terça-feira, 1 de julho de 2025

A Nova Desordem Internacional: Trump, Israel, o Irã e os EUA

O objetivo deste texto é esclarecer, para um público não especializado, os eventos que moldaram as relações internacionais atuais, particularmente no que concerne ao contexto dos conflitos no Oriente Médio. Essa é uma missão desafiadora, dado o histórico da desinformação veiculada pela mídia tradicional.

Segundo a narrativa predominante na grande mídia, os EUA realizaram, no dia 21 deste mês, uma operação para destruir as instalações nucleares iranianas, com o objetivo de impedir o desenvolvimento de armas nucleares (ou armas de destruição em massa). Essa ação, de acordo com o mainstream da mídia ocidental, era justificada pela necessidade de evitar a desestabilização do Oriente Médio, proteger a segurança de Israel e os interesses dos EUA e, de modo correlato, preservar a paz mundial.

Após a operação "Martelo da Meia-Noite", o presidente Donald Trump proclamou o sucesso da missão ao afirmar que as instalações nucleares iranianas foram obliteradas. A veracidade dessa afirmação é questionável. Antes de tirar conclusões apressadas, é fundamental entender o que realmente aconteceu e quais serão as consequências da agressão estadunidense ao Irã.

Desde o imediato pós-II Guerra Mundial, observou-se o estabelecimento de uma Ordem Internacional sob a égide dos Estados Unidos, caracterizada por uma adesão quase universal e pela participação, ainda que limitada, dos principais opositores da potência hegemônica, a exemplo do que ocorreu durante a Guerra Fria.

Os eventos do último final de semana sugerem uma ruptura na ordem internacional estabelecida no período pós-guerra, sob o patrocínio dos EUA. Ao bombardear o Irã, uma nação soberana, sem uma justificativa plausível, os EUA parecem haver deliberadamente abandonado os princípios que sustentavam aquela arquitetura de poder.

O ataque expôs a irrelevância do Conselho de Segurança da ONU frente a essa agressão contra uma nação soberana. A ação dos EUA escancara a possibilidade de o país promover guerras sem qualquer consideração à legislação internacional e, surpreendentemente, até mesmo às suas próprias leis. Esse ato de guerra pode precipitar o mundo em uma escalada de conflitos com potencial para uma guerra global, com o risco iminente do uso de armas nucleares e toda a destruição que isso acarretaria.

Para que meu argumento seja adequadamente compreendido, registro que não nutro simpatias pelo regime autocrático e fundamentalista vigente no Irã. Não obstante, o Irã constitui um Estado soberano, o que implica a impossibilidade de intervenção em seus assuntos internos, embora a manifestação de opiniões, o repúdio e a pressão em questões relacionadas à democracia e aos direitos humanos sejam legítimos.

Não obstante o exposto, é importante ressaltar que a utilização desses temas tem sido seletiva por parte dos EUA, ao longo de décadas, sempre em consonância com seus interesses. O caso do massacre do povo palestino ilustra como os direitos humanos são instrumentalizados pelo governo estadunidense, que mantém silêncio e continua a armar e a financiar a máquina de guerra israelense, responsável pelo genocídio perpetrado em Gaza. A União Europeia, em postura subserviente aos EUA, também oferece suporte a Israel. Diante disso, é necessária muita cautela em relação ao modo como tais discursos são empregados.

O silêncio e o apoio ao massacre do povo palestino não se configuram como eventos isolados, mas como parte de um padrão de conduta. Os EUA, a despeito da sua retórica em defesa dos direitos humanos, direcionam as suas críticas de forma seletiva, omitindo-se em relação à Arábia Saudita, um regime extremamente autoritário que figura como importante parceiro comercial e estratégico. Durante o conflito no Afeganistão, foram amplamente documentadas as violações aos direitos humanos, incluindo práticas de tortura por oficiais estadunidenses. Adicionalmente, durante a Guerra Fria, os EUA apoiaram golpes de Estado que instituíram regimes ditatoriais em diferentes áreas do planeta. Essa seletividade demonstra uma aplicação desigual das normas internacionais, com um rigor que varia conforme os interesses da política externa estadunidense.

No que tange ao conflito em lide, é imperativo sublinhar que o atual regime iraniano é, na média duração, resultado da intervenção orquestrada pelos EUA e pela Grã-Bretanha, em 1953, que culminou na derrubada do governo constitucional liderado por Mohamed Mossadegh, por meio de um golpe de Estado, motivado pelo controle dos recursos petrolíferos daquele país. Daí resultou o regime do Xá Reza Pahlevi, estreitamente associado aos EUA, que se manteve no poder até 1979. O caráter opressivo e antinacional desse regime contribuiu significativamente para o crescimento do ressentimento antiocidental e, particularmente na década de 1970, fomentou o ressurgimento de um movimento fundamentalista de matriz xiita (cuja complexidade impede uma análise acurada no presente texto).

Desse modo, é possível sustentar a perspectiva de que o atual regime teocrático vigente no Irã é, em grande medida, resultado indireto de ações ilegais e criminosas promovidas pelos EUA e pela Grã-Bretanha naquele país. Para encerrar este tópico e prosseguir com a análise que nos interessa mais diretamente, cabe observar que o golpe promovido no Irã em 1953 não se constituiu como um evento isolado, mas, ao contrário, representou um padrão da política externa estadunidense no período pós-II Guerra Mundial. Tal padrão manifestou-se por meio de ações diretas ou do apoio a grupos internos vinculados aos interesses dos EUA. A National Security Archive estima que tenham ocorrido entre 50 e 70 ações com o objetivo de desestabilizar e de depor governos de outras nações, a depender do critério estabelecido, o que representaria quase uma intervenção estadunidense por ano ao longo daquele período.

Para além da análise das relações entre os EUA e o Irã, é mandatório discorrer sobre outro ator de crucial importância no processo em análise: Israel. Ao contrário do que se alega, é Israel que, em uma relação quase simbiótica com os EUA, tem continuamente desestabilizado o Oriente Médio. Nesse sentido, tendo a concordar, ao menos parcialmente, com Jeffrey Sachs, professor da Universidade de Colúmbia (EUA), para quem Israel, em especial nos pouco mais de 16 anos dos governos de Benjamin Netanyahu, tem manipulado os EUA a se envolverem ainda mais em conflitos no Oriente Médio. Netanyahu e os lobbies sionista e armamentista exercem um peso colossal no envolvimento dos EUA em sucessivas guerras no início do século 21.

Após a Segunda Guerra Mundial, o movimento sionista intensificou-se, impulsionado pelo Holocausto perpetrado pelo regime de Hitler contra judeus e outras minorias. Naquela conjuntura, ganhou força a tese da criação de um Estado para o povo judeu. A criação do Estado de Israel, contudo, baseou-se na falsa premissa de que a Palestina era uma terra desabitada, justificando a alocação de judeus no território. Dessa forma, propagou-se a ideia de que se concederia uma terra desocupada a um povo sem pátria.

No entanto, ressalta-se que a região era densamente habitada, majoritariamente por palestinos, mas também por judeus, o que demonstra a complexidade da questão. Posteriormente, em 1947, a ONU decidiu pela criação de dois Estados na região, um palestino e um judaico. Esse caminho levou à intensificação dos conflitos, pois havia resistência palestina a esse projeto, uma vez que o aumento da presença judia na região, desde o final do século 19, havia intensificado as divergências e a conflagração entre esses dois grupos populacionais.

Em 1948, o movimento sionista declarou unilateralmente a criação do Estado de Israel, o que intensificou os conflitos locais, já que os palestinos reagiram à decisão. Naquele momento, os judeus, mais bem armados e organizados, rapidamente derrotaram os palestinos e os expulsaram de grande parte da região. Os palestinos referem-se a esses eventos como Nakba, que, em árabe, significa "catástrofe". Durante esse processo, caracterizado por intensa violência, estima-se que mais de 700 mil palestinos foram forçados a deixar as suas casas e a sua terra de origem. Em resumo, eles foram expropriados e expatriados.

Desde então, a região tem enfrentado um ciclo contínuo de hostilidades, intensificado pelas medidas adotadas por Israel para obstruir a formação de um Estado palestino. Adicionalmente, a expansão territorial israelense por meio de operações militares em áreas destinadas aos palestinos tem acirrado as tensões e fomentado o radicalismo em ambos os lados.

No governo atual, iniciado em dezembro de 2022, Netanyahu, influenciado pela extrema-direita de seu partido, adotou uma postura ainda mais agressiva. Diversos autores, como John Mearsheimer, Stephen Walt, Rashid Khalidi e Benny Morris argumentam que as políticas implementadas por Netanyahu contribuíram para o surgimento e a expansão do Hamas. Outros chegam a sugerir que houve apoio efetivo ao Hamas como estratégia para enfraquecer a Autoridade Palestina, permitindo que o Hamas chegasse ao poder ao derrotar o Fatah nas eleições de janeiro de 2006, consideradas justas e livres por observadores internacionais. Em resposta às contínuas políticas expansionistas e opressivas de Israel em Gaza, o Hamas realizou um ataque a Israel em 7 de outubro de 2023, resultando na morte de aproximadamente 1200 israelenses, na sua grande maioria civis desarmados, e no sequestro de cerca de 250 pessoas.

Nesse contexto, as Forças Armadas de Israel iniciaram uma operação de guerra na região. De modo sumário, é possível assegurar que as forças israelenses responderam de forma desproporcional ao ataque e fizeram uso indiscriminado da violência contra uma população desarmada, sob a justificativa de defender o Estado de Israel e da necessidade de destruir o Hamas. Não questiono o direito à defesa, mas a desproporcionalidade da retaliação. Até o presente momento, diferentes organizações consideram que mais de 65 mil palestinos foram mortos, em sua maioria mulheres e crianças. No entanto, diferentes autores e jornalistas têm afirmado que o número de vítimas pode ser muitas vezes maior. Além disso, praticamente toda a infraestrutura da região foi demolida, de casas a hospitais, de indústrias a escolas. Gaza, que era um verdadeiro campo de concentração a céu aberto, foi transformada num amontoado de escombros onde populações famintas, desnutridas, esqueléticas, feridas mutiladas, sem água potável, sem alimentos e sem remédios lutam para sobreviver.

Em resposta ao apoio que grupos regionais, alegadamente sustentados pelo Irã, ofereceram aos palestinos, Israel retaliou com bombardeios a posições do Hezbollah no Líbano, inclusive com a invasão de áreas do país, o que causou grande destruição. Em seguida, Israel lançou ataques direcionados ao Irã, com a justificativa de neutralizar a infraestrutura nuclear iraniana. Netanyahu alegava que o Irã estaria a desenvolver armas nucleares, o que representaria uma ameaça existencial, dado que o governo em Teerã haveria expressado, em diversas ocasiões, a intenção de destruir Israel.

Recentemente, vários cientistas nucleares e militares iranianos foram assassinados por ações secretas dos EUA e de Israel. Há duas semanas, Israel começou a bombardear o Irã, o que foi revidado por Teerã. Por fim, no último final de semana, os EUA fizeram o que alguns analistas bem-informados como Seymor Hersh anteciparam na semana anterior: atacaram três centros de desenvolvimento de tecnologias nucleares do Irã (Fordow, Natanz e Isfahan). Imediatamente, Donald Trump anunciou, como pontuamos anteriormente, que o projeto nuclear iraniano havia sido obliterado. Analistas experientes afirmaram que a estrutura das centrais de enriquecimento de urânio, em especial em Fordow, foi mantida intacta. Sublinham que o impacto no projeto nuclear iraniano foi zero, pois o Irã já havia removido o urânio enriquecido para outros lugares. Outros consideram a agressão dos EUA ao Irã um crime de guerra. Críticos do governo de Donald Trump têm reportado que o ataque foi uma peça de propaganda, por intermédio de uma ação criminosa e ilegal, que pode ser punida inclusive com o impeachment.

Ainda sobre a avaliação dos impactos dos ataques estadunidenses, tem provocado controvérsias o fato de que membros dos serviços de inteligência dos EUA têm revelado que os bombardeios pouco afetaram o programa nuclear iraniano. Em relação a essa avaliação, resta a dúvida sobre se é uma estimativa real, que contradiz o presidente Donald Trump, ou se é parte de uma estratégia para justificar ataques futuros.

Em resposta às ações dos EUA, o Irã realizou ataques pontuais contra bases daquele país no Qatar e no Iraque. Contudo, essa ação obteve um impacto limitado e sem relatos de vítimas, o que sugere ser uma mera demonstração de força para consumo interno.

Em contraste com o Irã, que não possui armas nucleares e se submetia a negociações e inspeções internacionais, Israel, detentor de um arsenal nuclear estimado em cerca de 100 ogivas, nunca aderiu ao Tratado de Não Proliferação Nuclear e impede inspeções em seu território. Essa disparidade alimenta um debate complexo sobre a crescente percepção do Irã como ameaça aos interesses de Israel e dos Estados Unidos, tema que será aprofundado em outro artigo.

 

Fonte: Por Sidnei Munhoz, no Correio da Cidadania

 

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