terça-feira, 1 de julho de 2025

Denise Assis: Um círculo vergonhoso prepara 2026

Para os que não assinam ou não têm obrigação de ler os jornalões, como nós, do ramo, eu resolvi reproduzir, porque apenas comentado não se tem noção de até onde está indo a intenção de destruírem as instituições nesse país e colocar logo a placa: “sob nova direção”.

“Mais da metade dos brasileiros diz ter vergonha dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), aponta pesquisa Datafolha. Segundo o instituto, o índice daqueles que declaram ter orgulho do tribunal é de 30%, enquanto o de vergonha bate em 58%”.

E aí, tal como a colega Helena Chagas (cascuda de ver as reviravoltas de Brasília), postou no X, eu pergunto: mas com que intenção alguém elabora perguntas que induzem pessoas a refletir sobre tal questão?

E aí os fofos explicam: “A pesquisa perguntou aos entrevistados se eles tinham "mais orgulho do que vergonha ou mais vergonha do que orgulho" de uma série de instituições, grupos e pessoas”.

Ah! Entendi. E isso nesse momento contribui para quê??? Me pergunto. (Certamente para fazer com que o ministro Flávio Dino fique vermelho, constrangido, e pare de investigar as emendas impositivas) ...

Mas vão além: “Os três Poderes amargaram índices de vergonha similares, com 56% declarando o sentimento a respeito do presidente Lula (PT), 58% pelos deputados atuais, e 59%, pelos senadores”.

Só falta contratarem a Sandra de Sá para entoar o refrão de seu grande sucesso: “ô joga fora no lixo! Ô joga fora no liiiixo”.

A propósito, com o fito de passar o máximo de credibilidade, esclarecem ao distinto público:

“O Datafolha entrevistou 2.004 pessoas em 136 municípios em 10 e 11 de junho. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos”.

Ou seja, “alugaram a paciência” de mais de duas mil pessoas para montar um cenário que leva a população a pensar no que ela não queria, a constatar o que não contribui para nada, a não ser para manter em fogo brando a ideia de que está tudo ruim, nada presta, vamos botar tudo abaixo porque só uma guinada à direita constrói. É isso mesmo?

Não apenas. A um ano e meio das eleições de 2026, já há um jogo sendo jogado desde o início do ano, mas que se intensifica, à medida que o tempo avança. Como já escrevi e comentei aqui, no 247, se em 2018 a mídia tradicional fez pressão para tirar Luiz Inácio Lula da Silva da disputa, abrindo espaço para um candidato da ultradireita – Jair Bolsonaro é fruto do trabalho intenso da mídia naquele momento -, desta vez ela não quer errar de novo e se expor. Delegou.

Nada de fazer carga direta e aberta em seus noticiosos, contra o governo de turno.

Desta vez, há uma estratégia bem montada. Sim. Estratégia. Empresas de lobby, como por exemplo a “Esfera”, promovem tardes de debates, chamando figurinhas carimbadas – toda a corriola neoliberal - para palestrar e expor suas teses/reivindicações (com apoio ou em parceria com grandes jornais: Valor, O Globo, Estadão e Folha. No dia seguinte, essas opiniões estão estampadas nas páginas ou ilustrando lives de seus comentaristas).

Monta-se o noticiário a partir do que foi dito e defendido nas tardes regadas a boa bebida e canapés sofisticados. Todo esse conteúdo é jogado para a sociedade. E tome de ideias de interesse da elite. Foi assim que soubemos de pérolas como a defendida pelo ex-presidente do Banco Central e atual megainvestidor, Armínio Fraga. Sem corar, receitou: seis anos de congelamento do salário-mínimo e as contas públicas estariam resolvidas. Ou a mais nova: é preciso promover uma “mudança estruturante” – está na boca de nove em cada dez comentaristas, a expressão -, que no duro significa: desatrelar o benefício dos aposentados do aumento do salário-mínimo. (Sempre ele, que já é mínimo, porque é destinado à base da pirâmide).

No bojo das receitas contra os desvalidos, vem também o dedo em riste para o governo gastador, pouco afeito a “ajustes” e a “cortar na própria carne”, outra fala que adoram. Pronto. Está montada semanalmente a cantilena que cai no Congresso, vira discurso e é repetida à exaustão nas redes, nos memes, nos grupos de zap, nas igrejas pentecostais.

Isso transforma o governo num verdadeiro saco de pancadas, principalmente no Congresso, onde deputados e senadores radicais da ultradireita embaralham o jogo, brecando projetos de interesse da sociedade. (É preciso criar indisposição da base contra o presidente Lula, que se bate pela redução das desigualdades e enfrenta ali uma turba estridente). E, ato contínuo, lançam no ar uma pesquisa.

É como um conjunto de vasos comunicantes. A, monta o seminário; B publica notícias sobre o pensamento neoliberal dos “iluminados”; C – leia-se comentaristas, badalam o conteúdo publicado. O lixão cai nas redes e lá vem o pelotão de pesquisadores colher o resultado do que foi ministrado na veia da sociedade incauta. “Aconteceu, vira manchete”.

Enquanto isso... Nos diversos canais de TV, repete-se à exaustão o nome do candidato dos sonhos, exibindo a ansiedade frente à indefinição da direita quanto a quem levarão para as urnas em 2026. A principal tarefa é desidratar Lula. E, para isso, como disse acima, há um jogo em curso que consiste no seguinte: o “pesquisismo”. Desta vez a mídia sai limpinha e faz cara de paisagem. Afinal, estão apenas noticiando o que as pesquisas colhem do que foi plantado. Um círculo vicioso. Ou melhor, vergonhoso.

•        Presidencialismo sob ataque: Lênio Streck denuncia “ornitorrinco institucional” e achaques do parlamento

 Em contundente participação no programa Boa Noite 247, transmitido pelo canal da TV 247 no YouTube, o jurista e professor Lênio Streck fez uma análise profunda e crítica do atual sistema político brasileiro, apontando o que chama de "fagocitose" do presidencialismo pelo parlamento. Durante a entrevista, Streck foi incisivo ao afirmar: “Temos hoje um regime presidencialista fagocitado pelo parlamento, que transforma e desvirtua o regime, tornando-o um sistema sem responsabilidades, ficando apenas com os bônus”. Segundo ele, o sistema atual permite que o Congresso concentre poder sem assumir os ônus correspondentes, impedindo o presidente da República de exercer plenamente seu mandato.

<><> Emendas impositivas e “ornitorrinco institucional”

O jurista destacou a inconstitucionalidade das emendas parlamentares impositivas — especialmente as chamadas “emendas Pix” — que segundo ele, minam a governabilidade ao subtrair do Executivo o controle do orçamento. “Não se governa num sistema presidencialista com um sistema paralelo, um parlamentarismo-ornitorrinco. Não vai funcionar”, declarou.Streck lembrou que há uma ação judicial em curso, ajuizada pelo advogado Walfrido Warde em nome do PSOL, com parecer dele próprio, questionando a validade dessas emendas. Uma liminar que havia sido concedida pelo ministro Flávio Dino, referendada por unanimidade no STF, foi ignorada após acordos políticos, apontou. “O governo tinha a liminar na mão e deu no que deu”, lamentou.

<><> STF e o direito de governar

O jurista comparou o contexto brasileiro com o dos Estados Unidos, afirmando: “Com todos os defeitos dos EUA, a Suprema Corte americana acabou de dizer que Trump tem direito a governar, certo ou errado. Aqui, precisa-se dizer: Lula tem direito a governar. Se errar, quem julga é o povo, não o parlamento”.Streck também afirmou que o Congresso Nacional está usurpando funções do Executivo e criando sabotagens orçamentárias: “As emendas impositivas tiram mais de R$ 100 bilhões, e ao mesmo tempo o Congresso derruba um decreto que permitiria arrecadar R$ 20 bilhões. Essa matemática não fecha”.

<><> Ameaças golpistas e impunidade

Um dos trechos mais graves da entrevista foi quando Streck alertou para a repetição de golpes no país, associando a impunidade de hoje à possibilidade de novas rupturas institucionais: “O sucesso da 14ª tentativa de punir golpistas vai definir se teremos uma 15ª. E desta vez, talvez não seja apenas uma tentativa”.Ele criticou duramente a fala do senador Flávio Bolsonaro, que condicionou apoio político a um indulto ao pai, Donald Trump-style, com eventual uso da força contra o STF caso a medida seja considerada inconstitucional. Para Streck, essa fala é grave e deveria ser objeto de inquérito do Ministério Público. “O espectro do autoritarismo paira sobre a democracia brasileira”, alertou.

O papel do Supremo Tribunal Federal

Ao ser questionado sobre o ativismo do STF, Streck foi direto: “O Supremo só age quando é provocado. Não há um outdoor em Brasília dizendo ‘Supremo em liquidação, entre com uma ação e ganhe dois habeas corpus’”.

Para ele, é a omissão do Congresso que força o Judiciário a agir. Citou como exemplo recente a decisão da Corte sobre as apostas esportivas (bets), que se arrastava há anos por conveniência da extrema direita.

<><> Reforma política e distorções de representação

Streck também comentou o aumento do número de deputados na Câmara Federal, apontando uma distorção representativa herdada da ditadura e mantida pela Constituição de 1988: “Os pequenos estados, que somam 21 milhões de habitantes, elegem 80 deputados. São Paulo, com 46 milhões, elege 70. Isso é antirrepublicano”, criticou.

Ele lembrou que já houve tentativa judicial contra essa distorção, promovida pelo ex-governador gaúcho Alceu Collares, mas sem sucesso, devido ao entendimento de que normas do constituinte originário não podem ser consideradas inconstitucionais.

<><> Segurança pública como ponto nevrálgico

Encerrando sua participação, Streck afirmou que o governo precisa assumir o combate ao crime como prioridade. “É a segurança, estúpido!”, repetiu diversas vezes, evocando uma das suas figurinhas favoritas no debate político. “O povo tem direito fundamental de não ser assaltado”, disse, sugerindo que a PEC da segurança e medidas duras contra o crime são imprescindíveis para recuperar o apoio popular.

A entrevista de Lênio Streck é um alerta contundente sobre os riscos de esgarçamento institucional no Brasil e a necessidade urgente de reafirmação da autoridade do Executivo e dos limites constitucionais entre os Poderes. Em sua análise, a democracia brasileira só se consolidará com responsabilização dos golpistas, revisão do sistema orçamentário e uma profunda reforma do arranjo político que hoje paralisa o país.

•        “O Brasil tem hoje o Congresso mais hostil desde 2003”, afirma Guido Mantega

O ex-ministro comparou o atual cenário ao de 2003, início do governo Lula, e destacou que, naquela época, apesar de o PT ter eleito uma bancada minoritária, a correlação de forças permitia articulações com setores do centro e de uma direita que, segundo ele, era “mais civilizada”. “O PSDB era o principal partido de oposição, não jogava sujo como joga essa direita, e não estava aparelhado nem dominava a comunicação”, disse.

Mantega enfatizou a diferença de contexto entre os dois períodos. “Naquela época, a internet não tinha esse peso. O governo não tinha maioria no Congresso, mas havia um movimento popular forte, sindicatos organizados, uma população trabalhadora sindicalizada que dava sustentação política ao governo Lula”, observou.

Para o ex-ministro, o atual governo enfrenta um cenário distinto e mais restritivo. “A direita conseguiu reduzir os poderes de qualquer governo nacional. A correlação de forças é outra. A oposição atual é mais agressiva, mais estruturada, e tem domínio sobre parte importante da comunicação e das redes sociais.”

Ele também apontou a despolitização da sociedade brasileira como um fator relevante. “Houve uma despolitização. O movimento sindical perdeu força. Os trabalhadores querem ser autônomos, não querem mais trabalho com carteira assinada. Houve mudanças. E esse pessoal é conservador mesmo. Pobre é conservador.”

Mantega ressaltou que essa mudança sociopolítica está inserida em um contexto mais amplo. “O problema é que isso está acontecendo no mundo todo. Você vê isso na Europa, na América.”

Ao final, o ex-ministro alertou para os efeitos dessa nova composição do Congresso sobre as possibilidades de governabilidade. “Eles [a direita radical] conquistaram corações e mentes, inclusive dos que eram seguidores do Lula, do PT. É uma situação mais difícil. Mas é preciso enfrentar.”

•        Pesquisa explica maior força política das direitas. Por Eduardo Guimarães

O instituto entrevistou 2.004 pessoas, em 136 municípios, entre 10 e 11 de junho. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Essa pesquisa Datafolha foi divulgada na sexta-feira (27) e a mesma questão foi feita sobre os Três Poderes, que registraram índices semelhantes:

•        56% declaram vergonha em relação ao presidente Lula (PT);

•        58% sentem vergonha pelos deputados atuais;

•        59% têm vergonha dos senadores.

Só que a percepção (vergonha ou orgulho) dos magistrados do STF é fortemente alinhada à preferência político-partidária dos entrevistados.

Entre apoiadores declarados de Bolsonaro, a vergonha em relação ao tribunal atinge 82%; apenas 12% se declaram orgulhosos dos ministros.

Entre os que declaram preferência pelo PL, a taxa de vergonha chega a 91%; apenas 5% sentem orgulho.

Entre eleitores do presidente Lula, os ministros são motivo de orgulho para a maioria: 52%; 36% dizem ter vergonha; 12% não sabem.

Entre os que preferem o PT, o orgulho supera a vergonha: 53% contra 36%.

Se você não notou o que quero dizer expondo essa pesquisa, a situação é pior do que eu imaginava, porque está muito clara a falta de foco e de sagacidade (ingrediente vital na política) entre os eleitores de esquerda.

Desenhando: como é possível um eleitor de esquerda atacar o STF vendo o tribunal triturar a extrema-direita e manter relação de colaboração com o governo Lula para combater o golpe 2.0 (o sequestro do Parlamento pelo bolsonarismo)?!

É óbvio que a extrema-direita está muito mais focada nos seus objetivos que a esquerda, até porque também há muito esquerdista que avalia mal o presidente de esquerda por não entender que ele está sitiado pela extrema-direita no Congresso.

Não será com propaganda contra a extrema-direita que se vai virar esse jogo, será fazendo a esquerda usar o cérebro. Simples assim.

 

Fonte: Brasil 247

 

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