segunda-feira, 3 de novembro de 2025

A jornada de dias a pé para fugir de violência no Sudão: 'Cenas brutais'

Abalado, arranhado e apenas com a roupa do corpo, Ezzeldin Hassan Musa descreve a brutalidade das Forças de Apoio Rápido (RSF) do Sudão após o grupo paramilitar assumir o controle da cidade de el-Fasher, na região de Darfur.

Ele conta que seus combatentes torturaram e assassinaram homens que tentavam fugir.

Agora na cidade de Tawila, deitado exausto em uma esteira sob um mirante, Ezzeldin é uma das milhares de pessoas que conseguiram chegar a um local relativamente seguro após escapar do que a ONU descreveu como violência "horrível".

Na quarta-feira (29/10), o líder das RSF, General Mohamed Hamdan Dagalo, admitiu "violações" em el-Fasher e disse que elas seriam investigadas. Um dia depois, um alto funcionário da ONU afirmou que as RSF haviam notificado a prisão de alguns suspeitos.

A cerca de 80 km (50 milhas) de el-Fasher, Tawila é um dos vários lugares para onde aqueles que tiveram a sorte de escapar dos combatentes das RSF estão fugindo. "Saímos de El-Fasher há quatro dias. O sofrimento que encontramos pelo caminho foi inimaginável", diz Ezzeldin.

"Fomos divididos em grupos e espancados. As cenas eram extremamente brutais. Vimos pessoas sendo assassinadas na nossa frente. Vimos pessoas sendo espancadas. Foi realmente terrível."

"Eu mesmo fui atingido na cabeça, nas costas e nas pernas. Me bateram com varas. Queriam nos executar completamente. Mas quando surgiu a oportunidade, fugimos, enquanto outros à nossa frente foram detidos."

Ezzeldin conta que se juntou a um grupo de fugitivos que se abrigaram em um prédio, movendo-se à noite e, às vezes, literalmente rastejando pelo chão em um esforço para permanecerem escondidos.

"Nossos pertences foram roubados", diz ele. "Celulares, roupas - tudo. Literalmente, até meus sapatos foram roubados. Não sobrou nada.

"Passamos três dias sem comer enquanto caminhávamos pelas ruas. Pela misericórdia de Deus, conseguimos."

Moradores de Tawila disseram à BBC que os homens que faziam a jornada tinham uma probabilidade particularmente alta de serem submetidos à vigilância das Forças de Apoio Rápido (RSF), com combatentes visando qualquer pessoa suspeita de ser um soldado.

Ezzeldin é uma das cerca de 5.000 pessoas que se acredita terem chegado a Tawila desde a queda de el-Fasher no domingo (26/10).

Muitos fizeram toda a jornada a pé, viajando durante três ou quatro dias para fugir da violência.

Um jornalista freelancer baseado em Tawila, que trabalha para a BBC, realizou uma das primeiras entrevistas com alguns daqueles que fizeram a jornada.

Perto de Ezzeldin está sentado Ahmed Ismail Ibrahim. Ele está com o corpo enfaixado em vários lugares.

Ele conta que seu olho foi ferido por um ataque de artilharia e que deixou a cidade no domingo, após receber tratamento no hospital.

Ele e outros seis homens foram parados por combatentes das Forças de Apoio Rápido (RSF).

"Quatro deles foram mortos na nossa frente. Bateram neles e os mataram", diz ele, acrescentando que foi baleado três vezes.

Ahmed descreve como os combatentes exigiram ver os celulares dos três que restaram vivos e vasculharam seus aparelhos, procurando mensagens.

Um combatente, diz ele, finalmente disse: "Tudo bem, levantem e vão embora". Eles fugiram para o mato.

"Meus irmãos", acrescenta, "não me deixaram para trás."

"Caminhamos por cerca de 10 minutos, descansamos por 10 minutos e continuamos até encontrarmos paz."

Na tenda ao lado, na clínica administrada pela organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), Yusra Ibrahim Mohamed descreve a decisão de fugir da cidade após a morte de seu marido, um soldado do exército sudanês.

"Meu marido era da artilharia", diz ela. "Ele estava voltando para casa e foi morto durante os ataques."

"Mantivemos a calma. Então os confrontos e ataques continuaram. Conseguimos escapar."

"Saímos há três dias", diz ela, "nos afastando em direções diferentes das áreas de artilharia. As pessoas que nos guiavam não sabiam o que estava acontecendo."

"Se alguém resistisse, era espancado ou roubado. Levavam tudo o que você tinha. As pessoas podiam até ser executadas." "Vi corpos mortos nas ruas."

Alfadil Dukhan trabalha na clínica da MSF.

Ele e seus colegas têm prestado atendimento de emergência aos que chegam - entre eles, diz ele, estão 500 que precisam de tratamento médico urgente.

"A maioria dos recém-chegados são idosos, mulheres ou crianças", diz o médico.

"Os feridos estão sofrendo, e alguns deles já sofreram amputações."

"Então eles estão realmente sofrendo muito. E estamos tentando apenas lhes dar algum apoio e algum atendimento médico."

Os que chegaram esta semana a Tawila juntam-se às centenas de milhares que fugiram das ondas anteriores de violência em el-Fasher.

Antes de ser tomada pelas RSF no domingo, a cidade esteve sitiada por 18 meses.

Os que ficaram presos lá dentro foram bombardeados por uma saraivada de artilharia mortal e ataques aéreos enquanto o exército e os paramilitares lutavam por el-Fasher.

A população também foi mergulhada em uma grave crise de fome devido a um bloqueio de suprimentos e ajuda imposto pelas RSF.

Centenas de milhares de pessoas foram deslocadas em abril, quando as Forças de Apoio Rápido (RSF) assumiram o controle do campo de Zamzam, próximo à cidade, que na época era um dos principais locais de acolhimento de pessoas forçadas a fugir dos combates em outras regiões.

Alguns especialistas expressaram preocupação com o número relativamente baixo de pessoas que chegam a lugares como Tawila neste momento.

"Este é, na verdade, um ponto de preocupação para nós", diz Caroline Bouvoir, que trabalha com refugiados no vizinho Chade para a agência humanitária Solidarités International.

"Nos últimos dias, chegaram cerca de 5.000 pessoas, o que, considerando que acreditamos que havia cerca de um quarto de milhão de pessoas ainda na cidade, obviamente não é muita gente", afirma.

"Vemos as condições em que se encontram aqueles que chegaram. Estão extremamente desnutridos, desidratados, doentes ou feridos, e claramente traumatizados com o que viram na cidade ou na estrada."

"Acreditamos que muitas pessoas estão presas em diferentes locais entre Tawila e el-Fasher, sem conseguir avançar, seja por causa de sua condição física ou pela insegurança na estrada, onde milícias infelizmente atacam pessoas que tentam encontrar um refúgio seguro."

Para Ezzeldin, o alívio de ter chegado em segurança é atenuado pelos temores por aqueles que ainda estão atrás dele na jornada.

"Minha mensagem é que as estradas públicas devem ser protegidas para os cidadãos", implora ele, "ou que ajuda humanitária seja enviada às ruas."

"As pessoas estão em estado crítico - não conseguem se mover, falar ou pedir ajuda. A ajuda deve chegar até elas, porque muitas estão desaparecidas e sofrendo."

<><> 'Não posso me dar ao luxo de salvar os dois gêmeos': como guerra no Sudão deixou uma mãe com uma escolha impossível

Touma não come há dias. Ela permanece sentada em silêncio, com os olhos vidrados, enquanto olha fixamente para a enfermaria do hospital.

Em seus braços, imóvel e gravemente desnutrida, está sua filha de três anos, Masajed.

Touma parece insensível ao choro das outras crianças ao seu redor. "Eu queria que ela chorasse", diz a mãe de 25 anos, olhando para a filha. "Ela não chora há dias."

O Hospital Bashaer é um dos últimos hospitais em funcionamento na capital do Sudão, Cartum, devastada pela guerra civil que dura desde abril de 2023. Muitos viajaram horas para chegar aqui e receber atendimento especializado.

A enfermaria de desnutrição está lotada de crianças fracas demais para lutar contra a doença, com suas mães ao lado de seus leitos, indefesas.

O choro aqui não pode ser acalmado e cada um deles é profundo.

Touma e sua família foram forçados a fugir após os combates entre o exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido (RSF, nas siglas em inglês) paramilitares chegarem à sua casa, a cerca de 200 km a sudoeste de Cartum.

"[As RSF] tiraram tudo o que tínhamos — nosso dinheiro e nosso gado — das nossas mãos", diz ela. "Fugimos apenas com nossas vidas."

Sem dinheiro ou comida, os filhos de Touma começaram a sofrer.

Ela parece atordoada ao relatar a vida anterior deles. "Antigamente, nossa casa era cheia de coisas boas. Tínhamos gado, leite e tâmaras. Mas agora não temos nada."

O Sudão vive atualmente uma das piores emergências humanitárias do mundo.

Segundo a ONU, três milhões de crianças menores de cinco anos sofrem de desnutrição aguda. Os hospitais que restam estão sobrecarregados.

O Hospital Bashaer oferece atendimento e tratamento básico gratuitos.

No entanto, os medicamentos essenciais para as crianças na ala de desnutrição devem ser pagos por suas famílias.

Masajed é gêmea; ela e sua irmã Manahil foram levadas juntas ao hospital. Mas a família só tinha condições de pagar antibióticos para uma criança.

Touma teve que fazer a escolha impossível: escolheu Manahil.

"Gostaria que ambas pudessem se recuperar e crescer", sua voz embargada pela dor falha, "e que eu pudesse vê-las caminhando e brincando juntas como faziam antes".

"Só quero que as duas melhorem", diz Touma, embalando sua filha moribunda.

"Estou sozinha. Não tenho nada. Eu só tenho Deus."

As taxas de sobrevivência aqui são baixas. Para as famílias desta ala, a guerra levou tudo. Elas ficaram sem nada e sem meios para comprar os remédios que salvariam seus filhos.

Ao sairmos, o médico diz que nenhuma das crianças desta ala sobreviverá.

Em toda Cartum, a vida das crianças foi reescrita pela guerra civil.

O que começou como uma erupção de combates entre forças leais a dois generais – o chefe do exército, general Abdel Fattah al-Burhan, e o líder da RSF, Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti – logo tomou conta da cidade.

Por dois anos – até março passado, quando o exército retomou o controle – a cidade foi tomada pela guerra, com combatentes rivais se enfrentando.

Cartum, outrora um centro de cultura e comércio às margens do Rio Nilo, se tornou um campo de batalha. Tanques invadiram os bairros. Caças rugiam sobre suas cabeças. Civis ficaram presos entre fogo cruzado, bombardeios de artilharia e ataques de drones.

É nessa paisagem devastada, em meio ao silêncio da destruição, que a voz frágil de uma criança se ergue dos escombros.

Zaher, de 12 anos, caminha em meio aos destroços, passando por carros incendiados, tanques, casas destruídas e balas esquecidas.

"Estou voltando para casa", ele canta baixinho para si mesmo enquanto sua cadeira de rodas rola sobre cacos de vidro e estilhaços. "Não consigo mais ver minha casa. Onde fica minha casa?"

Sua voz, frágil, mas determinada, contém tanto um lamento pelo que foi perdido, quanto uma esperança silenciosa de que um dia ele possa finalmente voltar para casa.

Em um prédio que agora está sendo usado como abrigo, a mãe de Zaher, Habibah, me conta como era a vida sob o controle das RSF.

"A situação era muito difícil", diz ela. "Não conseguíamos acender as luzes à noite — era como se fôssemos ladrões. Não acendíamos fogueiras. Não nos mexíamos à noite."

Ela está sentada ao lado do filho em um quarto com várias camas de solteiro.

"A qualquer momento, seja dormindo ou tomando banho, em pé ou sentado, você os encontra [as RSF] respirando no seu pescoço."

Muitos fugiram da capital, mas Zaher e sua mãe não tinham como sair. Para sobreviver, vendiam lentilhas nas ruas.

Então, certa manhã, enquanto trabalhavam lado a lado, um drone caiu sobre eles.

"Olhei para ele e ele estava sangrando. Havia sangue por toda parte", diz Habibah. "Eu estava perdendo a consciência. Me forcei a ficar acordada porque sabia que, se desmaiasse, o perderia para sempre."

As pernas de Zaher estavam gravemente danificadas. Após horas de agonia, eles conseguiram chegar ao hospital.

"Eu continuei rezando: 'Por favor, Deus, tire a minha vida em vez das pernas dele'", ela chora.

Mas os médicos não conseguiram salvar as pernas dele. Ambas tiveram que ser amputadas logo abaixo do joelho.

"Ele acordava e perguntava: 'Por que você deixou que cortassem minhas pernas?'" Ela olha para baixo, com o rosto cheio de remorso. "Eu não conseguia responder."

Tanto Habiba quanto o filho choram, atormentados pela lembrança do que aconteceu com eles. A situação piora ao saber que próteses poderiam dar a Zaher uma chance de viver sua antiga infância, mas Habiba não tem condições financeiras para isso.

Para Zaher, a lembrança do que aconteceu é muito difícil de ser contada.

Ele compartilha apenas um sonho simples. "Gostaria de ter pernas protéticas para poder jogar futebol com meus amigos como antes. Só isso."

As crianças em Cartum foram roubadas não somente de suas infâncias, mas também de lugares seguros para brincar e ser jovens.

Escolas, campos de futebol e parquinhos estão agora destruídos, com lembranças fragmentadas de uma vida roubada pelo conflito.

"Era muito bom aqui", diz Ahmed, de 16 anos, olhando ao redor de um parque de diversões destruído.

Estampado em sua camiseta cinza e esfarrapada está um enorme rosto sorridente — a palavra "sorriso" estampada abaixo. Mas sua realidade não poderia estar mais distante desse sentimento.

"Meus irmãos e eu costumávamos vir aqui. Brincávamos o dia todo e ríamos muito. Mas quando voltei depois da guerra, não conseguia acreditar que era o mesmo lugar."

Ahmed agora mora e trabalha aqui, limpando os escombros deixados pela guerra, ganhando 50 dólares (R$ 271) por 30 dias de trabalho contínuo.

O dinheiro ajuda a sustentar a ele, sua mãe, sua avó e um de seus irmãos.

Havia outros seis irmãos, mas, como tantos outros no Sudão que têm familiares desaparecidos, ele perdeu o contato com eles. Ele olha para os próprios pés enquanto nos conta que não sabe onde eles estão ou se algum ainda está vivo.

A guerra destruiu famílias como a dele.

O trabalho de Ahmed lembra a ele sobre isso quase diariamente. "Encontrei os restos mortais de 15 corpos até agora", diz.

Muitos dos restos mortais encontrados aqui já foram enterrados, mas ainda há alguns ossos espalhados.

Ahmed atravessa o parque e pega um maxilar humano. "É assustador. Me faz tremer."

Ele nos mostra outro osso e, segurando inocentemente ao lado da perna, diz: "Este é um osso da perna, como o meu."

Ahmed diz que não ousa mais sonhar com o futuro.

"Desde o início da guerra, tenho certeza de que estou destinado a morrer. Então, parei de pensar no que faria no futuro."

A destruição de escolas colocou o futuro das crianças em risco ainda maior.

Milhões de pessoas não estão mais recebendo educação.

Mas Zaher é um dos poucos sortudos. Ele e seus amigos frequentam a escola em uma sala de aula improvisada, montada por voluntários em uma casa abandonada.

Eles gritam respostas em voz alta, escrevem no quadro, cantam músicas e há até algumas crianças travessas brincando no fundo da sala.

Ouvir o som de crianças aprendendo e rindo, em um país onde os lugares para ser criança são tão limitados, é como néctar.

Quando perguntamos como deveria ser a infância, os colegas de Zaher respondem com a inocência ainda intacta: "Devíamos estar brincando, estudando, lendo."

Mas a lembrança da guerra nunca está longe. "Não deveríamos ter medo das bombas e das balas", interrompe Zaher. "Deveríamos ser corajosos."

A professora deles, Amal, leciona há 45 anos. Ela nunca viu crianças tão traumatizadas.

"Elas foram muito afetadas pela guerra", diz ela.

"A saúde mental deles, o vocabulário deles. Eles falam a língua das milícias. Palavrões violentos, até violência física. Eles carregam paus e chicotes, querendo bater em alguém. Eles ficaram muito ansiosos."

O dano vai além do comportamento.

Com a maioria das famílias sem renda, a escassez de alimentos é devastadora.

"Alguns alunos vêm de lares sem pão, sem farinha, sem leite, sem óleo, sem nada", diz a professora.

E, no entanto, em meio ao desespero, as crianças do Sudão se agarram a momentos fugazes de alegria.

Em um campo de futebol marcado, Zaher se arrasta de joelhos pela terra, determinado a jogar o esporte que mais ama. Seus amigos o incentivam enquanto ele chuta a bola.

"Minha atividade favorita é o futebol", diz ele, sorrindo pela primeira vez.

Quando perguntado para qual time ele torce, a resposta é imediata: "Real Madrid". Seu jogador favorito? "Vinícius".

Jogar de joelhos é extremamente doloroso e pode levar a mais infecções. Mas ele não se importa.

O futebol e suas amizades o salvaram. Trouxeram alegria e uma fuga da realidade para ele. Mesmo assim, ele sonha com pernas protéticas.

"Gostaria que me consertassem, para que eu pudesse ir a pé para casa e para a escola", diz Zaher.

 

Fonte: BBC News na África

 

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