O
futuro será justo — ou não será sustentável
O setor
de energia é responsável por quase três quartos das emissões globais de gases
de efeito estufa — a principal causa das mudanças climáticas. Para manter o
aumento da temperatura global abaixo de 1,5°C, como previsto no Acordo de
Paris, é urgente uma transformação profunda dos sistemas energéticos:
substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis e sustentáveis. No
entanto, essa transição só será bem-sucedida se for justa. Ou seja, se alinhar
os objetivos climáticos à redução das desigualdades e à promoção do desenvolvimento
sustentável.
O
conceito de transição justa tem ganhado visibilidade em fóruns multilaterais,
como a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e o
G20. Mas ainda sofre com a falta de clareza. Sem um entendimento comum e
mecanismos de implementação concretos, corremos o risco de repetir erros do
passado: políticas climáticas e ambientais que, apesar de bem-intencionadas,
aprofundam desigualdades, ameaçam direitos e ignoram as realidades dos países
em desenvolvimento.
É nesse
contexto que propomos uma definição ampliada e baseada em direitos para
orientar políticas de transição justa. Essa proposta parte de dois diagnósticos
principais. O primeiro é que definições existentes, como os Princípios de
Transições Energéticas Justas e Inclusivas adotados pelo G20 em 2024, embora
importantes, não abrangem a complexidade do tema. O segundo é que, mesmo com
avanços como o estabelecimento do Programa de Trabalho sobre Transição Justa
(JTWP), ainda falta à UNFCCC um arcabouço coerente e instrumentos eficazes para
construir consensos políticos e transformá-los em ação concreta.
O
caminho passa, em primeiro lugar, por estabelecer os requisitos mínimos para
que o processo de mudança para modelos econômicos de baixo carbono promova,
também, a justiça social. Isso poderia ser alcançado, por exemplo, por meio de
Princípios de Alto Nível sobre Transições Justas que, embora possam se inspirar nas diretrizes
do G20, precisam ir além, preenchendo suas lacunas com base em acordos
multilaterais previamente firmados pelos países.
Esses
princípios devem incorporar uma série de
elementos-chave. Entre eles estão a adoção de uma abordagem sistêmica,
que envolva todas as esferas de governo e setores da sociedade; a erradicação
da pobreza energética; e a promoção de diálogo social inclusivo, com
participação ampla e representativa. Também são indispensáveis mecanismos de proteção social abrangentes; a
integração de uma perspectiva interseccional nas políticas de transição e o
respeito aos direitos humanos e ambientais, de povos indígenas e comunidades
tradicionais.
Além
disso, é fundamental assegurar o acesso a financiamento adequado; fomentar
soluções tecnológicas sustentáveis; promover o crescimento econômico inclusivo;
impulsionar a transformação do mercado de trabalho e reduzir desigualdades
domésticas e entre países, em linha com o princípio das responsabilidades
comuns porém diferenciadas, que orienta as negociações internacionais de clima.
Definir
princípios comuns é importante para que os países possuam uma base mínima para
desenvolver seus planos e políticas domésticas de transição, que considerem
também suas especificidades nacionais e locais. Mas isso não basta. É preciso
garantir também o financiamento para políticas e projetos de transição. Por
isso, sugerimos à UNFCCC a criação de um arranjo para apoiar a implementação de
transições justas. Esse mecanismo funcionaria como um espaço de cooperação
entre países em transição e provedores de recursos financeiros, tecnológicos e
de capacitação. Seu objetivo seria garantir apoio político contínuo à promoção
de transições justas, facilitar a mobilização de recursos financeiros e
oferecer instrumentos técnicos e tecnológicos adaptáveis à realidade de cada
país, especialmente os mais vulneráveis.
Esse
seria um passo para que os princípios da transição justa deixem de ser apenas
declarações de boas intenções e passem, de fato, a orientar políticas e
projetos concretos, tanto em nível nacional quanto subnacional.
Para
avançar nessa direção, é urgente reconhecer a necessidade de financiamento
específico e adicional para apoiar transições justas, de forma complementar aos
fundos já destinados à mitigação, adaptação e perdas e danos climáticos. O
Roadmap de Baku a Belém para US$ 1,3 trilhão será apresentado em novembro em
Belém. O documento representa uma oportunidade para reconhecer essa necessidade
financeira e apontar caminhos concretos para que os países promovam a eliminação progressiva dos subsídios aos
combustíveis fósseis, sobretudo aqueles que não contribuem para combater a
pobreza energética.
Nesse
sentido, torna-se fundamental diferenciar os subsídios que garantem acesso
universal à energia limpa daqueles que perpetuam a dependência dos fósseis. Os
primeiros devem ser preservados ou estimulados, enquanto os segundos devem ser
eliminados até o fim desta década, em linha com o Artigo 2.1(c) do Acordo de
Paris. Medidas complementares, como compromissos voluntários ou obrigatórios
para destinar parte dos royalties e lucros do setor fóssil a iniciativas de
transição justa, também podem acelerar esse processo.
A
transição justa não se resume à energia limpa. É, antes de tudo, a
transformação das estruturas econômicas e sociais que geram exclusão, pobreza e
degradação ambiental. Isso requer reconhecer e garantir os direitos de povos
indígenas, trabalhadores informais, comunidades tradicionais, mulheres, jovens
e afrodescendentes — grupos que, frequentemente, são os mais impactados pela
crise climática e os que menos se beneficiam das soluções propostas até aqui.
Priorizar
a proteção de grupos vulnerabilizados exige coragem política, cooperação
internacional e vontade de enfrentar os conflitos inerentes à transição. Mas é
a única forma de garantir que a mudança para economias de baixo carbono não
repita os padrões de injustiça do passado, e sim estabeleça um novo modelo de
desenvolvimento: mais verde, mais justo e verdadeiramente sustentável.
Todas
essas propostas estão detalhadas no policy brief “From the G20 to the UNFCCC:
Pathways to Just and Inclusive Transitions”, recém-lançado pela Plataforma
CIPÓ. Mais do que uma contribuição técnica, trata-se de um convite para que
governos, sociedade civil e instituições financeiras construam consensos,
mobilizem recursos e coloquem a justiça social e os direitos humanos no centro
das decisões climáticas.
A
Convenção da ONU sobre Mudança do Clima reúne as credenciais e a legitimidade
necessárias para articular um consenso internacional em torno do tema. Durante
a conferência preparatória para a COP30, realizada em Bonn, na Alemanha, entre
os dias 16 e 26 de junho, os países aprovaram uma nota informal que reflete uma
visão de transição justa que considera algumas das prioridades do Sul Global.
Entre elas, destaca-se o acesso universal à energia limpa e a garantia dos
direitos de trabalhadores informais e de pessoas dedicadas à economia do
cuidado. No entanto, principalmente devido à resistência de países do Norte
Global, o texto ainda não avança na definição de mecanismos concretos para
orientar e viabilizar essa transição na prática.
Nesse
contexto, será fundamental que a diplomacia brasileira atue de forma
construtiva para facilitar consensos que permitam fazer da COP30 um marco na
corrida por transições justas — não apenas no plano conceitual, mas também em
termos de resultados concretos, em sintonia com a ambição de realizar uma “COP
da implementação”.
O tempo
das promessas já passou. O futuro será justo — ou não será sustentável.
Fonte:
Por Beatriz Mattos e Maiara Folly, no ICL
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