Breve
história da inveja
Ah, a
inveja! Essa velha e obstinada senhora que insiste em nos acompanhar desde os
primórdios. Dizem que é um veneno, mas cá entre nós, ela tem um certo charme,
não tem? Uma espécie de “personal trainer” da alma, que nos empurra para
frente… ou para o lado, ou para baixo, dependendo do humor. Comecemos esta
“breve história da inveja” pelo começo. Primeiro a luz…ou a palavra. Vamos à
certidão de nascimento dela. “Inveja” vem do latim invidia, que por sua vez
brota do verbo invideo, que significa “ver”. Mas não é um ver qualquer, não! É
um “olhar torto”, um “lançar mau-olhado sobre”. Tipo quando a gente vê o
vizinho com um carro novo e pensa: “Hummm, será que ele pagou à vista ou
parcelou em 60 vezes?” (confesso que o meu é 2013, parcelado em 60 vezes e todo
ferrado). Já era inveja ali, cara leitora, desde os romanos! O prefixo “in-”
nesse “ver” já denunciava a recusa e o ódio intrínsecos a esse olhar. Ou seja,
não basta ver, tem que desgostar da felicidade alheia. Que cousa, não? Diria o bruxo do Cosme Velho.
E não é
que a Igreja Católica, lá no século VI, resolveu dar um título de nobreza à
inveja? Pecado Capital! Tipo um CEO do mal. O Papa Gregório Magno, um sujeito
com tempo livre, listou-a entre os sete chefões do vício, e São Tomás de
Aquino, o Doutor do RH da fé, explicou que ela é a “líder” de outras encrencas.
Pense em Caim e Abel: o primeiro reality show da humanidade, e o roteiro já
tinha inveja no ar. Um churrasco mal planejado e pá: tragédia familiar. A
Bíblia, aliás, adverte que a inveja é “podridão dos ossos” e “terrena, animal e
diabólica”. Ou seja, se você sente, está insatisfeito com o que Deus (ou o
Capital) te deu. Que pressão, bicho!
Mas não
nos enganemos, dizem que essa danadinha não é só destruição. Ela também é uma
espécie de “personal trainer” da humanidade, empurrando a gente para frente,
mesmo que seja para derrubar o coleguinha. Friedrich Nietzsche, o filósofo das
marteladas brutais – e das melhores frases de efeito – dizia que ela – a inveja
– e o ressentimento eram os “motores da
moral dos fracos”. Ou seja, se você não tem, você inveja. Se o outro tem, você
quer que ele não tenha. É a “soma negativa” da vida, onde a felicidade alheia é
seu prejuízo.
A
História, essa senhora poderosa e atenta, está cheia de casos. Dizem que
Salieri, o colega de trabalho do Mozart, ficou tão verde de inveja do talento
do austríaco que…bem, a lenda fala em veneno. Se é verdade ou não, virou peça
de teatro, então já valeu a pena. E o pobre (ricaço!) Nicolas Fouquet, ministro
das finanças de Luís XIV, que construiu um castelo tão espetacular
(Vaux-le-Vicomte) que o Rei Sol, com todo o seu brilho, ficou com inveja e
mandou prender o coitado. Moral da história: não ostente demais perto do chefe,
mesmo que ele seja um rei. Até Daniel, na Babilônia, teve que lidar com a
inveja dos colegas que o jogaram na cova dos leões. A inveja, veja bem, é
democrática: atinge reis, ministros e profetas.
Mas
voltemos agora à “Era do Capital”. Chegamos ao nosso tempo, a era de ouro da
inveja. O capitalismo, com seu marketing esperto, nos convence que “ter é ser
feliz”. Se o vizinho tem a Airfryer nova, você precisa da Airfryer nova. É o
“marketing da inveja” em ação, persuadindo que a posse de bens confere status.
E as redes sociais? Ah, as redes sociais! Elas transformaram a inveja de um
“varejo” para um “atacado”. Antes, você invejava o vizinho da rua. Agora, você
inveja o influenciador que está nas Maldivas ou em Paris, com um drink na mão e
um filtro que esconde as olheiras. É um desfile de vidas “curadas” que nos faz
sentir que a nossa é um rascunho mal feito. E a gente rola o feed, rola, rola,
e a inveja só cresce, tipo massa de pão.
Então,
a pergunta que não quer calar: vamos nos livrar da inveja? Dizem que ela é
“inerente ao ser humano”, tipo um apêndice emocional que a gente não consegue
tirar. Pois é, brava gente que lê, a inveja é muito antiga, entranhada nas
gentes do mundo. Nasceu com a consciência de si, com o reconhecimento do outro
como espelho e rival. Mas isso não nos condena à escravidão. A sabedoria antiga
oferece estratégias: temperança grega, desapego budista, caridade cristã…Rá,
ra, ra! Diria o glorioso Zé Simão.
Talvez
a única “cura” seja compreender que ela é amor distorcido. O invejoso ama a
beleza, o sucesso – seu erro é acreditar que são escassos, que a felicidade
alheia diminui a sua. A inveja é filha da escassez. Onde há abundância de amor
e oportunidades, ela definha. Por isso, combatê-la talvez não seja questão de
repressão moral, mas de criar condições onde se torne desnecessária. Dizem que
basta acabar com o Capitalismo. Será? No fim, a inveja é espelho: mostra não o
que desejamos, mas quem somos quando desejamos. Como diria um ditado que acabei
de inventar: “A inveja é a confissão involuntária de nossa própria pequenez”. E
você, invejoso, o que se tornou quando desejou? Rá, ra, ra…
Fonte:
Por Lindener Pareto, no ICL Noticias

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