Terceiro
turno, a revanche do mercado
Na
segunda-feira, 26 de outubro, o mercado financeiro não puniu nenhuma medida do
governo. Puniu o voto. O Ibovespa caiu 13,88%, depois do primeiro circuit
breaker, a interrupção automática dos negócios, desde março de 2020. O dólar
subiu 8,21%, para R$ 5,40, e os juros futuros de janeiro de 2029 saltaram 2,7
pontos, para 15,25%, já embutindo uma alta da Selic em novembro. No mesmo dia,
as bolsas de Nova York subiram. O choque foi brasileiro, e tem causa conhecida.
Em 5 de
outubro, com Flávio Bolsonaro à frente no primeiro turno, a Bolsa tinha batido
recorde, com alta de 7,7%, e o dólar recuara 4%. Uma estrategista viu ali uma
“sensível melhora” para a dívida pública. A aposta tinha nome e programa, mas
foi derrotada nas urnas no segundo turno. Na terça, o dólar já devolvia parte
da alta, e um analista falava em correção de excessos. O pânico de um dia,
porém, ameaça definir a política fiscal de quatro anos.
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O terceiro turno
O
mercado não está sozinho. Na noite da eleição, Flávio recusou-se a reconhecer a
derrota e prometeu pedir a anulação do segundo turno. O motivo alegado foi uma
prorrogação de duas horas que a própria campanha dele pedira para dezessete
municípios. Depois das 17h, foram registrados 35.521 votos, menos de 0,03% do
total, contra uma diferença de 4,4 milhões. Na segunda, o PL reconheceu o
resultado. Flávio trocou a anulação pela cassação: “Vou pedir, sim, a cassação
da chapa do Lula por todos os abusos que ele cometeu”. Donald Trump disse, sem
provas, que o pleito “parecia mais uma eleição fraudulenta”.
As
frentes convergem. Ao reconhecer a vitória, o presidente do PL, Valdemar Costa
Neto, disse que a alta do gasto social antes da eleição “levanta
questionamentos”. Flávio chama de compra de voto o pacote social da reta final.
O mercado chama de risco fiscal as mesmas medidas. A direita quer cassar o
resultado nos tribunais, e a Faria Lima quer desfazê-lo no orçamento. É o
terceiro turno.
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O tesouraço derrotado
Convém
lembrar o que perdeu. A coordenadora econômica de Flávio, Daniella Marques,
anunciou um corte de R$ 190 bilhões no gasto público, 1,5% do PIB. Meses antes,
uma reportagem revelara estudos da campanha para limitar à inflação o reajuste
das aposentadorias e dos pisos de saúde e educação. A campanha desmentiu. Era
um tesouraço, e o eleitor o recusou.
O
mercado o pede de volta, com outro nome. Economistas ouvidos pela imprensa
listam o que esperam. Querem um plano fiscal com metas e prazos, a revisão das
despesas obrigatórias, Previdência incluída, e a conta de como serão pagas as
promessas. Solange Srour, do UBS, considera “insuficiente” apenas reforçar as
regras atuais. Na própria segunda-feira, o ministro da Fazenda, Dario Durigan,
prometeu um superávit primário maior em 2027. Quer mudar as regras para mirar o
centro da meta, de 0,5% do PIB, quando o projeto de Orçamento prevê 0,13%. A
Folha de S.Paulo já tinha noticiado uma proposta de emenda à Constituição (PEC)
da equipe econômica com o mesmo objetivo, somada a um corte no crédito
subsidiado. O programa derrotado volta pela porta da Fazenda.
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Austericídio e estelionato eleitoral
Já
vimos esse filme duas vezes. Uma delas é muito recente. Do segundo semestre de
2024 ao primeiro de 2025, a Fazenda apertou o orçamento. A própria Secretaria
de Política Econômica classificou o movimento como contracionista. Ao mesmo
tempo, o Banco Central levava a Selic de 10,5% a 15%. A justificativa era
combater a inflação, puxada pelos alimentos. Nesse período, a avaliação
positiva do governo no Datafolha caiu de 36% para 24%, e de 46% para 29% entre
os que ganham até dois salários mínimos. O aperto ajudou a derrubar a
popularidade de Lula. A virada eleitoral veio do movimento contrário, quando o
governo abriu a mão na reta final da campanha.
O filme
foi exibido pela primeira vez em 2015. Dilma Rousseff venceu prometendo
proteger o emprego e a renda. Reeleita, entregou a Fazenda a um banqueiro com o
programa do adversário. O corte não acalmou o mercado. A economia encolheu mais
de 3% em 2015 e de novo em 2016. A arrecadação caiu junto, e o déficit fiscal
cresceu. A presidenta perdeu o apoio de quem a elegera e ficou à mercê de um
Congresso que a derrubou com o pretexto das pedaladas fiscais. O estelionato
eleitoral não acalma o mercado. Abre caminho para o golpe.
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Um Congresso pior que o de 2015
O
Congresso que toma posse em 1º de fevereiro pode ser ainda mais golpista que o
de 2015. O PL, partido de Bolsonaro, terá a maior bancada da Câmara, com 121
dos 513 deputados, contra 70 PT. No Senado, os partidos de direita somarão 49
das 81 cadeiras, exatamente os três quintos necessários para emendar a
Constituição. O partido quer Rogério Marinho, relator da reforma trabalhista de
2017, na presidência da casa. E afirma contar com 49 dos 54 votos exigidos para
o impeachment do ministro Alexandre de Moraes. O Congresso atual, menos hostil,
derrubou em abril o veto de Lula e reduziu as penas dos condenados pelo 8 de
janeiro.
Diante
desse Congresso, um governo que abandone o próprio eleitorado fica sem base
social e sem base parlamentar. É a receita de 2015, com ingredientes piores.
Na
segunda-feira, 26 de outubro, o mercado financeiro não puniu nenhuma medida do
governo. Puniu o voto. O Ibovespa caiu 13,88%, depois do primeiro circuit
breaker, a interrupção automática dos negócios, desde março de 2020. O dólar
subiu 8,21%, para R$ 5,40, e os juros futuros de janeiro de 2029 saltaram 2,7
pontos, para 15,25%, já embutindo uma alta da Selic em novembro. No mesmo dia,
as bolsas de Nova York subiram. O choque foi brasileiro, e tem causa conhecida.
Em 5 de
outubro, com Flávio Bolsonaro à frente no primeiro turno, a Bolsa tinha batido
recorde, com alta de 7,7%, e o dólar recuara 4%. Uma estrategista viu ali uma
“sensível melhora” para a dívida pública. A aposta tinha nome e programa, mas
foi derrotada nas urnas no segundo turno. Na terça, o dólar já devolvia parte
da alta, e um analista falava em correção de excessos. O pânico de um dia,
porém, ameaça definir a política fiscal de quatro anos.
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O que fazer já
O
mercado pede sinais de curto prazo, e alguns fazem sentido. A equipe econômica
deve ser anunciada logo, porque a incerteza sobre quem comanda a Fazenda pesa
nos preços. A imprensa cita Geraldo Alckmin, Gabriel Galípolo, Fernando Haddad
e Rafael Fonteles. Durigan pode ficar. O nome, porém, vale pelo programa. Um
ministro que anuncie mais aperto acalma a Faria Lima por uma semana e repete o
erro de 2024.
Tesouro
e Banco Central devem seguir coordenados para devolver liquidez ao mercado de
títulos. Na segunda, o Tesouro recomprou cerca de R$ 15 bilhões em títulos, e o
Banco Central vendeu swaps cambiais, contratos que protegem contra a alta do
dólar. O Banco Central não deve responder ao pânico com juros. O Comitê de
Política Monetária (Copom) se reúne em 3 e 4 de novembro, com a Selic em 13,75%
e um juro real entre os maiores do mundo. Subir a Selic agora encareceria a
dívida pública e apertaria famílias que comprometem 28,7% da renda com
prestações e juros. Os bancos públicos podem fazer o resto. Antes do primeiro
turno, o Banco do Brasil baixou a taxa do crédito pessoal de 7,43% para 5,86%
ao mês. O governo, controlador do banco, pode repetir a dose e estendê-la ao
cartão de crédito.
Há mais
uma alavanca, pouco lembrada. A meta de 3% de inflação foi escolha do próprio
governo. Quem a mantém é o Conselho Monetário Nacional (CMN), onde o governo
tem dois dos três votos. E foi um decreto de Lula, em 2024, que a tornou
contínua. Uma meta menos austera reduziria o juro necessário para cumpri-la.
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Uma nova PEC da Transição
O sinal
de médio prazo pesa mais, e aqui o governo precisa escolher como chegar ao
equilíbrio fiscal. O Tesouro reconhece, em suas projeções de junho, que a
partir de 2028 as metas do arcabouço ficam fora de alcance mesmo com o
contingenciamento máximo que a lei admite. A Instituição Fiscal Independente
(IFI) já prevê um contingenciamento de pelo menos R$ 35,7 bilhões em 2027. Uma
revisão virá de qualquer jeito. A questão é quem a escreve: este Congresso, até
22 de dezembro, ou o próximo, a partir de fevereiro.
Em
dezembro de 2022, antes da posse de Lula, um Congresso em fim de mandato
aprovou em poucas semanas a PEC da Transição. Ela abriu R$ 145 bilhões acima do
teto de gastos de 2023 para pagar o Bolsa Família de R$ 600.
Lula
precisa de uma nova PEC da Transição. Melhor seria voltar ao regime de metas
fiscais anterior ao teto de gastos de 2016, abolindo o arcabouço fiscal, pois
ele trava o crescimento do PIB, o denominador da relação dívida/PIB.
Se não
for possível politicamente (por que?) voltar ao regime fiscal que garantiu
redução forte da relação dívida/PIB e assegurou superávits fiscais sem
prejudicar o crescimento das despesas, a alternativa é simples. A receita nova,
cobrada no topo da pirâmide, abate o déficit sem ampliar o limite de despesa,
como hoje. Contudo, ficam fora do arcabouço o investimento público, aportes nas
estatais e no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), os
gastos em saúde e educação, e o programa Bolsa Família. Afinal, foi por isso
que milhões de brasileiros votaram pela reeleição de Lula: não para realizar o
Tesouraço de Flávio.
Por que
PEC, se o arcabouço é lei complementar? Porque o que estiver na Constituição, o
próximo Congresso só desfaz com três quintos dos votos, em dois turnos nas duas
Casas. Uma lei complementar, ele desfaz por maioria absoluta. A PEC exige agora
os mesmos três quintos, e não será fácil. A alternativa é negociar cada linha
do orçamento com o Congresso de Rogério Marinho em fevereiro de 2027.
O
equilíbrio fiscal tem dois caminhos, e o eleitor escolheu um. A tributação do
topo é feita por lei e vale já em janeiro, se publicada até 31 de dezembro,
porque o imposto de renda escapa da regra constitucional dos noventa dias. A
lei aprovada em 2025 tirou do imposto quem recebe até R$ 5 mil mensais. Também
fixou uma alíquota mínima, de no máximo 10%, para quem ganha acima de R$ 600
mil por ano. O que segue pouco tributado é conhecido: parte dos dividendos, os
juros sobre capital próprio e as aplicações isentas, que se concentram nas
rendas altas. É esse imposto sobre os super-ricos que paga o programa eleito,
com equilíbrio fiscal pela justiça tributária, e não pela injustiça social.
Também
é possível cortar parte dos gastos tributários (renúncias de receita) para
2026, estimados em R$ 612,8 bi, ou 4,43% do PIB. Rediscutir a aplicação do teto
do funcionalismo público sobre o Judiciário brasileiro não apenas contribuiria
para a justiça social, mas também para restaurar parte da credibilidade
sacrificada pelos juízes que, por exemplo, mantiveram relações promíscuas com
Daniel Vorcaro.
O
Brasil não tem crise de dívida. Tem crise do custo da dívida: os juros custaram
R$ 1,18 trilhão em doze meses, 8,9% do PIB, enquanto o déficit primário ficou
em 0,6% do PIB. O mercado apostou em Flávio e perdeu. A conta dessa aposta não
deve ser paga com as promessas que reelegeram Lula. A urna falou. O mercado não
pode ganhar o terceiro turno e impor o programa derrotados pelas urnas.
Fonte:
Por Pedro Paulo Zahluth Bastos, em Outras Palavras

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