quarta-feira, 2 de julho de 2025

Esmael Morais: Governo coloca a faca nos dentes contra os oligarcas da Faria Lima

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) para garantir a validade do decreto do IOF escancarou o embate entre o Planalto e os mais ricos do país, materializados nos especuladores do sistema financeiro e na velha mídia corporativa.

“Brasil está cansado dessa conversa de cortar políticas sociais, congelar o salário-mínimo e sacrificar os aposentados”, disparou a ministra Gleisi Hoffmann (PT), responsável pela articulação política do governo.

Nos bastidores, Lula foi convencido de que o objetivo dos bilionários paulistas não é apenas barrar o aumento do IOF, mas pavimentar a eliminação política do petista em 2026 — e, junto com ele, o projeto histórico do PT.

A equação dos oligarcas inclui rejeição ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas sem abrir mão do bolsonarismo como ferramenta de poder. Para isso, o nome preferido da elite financeira é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O problema? Tarcísio ainda hesita. Ele sabe que trocar a reeleição praticamente garantida no estado por uma aventura presidencial exige garantias sólidas — começando pela ausência de Lula ou de um Bolsonaro familiar no páreo.

A leitura no Planalto é que, sem essa engenharia, a elite paulistana prefere seguir com sua receita tradicional: sufocar os direitos sociais, garantir o controle do orçamento e, de quebra, pressionar o governo por dentro — como fizeram no segundo mandato de Dilma Rousseff, com Joaquim Levy no comando do Banco Central.

Hoje, o alerta no Planalto é direto: os juros altos e a disputa pelo controle do Orçamento da União seguem como as maiores ameaças à reeleição do PT. No centro dessa tensão está Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, visto com desconfiança dentro do próprio governo por seu histórico de alinhamento aos interesses da Faria Lima.

O cenário externo também lança um recado. A surpreendente vitória de Zohran Mamdani, socialista e muçulmano, nas primárias democratas para prefeito de Nova York mostrou que há fôlego para candidaturas ancoradas na ampliação de direitos sociais — exatamente o que a elite brasileira tenta sufocar.

Para Gleisi Hoffmann, o Brasil não pode seguir empurrando a conta para os mais pobres enquanto os bilionários seguem blindados. “Isso não é debate sério sobre política fiscal; é defesa de privilégios e injustiças”, criticou, mirando diretamente a Faria Lima.

A ministra desmonta a farsa dos discursos sobre responsabilidade fiscal. Segundo ela, não são os investimentos sociais ou em infraestrutura que pressionam a dívida pública, mas sim a política de juros estratosféricos, que deve levar o Brasil a gastar R$ 1 trilhão apenas este ano com o serviço da dívida.

“É uma ciranda maluca, sem sentido, quando a inflação está abaixo da média dos últimos 30 anos”, denunciou Gleisi.

A proposta do governo, agora travada no Congresso, é simples: cobrar mais imposto de quem ganha muito, isentar quem recebe até R$ 5 mil e começar a reverter as isenções fiscais bilionárias que não geram empregos e apenas alimentam a desigualdade.

Mas o Congresso decidiu sustar o decreto do IOF, numa vitória parcial dos oligarcas — e o Planalto partiu para o contra-ataque no STF. A Advocacia-Geral da União (AGU) deve protocolar, nesta terça-feira (1º/7), uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) questionando a derrubada do decreto.

A alegação do governo é que definir as alíquotas do IOF é prerrogativa exclusiva do Executivo. Derrubar o decreto, segundo a AGU, afronta a Constituição e fere o equilíbrio institucional.

O caso está nas mãos do ministro Alexandre de Moraes, relator das ações sobre o tema. Antes mesmo do Planalto, o Psol já havia protocolado um pedido semelhante no STF. [Este caso será a prova definitiva para saber de que lado bate o coração de Xandão].

A crise, no entanto, não se resume aos tribunais. Em vídeo divulgado nesta segunda, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), reagiu à ofensiva do governo e criticou a narrativa de polarização social. “Quem alimenta o ‘nós contra eles’ acaba governando contra todos”, disse ele, num alerta velado ao Planalto.

A própria ministra Gleisi Hoffmann já tem uma resposta pronta para o discurso de Motta, que, outrora, já fora usado para responder ao senador Ciro Nogueira (PP-PI): a extrema direita teme “a polarização da vida real”.

A judicialização da crise do IOF é apenas o sintoma de uma disputa maior: a definição do futuro político e econômico do Brasil — e, com ele, o embate direto entre Lula, a Faria Lima e o projeto de país que estará nas urnas em 2026.

•        Lula critica “rebelião” da elite, defende combate aos privilégios e, emocionado, condena ataques aos programas sociais

Em discurso contundente nesta terça-feira (1), durante o lançamento do Plano Safra 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez duras críticas à resistência de setores da elite econômica à cobrança de impostos mais justos e saiu em defesa dos programas sociais do governo. Visivelmente emocionado, Lula rejeitou as acusações de populismo e reafirmou o compromisso de sua gestão com a responsabilidade fiscal aliada à justiça social. As falas foram registradas pela imprensa presente ao evento em Brasília.

O presidente reagiu à oposição de grupos que têm se mobilizado contra a proposta de tributação de grandes fortunas e rendas elevadas. "Quando a gente coloca que as pessoas que ganham mais de R$ 1 milhão têm que pagar um pouquinho mais, há uma rebelião", afirmou. E complementou: "Estamos querendo que 140 mil pessoas paguem uma parcelinha a mais para beneficiar 10 milhões de pessoas. É tão pouco…".

<><> "A desgraça da doença da acumulação de riqueza"

Lula destacou o contraste entre a fortuna de poucos e a necessidade de muitos, classificando a resistência a uma política fiscal mais equitativa como uma questão de ganância. "Todo mundo é muito bem informado, letrado. Só pode ser ganância, a desgraça da doença da acumulação de riqueza", declarou, ao denunciar a lógica concentradora que, segundo ele, ainda predomina nas decisões econômicas do país.

O presidente fez questão de frisar que sua proposta de reforma tributária, que começa a vigorar apenas em 2027, não trará dividendos eleitorais imediatos. "Vocês acham que eu ia fazer reforma tributária que não vai trazer nenhum benefício para nenhum eleitor até 2026?", questionou. "Os benefícios serão todos para 2027. [...] O que estamos tentando fazer é dar a esse país a cara que ele precisa para chegar a fazer parte do mundo desenvolvido."

<><> Defesa apaixonada dos programas sociais

Ao abordar os ataques aos programas sociais, Lula elevou o tom e demonstrou indignação. Citou nominalmente o BPC, o Bolsa Família e o Pé-de-Meia — este último voltado a evitar a evasão escolar — como iniciativas fundamentais para promover cidadania. "Fico triste quando vejo as pessoas jogarem a culpa em cima dos doentes, do BPC, do Bolsa Família, do Pé-de-Meia, para garantir que 500 mil moleques que desistiam da escola para trabalhar não desistam", afirmou. Em seguida, fez um apelo direto: "Pelo amor de Deus, não desistam. Voltem a estudar, porra. Esse dinheiro que estão recebendo será devolvido em dobro para o Estado quando vocês estiverem formados como cidadãos de primeira classe nesse país."

<><> "Queremos apenas diminuir privilégios"

Encerrando sua fala, Lula defendeu uma reconfiguração do pacto fiscal brasileiro com foco na equidade. "Esse país será o que a gente quiser que ele seja. [...] Para isso é preciso diminuir os privilégios", disse. E concluiu com uma frase que resumiu o espírito de seu discurso: "Ninguém está querendo tirar nada de ninguém. Queremos apenas diminuir os privilégios de alguns para dar um pouco de direitos para os outros."

O presidente também lembrou que, entre 2003 e 2010, seu governo foi o único entre os países do G20 a registrar superávit primário anual, rebatendo críticas sobre responsabilidade fiscal. E destacou que, atualmente, a própria estrutura do novo arcabouço limita o crescimento das despesas públicas a 2,5% ao ano. "Se eu estivesse pensando pequeno, eu ia fazer isso?", provocou.

O pronunciamento de Lula ecoa o embate em curso entre o governo e setores conservadores da economia que resistem à revisão de privilégios fiscais. Em meio ao cenário polarizado, o presidente aposta na transparência, no discurso direto e na defesa dos mais vulneráveis como pilares de sua política econômica.

•        Lula sai em defesa de Haddad e critica Guedes e a hipocrisia do mercado: “por que não cobravam estabilidade fiscal dele?”

Durante discurso inflamado no lançamento do Plano Safra 2025, nesta terça-feira (1º), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saiu em defesa enfática do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e acusou setores do mercado financeiro de adotarem dois pesos e duas medidas ao cobrarem responsabilidade fiscal apenas de governos progressistas. O presidente também criticou duramente o ex-ministro Paulo Guedes, símbolo da política econômica da gestão Bolsonaro, e condenou o que chamou de “rebelião da elite” contra uma tributação mais justa.

 “Poucos países do mundo têm um ministro da Fazenda com a seriedade que o Haddad tem. Esse país teve poucos”, declarou Lula, visivelmente indignado. Em referência direta ao ex-ministro Guedes, afirmou: “Via na televisão a quantidade de bravatas que o Guedes fazia nesse país. Ele nunca pedia favores a ninguém. Sentava em uma feira de forma desaforada, ditava regras, fazia, fazia e fazia. Por que ninguém cobrava estabilidade fiscal do governo passado?”.

<><>  “Vamos pagar o preço por ser honestos”

Em tom pessoal, Lula dirigiu-se diretamente a Haddad para reafirmar sua confiança e exaltar a conduta do ministro. “Haddad, uma coisa que eu aprendi com a minha mãe: a gente paga muito preço por ser honesto. Muitas vezes as pessoas são induzidas a serem desonestas para terem menos problemas. E nós vamos pagar esse preço, Haddad”, disse, emocionado. E completou: “Quando eu deixar essa Presidência quero andar de cabeça erguida”.

Lula também aproveitou para rebater críticas de que a reforma tributária teria fins eleitorais. “Vocês acham que eu ia fazer reforma tributária que não vai trazer nenhum benefício para nenhum eleitor até 2026? Os benefícios serão todos para 2027”, afirmou. “Vocês dariam um presente para o filho de vocês neste ano para usarem só no ano que vem?”.

<><> Rebelião fiscal dos super-ricos e críticas à desoneração sem contrapartida

O presidente reiterou sua defesa da proposta de taxar os mais ricos e setores altamente lucrativos, como apostas esportivas e fintechs, em vez de penalizar os mais pobres. “A gente queria aumentar apenas de 12% para 18% para pessoas que estão ganhando milhões sem fazer nada”, argumentou. E comparou: “Pega a diferença do custo de vocês, que produzem, para o lucro de vocês, e pega a diferença do custo de quem tem uma bet para o lucro dele”.

Segundo Lula, a reação contrária a esse tipo de proposta revela a resistência das elites a qualquer medida que afete privilégios. “A carga tributária desse governo hoje percentualmente é menor do que era em 2011. O que a gente está fazendo não é aumentar imposto. É tentar fazer uma tributação mais justa”, sustentou. E criticou o Senado por aprovar novas desonerações: “Você faz desoneração troco do quê? Vão dar estabilidade no emprego? Vão aumentar salário? Então para quê? Para aumentar o lucro?”.

<><> “Esse país será o que a gente quiser que ele seja”

Lula encerrou o discurso reiterando seu compromisso com um modelo de país mais igualitário, ainda que isso contrarie interesses poderosos. “Esse país será o que a gente quiser que ele seja. É só a gente determinar o tamanho que esse país seja”, afirmou. E resumiu sua proposta: “Ninguém está querendo tirar nada de ninguém. Queremos apenas diminuir os privilégios de alguns para dar um pouco de direitos para os outros. Só isso que queremos”.

O presidente também voltou a defender os programas sociais, como o Bolsa Família e o Pé-de-Meia, e criticou os ataques que buscam culpá-los pelo déficit público. “Fico triste quando vejo as pessoas jogarem a culpa em cima dos doentes, do BPC, do Bolsa Família, do Pé-de-Meia [...] Esse dinheiro que estão recebendo será devolvido em dobro para o Estado quando vocês estiverem formados como cidadãos de primeira classe nesse país”, declarou, dirigindo-se aos jovens beneficiários.

•        Lula cita inconformismo com Selic a 15% e isenta Galípolo: “esse aumento já estava dado”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a criticar, nesta terça-feira (1º), o patamar da taxa básica de juros (Selic), atualmente em 15%, e deixou claro seu descontentamento com a política monetária conduzida pelo Banco Central. No entanto, poupou o novo diretor de Política Monetária da instituição, Gabriel Galípolo, de qualquer responsabilidade pelo cenário atual, ao afirmar que ele apenas herdou decisões anteriores. As declarações foram feitas durante o lançamento do Plano Safra 2025, em Brasília.

Vocês não pensem que eu me conformo com a taxa de juros a 15%”, disse Lula, expressando frustração com o impacto da Selic sobre o crédito, o consumo e os investimentos. Ainda assim, minimizou a participação de Galípolo nas últimas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom): “Mas esse aumento já estava dado. Na verdade, o Galípolo está comendo o prato que recebeu. Não teve nem tempo de trocar de comida. Mas certamente vai trocar”, afirmou.

<><> “Inflação está controlada e dólar começou a cair”

Lula aproveitou o momento para destacar sinais positivos da economia, reforçando que não há justificativa para a manutenção de juros tão elevados. “O dólar começou a abaixar, a inflação está controlada”, declarou, reforçando o argumento do governo de que a atual política monetária é excessivamente restritiva e desconectada da realidade econômica do país.

As críticas à condução do Banco Central não são novas no discurso do presidente, que desde o início do mandato tem questionado a autonomia da instituição, especialmente sob a presidência de Roberto Campos Neto, indicado por Jair Bolsonaro. A nomeação de Galípolo para o colegiado do Copom, no entanto, é vista como uma aposta do governo em mudar gradualmente a orientação do banco.

<><> Pressão política e expectativas futuras

A fala de Lula insere-se num contexto de pressão crescente sobre o Banco Central por parte do governo e de setores produtivos, que vêm apontando os juros altos como um entrave à retomada do crescimento. Ao reforçar que Galípolo ainda não teve tempo de imprimir sua marca, o presidente sinaliza que espera mudanças na condução da política monetária a partir das próximas reuniões do Copom.

A crítica à taxa Selic, portanto, se manteve firme, mas veio acompanhada de um gesto político ao novo integrante do BC, que ainda busca construir pontes entre o governo e o mercado. A expectativa de Lula é clara: uma redução gradual, mas consistente, dos juros no curto prazo.

 

Fonte: Brasil 247

 

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