terça-feira, 1 de julho de 2025

Breve história da inveja

Ah, a inveja! Essa velha e obstinada senhora que insiste em nos acompanhar desde os primórdios. Dizem que é um veneno, mas cá entre nós, ela tem um certo charme, não tem? Uma espécie de “personal trainer” da alma, que nos empurra para frente… ou para o lado, ou para baixo, dependendo do humor. Comecemos esta “breve história da inveja” pelo começo. Primeiro a luz…ou a palavra. Vamos à certidão de nascimento dela. “Inveja” vem do latim invidia, que por sua vez brota do verbo invideo, que significa “ver”. Mas não é um ver qualquer, não! É um “olhar torto”, um “lançar mau-olhado sobre”. Tipo quando a gente vê o vizinho com um carro novo e pensa: “Hummm, será que ele pagou à vista ou parcelou em 60 vezes?” (confesso que o meu é 2013, parcelado em 60 vezes e todo ferrado). Já era inveja ali, cara leitora, desde os romanos! O prefixo “in-” nesse “ver” já denunciava a recusa e o ódio intrínsecos a esse olhar. Ou seja, não basta ver, tem que desgostar da felicidade alheia. Que cousa, não?  Diria o bruxo do Cosme Velho.

E não é que a Igreja Católica, lá no século VI, resolveu dar um título de nobreza à inveja? Pecado Capital! Tipo um CEO do mal. O Papa Gregório Magno, um sujeito com tempo livre, listou-a entre os sete chefões do vício, e São Tomás de Aquino, o Doutor do RH da fé, explicou que ela é a “líder” de outras encrencas. Pense em Caim e Abel: o primeiro reality show da humanidade, e o roteiro já tinha inveja no ar. Um churrasco mal planejado e pá: tragédia familiar. A Bíblia, aliás, adverte que a inveja é “podridão dos ossos” e “terrena, animal e diabólica”. Ou seja, se você sente, está insatisfeito com o que Deus (ou o Capital) te deu. Que pressão, bicho!

Mas não nos enganemos, dizem que essa danadinha não é só destruição. Ela também é uma espécie de “personal trainer” da humanidade, empurrando a gente para frente, mesmo que seja para derrubar o coleguinha. Friedrich Nietzsche, o filósofo das marteladas brutais – e das melhores frases de efeito – dizia que ela – a inveja –  e o ressentimento eram os “motores da moral dos fracos”. Ou seja, se você não tem, você inveja. Se o outro tem, você quer que ele não tenha. É a “soma negativa” da vida, onde a felicidade alheia é seu prejuízo.

A História, essa senhora poderosa e atenta, está cheia de casos. Dizem que Salieri, o colega de trabalho do Mozart, ficou tão verde de inveja do talento do austríaco que…bem, a lenda fala em veneno. Se é verdade ou não, virou peça de teatro, então já valeu a pena. E o pobre (ricaço!) Nicolas Fouquet, ministro das finanças de Luís XIV, que construiu um castelo tão espetacular (Vaux-le-Vicomte) que o Rei Sol, com todo o seu brilho, ficou com inveja e mandou prender o coitado. Moral da história: não ostente demais perto do chefe, mesmo que ele seja um rei. Até Daniel, na Babilônia, teve que lidar com a inveja dos colegas que o jogaram na cova dos leões. A inveja, veja bem, é democrática: atinge reis, ministros e profetas.

Mas voltemos agora à “Era do Capital”. Chegamos ao nosso tempo, a era de ouro da inveja. O capitalismo, com seu marketing esperto, nos convence que “ter é ser feliz”. Se o vizinho tem a Airfryer nova, você precisa da Airfryer nova. É o “marketing da inveja” em ação, persuadindo que a posse de bens confere status. E as redes sociais? Ah, as redes sociais! Elas transformaram a inveja de um “varejo” para um “atacado”. Antes, você invejava o vizinho da rua. Agora, você inveja o influenciador que está nas Maldivas ou em Paris, com um drink na mão e um filtro que esconde as olheiras. É um desfile de vidas “curadas” que nos faz sentir que a nossa é um rascunho mal feito. E a gente rola o feed, rola, rola, e a inveja só cresce, tipo massa de pão.

Então, a pergunta que não quer calar: vamos nos livrar da inveja? Dizem que ela é “inerente ao ser humano”, tipo um apêndice emocional que a gente não consegue tirar. Pois é, brava gente que lê, a inveja é muito antiga, entranhada nas gentes do mundo. Nasceu com a consciência de si, com o reconhecimento do outro como espelho e rival. Mas isso não nos condena à escravidão. A sabedoria antiga oferece estratégias: temperança grega, desapego budista, caridade cristã…Rá, ra, ra! Diria o glorioso Zé Simão.

Talvez a única “cura” seja compreender que ela é amor distorcido. O invejoso ama a beleza, o sucesso – seu erro é acreditar que são escassos, que a felicidade alheia diminui a sua. A inveja é filha da escassez. Onde há abundância de amor e oportunidades, ela definha. Por isso, combatê-la talvez não seja questão de repressão moral, mas de criar condições onde se torne desnecessária. Dizem que basta acabar com o Capitalismo. Será? No fim, a inveja é espelho: mostra não o que desejamos, mas quem somos quando desejamos. Como diria um ditado que acabei de inventar: “A inveja é a confissão involuntária de nossa própria pequenez”. E você, invejoso, o que se tornou quando desejou? Rá, ra, ra…

 

Fonte: Por Lindener Pareto, no ICL Noticias

 

Nenhum comentário: