Relato:
15 anos após a 1ª ocupação, um museu de grandes novidades no Complexo do Alemão
“Aqui
no 16º Batalhão em Olaria, que é uma espécie de comando geral das operações da
PM, a gente viu chegar também uma grande quantidade de entorpecentes e de
munição. Foram três toneladas de maconha e entre 30 e 40 quilos de cocaína e
crack. E ainda três granadas, uma granada de bocal e muita, mas muita munição.”
Este
trecho faz parte de uma entrada ao vivo, em 28 de novembro de 2010, para a
rádio CBN, quando da primeira ocupação do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro.
Naquele domingo, passei boa parte do plantão dentro do batalhão da Polícia
Militar.
Como na
época smartphones ainda não existiam, guardo hoje apenas uma foto mental do que
realmente me impressionou no pátio do 16 BPM: a visão de uma imensa balança,
das dimensões de um armário de roupas com quatro portas, se misturava ao cheiro
fortíssimo de maconha que tomava toda a área, dada a quantidade da droga ali
armazenada.
O
efetivo das forças de segurança se assemelhava à megaoperação que matou mais de
100 pessoas nesta terça-feira, 28 de outubro de 2025. Na época da minha
reportagem, o Coronel Lima Castro anunciava que havia entre 2.500 e 2.700
homens destacados, entre policiais civis e militares do Rio de Janeiro, além de
membros das Forças Armadas.
Ali
também perguntei ao então porta-voz da PM, Coronel Lima Castro, o destino de
tamanha quantidade de drogas e armas. Informei aos ouvintes:
“Esse
material é levado para algumas delegacias e serve de prova para a justiça
contra as pessoas que estão sendo presas. Ele é armazenado numa localidade que
não pode ser passada para a imprensa, segundo o coronel. Depois de armazenado,
a justiça decide [o destino]. Geralmente, pelo que conta o coronel, esse
material costuma ser destruído.”
Já
naquela época, tal como agora, respostas e paradeiros eram pouco precisos.
Semelhantes eram os números superlativos e a espetacularização.
O
governo de Sérgio Cabral contava ainda com 14 blindados da Marinha. Os tais
blindados que o atual governador, Cláudio Castro, diz terem sido negados pelo
governo federal. Na época, lembro que moradores do Alemão tiravam fotos ao lado
dos tanques. Sobre nossas cabeças, sete helicópteros da polícia sobrevoavam o
conjunto de favelas naquele fim de semana.
Não
houve mortes. Mas o helicóptero da Globo filmara, dias antes, dezenas de homens
fugindo de moto com fuzis em punho, na mata que ligava o Alemão à Vila
Cruzeiro, favela vizinha. Aquela cobertura ao vivo seria um marco no jornalismo
da emissora e garantiria o prêmio Emmy Internacional pelas cenas
hollywoodianas.
Todo o
processo fazia parte da implementação das Unidades de Polícia Pacificadoras
(UPPs), projeto do então secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame
para reocupar territórios praticamente sem qualquer presença do Estado.
Além do
Alemão, outra favela a ser ocupada era a Rocinha, cravada entre dois dos
bairros mais nobres da capital fluminense. O governo de Cabral daria
preferência a comunidades ou áreas mais cenográficas da cidade (caso da
Rocinha), ou a locais estratégicos – o Alemão circunda duas das principais vias
de acesso ao Rio, a Avenida Brasil e a Linha Amarela.
Na
redação, os colegas mais experientes, setoristas de polícia havia anos,
acompanhavam com ceticismo o alarde do que, à época, era chamado de
pacificação. “Acabou o varejo”, dizia um deles, apontando que, na verdade, fora
feito um acordo entre as autoridades de segurança para coibir a violência
explícita nas ruas do Rio de Janeiro. A tese se tornou uma das mais difundidas
no imaginário carioca para explicar, anos depois, o fracasso das UPPs.
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Igreja da Penha enfrentava tiroteio rezando pela paz
Naquele
fim de semana, além da cobertura factual, consegui vender ao chefe de
reportagem uma matéria especial sobre a Igreja da Penha, conhecido santuário do
Rio, célebre pelos 382 degraus que fiéis sobem para pagar promessas. Do alto do
morro da Penha, era possível observar as paisagens de mata, na região da
Pedreira. Foi lá, 15 anos depois, que moradores buscaram, sozinhos, corpos
abandonados nesta quarta-feira, 29 de outubro.
Durante
a minha apuração, tudo se passava nas imediações da Estrada do Itararé e das
ruas Canitar e Joaquim de Queiroz. Por ali circulávamos misturados aos
moradores, policiais, tanques e eventuais tiros. Helicópteros rodeavam o
Santuário da Penha enquanto o padre rezava a missa na hora da ocupação das
forças de segurança.
“Quando
ouvi os primeiros tiros, convidei os fiéis: vamos rezar de uma forma ainda mais
intensa pela paz. Foi um momento especial e de muita apreensão também”, me
contou o Padre Serafim.
O texto
da matéria mencionava a cautela do padre e dos fiéis sobre as promessas do
poder público. “Nós não queremos a paz dos pântanos, aquela que encobre
injustiças”, disse Elizabeth Rocha, frequentadora da Igreja e moradora de
Vigário Geral, onde outra chacina matou 21 pessoas em 1993. Ela lembrava uma
citação de Dom Helder Câmara.
Eu
voltaria ao Alemão outras tantas vezes nos anos seguintes, sempre em contextos
do combo violência e pacificação. Em uma delas, Dilma Rousseff inaugurou o
teleférico, em julho de 2011. O Complexo parecia um show em estádio de futebol,
tamanha a aglomeração para o evento. Era um senso de cidadania (transporte
digno para subir as ladeiras das comunidades) misturado à novidade, tal qual a
abertura de um parque de lazer. Há anos, o teleférico está parado devido à
falta de manutenção.
Em
março de 2012, voltei ao morro para cobrir a visita do Príncipe Harry, da
Inglaterra. “Pouco antes do início da visita do príncipe Harry ao Complexo do
Alemão, na Zona Norte do Rio, neste sábado (10), tropas da Força de Pacificação
foram hostilizadas por alguns moradores da Vila Cruzeiro, comunidade ao lado do
Complexo. Grupos arremessaram garrafas, tijolos, pedras e pedaços de pau contra
os agentes e efetuaram cerca de 40 disparos”, dizia a matéria que escrevi.
Menos
de um ano e meio após a pacificação, o projeto das UPPs já dava os sinais da
sua fragilidade e do que viria nos anos seguintes. Neste 29 de outubro de 2025,
em entrevista coletiva, Cláudio Castro fez questão de rechaçar o projeto das
unidades de Polícia Pacificadora: “Isso não é uma UPP 2”. O que fica do
planejamento de segurança do Rio em 2025 é um rastro de corpos e, novamente, a
ausência do Estado no dia seguinte ao massacre de mais de uma centena de
brasileiros.
Fonte:
Por Maria Martha Bruno, da Agência Pública

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