Caruaru:
um São João das grandes marcas?
Em
1973, um caminhão de som atravessou a estrada entre Caruaru e Vitória de Santo
Antão, municípios do Agreste de Pernambuco, para garantir o São João daquele
ano. A festa era feita nas ruas pelos vizinhos: o caminhão era palco móvel para
o forró tocar, haviam palhoças improvisadas e muitas bandeirinhas no varal. As
cores e texturas do São João vinham de dentro das casas, costuradas por mãos
familiares. Patrocínio, naquele tempo, era gesto de apoio, uma ajuda para que a
festa acontecesse. Antes, o apoio viabilizava a festa. Agora, o apoio a
determina.
Cinquenta
anos depois, os contratos mudaram e mudaram também os critérios. O “Maior São
João do Mundo” passou a funcionar como vitrine de marcas multinacionais, com
estruturas cercadas, palcos gigantes e uma lógica voltada ao show business. O
aconchego do palhoção deu lugar à barreira do camarote. A festa, que nasceu do
povo e para o povo, hoje circula entre marcas e contratos. Artistas ouvidos
pelo Nonada dizem que, na conta dessa transformação, apesar de sustentarem o
espírito da festa, recebem cachês que mal cobrem o transporte até o palco.
Hoje, quem carrega a tradição nas costas dança fora do palco principal.
Em
2025, Caruaru comprometeu mais de R$ 18 milhões com contratações artísticas
para o São João, que começou em abril e encerrou neste sábado (28). Desse
total, cerca de R$ 15,3 milhões — o equivalente a 83% do montante — estão
concentrados em apenas 30 atrações, segundo dados do Painel de Transparência
dos Festejos Juninos, do Ministério Público de Pernambuco (MPPE). O painel
lista, até o momento, 72 atrações contratadas pela Prefeitura de Caruaru. Os
outros 17% do valor total (pouco mais de R$ 2,7 milhões) são divididos entre 42
artistas, muitos deles nomes importantes do forró tradicional, como Santana,
Jorge de Altinho, Forró Cavalo de Pau, Batista Lima e Josildo Sá. Enquanto um
único show de um artista de renome nacional custará R$ 1,1 milhão, bandas de
pífano, com cinco ou mais integrantes, seguem recebendo apenas R$ 1.375 por
apresentação.
“As
grandes bandas, as milionárias, merecem seus cachês, mas temos mestres que
contribuíram tanto para a cultura e morreram na miséria”, pondera o pifeiro e
artista multicultural Wesklei Mardone (40). Ele é mentor da Banda de Pífano da
Inclusão, apenas com cadeirantes, e a banda Arrasta Pife. Segundo Mardone,
embora tenha havido alguma melhora nos últimos anos, os valores seguem
desiguais. “Tantos São Joões só existem porque os mestres e a cultura popular
sempre estiveram presentes.”
Essa
disparidade se intensifica quando se observa a rotina de quem sustenta o
espírito da festa. “Temos uma carga de trabalho grande o mês todo, mas o valor
pago é irrisório”, afirma o sanfoneiro Vinícius Leite, de 25 anos, que se
apresenta nos polos considerados alternativos ao principal, o Pátio de Eventos
Luiz Lua Gonzaga. “Somos a base da cultura. Mas, às vezes, conseguimos um valor
melhor de uma festa privada do que da própria Fundação de Cultura, que tem
muito mais recursos.” Para ele, a lógica de mercado não pode justificar o
abandono. “As pessoas de fora conhecem Caruaru como o Maior São João do Mundo.
Mas por trás dessa vitrine, quem faz a festa acontecer é precarizado.”
Mas
quem são essas pessoas que fazem a festa acontecer? Onde elas estão? Em
Caruaru, o ciclo junino começa ainda em abril, com o São João na Roça. São nas
Zonas Rurais da cidade, que os primeiros festejos tomam forma. Em maio, a festa
chega à cidade e se espalha por 27 polos, dos bairros com as tradicionais
Comidas Gigantes ao Alto do Moura, bairro considerado pela Unesco como o Maior
Centro de Artes Figurativas das Américas, além dos palcos que ficam próximos à
antiga Estação Ferroviária. É nessa multiplicidade que reside a força do São
João.
Mas
apesar da capilaridade, a distribuição de recursos permanece desigual. “O São
João de Caruaru passou por três fases”, explica o historiador Daniel Silva. “A
primeira era rural, ligada às tradições do campo. A segunda foi marcada pela
urbanização e pelo domínio das ruas. Já a terceira, que vivemos hoje, é
institucionalizada e mercantilizada, com forte presença do poder público e da
lógica de mercado.” Nesse percurso, nem todos brilham da mesma forma.
Entre
todos os polos que compõem atualmente o São João de Caruaru, a Estação
Ferroviária ocupa um lugar simbólico. Foi nos entornos da linha do trem, no
Pátio de Eventos, que funcionou por muitos anos um espaço cenográfico que
recriava, uma cidade do interior, a Vila do Forró: tinha a igrejinha, a casa da
rezadeira, o mercado público, a bodega e o coreto onde tocava o tradicional
forró pé de serra. Era ponto de chegada do Trem do Forró, que vinha de Recife
trazendo turistas ao som da sanfona, do triângulo e da zabumba. “Ela
representava o espírito junino da cidade”, afirma o pesquisador e professor da
Universidade Federal de Pernambuco Amílcar Bezerra. “Era onde tradição, memória
e identidade se encontravam.”
Hoje, o
cenário mudou: grandes marcas substituíram a cenografia afetiva por tendas
padronizadas, ativações de patrocinadores e estruturas comerciais. Em 2024,
foram 21 ativações distribuídas pelos polos centrais do festejo. Para Amílcar,
a mudança preocupa. “Essa substituição pode comprometer os sentidos da festa a
médio e longo prazo. A prefeitura terceiriza a administração e a curadoria da
festa para esses grandes patrocinadores e são eles que determinam qual será o
formato da festa. O de grandes palcos e espetáculos é o mais atrativo para a
publicidade. É como se o São João, aos
poucos, deixasse de pertencer à cidade para ser apenas uma vitrine”, critica.
“Se
tirar o trio de forró, a banda de pífano, os bois, a quadrilha, o que resta do
São João?” A pergunta é da caruaruense Vitória Maryellen, conhecida como
Vitória do Pife (24), que este ano se apresentou apenas duas vezes com sua
banda de pífano Caru Camaleão e uma vez com seu show solo. Cada apresentação da
banda rende pouco mais de 1.300 reais, valor dividido entre seis integrantes.
“É mísero. Além de ser pouco, ainda temos que pensar roupa nova para a banda,
consertar instrumentos… É uma realidade dura.”
Segundo
ela, o número de apresentações também caiu, já que no ano passado, a Caru
Camaleão chegou a tocar oito vezes. “É como se nos colocassem porque têm que
colocar. Não é porque gostam da cultura popular”, lamenta o sanfoneiro Vinícius
Leite, para quem a precarização vai além dos cachês. “O grupo que lidero, o
Rivotrio, decidiu não se apresentar esse ano. Tocávamos em lugares sucateados,
sem o mínimo de estrutura. A gente até recebeu convite, mesmo sem estar
inscrito, sem ter passado no edital (o que eu acho um absurdo). Mas recusamos.
Não vale a pena se submeter a esse tipo de situação.” Ele lembra que, enquanto
artistas de renome recebem valores na faixa de centenas de milhares, trios de forró seguem ganhando pouco mais de
mil reais por apresentação.
“Não se
trata de comparar, mas de reconhecer a desigualdade. Somos a linha de frente do
São João, a galera que tá no chão, na entrada, sustentando essa festa. Mas o
que a gente vê é o São João sendo sucateado em troca de vitrine.” Em 2025, a
Prefeitura de Caruaru estimou que o São João movimentaria mais de R$ 600
milhões na economia.
A
vitrine brilha, mas por trás dela, os rostos da cultura esperam, às vezes por
meses, o pagamento por manterem acesa a chama da tradição. Marlene do Forró
(58), homenageada do São João em 2019, ainda aguarda pagamentos do ano passado,
que se acumularam com os deste ano. “Sempre faço por onde ganhar o meu, mas
essa gestão tá demorando muito”, diz. Para ela, a festa perdeu o vínculo com o
povo. “Antigamente, o São João era movido pelos bairros. Hoje, o povo ficou
dependente da prefeitura, do pátio, e assim a tradição vai se apagando.”
O músico Valdemar Neto (25), que vive
exclusivamente da arte, conta que precisa se planejar financeiramente com meses
de antecedência para não depender dos pagamentos atrasados. “Você toca em junho
e começa a receber em agosto — quando paga rápido. Já teve vez de receber em
dezembro”, afirma. Ele costuma guardar parte do que ganha no Carnaval para
bancar o São João. “As contas de julho e agosto não esperam a prefeitura
pagar.”
Para
Valdemar, o problema não é apenas orçamentário, é estrutural: “Falta uma
política pública, uma lei que corrija os cachês dos artistas locais. Todo ano a
gente tem que brigar, escrever projeto, colocar valor X, e eles ligam
oferecendo menos. Se você não topar, outro topa. E assim seguimos, sem direito
a planejamento, sem valorização, sem garantias. ”Sem previsibilidade, o que
sobra ao artista é fazer do improviso um modo de sobrevivência.
Mas a
precariedade não se limita ao bolso, atinge também a manutenção e construção
das memórias. Para Valdemar, a lógica da festa precisa ir além do mercado. “Sou
a favor do patrocínio, a festa também é para movimentar dinheiro, é a festa da
colheita. Mas essas marcas precisam respeitar o nosso povo, patrocinar artistas
locais, pensar em como podem se integrar ao nosso São João sem tirar nossas
características.” A crítica vem de quem vivencia os bastidores há anos. “O que
não pode é a Estação Ferroviária virar um shopping das grandes marcas. A
Vilinha do Forró poderia voltar justamente numa parceria dessas.” Entre lonas e
logomarcas, sobra pouco espaço para os símbolos. E para quem os carrega.
A
mudança não atinge só o palco, mas também os bastidores. O sanfoneiro Vinícius
Leite lembra a transformação do polo Juarez Santiago, que antes ocupava um
espaço estruturado, grande e com boa localização, ao lado do Pátio de Eventos,
e hoje está reduzido a um canto improvisado. “Esse ano colocaram o polo num
lugar apertado, sem cobertura, com som precário e quase sem retorno. Parece um
estande de marca, da Perdigão, pra ser exato, mais do que um palco cultural.”
Segundo ele, a estrutura que antes contava com pelo menos três técnicos agora
funciona com apenas um. “Fica um técnico só fazendo tudo, e mal tem condição de
trabalho. É um processo de sucateamento que atinge todo mundo: artista, equipe,
público.”
Nos
bastidores, técnicos de palco como Nadine Nunes enfrentam jornadas intensas com
pouca estrutura, baixo reconhecimento e quase nenhum suporte. “Em vários
momentos faltam coisas básicas, como água que não chega, alimentação
inadequada, que demora a ser fornecida ou não chega a ser fornecida, falta de
ajuda para deslocamento das equipes até os locais e cachês desvalorizados, que
não correspondem à responsabilidade, ao volume do trabalho e à carga horária
que realizamos.”
Além do
cansaço físico e emocional, Nadine aponta outra ferida: a desigualdade regional
que marca a cadeia técnica da festa. “Quem mora no interior muitas vezes
precisa se deslocar para a capital para poder trabalhar em eventos maiores,
enquanto profissionais da capital conseguem se inserir por todo o estado com
mais facilidade. Isso cria uma discrepância que também precisa ser discutida
quando se fala de fortalecimento da cultura e da cadeia produtiva do São João.”
Essa
lógica atravessa também os símbolos da festa, como o balão, que não brilha mais
com as cores habituais devido à ativação de uma marca. “O polo das quadrilhas
juninas, que antes ocupava um local central e de fácil acesso, foi deslocado
para uma área mais distante, dificultando o acesso dos próprios quadrilheiros,
afastando o público local e os turistas, que perguntaram bastante sobre onde
estavam as apresentações, inclusive”, completa Nunes. No centro da festa, onde
se concentram os maiores fluxos de turistas, não há sequer uma quadrilha se
apresentando.
Na
memória afetiva da fotógrafa Ythalla Maraysa da Silva, conhecida como Mara
(32), a Vila do Forró ainda pulsa como símbolo de pertencimento. Em um post
emocionado nas redes sociais, ela resgatou um vídeo de 1995 que mostrava o
espaço em plena atividade, com comerciantes, forrozeiros e famílias inteiras
circulando entre as casinhas cenográficas.
“Peguei
o finalzinho da Vila do Forró. Em 2011, ela foi demolida com a promessa de ser
reconstruída, e até hoje… nada.” No lugar onde se dançava forró o ano todo,
surgiram estruturas fechadas e padronizadas, criadas para ativação de marcas
patrocinadoras e camarotes. “Cadê os pé de serra? E o forró raiz? Estão sendo
apagados, deixados de lado, mal pagos e substituídos por bandas que, na
essência, não representam a cultura junina”, afirma.
A
indignação de Mara vem também do apagamento cotidiano: “Sinto que somos uma
cidade com um título tão grandioso, mas infelizmente é só de boca. Durante o
ano, procuramos forró e só encontramos um ou dois bares. A Vila do Forró seria
o lugar ideal para manter isso vivo.” Para ela, a revitalização do São João
precisa começar por onde a raiz ainda resiste: nas palhoças de bairro, nas
quadrilhas, nas bandas de mazurca, coco, xaxado, na descentralização dos polos,
no incentivo à arte popular e na ampliação dos pontos de cultura.
Ao som
de Jacinto Silva, ela conclui: “Pisa no chão, pisa ligeiro, quem não pode com a
formiga não assanha o formigueiro”. E deixa o aviso aos “grandões”: cuidado, o
povo tá se assanhando. “O São João ainda é feito do que há de melhor dentro de
nós, é preciso plantar bem para ter uma colheita farta. E fartura, para ela, é
“valorizar o que é nosso, fazer intercâmbios com os vizinhos, alargar a visão
de mundo e alimentar a memória com o que é verdadeiro”. Que os rostos por trás
do forró, das palhoças e das bandas de pífano não sejam mais pano de fundo, mas
protagonistas de uma festa que nasceu deles. E, por eles, ainda resiste.
Fonte:
Por Maryane Martins, especial para o Nonada Jornalismo

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