LUTA
DE CLASSES: As Graças da desigualdade
Já
alertou Odete Roitman: “Você sabe muito bem que eu não suporto vir aqui.
Deslocamento é uma questão de hierarquia: fica parado quem pode, se desloca
quem tem juízo”.
Quem
detém de poder nem sempre se mostra enquanto vilão. Em alguns casos, até gostam
de se fazer de mocinhos para confundir as relações de poder. Fazem uso
frequente das balas da desigualdade, aquelas que passam horas na boca em
eventos políticos e científicos, onde exaltam os planos, projetos e desejos de
combate às desigualdades. Suas agendas profissionais são sempre próximas às
suas casas, uma vez que foram suas bisavós que fundaram as instituições que
frequentam junto de seus amigos de ensino fundamental, médio e superior. Em
alguns casos, mais do que amigos, cônjuges. O clube do Bolinha e da Luluzinha
tem pecha de instituto, de interesse público, mas não passa de um pedágio com
guarita para filtrar os indesejados, aqueles que não têm o mesmo tom de pele,
traços físicos, roupas, acessórios e a feição de “mocinho” que, na verdade, te
enxerga como um invasor de terras. A contradição é que estes mesmos mocinhos
acham terrível o movimento que criminaliza as ocupações de sem teto, mas quando
se trata de compartilhar dos seus espaços de poder é que a luta de classes
desperta. O nepotismo é uma prática estrutural dos espaços de decisão, dos
espaços de poder, pois garantem vida longa aos herdeiros ao passo que
desqualifica a competência profissional de pessoas negras.
A nova
novela das 21h, substituta de Vale Tudo, parece buscar a denúncia da
desigualdade com mais determinação do que a trama anterior, a despeito dos
posicionamentos racistas e corruptos de Odete Roitman. Com os escândalos de
saúde pública durante a pandemia de Covid-19, é certeiro contar uma história em
que se protagoniza a vulnerabilidade da população favelada em meio aos esquemas
de corrupção das elites, sobretudo aquelas que têm grande interesse de
intervenção nas favelas, ou mesmo o seu extermínio. Não é coincidência que
Paraisópolis seja a mais visada por certos grupos em São Paulo, uma vez que
está inserida no território das elites dominantes junto às mansões do Morumbi e
muito perto da centralidade financeira.
Depois
de décadas de telenovelas retratadas em São Paulo em que a emissora carioca
tratou as classes médias paulistanas enquanto a base da pirâmide social,
atribuindo a condição de periferia às famílias brancas de bairros como Santana,
Mooca, Penha, Belém, Casa Verde e Tatuapé, Três Graças escancarou as escarpas
da Serra da Cantareira logo em sua abertura, onde se acomodaram as favelas da
Brasilândia, que gozam de uma das vistas mais impressionantes da metrópole,
sobretudo quando introduzida nas vozes de MC Gui da Norte e MC Vinny. A
paisagem da imponente periferia rompe com o imaginário de turistas desatentos,
que ainda acham que as vistas da cidade se dão apenas do alto dos edifícios da
área central. A mensagem é clara: essas são as verdadeiras periferias e elas
também são parte de São Paulo, a metrópole reconhecida pelo mercado financeiro
e imobiliário sediado nas margens do Rio Pinheiros.
As
telenovelas brasileiras são obras abertas e operam junto às reações do público,
como catalisadoras da realidade em uma obra de ficção. Somos espectadores de
nós mesmos ao consumir tramas que espelham a sociedade brasileira, amalgamada
em uma espécie de sadismo com as desigualdades sociais. É comum atribuir força
às mulheres “guerreiras” que sobem e descem diariamente escadarias enormes do
alto de morros ou no fundo das baixadas, onde estão as favelas, pegam
transporte público lotado e sequer têm tempo para cuidar da própria saúde. Na
esteira do neoliberalismo, a meritocracia neutraliza a guerra social do país ao
atribuir força às mulheres relegadas ao sofrimento por parte de um Estado
dominado e operado pelas e para as elites. Continuamos espectadores de um
sofrimento que nos afeta em coletivo, anestesiados pelo sadismo que pouco nos
permite sair às ruas e gritar contra as desigualdades, micros e macros. O
Brasil que se espanta com a pobreza do continente africano ou com as castas
sociais da Índia se fantasia de palhaço, do carnaval ao halloween.
Em um
país em que rico é sempre o outro, como muito bem pontua Michel Alcoforado, em
que elites se fantasiam de classes médias em suas palavras progressistas,
vivemos uma espécie de distopia do espetáculo. É o que nos leva a concordar com
Sueli Carneiro, ao dizer que “eu, entre esquerda e direita, continuo sendo
preta”. O lado mais progressista das elites costuma torcer o nariz para os
evangélicos, ao passo que a população negra é maioria nesta religião. Diante da
urgência de ampliar os estudos sobre a população negra, em especial a sua
história borrada pelas violências da colonização, temos que ter cuidado para
não reduzir a negritude ao que apenas uma parte da população (sobretudo branca)
acredita ser digno ou suficientemente negro. O mesmo é válido ao que por muito
tempo a sociedade fez com a população LGBTQIAPN+, ao tratá-la de modo caricato
e esvaziado de humanidade.
Se a
colonização nos legou um profundo conhecimento do continente europeu, ela
também nos legou a ignorância sobre o continente africano, provocando demandas
por um cuidadoso processo pedagógico para construir e difundir estes saberes. O
deslocamento não é um mero problema de mobilidade urbana entre casa e trabalho,
mas um efeito da organização territorial pelos grupos dominantes. Desde os
encontros sociais mais simples até os eventos de maior escala, inclusive
aqueles que têm a política urbana como temática, seguem a lógica de forçar a
maioria a ir até o seu território, onde devemos reverenciá-los como os “donos
do saber”.
Como
bem indagou a atriz Taís Araújo, “estamos em um país que acha Odete Roitman,
falando absurdos, uma fada sensata. E aí? A gente não vai olhar criticamente
para esse país?”.
A
telenovela pode contribuir com o enfrentamento às desigualdades, sobretudo
quando trata com reverência as periferias metropolitanas e suas complexidades,
entre negritude, trabalho, educação, saúde, religiosidades, desafios e
esperanças. Contudo, mudar esta estrutura demanda tornar desconfortável a vida
dos mais privilegiados. Estariam eles dispostos a isso? A chacina ocorrida na
zona norte do Rio de Janeiro no último dia 28, teve seus ecos de prazer em uma
parte da população. O espetáculo da “guerra às drogas” e da “guerra às facções”
foi desenhado com rigor através de cada marcador de violência, despertando o
gozo de agentes políticos e setores da sociedade que flertam com o extermínio
das favelas e a legalização da pena de morte. Sejamos sinceros: não é uma
delícia viver na desigualdade?
Fonte:
Por Lucas Chiconi Balteiro, em Le Monde

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