Denise
Assis: Um círculo vergonhoso prepara 2026
Para os
que não assinam ou não têm obrigação de ler os jornalões, como nós, do ramo, eu
resolvi reproduzir, porque apenas comentado não se tem noção de até onde está
indo a intenção de destruírem as instituições nesse país e colocar logo a
placa: “sob nova direção”.
“Mais
da metade dos brasileiros diz ter vergonha dos ministros do STF (Supremo
Tribunal Federal), aponta pesquisa Datafolha. Segundo o instituto, o índice
daqueles que declaram ter orgulho do tribunal é de 30%, enquanto o de vergonha
bate em 58%”.
E aí,
tal como a colega Helena Chagas (cascuda de ver as reviravoltas de Brasília),
postou no X, eu pergunto: mas com que intenção alguém elabora perguntas que
induzem pessoas a refletir sobre tal questão?
E aí os
fofos explicam: “A pesquisa perguntou aos entrevistados se eles tinham
"mais orgulho do que vergonha ou mais vergonha do que orgulho" de uma
série de instituições, grupos e pessoas”.
Ah!
Entendi. E isso nesse momento contribui para quê??? Me pergunto. (Certamente
para fazer com que o ministro Flávio Dino fique vermelho, constrangido, e pare
de investigar as emendas impositivas) ...
Mas vão
além: “Os três Poderes amargaram índices de vergonha similares, com 56%
declarando o sentimento a respeito do presidente Lula (PT), 58% pelos deputados
atuais, e 59%, pelos senadores”.
Só
falta contratarem a Sandra de Sá para entoar o refrão de seu grande sucesso: “ô
joga fora no lixo! Ô joga fora no liiiixo”.
A
propósito, com o fito de passar o máximo de credibilidade, esclarecem ao
distinto público:
“O
Datafolha entrevistou 2.004 pessoas em 136 municípios em 10 e 11 de junho. A
margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para
menos”.
Ou
seja, “alugaram a paciência” de mais de duas mil pessoas para montar um cenário
que leva a população a pensar no que ela não queria, a constatar o que não
contribui para nada, a não ser para manter em fogo brando a ideia de que está
tudo ruim, nada presta, vamos botar tudo abaixo porque só uma guinada à direita
constrói. É isso mesmo?
Não
apenas. A um ano e meio das eleições de 2026, já há um jogo sendo jogado desde
o início do ano, mas que se intensifica, à medida que o tempo avança. Como já
escrevi e comentei aqui, no 247, se em 2018 a mídia tradicional fez pressão
para tirar Luiz Inácio Lula da Silva da disputa, abrindo espaço para um
candidato da ultradireita – Jair Bolsonaro é fruto do trabalho intenso da mídia
naquele momento -, desta vez ela não quer errar de novo e se expor. Delegou.
Nada de
fazer carga direta e aberta em seus noticiosos, contra o governo de turno.
Desta
vez, há uma estratégia bem montada. Sim. Estratégia. Empresas de lobby, como
por exemplo a “Esfera”, promovem tardes de debates, chamando figurinhas
carimbadas – toda a corriola neoliberal - para palestrar e expor suas
teses/reivindicações (com apoio ou em parceria com grandes jornais: Valor, O
Globo, Estadão e Folha. No dia seguinte, essas opiniões estão estampadas nas
páginas ou ilustrando lives de seus comentaristas).
Monta-se
o noticiário a partir do que foi dito e defendido nas tardes regadas a boa
bebida e canapés sofisticados. Todo esse conteúdo é jogado para a sociedade. E
tome de ideias de interesse da elite. Foi assim que soubemos de pérolas como a
defendida pelo ex-presidente do Banco Central e atual megainvestidor, Armínio
Fraga. Sem corar, receitou: seis anos de congelamento do salário-mínimo e as
contas públicas estariam resolvidas. Ou a mais nova: é preciso promover uma
“mudança estruturante” – está na boca de nove em cada dez comentaristas, a
expressão -, que no duro significa: desatrelar o benefício dos aposentados do
aumento do salário-mínimo. (Sempre ele, que já é mínimo, porque é destinado à
base da pirâmide).
No bojo
das receitas contra os desvalidos, vem também o dedo em riste para o governo
gastador, pouco afeito a “ajustes” e a “cortar na própria carne”, outra fala
que adoram. Pronto. Está montada semanalmente a cantilena que cai no Congresso,
vira discurso e é repetida à exaustão nas redes, nos memes, nos grupos de zap,
nas igrejas pentecostais.
Isso
transforma o governo num verdadeiro saco de pancadas, principalmente no
Congresso, onde deputados e senadores radicais da ultradireita embaralham o
jogo, brecando projetos de interesse da sociedade. (É preciso criar
indisposição da base contra o presidente Lula, que se bate pela redução das
desigualdades e enfrenta ali uma turba estridente). E, ato contínuo, lançam no
ar uma pesquisa.
É como
um conjunto de vasos comunicantes. A, monta o seminário; B publica notícias
sobre o pensamento neoliberal dos “iluminados”; C – leia-se comentaristas,
badalam o conteúdo publicado. O lixão cai nas redes e lá vem o pelotão de
pesquisadores colher o resultado do que foi ministrado na veia da sociedade
incauta. “Aconteceu, vira manchete”.
Enquanto
isso... Nos diversos canais de TV, repete-se à exaustão o nome do candidato dos
sonhos, exibindo a ansiedade frente à indefinição da direita quanto a quem
levarão para as urnas em 2026. A principal tarefa é desidratar Lula. E, para
isso, como disse acima, há um jogo em curso que consiste no seguinte: o
“pesquisismo”. Desta vez a mídia sai limpinha e faz cara de paisagem. Afinal,
estão apenas noticiando o que as pesquisas colhem do que foi plantado. Um
círculo vicioso. Ou melhor, vergonhoso.
• Presidencialismo sob ataque: Lênio
Streck denuncia “ornitorrinco institucional” e achaques do parlamento
Em contundente participação no programa Boa
Noite 247, transmitido pelo canal da TV 247 no YouTube, o jurista e professor
Lênio Streck fez uma análise profunda e crítica do atual sistema político
brasileiro, apontando o que chama de "fagocitose" do presidencialismo
pelo parlamento. Durante a entrevista, Streck foi incisivo ao afirmar: “Temos
hoje um regime presidencialista fagocitado pelo parlamento, que transforma e
desvirtua o regime, tornando-o um sistema sem responsabilidades, ficando apenas
com os bônus”. Segundo ele, o sistema atual permite que o Congresso concentre
poder sem assumir os ônus correspondentes, impedindo o presidente da República
de exercer plenamente seu mandato.
<><>
Emendas impositivas e “ornitorrinco institucional”
O
jurista destacou a inconstitucionalidade das emendas parlamentares impositivas
— especialmente as chamadas “emendas Pix” — que segundo ele, minam a
governabilidade ao subtrair do Executivo o controle do orçamento. “Não se
governa num sistema presidencialista com um sistema paralelo, um
parlamentarismo-ornitorrinco. Não vai funcionar”, declarou.Streck lembrou que
há uma ação judicial em curso, ajuizada pelo advogado Walfrido Warde em nome do
PSOL, com parecer dele próprio, questionando a validade dessas emendas. Uma
liminar que havia sido concedida pelo ministro Flávio Dino, referendada por
unanimidade no STF, foi ignorada após acordos políticos, apontou. “O governo
tinha a liminar na mão e deu no que deu”, lamentou.
<><>
STF e o direito de governar
O
jurista comparou o contexto brasileiro com o dos Estados Unidos, afirmando:
“Com todos os defeitos dos EUA, a Suprema Corte americana acabou de dizer que
Trump tem direito a governar, certo ou errado. Aqui, precisa-se dizer: Lula tem
direito a governar. Se errar, quem julga é o povo, não o parlamento”.Streck
também afirmou que o Congresso Nacional está usurpando funções do Executivo e
criando sabotagens orçamentárias: “As emendas impositivas tiram mais de R$ 100
bilhões, e ao mesmo tempo o Congresso derruba um decreto que permitiria
arrecadar R$ 20 bilhões. Essa matemática não fecha”.
<><>
Ameaças golpistas e impunidade
Um dos
trechos mais graves da entrevista foi quando Streck alertou para a repetição de
golpes no país, associando a impunidade de hoje à possibilidade de novas
rupturas institucionais: “O sucesso da 14ª tentativa de punir golpistas vai
definir se teremos uma 15ª. E desta vez, talvez não seja apenas uma
tentativa”.Ele criticou duramente a fala do senador Flávio Bolsonaro, que
condicionou apoio político a um indulto ao pai, Donald Trump-style, com
eventual uso da força contra o STF caso a medida seja considerada
inconstitucional. Para Streck, essa fala é grave e deveria ser objeto de
inquérito do Ministério Público. “O espectro do autoritarismo paira sobre a
democracia brasileira”, alertou.
O papel
do Supremo Tribunal Federal
Ao ser
questionado sobre o ativismo do STF, Streck foi direto: “O Supremo só age
quando é provocado. Não há um outdoor em Brasília dizendo ‘Supremo em
liquidação, entre com uma ação e ganhe dois habeas corpus’”.
Para
ele, é a omissão do Congresso que força o Judiciário a agir. Citou como exemplo
recente a decisão da Corte sobre as apostas esportivas (bets), que se arrastava
há anos por conveniência da extrema direita.
<><>
Reforma política e distorções de representação
Streck
também comentou o aumento do número de deputados na Câmara Federal, apontando
uma distorção representativa herdada da ditadura e mantida pela Constituição de
1988: “Os pequenos estados, que somam 21 milhões de habitantes, elegem 80
deputados. São Paulo, com 46 milhões, elege 70. Isso é antirrepublicano”,
criticou.
Ele
lembrou que já houve tentativa judicial contra essa distorção, promovida pelo
ex-governador gaúcho Alceu Collares, mas sem sucesso, devido ao entendimento de
que normas do constituinte originário não podem ser consideradas
inconstitucionais.
<><>
Segurança pública como ponto nevrálgico
Encerrando
sua participação, Streck afirmou que o governo precisa assumir o combate ao
crime como prioridade. “É a segurança, estúpido!”, repetiu diversas vezes,
evocando uma das suas figurinhas favoritas no debate político. “O povo tem
direito fundamental de não ser assaltado”, disse, sugerindo que a PEC da
segurança e medidas duras contra o crime são imprescindíveis para recuperar o
apoio popular.
A
entrevista de Lênio Streck é um alerta contundente sobre os riscos de
esgarçamento institucional no Brasil e a necessidade urgente de reafirmação da
autoridade do Executivo e dos limites constitucionais entre os Poderes. Em sua
análise, a democracia brasileira só se consolidará com responsabilização dos
golpistas, revisão do sistema orçamentário e uma profunda reforma do arranjo
político que hoje paralisa o país.
• “O Brasil tem hoje o Congresso mais
hostil desde 2003”, afirma Guido Mantega
O
ex-ministro comparou o atual cenário ao de 2003, início do governo Lula, e
destacou que, naquela época, apesar de o PT ter eleito uma bancada minoritária,
a correlação de forças permitia articulações com setores do centro e de uma
direita que, segundo ele, era “mais civilizada”. “O PSDB era o principal
partido de oposição, não jogava sujo como joga essa direita, e não estava
aparelhado nem dominava a comunicação”, disse.
Mantega
enfatizou a diferença de contexto entre os dois períodos. “Naquela época, a
internet não tinha esse peso. O governo não tinha maioria no Congresso, mas
havia um movimento popular forte, sindicatos organizados, uma população
trabalhadora sindicalizada que dava sustentação política ao governo Lula”,
observou.
Para o
ex-ministro, o atual governo enfrenta um cenário distinto e mais restritivo. “A
direita conseguiu reduzir os poderes de qualquer governo nacional. A correlação
de forças é outra. A oposição atual é mais agressiva, mais estruturada, e tem
domínio sobre parte importante da comunicação e das redes sociais.”
Ele
também apontou a despolitização da sociedade brasileira como um fator
relevante. “Houve uma despolitização. O movimento sindical perdeu força. Os
trabalhadores querem ser autônomos, não querem mais trabalho com carteira
assinada. Houve mudanças. E esse pessoal é conservador mesmo. Pobre é
conservador.”
Mantega
ressaltou que essa mudança sociopolítica está inserida em um contexto mais
amplo. “O problema é que isso está acontecendo no mundo todo. Você vê isso na
Europa, na América.”
Ao
final, o ex-ministro alertou para os efeitos dessa nova composição do Congresso
sobre as possibilidades de governabilidade. “Eles [a direita radical]
conquistaram corações e mentes, inclusive dos que eram seguidores do Lula, do
PT. É uma situação mais difícil. Mas é preciso enfrentar.”
• Pesquisa explica maior força política
das direitas. Por Eduardo Guimarães
O
instituto entrevistou 2.004 pessoas, em 136 municípios, entre 10 e 11 de junho.
A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para
menos.
Essa
pesquisa Datafolha foi divulgada na sexta-feira (27) e a mesma questão foi
feita sobre os Três Poderes, que registraram índices semelhantes:
• 56% declaram vergonha em relação ao
presidente Lula (PT);
• 58% sentem vergonha pelos deputados
atuais;
• 59% têm vergonha dos senadores.
Só que
a percepção (vergonha ou orgulho) dos magistrados do STF é fortemente alinhada
à preferência político-partidária dos entrevistados.
Entre
apoiadores declarados de Bolsonaro, a vergonha em relação ao tribunal atinge
82%; apenas 12% se declaram orgulhosos dos ministros.
Entre
os que declaram preferência pelo PL, a taxa de vergonha chega a 91%; apenas 5%
sentem orgulho.
Entre
eleitores do presidente Lula, os ministros são motivo de orgulho para a
maioria: 52%; 36% dizem ter vergonha; 12% não sabem.
Entre
os que preferem o PT, o orgulho supera a vergonha: 53% contra 36%.
Se você
não notou o que quero dizer expondo essa pesquisa, a situação é pior do que eu
imaginava, porque está muito clara a falta de foco e de sagacidade (ingrediente
vital na política) entre os eleitores de esquerda.
Desenhando:
como é possível um eleitor de esquerda atacar o STF vendo o tribunal triturar a
extrema-direita e manter relação de colaboração com o governo Lula para
combater o golpe 2.0 (o sequestro do Parlamento pelo bolsonarismo)?!
É óbvio
que a extrema-direita está muito mais focada nos seus objetivos que a esquerda,
até porque também há muito esquerdista que avalia mal o presidente de esquerda
por não entender que ele está sitiado pela extrema-direita no Congresso.
Não
será com propaganda contra a extrema-direita que se vai virar esse jogo, será
fazendo a esquerda usar o cérebro. Simples assim.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário