
pelos “nuvenlistas” permite que eles coletem, direta ou indiretamente, dos
“capitalistas vassalos” e de qualquer um que use a rede, um “aluguel”. Esse
rendimento, note-se, não está sujeito à competição de mercado da qual o lucro
depende.
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Proletários servos de nuvem
Tal
como no capitalismo dos industrialistas terrestres, não são os próprios
“nuvenlistas” que produzem valor necessário e excedente. As verdadeiras fontes
de valor são aqueles que Yanis Varoufakis chama de “proletários das nuvens” e
de “servos das nuvens”. Os proletas das nuvens são trabalhadores que prestam
serviços para a Amazon e para as outras empresas “big techs”; eles não são
sindicalizados, recebem salários baixos e estão sob constante ameaça de serem
substituídos por robôs repetidores e ou por algum mecanismo guiado por
inteligência artificial.
Mas o
trabalho desses proletas fornece apenas uma fração do valor extraído pelos
“nuvenlistas”. São os servos da nuvem é que criam a maior parte desse valor.
Seguindo Shoshana Zuboff, Yanis Varoufakis diz que os servos da nuvem somos
nós, ou seja, todos aqueles que acessam as redes sociais: somos nós que
fornecemos matéria-prima para a nuvem sempre que fazemos uma pesquisa no
Google, postamos uma foto no Facebook ou encomendamos um livro na Amazon.
Toda
essa massa de informação é então processada pelos “nuvenlistas” para ser usada
por eles ou pelos capitalistas terrestres com o objetivo de desenvolver
estratégias de marketing cada vez mais sofisticadas para nos fazer abrir mão de
nosso dinheiro.
A
característica distintiva dos servos das nuvens é que eles estão fazendo um
trabalho não remunerado para os “nuvenlistas”, mesmo que não percebam. Como ele
observa: “O fato de fazermos isso voluntariamente, até mesmo alegremente, não
implica que não somos fabricantes não remunerados – ou seja, servos das nuvens,
cuja labuta autodirigida diária enriquece um pequeno grupo de
multibilionários”. Somos, em outras palavras, assaltados que não sabem que
estão sendo assaltados.
Yanis
Varoufakis atribui a ascensão dos “nuvenlistas” à criação de dinheiro com juros
zero ou abaixo de zero pelos bancos centrais após a Grande Recessão de 2008 e,
depois, durante a pandemia da Covid 19. Os governos de então justificaram esse
procedimento dizendo que criavam crédito para estimular a produção em geral e
os gastos do consumidor. Mas, dada a grande queda na demanda então observada, a
maioria das empresas não investiu os empréstimos que os bancos privados lhes
forneceram: em vez disso, elas os usaram para recomprar suas próprias ações
corporativas a preços baixos ou para fazer investimentos em imóveis.
“Nuvenlistas”
como Jeff Bezos, Elon Musk e Mark Zuckerberg usaram o dinheiro primário do
banco central e para eles redirecionado por meio dos grandes bancos, para
investir massivamente na expansão de seus negócios, visando a monopolização. Os
“nuvenlistas”, ademais, puxaram para os seus negócios grande parte dos bilhões
e trilhões que circulavam no sistema financeiro.
Com
esse dinheiro eles compraram fazendas de servidores, cabos de fibra óptica,
laboratórios de inteligência artificial, armazéns gigantescos, desenvolvedores
de software, engenheiros de primeira linha, laboratórios, startups promissoras,
assim como tudo o mais que aumentava o seu poder econômico. Em um ambiente onde
o lucro se tornou opcional, os “nuvenlistas” aproveitaram o dinheiro do banco
central para construir novos impérios.
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Resistência na era do tecnofeudalismo
A
contradição central na era tecnofeudal passou do conflito entre trabalho e
capital para aquele entre os “nuvenlistas” e os servos e os proletários das
nuvens. Yanis Varoufakis é meu colega no conselho da Progressive Internacional;
ele ajudou a construir uma parceria como com a Global Union, com sede na Suíça,
para organizar greves anuais de um dia de trabalhadores da Amazon em muitos
países.
Segundo
ele, se essas ações pudessem ser coordenadas com os usuários da Amazon, fazendo
com que uma massa crítica fosse convencida a não visitar o sítio da Amazon por
vários dias, o impacto não seria mínimo: “Mesmo se fossem apenas levemente
bem-sucedidos” – alertou –, “causando, digamos, uma queda de 10% nas receitas
habituais da Amazon, isso teria um impacto significativo. A greve nos armazéns
da Amazon interrompeu as entregas por 24 horas, mas essa ação foi suficiente
para empurrar o preço das ações da Amazon para baixo. Ora, trata-se de um
impacto que nenhuma ação trabalhista tradicional poderia alcançar.”
Mas
construir um forte movimento de resistência aos “nuvenlistas” precisa ir além
dessas alianças momentâneas. “Para ter alguma chance de derrubar o
tecnofeudalismo e colocar o demos de volta em seu lugar de direito na
democracia” – escreveu ele –, “precisamos reunir não apenas o proletariado
tradicional e os proletários das nuvens, mas também os servos das nuvens e, de
fato, alguns dos capitalistas vassalos”.
Yanis
Varoufakis poderia ter acrescentado a essa “grande coalizão” as comunidades
cujas vidas estão sendo ameaçadas pelos efeitos dos centros de dados (data
centers). Como relata um artigo recente do New York Times, à medida que esses
centros aumentam, eles precisam de montantes crescentes de energia para
computação e de água para resfriar os computadores. Esses efeitos deletérios
têm ocorrido já não apenas no México, mas em mais de uma dúzia de outros
países…
Na
Irlanda, os centros de dados consomem mais de 20% da eletricidade do país. No
Chile, aquíferos preciosos estão em perigo de esgotamento. Na África do Sul,
onde os apagões são rotineiros há muito tempo, os centros de dados estão
sobrecarregando ainda mais a rede elétrica do país. Preocupações semelhantes
surgiram no Brasil, Grã-Bretanha, Índia, Malásia, Holanda, Cingapura e Espanha.
As
comunidades forçadas a hospedar esses centros de dados estão agora, na verdade,
na vanguarda da resistência às “big techs”. Em muitos países, observa o
relatório, “ativistas, residentes e organizações ambientais se uniram para se
opor à implantação e continuidade dos centros de dados. Alguns tentaram
bloquear os projetos, enquanto outros pressionaram por mais supervisão e
transparência.
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Esclarecimento necessário
Tenho
alguns comentários sobre alguns dos elementos-chaves do paradigma criado por
Yanis Varoufakis e eles são apresentados em sequência com um espírito crítico,
mas amigável.
Primeiro,
a sua conceituação dos proletários de nuvem parece incluir apenas os
trabalhadores de serviços mal pagos. E os engenheiros da informação, assim como
os outros especialistas e suas equipes que trabalham nos escritórios?
Ele
fala, na primeira parte do livro, sobre o papel da “tecnoestrutura” no
capitalismo tardio; contudo, parece incluir as diferentes camadas desse estrato
como parte da gestão tecnofeudal – e não como parte da força de trabalho
explorada. Como Mckenzie Wark enfatizou, os inovadores técnicos ou “hackers”
contribuem para a criação de valor que é expropriado pela elite das “big
techs”.
Em
segundo lugar, há alguma ambiguidade no livro quando se trata de quem
exatamente tem o poder supremo na estrutura de poder tecnofeudal. Na maior
parte do livro, os líderes bilionários ou trilhonários das grandes empresas de
tecnologia, como Jeff Bezos, Elon Musk e Tim Cook, são retratados como membros
da elite tecnofeudal. Mas ele também fala ds “grandes senhores” das finanças
que rivalizam com os “nuvenlistas”.
Como se
sabe, três empresas americanas reúnem poderes superiores a todos os
capitalistas terrestres juntos; são elas a BlackRock, a Vanguard e a State
Street. Essas três empresas, chamadas nos círculos financeiros de “Três
Grandes”, são efetivamente donas do capitalismo americano. Isso ocorre porque
elas têm o controle acionário das corporações mais estratégicas.
Na
verdade, temos uma elite no poder que está dividida em blocos classistas com
diferentes fontes de poder. Estamos realmente em uma era pós-capitalista ou
apenas em outro estágio (mais uma vez superior?) do capitalismo? Isso se
relaciona com meu terceiro ponto. Yanis Varoufakis, em minha opinião, deveria
explicar melhor as dinâmicas do tecnofeudalismo, mostrando que elas são
realmente distintas daquelas do capitalismo monopolista.
Economistas,
tanto progressistas quanto ortodoxos, há muito argumentam que, em uma situação
de monopólio ou oligopólio, tal como ocorre na indústria automobilística ou
farmacêutica, os principais atores obtêm lucro, mas também extraem renda, que é
o lucro superior ao que estaria disponível se houvesse concorrência
significativa no mercado.
Tal
como ocorre nas indústrias automobilística e farmacêutica, também se forma
oligopólio no setor em que operam as “big techs”; tal como lá, ademais, isso
não elimina uma concorrência acirrada. Como se sabe, essa concorrência não se
dá nos preços, cuja dinâmica resulta em lucro e extração de renda.
A
dinâmica da competição entre os “nuvenlistas” não seria realmente do mesmo
tipo? Como a renda capitalista monopolista difere da renda tecnofeudal? Como os
ganhos do Google, por exemplo, diferem dos ganhos de oligopolistas que não
operam no setor das “big techs”, como JP Morgan, Johnson & Johnson e
Toyota?
O meu
último ponto tem a ver com a mudança na relação entre o Estado e os
“nuvenlistas”. No livro, o Estado aparece principalmente como um facilitador da
ascensão desses novos “senhores feudais”; eis que ele proveu essas empresas com
dinheiro emitido diretamente ou indiretamente pelos bancos centrais após a
Grande Recessão e durante a pandemia.
Certos
desenvolvimentos recentes, no entanto, viram o Estado tentando disciplinar as
“big techs” por meio de restrições. Tanto sob o primeiro governo de Donald
Trump quanto sob a presidência de Joe Biden, Washington impôs medidas bastante
restritivas que reduziram os lucros dos “nuvenlistas”; por exemplo, o Estado
norte-americano restringiu o compartilhamento de tecnologia avançada com as
corporações chinesas.
Os
controles de exportação de chips avançados de Inteligência artificial impostos
por Biden, em 2022, reduziram drasticamente a participação da Nvidia no mercado
chinês de chips de Inteligência artificial de 95% para 50%, resultando na perda
de bilhões de dólares.
Sob o
segundo governo de Donald Trump, Washington agiu ainda mais drasticamente,
usando a imposição de tarifas para forçar os “nuvenlistas”, como a Apple, a
transferir partes importantes de suas cadeias de suprimentos globais para os
Estados Unidos, embora isso envolvesse grandes custos e interrupções.
Reconhecendo o papel de comando do Estado, o CEO da Apple, Tim Cook, declarou
recentemente: “O presidente quer mais [produção] nos EUA… A Apple também quer
produzir mais nos EUA”.
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Nomear a besta corretamente
Yanis
Varoufakis também observa que o Estado tem tido um papel mais proeminente
ultimamente na regulação das “big techs”. No entanto, ele não extrai todas as
implicações para o que ele retratou como o imenso poder dos “nuvenlistas e o
que isso representar em termos de futuro para eles.
Tal
como está também retratado no livro Tecnofeudalismo, relação do Estado com as
“big techs” Estados Unidos está ficando parecida com aquela observada entre o
Partido Comunista Chinês e os titãs da China, como Alibaba e Baidu. À medida
que a rivalidade geopolítica esquenta e as preocupações com a segurança
nacional se elevam, a lucratividade deixa de ser a principal prioridade.
A
economia política da China tem sido chamada de capitalismo de Estado ou
capitalismo político. Eis que o Partido Comunista da China tem se apegado à
definição de Deng Xiaoping segundo a qual eles estão construindo o “socialismo
com características chinesas”. Ora, Varoufakis afirma – e eu concordo com isso
– que a escolha de um nome é fundamental para entender a essência de uma
economia política.
Para
sublinhar o que provavelmente se tornará um papel diretivo ainda maior do
Estado na economia política dos Estados Unidos e na crescente subordinação da
lucratividade à segurança nacional, acho que precisamos de uma palavra melhor
do que “tecnofeudalismo”. Ademais, essa mudança de nome teria o benefício
adicional de evitar a associação subliminar do título ao clássico tratado
neoliberal – e antissocialista – de Friedrich Hayek, O Caminho para a Servidão.
O livro
tecnofeudalismo contém uma análise provocativa, bem argumentada e bem escrita
sobre esse novo desenvolvimento do capitalismo. E é muito acessível mesmo para
aqueles com pouca experiência em economia política ou em economia padrão. Pode
haver temas em que posso não concordar completamente ou pontos em que sinto que
deveriam ter sido elaborados com mais cuidado.
Contudo,
isso não deve prejudicar meu julgamento de que este livro de um dos principais
pensadores progressistas de hoje é uma grande contribuição para a compreensão
dos tempos tormentosos em que vivemos.
Fonte:
Tradução de Eleutério F. S. Prado, em A Terra é Redonda

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