quinta-feira, 29 de outubro de 2026


 

Ediel Ribeiro: A fuga das galinhas

O bolsonarismo é um barco afundando. E Flávio, o comandante, já abandonou a embarcação. O senador Flávio Bolsonaro, logo após perder a eleição para a presidência da República, foi visitar o pai, Jair Bolsonaro.

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– Pai, perdemos a eleição – disse Flávio, choramingando.

– Perdemos, não. Você perdeu, seu bosta! Como é que você vai chamar um idoso que perdeu o dedo trabalhando à noite para levar comida pra casa, aos 17 anos, de nove dedos? – apartou Jair.

– Eu pedi desculpas – minimizou Flávio.

– De quem foi a ideia genial de colocar um político acusado de estupro de uma menina de 13 anos, como vice-presidente na sua chapa? Não tinha ninguém melhor? Um batedor de carteira, um agiota, alguém do Centrão?

– Eu tentei. Ninguém aceitou – desculpou-se o Zero 1.

– Como é que um senador da República, candidato à presidência, defende, às vésperas das eleições, um policial que matou uma criança de cinco anos, com um tiro de fuzil?

– Ele disse que foi um acidente, pai – justificou-se.

– E aquele seu amigo, o chupetinha? Que ideia foi aquela de fazer um filme mequetrefe, chamando os nordestinos de mendigos? E, pior, com um nordestino dono de uma Hilux no papel de um pobre retirante? É difícil encontrar um nordestino, dono de um jumento?

– Foi mal, pai! – desculpou-se o senador.

– Como você esperava ganhar uma eleição, mentindo tanto? Nem eu menti tanto, taokey! E perdi. Você disse que não conhecia o Vorcaro. Conhecia; disse que não ligou pro Vorcaro. Ligou; disse que não pediu dinheiro ao Vorcaro. Pediu; disse que não visitou o Vorcaro. Visitou; disse que não era sócio do Willer. Era; disse que não pediu propina para a vacina. Pediu; disse que não tinha ligação com as Bets. Tinha; disse que ia abrir o sigilo. Não abriu; disse que ia aceitar o resultado das urnas. Não aceitou; disse que ia entregar o passaporte. Não entregou…

– Eu vou fugir do país, pai – choramingou Flávio.

– Você tá maluco!? No tocante a essa cuestão daê, sou contra, taokey? Boulos vai te chamar de cagão, de covarde e fujão. O povo vai se arrepender de ter votado em você. Lula ficou um ano preso. Não chorou nem fugiu da justiça.

– Um ano é mole! Eu posso pegar mais de 40 anos!!! – concluiu o senador.

– Você vai fugir do país e deixar seu pai aqui, preso, de tornozeleira eletrônica, com a Michelle, como fez o bananinha? – perguntou Jair.

– Eu sou um exilado político, pai! – disse Flávio.

– Exilado político!? Quem disse isso daê? Seus crimes são comuns: rachadinha, lavagem de dinheiro, compra de imóveis com dinheiro dos aposentados, envolvimento com Bets. Flávio pega o telefone e liga para a esposa:

– Fernanda, faz as malas, nós vamos viajar – informou Flávio.

– Que bom, querido! Paris!? Você está precisando mesmo descansar, as eleições foram muito desgastantes. Até eu que só ficava fazendo cara de paisagem, fingindo que não estava nem aí para o seu caso com as meninas do Vorcaro, cansei. Imagina você, tendo que fingir que nunca tinha ouvido falar no Banco Master e nem conhecia o Vorcaro!

– Que Paris!! Nós vamos fugir para a Argentina.

– Fugir? Argentina? O povo tá comendo carne de gato e jumento lá! Você sabe que eu estou de dieta. E todo o dinheiro que eu gastei com Mounjaro? Como vão nos chamar lá: a família do Mileiciano? – indagou Fernanda, irônica.

– Nós não vamos morar lá. O meu amigo Milei vai me ajudar a chegar aos Estados Unidos – informou Flávio. – Trump prometeu me dar abrigo – concluiu.

– Você sabe que dia 3 de novembro tem eleições nos Estados Unidos; e que se o Trump perder, você pode ser preso, né? – perguntou Fernanda. Flávio coçou a cabeça e decidiu:

– Eu fujo para Santa Catarina!

¨      O acordo paralelo: a fuga de Flávio e a interferência dos EUA no Brasil. Por Ricardo Mezavila

Se Flávio Bolsonaro seguiu pela fronteira com a Argentina, fez escala em Guayaquil, no Equador, e segue rumo a Miami é, em termos de trajeto, um fato consumado — confirmado pelas autoridades argentinas e registrado em voo internacional.

O que verdadeiramente importa, e o que deve preocupar o país, é o que esse deslocamento revela sobre a relação que se desenha entre Brasil e Estados Unidos.

Tudo indica que existia um acordo prévio, com duas faces. Se vencesse a eleição, Flávio manteria uma postura extremamente condescendente com os interesses norte-americanos. Documentos e declarações revelam que ele se comprometeu a abrir o Brasil à exploração de nossas riquezas naturais — em especial minerais críticos e terras raras, das quais o Brasil detém uma das maiores reservas do planeta — alinhando a política externa brasileira aos ditames de Washington. A própria correspondência enviada por Flávio ao secretário Marco Rubio, antes do pleito, formalizou a disposição de colocar a equipe de transição à disposição do governo Trump para negociar acordos comerciais e de investimentos.

Se a tragédia de um governo bolsonarista tivesse se concretizado, seria Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, quem comandaria de fora as decisões estratégicas do Brasil. Nenhuma escolha relevante seria tomada em Brasília sem passar pelo crivo de Washington. Rubio já havia sinalizado, em gestos anteriores, que interferiria diretamente em assuntos internos brasileiros — desde tarifas comerciais a pressões sobre o Judiciário. Ele comandaria o país com uma peneira nas mãos.

Do outro lado do acordo, em caso de derrota — que de fato ocorreu —, estavam previstos dois movimentos: o não reconhecimento da vitória de Lula e a saída protegida de Flávio, que receberia asilo nos EUA como perseguido político. Trump classificou o pleito de “fraudado” e o governo norte-americano estudou oficialmente não reconhecer o resultado eleitoral. Flávio, por sua vez, ignorou a ordem judicial de entrega de passaportes e deixou o país por via que havia sido articulada antes mesmo do encerramento da votação.

Por enquanto, este parece ser um dos roteiros mais prováveis. Sem alarmismo sobre interferências que possam desestabilizar a rotina política e social, o que está posto é claro: há um projeto externo de tutela sobre o Brasil, que se manifesta tanto na pressão diplomática quanto na proteção política a um candidato derrotado. Cabe ao país, e ao governo reeleito, preservar a soberania sobre as decisões que nos dizem respeito.

¨      Polícia Federal precisa explicar por que deixou Flávio escapar. Por Paulo Henrique Arantes

No momento em que estas linhas eram escritas ainda não se sabiam todos detalhes da fuga covarde de Flávio Bolsonaro. Ele poderia ter escapulido via Argentina ou Venezuela, provavelmente pousaria na Flórida. O que se sabia era que o pluri-investigado viajava para os braços Donald Trump, do irmão e dos amigos que correram da Justiça antes dele em direção aos Estados Unidos . Dentre muitas perguntas a serem respondidas, a que mais incomoda é: por que a Polícia Federal não o vigiava se até o mundo mineral suspeitava de uma tentativa fuga?

Fugir é prática corriqueira da turba. O boquirroto Eduardo já havia dito com todas as letras que o irmão deveria deixar o Brasil se perdesse a eleição. As investigações às quais está submetido contêm indicativos quase incontestáveis de crimes – seu indiciamento é certo. O Supremo Tribunal Federal, pelas mãos de Alexandre de Moraes, determinou-lhe a entrega dos passaportes, medida cautelar que nunca segurou bandidos em lugar nenhum. Por que cargas d’água a Polícia Federal não grudou como carrapato em Flávio Bolsonaro entre 25 e 27 de outubro?

A medida cautelar de apreensão de passaporte não é agressiva, registre-se – é o que se chama de uma cautelar menor. Faltou vigilância, claro está. Note, paciente leitor, intrépida leitora: Willer Tomaz, de cujos crimes suspeitos Flávio Bolsonaro aparentemente é coautor, fugiu do país antes dele, está em Miami.

Em tempo, e com exclusividade: o governo brasileiro incomodou-se com o timing adotado por Alexandre de Moares para determinar a entrega dos passaportes do candidato derrotado na eleição de 25 de outubro. Gente lúcida considerou medida “inacreditável”.

O advogado e ex-procurador de Justiça Roberto Tardelli disse à coluna: “Essa fuga é reveladora, mostra que o candidato não possui nenhum respeito pelos eleitores que ele, agora muito claramente, enganou. O projeto dele não era um projeto de governo, mas um projeto de poder para ficar fora ao alcance da lei. O fato é que ele tinha 24 horas para entregar o seu passaporte e não o fez. E deve ter se utilizado do passaporte para fugir. À Justiça brasileira cabe agora fazer o pedido de extradição e decretar sua prisão preventiva”.

O parágrafo primeiro do Artigo 312 do Código de Processo Penal estabelece que a prisão preventiva pode ser decretada em caso de descumprimento de qualquer das obrigações impostas por força de medidas cautelares.

A decretação imediata da prisão preventiva de Flávio Bolsonaro será mais uma demonstração de que a Justiça brasileira cumpre a lei. Por outro lado, o fato dele ficar longe destas terras dá uma certa satisfação. Entre uma e outra, resta a pergunta: por que a Polícia Federal deixou o sujeito escapar?

 

Fonte: Brasil 247

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