A
arte de mudar para deixar tudo como está
A ideia
de acabar com a reeleição para os cargos executivos e de fixar em cinco anos os
mandatos de todos os políticos eleitos no Brasil, já vinha circulando com tanta
desenvoltura no Congresso que sua aprovação era dada como certa mesmo antes de
ser levada à apreciação da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.
Tanto isso é verdade que a Proposta de Emenda Constitucional que trata do
assunto — apresentada pelo senador Jorge Kajuru (PSD/GO) e relatada por Marcelo
Castro (MDB/PI) — foi aprovada com alguns ajustes, sem envolver polêmicas nem
bate-boca entre a direita e a esquerda, em sessão na quarta-feira passada.
Não
houve sequer a necessidade de contagem de votos. Todos estavam do mesmo lado. E
é aí que o assunto começa a merecer atenção redobrada: sempre que um projeto
dessa envergadura é aprovado sem discussões, sem divergências e sem consultas
públicas, a sociedade pode ter certeza: os interesses dos políticos estão
colocados à frente dos seus — o que não chega a ser uma novidade do Brasil. A
matéria, agora, será levada à apreciação do plenário. Se receber o apoio de
pelo menos 54 dos 81 senadores — número que deverá ser superado sem dificuldade
—, seguirá para a Câmara dos Deputados.
Ali
também não deverá enfrentar maiores resistências. Aliás, é provável que o
presidente da Casa, Hugo Motta (Rep./PB), esteja ansioso, à espera de colocá-la
em discussão. A verdade é que Motta tem se apegado a qualquer desculpa que
encontre pela frente para tentar aliviar a pressão que vem recebendo desde que
decidiu transformar a Mesa Diretora da Câmara numa espécie de despachante dos
interesses do Executivo e do Judiciário junto ao poder Legislativo.
Sem se
preocupar em esconder sua subserviência aos outros dois poderes, Motta tem
resistido com todas as forças ao pedido de instalação da CPI desejada por toda
sociedade para investigar o assalto bilionário aos aposentados do INSS. E, para
completar, finge que o projeto apoiado por boa parte dos deputados, que
pretendem anistiar os condenados pelas manifestações do dia 8 de janeiro,
simplesmente não existe. Desde que se sentou na cadeira de presidente, ele nada
mais fez do que subordinar os interesses do Poder Legislativo (e, portanto, a
sociedade que ele deveria representar) aos do Executivo e do Judiciário.
FOGUEIRAS
DE SÃO JOÃO
É
lamentável, mas é a mais pura verdade. Motta não tem se mostrado à altura de
presidir um Legislativo que deve trabalhar em harmonia com os demais, como
estabelece a Constituição, mas que não pode abrir mão de sua independência. Ele
não perde a pose de autoridade, é verdade, mas age como se não passasse de um
ordenança do Executivo e do Judiciário. Só faz o que os outros poderes
consentem que faça e não se cansa de ir atrás de pautas secundárias para dar a
impressão de que ele ainda tem algum poder.
Na
semana passada, por exemplo, enquanto o Brasil cobrava uma atitude do Congresso
em relação ao assalto ao INSS, Motta criou um Grupo de Trabalho que, segundo
ele, terá 45 dias de prazo para elaborar uma proposta de Reforma Administrativa
para o governo federal. Sua Excelência deve ter se dado conta de que a
sociedade, de fato, tem dado sinais de exaustão diante da qualidade lamentável
do serviço público brasileiro — e que os cidadãos adorariam ter pelo menos a
quem reclamar do péssimo atendimento que recebem toda vez que precisam recorrer
ao Estado para qualquer assunto. Isso é verdade.
Acontece,
porém, que a sinceridade da preocupação que o presidente da Câmara manifesta em
relação à qualidade da administração federal cai por terra no momento em que
ele tenta impedir com todo o poder da autoridade de seu cargo que a Casa
investigue a roubalheira no INSS. Se ele estivesse minimamente interessado em
melhorar a qualidade do serviço público, seria natural que desse preferência à
solução do problema mais urgente, não é mesmo? Só que não.
O que o
assalto aos aposentados tem a ver com a ideia da Reforma Administrativa? Ora,
apenas uma questão de prioridade. Pensar em reformar toda estrutura do serviço
público e, ao mesmo tempo, virar as costas para o problema agudo que, neste
momento, incomoda ao país inteiro é o mesmo que, diante da descoberta de um
vazamento no encanamento da cozinha, o proprietário de um imóvel deixe de
providenciar o conserto do cano furado com a desculpa de que tem o plano de, um
dia, por tudo abaixo e reconstruir a casa tijolo por tijolo.
Em
tempo: o prazo de 45 dias que o presidente da Câmara estabeleceu para a
conclusão da tarefa vence no próximo dia 6 de julho, um sábado. Acontece,
porém, que o Congresso Nacional, como até carpete do Salão Verde sabe, não tem
o hábito de pegar no batente no mês de junho, quando acontecem as festas
tradicionais, dedicadas a Santo Antônio, São João e São Pedro na região
Nordeste. Será que a turma vai deixar de comparecer ao forró e às fogueiras que
começam a arder já no próximo final de semana para cumprir a missão que foi
dada por Motta?
Seja
como for, se o prazo for mesmo cumprido, e sem qualquer discussão sobre a
qualidade das propostas que vierem a ser apresentadas, Motta receberá os
devidos pedidos de desculpas da coluna caso tenha algo a apresentar em julho,
quando se inicia o recesso parlamentar. À primeira, à segunda e à terceira
vistas, a possibilidade de que ele tenha algo a mostrar na data marcada, com
toda sinceridade, é muito próxima de zero.
Num
cenário como esse, receber do Senado um projeto como o que dispõe sobre o fim
da reeleição e a alteração do tempo de mandato dos cargos eletivos, pode trazer
um pouco de paz ao presidente da Câmara. Isso, porém, não elimina as dúvidas em
relação aos interesses que existem por trás do fim da reeleição e da unificação
dos mandatos em cinco anos. Qual é, em primeiro lugar, a necessidade de lidar
com esse problema justamente agora? Outra questão: o que existe de tão ruim no
atual modelo que exija uma mudança tão profunda como a que está sendo proposta?
DEU
TUDO ERRADO
Essas
questões devem ser respondidas por etapas. Vamos lá: as eleições de 2026 darão
início a um processo de mudanças que resultará, a partir do pleito de 2034, na
coincidência de todos os mandatos eletivos do país. Isso mesmo: todos! A ideia
é que o presidente da República, os governadores e os prefeitos de todos os
municípios brasileiros sejam eleitos para períodos de cinco anos — um a mais do
que o mandato atual — e não tenham direito à reeleição. Os senadores, deputados
federais, deputados estaduais e vereadores também mandatos de cinco anos — que,
a exemplo do que acontece atualmente, poderão ser renovados nas eleições
seguintes.
O único
ponto controverso no texto original era o que estendia de oito anos para dez
anos os mandatos no Senado. Alguns senadores de bom senso, como Carlos Portinho
(PL/RJ), Eduardo Girão (Novo/CE) e Jorge Seif (PL/SC), para o efeito devastador
que a aprovação dessa proposta teria sobre a opinião pública e propuseram que o
mandato dos senadores, como os dos demais, fosse fixado em cinco anos.
Felizmente, foram atendidos. Pelos critérios de equalização previstos no
projeto, os senadores eleitos em 2030 terão um mandato de nove anos. Em 2034, o
mandato será de cinco anos. A partir de 2039, cada estado passará a eleger três
senadores a cada eleição.
O
projeto, à primeira vista, tem um objetivo nobre, sobretudo no que diz respeito
aos cargos executivos. Ele parte do princípio de que o instituto da reeleição,
aprovado em 1997, durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, não
deu certo. A ideia que motivou a adoção desse critério partia do princípio de
que um mandato de quatro anos era insuficiente para que o político
apresentasse, aprovasse e executasse projetos relevantes — sendo necessário
mais tempo para realizar tudo o que tinha sido prometido ao povo. Optou-se,
então, por criar um mecanismo que desse ao eleitorado a oportunidade de avaliar
o governo do presidente, dos governadores e dos prefeitos.
O
eleito ganharia o direito de disputar a eleição seguinte e, se vencesse,
poderia ficar mais quatro anos no poder. Seria uma espécie de teste de
qualidade do mandato. Deu tudo errado. Desde que o mecanismo foi posto em
prática, os políticos passaram a se preocupar mais com o próprio futuro do que
com o futuro do país. Ao invés de propor medidas estruturantes, como se espera
dos governantes de um país onde há tanta coisa para fazer, os governantes
eleitos, de um modo geral, se dedicaram a projetos populistas, superficiais e
cada vez mais onerosos para os cofres públicos. “A experiência acumulada em
quase trinta anos de vigência da regra da reeleição não correspondeu às
expectativas”, disse o relator do projeto, senador Marcelo Castro.
VOTAÇÃO
DO ORÇAMENTO
A ideia
de fixar os mandatos do Executivo em cinco anos, induz a uma renovação dos
quadros políticos que é mais difícil no modelo atual e, a princípio, deve ser
recebida como uma mudança positiva. Mas, mais importante do que o tempo do
mandato é o uso que se faz dele. O problema da reeleição não é o tempo
estendido do mandato, mas a forma como os políticos o exercem.
A
pergunta a ser feita é: a culpa pelo fracasso da reeleição é do tempo de
mandato ou da forma com que os políticos brasileiros o exerceram? A comparação
óbvia, nesse caso, é com os Estados Unidos. Desde a eleição de George
Washington, em 1789, todos os presidentes do país foram eleitos para mandatos
de quatro anos, com direito à reeleição. Até 1947, todos os presidentes
poderiam concorrer a quantas eleições quisessem, mas o único que excedeu dois
mandatos foi Franklin D. Roosevelt. Depois dele, cada presidente passou a ter
direito a apenas dois mandatos, consecutivos ou não. Por que um dispositivo que
dá certo há mais de dois séculos nos Estados Unidos não resistiu a três décadas
no Brasil? Por que a reeleição dá tão certo para eles e deu tão errado para o
Brasil?
Todas
as respostas aceitáveis para essa questão passam pela consistência do arcabouço
institucional de cada um dos dois países. Nos Estados Unidos, as atribuições de
cada um dos três poderes são nítidas e os governantes eleitos estão sujeitos a
um acompanhamento atento de toda a sociedade. Desde que cada um faça aquilo que
tem a responsabilidade de fazer, a possibilidade de interferência de um sobre o
outro é mínima e circunscrita a casos de desvios flagrantes da lei. O
Legislativo americano serve para legislar, o Judiciário para cuidar das leis e
o Executivo para tocar o governo.
Não
existe por lá, por exemplo, a hipótese de que o Congresso deixe de aprovar uma
lei simplesmente porque a Suprema Corte pode não gostar da decisão. O
Legislativo americano tem poder diante dos demais. Mas, também, tem obrigações
que podem se voltar contra ele se não forem cumpridas à risca. Um exemplo é o
orçamento. Se a peça não for votada no prazo definido em lei, o governo
simplesmente fica sem recursos para manter a máquina em funcionamento.
Isso
mesmo. Sem autorização legislativa, o dinheiro não pinga nas contas de nenhum
órgão público americano, nem do próprio Congresso. Como essa questão é levada a
sério, os deputados e senadores de lá simplesmente não ousam fazer como os
brasileiros, que tratam o orçamento federal apenas como uma formalidade que
todo ano pode ser empurrada com a barriga e, no ponto de vista deles, parece
destinada apenas a garantir que haja dinheiro para as emendas que eles
apresentam. Nos Estados Unidos, eles discutem a questão a fundo e deliberam
sobre um documento que é executado à risca pelo Executivo. Por aqui, vigora a
farra que todo mundo conhece.
O
sistema dos Estados Unidos é perfeito? Claro que não. Acontece, porém, que, em
qualquer democracia que mereça ser chamada por esse nome, o respeito às
instituições e aos limites de cada uma delas é pré-requisito para o exercício
de qualquer função pública. Por lá, os políticos é que precisam adequar seus
interesses às regras que regem o processo político. No Brasil, quando as
circunstâncias e as regras do jogo deixam de atender às conveniências dos
políticos, mudam-se as leis para que elas possam atendê-los.
FINANCIAMENTO
ELEITORAL
É aí
que as razões que movem os políticos nessa história da unificação dos mandatos
começam a ficar mais claras. Desde que o Legislativo renunciou ao poder de
representar a sociedade e passou a se preocupar quase que exclusivamente em
garantir seu poder de execução orçamentária (função que, em governos sérios, é exclusiva
do Poder Executivo), a questão da duração dos mandatos do presidente, dos
governadores e dos prefeitos tornou-se secundária (para não dizer irrelevante).
Isso
mesmo! A preocupação com a duração de um mandato e com o prazo para a
implantação de projetos de longo prazo só faz sentido num cenário em que as
responsabilidades de uns não se misturam com as dos outros. Na medida em que os
deputados e senadores parecem preocupados exclusivamente em pôr a mão no
dinheiro das emendas para financiar obras de pequeno porte em seus currais
eleitorais, em financiar ONGs tocadas por seus aliados ou em participar da
execução das emendas secretas — em que ninguém sabe o destino do dinheiro —, um
ano a mais de mandato significa, na prática, um aumento de 20% no prazo que os
detentores de mandatos legislativos terão para gastar dinheiro público para
financiar seus próprios interesses.
Uma
outra questão a ser observada nessa história é a das eleições e a da bolada que
os partidos políticos recebem por meio dos indecentes Fundo Partidário e Fundo
Eleitoral. A título de informação, a bolada no ano passado, quando houve
eleições municipais, foi bem polpuda. Foram mais de R$ 4,9 bilhões do fundo
eleitoral e mais ou menos R$ 1,1 bilhão do fundo partidário. Somem-se esses
valores e o resultado, R$ 6 bilhões, é muito parecido com o dinheiro que os
fraudadores do INSS desviaram dos aposentados.
Se é
assim, por que Suas Excelências, que, pelo regime atual, põem a mão numa bolada
desse tamanho a cada dois anos, estariam preferindo fazer uma eleição a cada
cinco anos?
Na
opinião dos defensores da medida, a sociedade brasileira está cansada de viver
em clima de eterna disputa eleitoral e o fim da possibilidade de reeleição fará
com que os políticos passem a se preocupar com as obrigações do mandato
conquistado ao invés de ficarem o tempo todo tomando medidas de caráter
superficial e populista com os olhos voltados para o mandato seguinte.
Isso,
claro, é verdade. O problema é que os políticos brasileiros — como se viu
recentemente na votação da matéria que aumentou para 531 o número de deputados
federais, que atualmente é de 513 — não demonstram a menor preocupação com o
que a sociedade deseja ou deixa de desejar. Eles são incapazes de aprovar uma
única matéria que toque, ainda que superficialmente, em seus privilégios, e
toda e qualquer decisão que tomam em relação aos critérios eleitorais e aos
prazos de mandatos têm como único objetivo tornar para eles a situação mais
fácil do que já é. Ou melhor: de promover mudanças que parecem profundas para,
no final das contas, deixar tudo exatamente como está.
Fonte:
Por Nuno Vasconcellos, em O Dia

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