terça-feira, 1 de julho de 2025

Pepe Escobar: O kabuki do cessar-fogo

Ao final, como seria previsível, o Dono do Circo deu uma de TACO (“Trump Always Chickens Out”, ou “Trump Sempre Amarela”).

Ele entrou em pânico devido a três desdobramentos cruciais de base realista:

1. A mensagem iraniana sobre estar se preparando para fechar o Estreito de Hormuz. A CIA havia avisado Trump de que a China se opunha visceralmente ao bloqueio do Estreito. Essa foi uma das razões, segundo um veterano do Deep State, para Trump ter se decidido a, mesmo assim, lançar sua “espetacular” (sic) operação teatral em Fordow. Mas quando o espectro de um Hormuz bloqueado destruindo a economia global se tornou real, ele deu uma de TACO.

2. O aviso iraniano expresso no bombardeio da base de Al-Udeid, no Catar, a jóia militar da coroa imperial no Oeste Asiático. Até mesmo fontes atlanticistas em Doha confirmam que os danos infligidos à base – evacuada  – foram “monumentais”, e que pelo menos três mísseis atingiram seu alvo. Teerã, indubitavelmente, estava  dizendo: podemos atingir vocês a qualquer hora, em qualquer lugar, com as armas que bem entendermos. E seus lacaios do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) jogarão a culpa em você.  

3. É possível afirmar que a razão principal teria sido a de que os genocidas de Tel Aviv estarem – rapidamente - ficando sem interceptadores; e que, na verdade, todo o sistema da rede de defesa aérea está com problemas. No último ataque significativo dos mísseis iranianos contra a Palestina ocupada, na manhã de segunda-feira, a taxa de interceptação caiu para menos de 50%, e o Irã passou a tomar como alvo a rede elétrica de Israel. A nova diretriz do Irã – ofensiva estratégica, não paciência – teve como objetivo paralisar por completo a economia israelense. Além disso, os genocidas já haviam pedido a Teerã que “pusesse fim à guerra”. Teerã respondeu que a hora ainda não havia chegado. Daí os genocidas pedirem socorro a Papai Trump.

A cadeia de acontecimentos que levou ao cessar-fogo continua obscura. Um importante fator acelerador foi Putin ter se encontrado pessoalmente com o chanceler iraniano Araghchi no Kremlin, na segunda-feira.

Falando em nome do Aiatolá Khamenei, Araghchi pode ter pedido um sólido fornecimento de armas e, principalmente, de sistemas de defesa, embora isso venha a levar tempo, em especial tendo em vista que a parceria estratégica recentemente aprovada tanto pela Duma quanto pelo Majlis de Teerã não é  – oficialmente – uma aliança militar.

Mas segundo fontes de Moscou que foram informadas sobre a reunião, Putin de fato colocou a Rússia no centro de uma possível resolução, deixando Washington de lado, portanto. A Equipe Trump 2.0 se enfureceu. Trump se gabou de que tanto o Irã quanto Israel haviam, quase que simultaneamente, ligado para ele pedindo que providenciasse um cessar-fogo. Bobagem:  só Tel Aviv ligou. Como Putin mais uma vez deixou claro que a Rússia apoiaria o Irã, ele, de forma indireta, ofereceu a Trump uma rampa de saída. 

Como é típico dele, o Dono do Circo entrou na conversa tentando vender um cessar-fogo com sua marca registrada, bem ao estilo reality show. E isso apenas dois dias depois de anunciar, exultante, que o programa nuclear iraniano havia sido “obliterado” (ele insiste em afirmar isso, embora a inteligência dos Estados Unidos admita que o programa talvez tenha sido atrasado em alguns meses”). 

<><> Um tabu supremo foi quebrado 

O Irã aprendeu algumas lições importantes da forma mais dura possível, pagando um preço horrendo. Teerã foi demasiadamente transparente e razoável ao tratar com um bando de gângsters: desde permitir o monitoramento pela Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), que acabou mostrando ser um processo de coleta de preciosas informações de inteligência para Israel, que seriam usadas na escolha de alvos, até acreditar na diplomacia e em honrar compromissos, que foram ignorados sem a menor cerimônia. 

Não há diplomacia quanto se trata de lidar com o Leviatã/Beemote imperial – principalmente quando ele, horrorizado, contempla o apagamento de suas pegadas por todo o Sul Global. 

Em termos internos, entretanto, o Irã está subindo de nível. Há, pelo menos, três facções em confronto: o Aiatolá Khamenei e seu círculo mais próximo mais o Corpo de Guarda da Revolução Islâmica (CGRI); os reformistas, encarnados na mansa presidência de Pezeshkian; e aquilo que pode ser interpretado como os nacionalistas seculares, que querem um Irã forte, mas não uma teodemocracia. 

Agora o CGRI detém todo o poder. A defesa da pátria contra o eixo sionista, que inclui o Império, cristalizou um sentimento generalizado de unidade e orgulho nacional. Todos os setores da população iraniana – 90 milhões, alguém diga para o patético Marco Rubio – se congregaram em torno da bandeira.

Em termos conceituais, o cessar-fogo – que ninguém sabe por quanto tempo irá durar – é desfavorável ao Irã, uma vez que sua crescente capacidade de contenção está agora perdida. Israel terá suas defesas aéreas febrilmente substituídas, enquanto o Irã, sozinho, precisará de meses, e até mesmo anos, para reconstruir. 

O modus operandi imperial continua o mesmo. O Dono do Circo viu que uma monstruosa humilhação era iminente – algo como um Vietnã israelense e, por essa razão, anunciou  um cessar-fogo unilateral e fugiu. 

Entretanto, a configuração para as próximas batalhas mudou. Se  Washington se decidir novamente por escalar, ou vir a recorrer à prática testada de usar o terror por procuração,  o Irã, como o líder de fato da Resistência, irá contra-atacar de forma resoluta. O mito da invencibilidade genocida foi destruído para sempre. O Sul Global inteiro viu, e agora leva esse fato em séria consideração.

Continua aberta a sérios debates a questão de se Teerã acabará por se seguir um modelo Coreia do Norte para se contrapor à imposição – até agora fracassada – de um modelo Líbia e/ou Síria. O enriquecimento de urânio irá continuar. Acrescido de uma reviravolta de enredo tipo filme noir: ninguém sabe onde está o urânio.  

Como se pode prever, o Império do Caos não vai parar. Só quando todo o Sul Global se unir com vontade férrea e forçá-lo a parar. As condições - ainda - não estão colocadas. 

Nas atuais circunstâncias, o verdadeiro cessar-fogo seria entre os Estados Unidos e o Sul Global, institucionalmente liderado pela Rússia-China, pelos BRICS e várias outras organizações multipolares. A chance de as classes dominantes dos Estados Unidos honrarem um cessar-fogo prolongado, se isso vier a acontecer, são menos que zero.  

Quanto ao cessar-fogo Irã-Israel, esse não é o fim da guerra. Ao contrário, trata-se do dúbio final da primeira batalha aberta. Os cães e hienas da guerra estarão de volta, mais cedo ou mais tarde. Haverá sangue – vez após vez. Mas, ao menos, um tabu supremo foi quebrado: aquele culto à morte do Oeste Asiático pode ser ferido de morte. 

¨      Governos autoritários: reinados da mentira e do engano. Por Luis Pellegrini

Na manhã de sexta (27), manchetes dos jornais no mundo todo anunciavam que os três líderes envolvidos na mais recente guerra – uma das mais esdrúxulas em toda a história das guerras – cantavam de galo e declaravam vitória. Em Israel, Netanyahu afirmava ter salvado o mundo de uma iminente hecatombe atômica ao atacar e derrotar o Irã. Em algum lugar bem escondido no Irã, aiatolá Khamenei reivindicava vitória sobre Israel e dizia que os EUA fracassaram em ataque a instalações nucleares iranianas. No ar, voando de Washington para Amsterdã para participar de reunião da OTAN, Donald Trump afirmava merecer nada menos que o Prêmio Nobel da Paz por tudo que tem feito em prol do cessar fogo no Médio Oriente e na Ucrânia.

Diante do quadro, sem saber se rir ou chorar, segui o conselho do filósofo português Agostinho Silva. Ele ensinava que, em tempos de crise de valores, quando a força da mentira ameaça sobrepujar o poder da verdade, é preciso retornar aos clássicos.

E lá fui eu, me lembrar da peça O Soldado Fanfarrão (Miles Gloriosus), de Plauto (século 2 da nossa Era), cuja moral gira em torno da crítica à arrogância, à fanfarronice e à vaidade vazia, especialmente dos que ostentam poder ou status sem ter mérito real. Na comédia, o protagonista, o soldado Pirgopolinices, é um típico fanfarrão: se gaba de sua beleza, valentia e conquistas amorosas, mas na realidade é ridicularizado e enganado por personagens mais astutos, como o escravo Palestrião. No final, o soldado é exposto ao ridículo e enganado, mostrando que a presunção e o orgulho excessivo levam, inevitavelmente, à humilhação.

Plauto me trouxe algum conforto, mas é muito provável que os três protagonistas do atual conflito jamais tenham ouvido falar dele e muito menos assistido à encenação das suas geniais dramaturgias. À parte as razões evidentes do líder iraniano, pois foi ele o primeiro a ser atacado, Trump, Netanyahu e Khamenei são exatamente isso: soldados fanfarrões. Três políticos de vocação autocrata que, como tais, executam governos fortemente marcados pelo uso sistemático da mentira, da desinformação e do engano como estratégia política central. Os três compartilham traços autocráticos, embora atuem em contextos políticos muito diferentes e em graus distintos. Façamos uma breve análise de cada caso separadamente:

1. Donald Trump (EUA)

Contexto: Democracia formal, mas sob crescente tensão institucional durante sua presidência (2017-2021, e agora).

Traços Autocráticos:

  • Deslegitimação da imprensa (“fake news”, “inimigos do povo”)
  • Tentativas de minar a credibilidade das eleições (recusa em aceitar derrota em 2020, alegações falsas de fraude)
  • Concentração de poder em torno de si e lealdade pessoal.Incitação à violência política (ex.: ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021).

Conclusão: Trump só não governou como autocrata pleno, devido aos freios institucionais dos EUA, mas demonstrou intenções e práticas autoritárias claras, o que muitos analistas chamam de “populismo autoritário” ou “autocratização via eleições”.

2. Benjamin Netanyahu (Israel)

Contexto: Democracia parlamentar com tradição institucional, mas em crise recente.

Traços Autocráticos:

  • Tentativas de enfraquecer o Judiciário (propostas de reforma judicial para reduzir poder dos tribunais)
  • Concentração de poder em coligações de extrema-direita e religiosas.Retórica de demonização de opositores e da imprensa
  • Acusações de corrupção pessoal enquanto no poder (no momento está sendo julgado pelo judiciário do seu país)
  • Políticas repressivas em relação aos palestinos, com características de apartheid, segundo algumas organizações internacionais.

Conclusão: Atua dentro de uma democracia, mas com estratégias típicas de líderes autocráticos, principalmente no enfraquecimento das instituições de freio e contrapeso.

3. Ali Khamenei (Irã)

Contexto: Regime teocrático autoritário consolidado.

Traços Autocráticos:

  • Poder absoluto como "Líder Supremo", acima do presidente e parlamento
  • Repressão sistemática à oposição, imprensa e protestos
  • Controle religioso e ideológico sobre o Estado e a sociedade
  • Violações frequentes dos direitos humanos.Processo eleitoral controlado e com candidatos filtrados pelo regime.

Conclusão: É um autocrata clássico, com o poder concentrado e sustentado por repressão e estrutura teocrática.

Todo líder com vocação autocrata cultiva o caos e a desconfiança. Sua estratégia de base não consiste apenas em mentir, mas criar um ambiente onde:

  • Ninguém sabe mais no que acreditar;
  • As instituições democráticas perdem credibilidade

Como é típico em todo e qualquer regime autoritário, não importando a sua coloração ideológica, o próprio líder autocrata aparece como o único “filtro confiável” da verdade. Todos lançam mão da mentira como tática autoritária. Analistas políticos e historiadores, como Timothy Snyder, autor de “Sobre a Tirania”, apontam que: “O uso sistemático da mentira, especialmente da mentira descarada e repetida, é um recurso clássico para enfraquecer a democracia e preparar o terreno para o autoritarismo.”

As consequências desses governos que não apenas recorrem à mentira ocasionalmente, mas fazem dela um pilar estratégico de sua atuação política são deletérias para as sociedades que governam. Um governo baseado na mentira e no engano tem efeitos rápidos e concretos na erosão da confiança nas instituições, no radicalismo da base eleitoral e na polarização extrema das sociedades que estão sob o seu comando.

Em regimes de vocação autoritária a mentira é usada como uma das principais ferramentas de controle social. Ela não serve apenas para enganar, mas para desorientar e desestabilizar a percepção da realidade. Quando as pessoas não sabem mais o que é verdade ou mentira, tornam-se mais vulneráveis à manipulação;menos confiantes nas instituições democráticas; mais dependentes do líder carismático como única “fonte confiável”.

Não à toa Trump, Netanyahu e Khamenei (mas também Bolsonaro, Orbán, Putin e centenas de outros no passado e no presente) repetem incessantemente que “a imprensa é inimiga do povo”. Ao minar a confiança na mídia independente, eles tentam se tornar o único intérprete legítimo da realidade. Para eles, mentir não é apenas um vício, é uma estratégia. O uso sistemático da mentira não visa apenas esconder a verdade: visa destruir a confiança coletiva, desorientar, radicalizar e concentrar poder.

¨      Irã desmascara acusações dos EUA e de Israel sobre fabricação de arma nuclear e denuncia ataques ilegais

Teerã voltou a rejeitar categoricamente as acusações dos Estados Unidos, de Israel e da mídia monopolista ocidental de que estaria desenvolvendo armas nucleares em segredo. Em entrevista concedida à emissora RT no sábado (28), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, afirmou que não há qualquer indício de “enriquecimento de armas” no país e classificou as recentes agressões israelenses e norte-americanas contra instalações nucleares iranianas como “ataques perigosos e injustificáveis”.

Baghaei desmascarou as alegações do governo israelense, que insiste em apontar o Irã como uma suposta ameaça nuclear para a região. “Acho que o Irã deixou claro nas últimas duas ou três décadas que não busca armas nucleares”, afirmou o porta-voz. “Nunca houve enriquecimento de armas no Irã. Por favor, analisem os relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e me mostrem uma única pista ou evidência de que o programa nuclear iraniano esteja se desviando de propósitos pacíficos.”

Os relatórios recentes da própria AIEA reforçam a posição iraniana. Segundo Baghaei, o diretor-geral do órgão internacional, Rafael Grossi, declarou publicamente que a agência “não encontrou nenhuma evidência de um esforço sistemático do Irã para desenvolver armas nucleares”. Ainda assim, o diplomata iraniano criticou o que classificou como a postura ambígua e complacente da AIEA diante das agressões sofridas por Teerã.

<><> Ataques ilegais e silêncio da AIEA

Na última semana, o Irã sofreu novos bombardeios a instalações relacionadas ao seu programa nuclear, atribuídos a Israel e aos Estados Unidos. As ofensivas, segundo Teerã, violam flagrantemente o direito internacional e o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), ao qual o país é signatário.

“O que se espera da AIEA e de seu Conselho de Governadores é que permaneçam leais às suas responsabilidades e mandatos, condenando, de forma inequívoca, os ataques dos regimes americano e israelense às nossas instalações nucleares”, ressaltou Baghaei. Para ele, o silêncio ou a tibieza do organismo internacional diante dessas violações enfraquecem sua credibilidade e alimentam a escalada de tensões no Oriente Médio.

<><> Direito soberano ao uso pacífico da energia nuclear

O porta-voz reiterou que o Irã continuará exercendo seu direito soberano ao uso pacífico da energia nuclear, direito garantido pelo próprio TNP. Ele também denunciou o que chamou de “interpretação perigosa e imperialista” do tratado por parte dos Estados Unidos.

“Os EUA estão oferecendo uma interpretação muito perigosa do TNP – que os Estados em desenvolvimento não têm o direito de usar energia nuclear para fins pacíficos. Isso não é aceitável para nenhum membro responsável e decente do TNP”, afirmou.

Como resposta às provocações e ataques, o Parlamento iraniano aprovou, nesta semana, um projeto de lei para suspender a cooperação com a AIEA. A decisão reflete o sentimento de frustração da sociedade iraniana diante do que considera uma instrumentalização do órgão internacional por potências ocidentais para justificar agressões contra o país.

 

Fonte: Brasil 247

 

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