Como
a tradição soviética de informantes ressurgiu na Rússia após invasão da Ucrânia
"Sim,
eu escrevi às autoridades para que se encarregassem dela."
Com
estas palavras, o soldado russo aposentado
Valentin Botsvin reconheceu ter denunciado uma compatriota
por "atos desleais" contra o exército do seu país.
Longe
de ter qualquer tipo de arrependimento, o ex-militar defendeu suas ações em
entrevista à BBC.
"Escrevi
muitas cartas [denúncias] e nem todas vieram a público. Fiz porque, agora,
estamos em uma batalha pelos valores humanos [...]. Por isso, estamos travando
esta guerra [na
Ucrânia]", declarou ele.
A
acusação do ex-militar se dirigiu à artista Alisa Gorshenina.
Ela
participou de um vídeo do controverso grupo musical russo Pussy Riot,
questionando a invasão russa ao país vizinho e o tratamento do Kremlin aos
que criticam o conflito.
Em
abril, Gorshenina foi detida e permaneceu 10 dias em um calabouço, de onde saiu
depois de pagar uma multa.
O caso
da artista não é isolado. Ele revela que as delações – uma prática muito comum
na era soviética – estão ressurgindo na Rússia de Vladimir Putin.
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O grande irmão
"O
partido tem um grande exército de informantes voluntários. Temos uma imagem
completa: de todos, todos", declarou Konstantin Chernenko (1911-1985), que
governou a antiga União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas (URSS)
entre 1984 e 1985.
As
denúncias dos cidadãos foram um traço característico do extinto Estado
comunista desde os seus primórdios. A prática foi herdada do regime czarista
anterior, segundo o historiador russo Vladimir Kozlov, no seu artigo
intitulado O Fenômeno da Denúncia.
"A
denúncia, ao lado das queixas às 'autoridades superiores' sobre funcionários e
burocratas, agressores e opressores do povo, substituía frequentemente os
tribunais e constituía a última esperança para o restabelecimento da
justiça", explica o historiador.
Mas foi
em 1922, com a chegada ao poder de Josef Stalin (1878-1953),
que as delações foram institucionalizadas. Elas se expandiram para além do
combate aos "abusos por parte das autoridades e funcionários locais",
para criar um poderoso mecanismo de controle social.
O
próprio Código Penal soviético de 1926 ameaçava de prisão os cidadãos
soviéticos que "não denunciassem um delito contrarrevolucionário
conhecido, preparado ou cometido".
Durante
o chamado "Grande Terror" (os expurgos
ordenados por Stalin na década de 1930), segundo alguns historiadores, morreram
até um milhão de pessoas.
Na
época, casos como o do pioneiro Pavlik Morozov (1918-1932) eram exaltados pelas
autoridades e utilizados para convencer os cidadãos de que deveriam vigiar-se
mutuamente e denunciar qualquer anomalia, não importasse quem a cometesse.
Morozov
era um menino de 13 anos de idade, filho de um alto funcionário municipal na
região dos montes Urais.
Segundo
a versão soviética, ele recorreu à polícia em 1932, para acusar seu pai de
"vender documentos para inimigos do povo". O pai foi preso, mas a
família, indignada, matou o denunciante.
Depois
do colapso da União Soviética, surgiram evidências de que o aparato de
propaganda do país fabricou o caso.
Mas
casos como o de Morozov serviram para que amigos, vizinhos e até familiares se
acusassem perante as autoridades. Muitas vezes, as acusações não traziam nenhum
tipo de evidência e eram apresentadas com objetivos ocultos, aproveitando o
anonimato.
Em
1937, o então jovem burocrata Ivan Benediktov (1902-1983) foi acusado de
"sabotagem" perante a temida NKVD (predecessora da KGB, o serviço
secreto soviético).
Mas,
milagrosamente, Stalin não o enviou para um dos temidos gulags, ou campos de
trabalho forçado. Ele o nomeou Comissário do Povo (Ministro) da Agricultura.
No seu
novo cargo, o funcionário público teve acesso ao processo contra si próprio e
ficou surpreso com o que encontrou.
"Fui
acusado por pessoas que eu considerava meus amigos mais próximos, em quem eu
confiava total e completamente", recordou Benediktov décadas depois,
segundo o artigo A Denúncia como Fenômeno Sociopsicológico: A
Experiência Doméstica da Década de 1930, do filósofo russo Nekhamkin V.
Arkadyevich.
Estudiosos
encontraram, nos arquivos da extinta KGB, evidências de que uma mesma pessoa
enviou mais de 300 denúncias para todo tipo de autoridades. A maioria dessas
denúncias não se sustentava.
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Seguindo os passos de Stalin
Desde o
início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, as delações ressurgiram na
Rússia, novamente fomentadas pelo Kremlin.
"O
povo russo sempre conseguirá distinguir os verdadeiros patriotas da escória e
dos traidores", declarou o presidente russo, Vladimir Putin, um mês depois
do início da sua chamada "operação militar especial".
"Estou
certo de que uma autodesintoxicação natural da sociedade fortalecerá nosso
país", destacou ele.
Imediatamente
em seguida, Putin instou seus compatriotas a expelir os dissidentes "como
um mosquito que entrou acidentalmente na sua boca".
E, para
silenciar qualquer crítica, o governo russo reformulou seu Código Penal,
determinando pena de até 15 anos de prisão às pessoas que difundirem
"informações falsas" e "desacreditarem" o exército russo.
Desde
então, cerca de 1.695 pessoas foram encarceradas por motivos políticos em toda
a Rússia. E outras 3.316 enfrentam acusações penais por se manifestarem ou
expressarem críticas contra o conflito bélico, segundo a organização não
governamental especializada em direitos humanos OVD-Info, qualificada por
Moscou como "agente estrangeiro".
Desde o
início da invasão da Ucrânia até novembro do ano passado, a organização havia
contabilizado 21 julgamentos com origem em denúncias apresentadas por cidadãos
russos. Outras 175 pessoas enfrentavam processos administrativos e mais 79
foram multadas por acusações de deslealdade ou atos similares.
Um caso
que transcendeu as fronteiras da Rússia foi o da médica Nadezhda Buyanova, de
68 anos. Um tribunal a condenou em novembro passado a cinco anos e meio de
prisão, por "espalhar deliberadamente informações falsas" sobre o
exército russo.
A mãe
de um dos pacientes denunciou a pediatra por ter dito que a morte do pai do seu
filho na Ucrânia era justificada por "ser objetivo militar".
Buyanova
negou as afirmações. Mas a acusação da sua delatora, agregada ao fato de que a
artista nasceu na Ucrânia quando o país ainda fazia parte da URSS, foram
evidências suficientes para o julgamento, segundo a agência de notícias
Reuters.
"Eu
havia lido que isso aconteceu com outras pessoas, mas nunca pensei que
ocorreria comigo", lamentou-se Buyanova, no início do seu julgamento.
invasão
da Ucrânia e dezenas foram condenadas à prisão, segundo ativistas
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Silenciando a dissidência
Mas, se
milhões de pessoas foram vítimas das delações no passado, por que elas estão
reaparecendo com tanta força?
"É
uma prática soviética, mas também tem algo a ver com o código genético russo: o
medo e a tentativa de se proteger dos demais a todo custo", explicou há
alguns meses à BBC a professora russo-americana de assuntos internacionais Nina
Khrushcheva, da The New School de Nova York, nos Estados Unidos.
"O
que acho fascinante é a rapidez com que regressou a memória genética russa e
pessoas que não viveram em um determinado período histórico [o stalinismo] agem
repentinamente como se fossem daquela época", concluiu ela.
As
pesquisas dão razão à professora.
Um
estudo da Fundação de Opinião Pública, uma organização alinhada ao Kremlin,
concluiu que 24% dos entrevistados estavam dispostos a informar às autoridades
sobre alguém que expressasse opiniões negativas sobre as operações militares da
Rússia na Ucrânia.
Por
outro lado, 14% afirmaram que denunciariam pessoas que criticassem o presidente
Vladimir Putin.
Voltando
ao caso da artista, Gorshenina reconheceu que passou muito tempo sentindo medo.
"Eu
não sabia se receberia uma visita [das autoridades] e era inquietante ver os
carros passarem, ou os homens com roupas escuras na calçada", contou ela à
BBC. "Eu receava que estivessem me seguindo."
A
artista revelou que o primeiro advogado consultado por ela recomendou que ela
deixasse a Rússia o quanto antes. Mas Gorshenina se recusou.
"Tantos
direitos nos foram arrancados que achei importante ficar", explicou ela.
Mas, atualmente, nenhum museu ou galeria quer exibir o seu trabalho.
Já o
denunciante, o ex-soldado Botsvin, declarou que o processo teria sido evitado
se Gorshenina tivesse se desculpado.
Segundo
a OVD-Info, outros 41 artistas estão presos atualmente na Rússia e 176 se
encontram sob vigilância ou submetidos a pressões – mesmo considerando que o
artigo 29 da Constituição russa garante a liberdade de pensamento e expressão a
todos os cidadãos do país.
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O que nova estátua de Stalin em Moscou mostra sobre tentativa
da Rússia de reescrever a história
"Nem
Deus pode mudar o passado."
O
presidente russo, Vladimir Putin, parece determinado a provar que o poeta grego
Agatão (448 a.C. – 400 a.C.) estava errado ao proferir essa frase.
O
presidente russo persiste em sua estratégia de reescrever o passado de seu país
e reabilitar uma das figuras mais controversas dos últimos tempos: o líder
soviético Joseph Stalin (1878-1953).
O passo
mais recente no plano para tirar da obscuridade o líder comunista, que governou
a antiga União Soviética com mão de ferro por três décadas, foi a inauguração,
em meados de maio, de uma estátua em sua homenagem em Moscou.
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Culto à personalidade
O
monumento a Stalin, que retrata o ex-governante olhando para o horizonte,
ladeado por trabalhadores em adoração e crianças oferecendo-lhe flores, foi
instalado dentro da estação Taganskaya do metrô de Moscou.
A
escultura é uma réplica de outra que adornava a estação na década de 1950 e foi
removida em 1966, segundo o The Moscow Times.
"Especialistas
recriaram a composição com base em fotografias e documentos de arquivo",
informou o jornal moscovita.
O
monumento original foi desmontado durante a chamada
"desestalinização", o processo iniciado após o sucessor de Stalin,
Nikita Khrushchev (1894-1971), denunciar a repressão brutal que o líder
comunista desencadeou contra seus oponentes reais e imaginários, e que ele
atribuiu a uma mistura de paranoia com um culto excessivo à personalidade.
Khrushchev
fez os comentários em 1956, durante o 20º Congresso do Partido Comunista, e, a
partir de então, estátuas de Stalin foram derrubadas, seu nome foi apagado do
hino nacional, e seu corpo, que foi embalsamado e colocado no mausoléu na Praça
Vermelha ao lado do de Lenin, foi enterrado perto dos muros do Kremlin.
No
entanto, com a ascensão de Putin ao poder, a imagem de Stalin começou a ser
recuperada.
E prova
disso é que, nos últimos 25 anos, pelo menos 108 monumentos a Stalin foram
erguidos em toda a Rússia, e o ritmo acelerou desde o início da invasão da
Ucrânia em fevereiro de 2022, disse o historiador russo Ivan Zheyanov ao jornal
The New York Times.
Além
disso, há alguns dias, Putin disse que está considerando renomear a cidade de
Volgogrado, no sul do país, para Stalingrado.
O
anúncio é surpreendente, já que, há alguns anos, o próprio Putin reconheceu os
crimes cometidos por Stalin.
"É
muito importante que todos nós e as gerações futuras conheçamos e nos lembremos
deste período trágico da nossa história, em que grupos sociais e povos inteiros
foram cruelmente perseguidos", disse o presidente na ocasião sobre os
expurgos stalinistas.
O
último monumento ao controverso líder soviético foi inaugurado para coincidir
com o 80º aniversário do Dia da Vitória, quando a Rússia celebra sua vitória
sobre a Alemanha nazista, e com o 90º aniversário da inauguração do Metrô de
Moscou, que entrou em operação durante o regime de Stalin.
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A estratégia parece funcionar
O papel
desempenhado pelo líder soviético na Segunda Guerra Mundial é um dos argumentos
que as atuais autoridades russas usam para reabilitar Stalin, e parece
convincente.
Pelo
menos é o que indicam os depoimentos que o editor da BBC Rússia, Steve
Rosenberg, coletou de alguns cidadãos que ele questionou em Moscou sobre a
homenagem ao ex-governante.
"Acho
que Joseph Stalin é injustamente odiado. Ele fez muito pela nossa nação",
respondeu um jovem.
"Claro
que ele era um tirano, mas mesmo assim provou seu valor como líder",
acrescentou uma mulher de meia-idade.
O
Kremlin está obviamente omitindo aspectos controversos do papel de Stalin antes
e durante a Segunda Guerra, como o fato de ele ter assinado um pacto de não
agressão com a Alemanha nazista em agosto de 1939.
Por
meio do chamado Tratado Molotov-Ribbentrop, Moscou e Berlim não apenas
prometeram não se atacar, como também dividiram a Europa Oriental, começando
pela Polônia, país que semanas depois foi invadido pelas tropas de Adolf
Hitler.
E
quando Rosenberg perguntou aos entrevistados sobre a repressão e os milhares
que pereceram nos "gulags" (campos de concentração e trabalhos
forçados soviéticos), recebeu uma variedade de respostas.
"Não
podemos culpar apenas Stalin por isso, porque tudo fazia parte de um
sistema", disse um jovem.
"Ninguém
é perfeito. Ele provavelmente fez isso porque não tinha outra escolha",
acrescentou um aposentado.
Apenas
um dos entrevistados admitiu que o período stalinista foi "um capítulo
triste da nossa história".
Stalin
foi responsável pelo chamado "Grande Terror", uma onda de expurgos
registrada entre 1936 e 1938, na qual se estima que entre 700 mil e 1,2 milhão
de pessoas morreram, incluindo soldados, intelectuais, membros de minorias
étnicas e camponeses.
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A União Soviética também ressurge
Mas o
governo de Putin parece ter decidido desenterrar não apenas Stalin, mas também
o vasto país que ele governava: a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
(URSS).
"A
URSS ainda existe legalmente", declarou recentemente Anton Kobiakov,
assessor do Kremlin.
Segundo
Kobiakov, o tratado assinado em dezembro de 1991 pelos então líderes da Rússia,
Ucrânia e Bielorrússia — Boris Yeltsin, Leonid Kravchuk e Stanislav
Shushkevich, respectivamente — é ilegal.
"Como
foi o Congresso dos Sovietes que criou a URSS em 1922, ela deveria ter sido
dissolvida por decisão desse mesmo congresso", argumentou.
Por
mais ridículo que isso possa parecer, especialmente porque a URSS não existe
mais como entidade legal há mais de três décadas, a ideia tem apoio entre os
russos nostálgicos.
"A
dissolução foi ilegal, então deveria ser revogada", disse ao editor da BBC
um ultranacionalista que se manifestava na Praça Vermelha de Moscou com uma
bandeira vermelha com a foice e o martelo.
Em
2021, uma pesquisa do Levada Center constatou que 63% dos russos — incluindo o
próprio Putin — consideraram a dissolução da URSS um "erro".
Mas
qual a relevância disso hoje? Por exemplo, segundo o assessor Kobyakov, o
conflito na Ucrânia é uma questão interna, não uma guerra entre dois Estados.
"Queremos
retornar às fronteiras que tínhamos em 1945 e acabar com esta guerra",
disse um veterano do Exército Vermelho a Rosenberg.
No
entanto, a maioria dos russos reconhece que a ressurreição do Estado fundado
por Lenin parece difícil.
"Não
acho que seja realista na atual situação política, porque todos os países que
costumavam fazer parte da URSS agora são independentes e autônomos. Eles
gostariam de retornar à União? Acho que não", disse um entrevistado.
Há
anos, Putin vem reinterpretando a história de seu país. Assim, em 2022, ele
chegou a questionar a própria existência da Ucrânia.
"A
Ucrânia moderna foi criada completa e inteiramente pela Rússia, mais
especificamente pela Rússia bolchevique e comunista", disse ele na época.
"Esse
processo começou quase imediatamente após a revolução de 1917, e Lenin e seus
colaboradores o fizeram da maneira mais desastrosa em relação à Rússia:
dividindo-a, arrancando pedaços de seu próprio território histórico",
acrescentou.
Rosenberg
considera improvável que "acordemos um dia com a URSS de volta". No
entanto, ele alerta que a estratégia do Kremlin parece "ser uma tentativa
das autoridades russas de mudar o passado para tentar justificar o
presente".
Fonte:
BBC News Mundo

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