Ediel
Ribeiro: A fuga das galinhas
O
bolsonarismo é um barco afundando. E Flávio, o comandante, já abandonou a
embarcação. O senador Flávio Bolsonaro, logo após perder a eleição para a
presidência da República, foi visitar o pai, Jair Bolsonaro.
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– Pai,
perdemos a eleição – disse Flávio, choramingando.
–
Perdemos, não. Você perdeu, seu bosta! Como é que você vai chamar um idoso que
perdeu o dedo trabalhando à noite para levar comida pra casa, aos 17 anos, de
nove dedos? – apartou Jair.
– Eu
pedi desculpas – minimizou Flávio.
– De
quem foi a ideia genial de colocar um político acusado de estupro de uma menina
de 13 anos, como vice-presidente na sua chapa? Não tinha ninguém melhor? Um
batedor de carteira, um agiota, alguém do Centrão?
– Eu
tentei. Ninguém aceitou – desculpou-se o Zero 1.
– Como
é que um senador da República, candidato à presidência, defende, às vésperas
das eleições, um policial que matou uma criança de cinco anos, com um tiro de
fuzil?
– Ele
disse que foi um acidente, pai – justificou-se.
– E
aquele seu amigo, o chupetinha? Que ideia foi aquela de fazer um filme
mequetrefe, chamando os nordestinos de mendigos? E, pior, com um nordestino
dono de uma Hilux no papel de um pobre retirante? É difícil encontrar um
nordestino, dono de um jumento?
– Foi
mal, pai! – desculpou-se o senador.
– Como
você esperava ganhar uma eleição, mentindo tanto? Nem eu menti tanto, taokey! E
perdi. Você disse que não conhecia o Vorcaro. Conhecia; disse que não ligou pro
Vorcaro. Ligou; disse que não pediu dinheiro ao Vorcaro. Pediu; disse que não
visitou o Vorcaro. Visitou; disse que não era sócio do Willer. Era; disse que
não pediu propina para a vacina. Pediu; disse que não tinha ligação com as
Bets. Tinha; disse que ia abrir o sigilo. Não abriu; disse que ia aceitar o
resultado das urnas. Não aceitou; disse que ia entregar o passaporte. Não
entregou…
– Eu
vou fugir do país, pai – choramingou Flávio.
– Você
tá maluco!? No tocante a essa cuestão daê, sou contra, taokey? Boulos vai te
chamar de cagão, de covarde e fujão. O povo vai se arrepender de ter votado em
você. Lula ficou um ano preso. Não chorou nem fugiu da justiça.
– Um
ano é mole! Eu posso pegar mais de 40 anos!!! – concluiu o senador.
– Você
vai fugir do país e deixar seu pai aqui, preso, de tornozeleira eletrônica, com
a Michelle, como fez o bananinha? – perguntou Jair.
– Eu
sou um exilado político, pai! – disse Flávio.
–
Exilado político!? Quem disse isso daê? Seus crimes são comuns: rachadinha,
lavagem de dinheiro, compra de imóveis com dinheiro dos aposentados,
envolvimento com Bets. Flávio pega o telefone e liga para a esposa:
–
Fernanda, faz as malas, nós vamos viajar – informou Flávio.
– Que
bom, querido! Paris!? Você está precisando mesmo descansar, as eleições foram
muito desgastantes. Até eu que só ficava fazendo cara de paisagem, fingindo que
não estava nem aí para o seu caso com as meninas do Vorcaro, cansei. Imagina
você, tendo que fingir que nunca tinha ouvido falar no Banco Master e nem
conhecia o Vorcaro!
– Que
Paris!! Nós vamos fugir para a Argentina.
–
Fugir? Argentina? O povo tá comendo carne de gato e jumento lá! Você sabe que
eu estou de dieta. E todo o dinheiro que eu gastei com Mounjaro? Como vão nos
chamar lá: a família do Mileiciano? – indagou Fernanda, irônica.
– Nós
não vamos morar lá. O meu amigo Milei vai me ajudar a chegar aos Estados Unidos
– informou Flávio. – Trump prometeu me dar abrigo – concluiu.
– Você
sabe que dia 3 de novembro tem eleições nos Estados Unidos; e que se o Trump
perder, você pode ser preso, né? – perguntou Fernanda. Flávio coçou a cabeça e
decidiu:
– Eu
fujo para Santa Catarina!
¨
O acordo paralelo: a fuga de Flávio e a interferência dos
EUA no Brasil. Por Ricardo Mezavila
Se
Flávio Bolsonaro seguiu pela fronteira com a Argentina, fez escala em
Guayaquil, no Equador, e segue rumo a Miami é, em termos de trajeto, um fato
consumado — confirmado pelas autoridades argentinas e registrado em voo
internacional.
O que
verdadeiramente importa, e o que deve preocupar o país, é o que esse
deslocamento revela sobre a relação que se desenha entre Brasil e Estados
Unidos.
Tudo
indica que existia um acordo prévio, com duas faces. Se vencesse a eleição,
Flávio manteria uma postura extremamente condescendente com os interesses
norte-americanos. Documentos e declarações revelam que ele se comprometeu a
abrir o Brasil à exploração de nossas riquezas naturais — em especial minerais
críticos e terras raras, das quais o Brasil detém uma das maiores reservas do
planeta — alinhando a política externa brasileira aos ditames de Washington. A
própria correspondência enviada por Flávio ao secretário Marco Rubio, antes do
pleito, formalizou a disposição de colocar a equipe de transição à disposição
do governo Trump para negociar acordos comerciais e de investimentos.
Se a
tragédia de um governo bolsonarista tivesse se concretizado, seria Marco Rubio,
Secretário de Estado dos EUA, quem comandaria de fora as decisões estratégicas
do Brasil. Nenhuma escolha relevante seria tomada em Brasília sem passar pelo
crivo de Washington. Rubio já havia sinalizado, em gestos anteriores, que
interferiria diretamente em assuntos internos brasileiros — desde tarifas
comerciais a pressões sobre o Judiciário. Ele comandaria o país com uma peneira
nas mãos.
Do
outro lado do acordo, em caso de derrota — que de fato ocorreu —, estavam
previstos dois movimentos: o não reconhecimento da vitória de Lula e a saída
protegida de Flávio, que receberia asilo nos EUA como perseguido político.
Trump classificou o pleito de “fraudado” e o governo norte-americano estudou
oficialmente não reconhecer o resultado eleitoral. Flávio, por sua vez, ignorou
a ordem judicial de entrega de passaportes e deixou o país por via que havia
sido articulada antes mesmo do encerramento da votação.
Por
enquanto, este parece ser um dos roteiros mais prováveis. Sem alarmismo sobre
interferências que possam desestabilizar a rotina política e social, o que está
posto é claro: há um projeto externo de tutela sobre o Brasil, que se manifesta
tanto na pressão diplomática quanto na proteção política a um candidato
derrotado. Cabe ao país, e ao governo reeleito, preservar a soberania sobre as
decisões que nos dizem respeito.
¨
Polícia Federal precisa explicar por que deixou Flávio
escapar. Por Paulo Henrique Arantes
No
momento em que estas linhas eram escritas ainda não se sabiam todos detalhes da
fuga covarde de Flávio Bolsonaro. Ele poderia ter escapulido via Argentina ou
Venezuela, provavelmente pousaria na Flórida. O que se sabia era que o
pluri-investigado viajava para os braços Donald Trump, do irmão e dos amigos
que correram da Justiça antes dele em direção aos Estados Unidos . Dentre
muitas perguntas a serem respondidas, a que mais incomoda é: por que a Polícia
Federal não o vigiava se até o mundo mineral suspeitava de uma tentativa fuga?
Fugir é
prática corriqueira da turba. O boquirroto Eduardo já havia dito com todas as
letras que o irmão deveria deixar o Brasil se perdesse a eleição. As
investigações às quais está submetido contêm indicativos quase incontestáveis
de crimes – seu indiciamento é certo. O Supremo Tribunal Federal, pelas mãos de
Alexandre de Moraes, determinou-lhe a entrega dos passaportes, medida cautelar
que nunca segurou bandidos em lugar nenhum. Por que cargas d’água a Polícia
Federal não grudou como carrapato em Flávio Bolsonaro entre 25 e 27 de outubro?
A
medida cautelar de apreensão de passaporte não é agressiva, registre-se – é o
que se chama de uma cautelar menor. Faltou vigilância, claro está. Note,
paciente leitor, intrépida leitora: Willer Tomaz, de cujos crimes suspeitos
Flávio Bolsonaro aparentemente é coautor, fugiu do país antes dele, está em
Miami.
Em
tempo, e com exclusividade: o governo brasileiro incomodou-se com o timing
adotado por Alexandre de Moares para determinar a entrega dos passaportes do
candidato derrotado na eleição de 25 de outubro. Gente lúcida considerou medida
“inacreditável”.
O
advogado e ex-procurador de Justiça Roberto Tardelli disse à coluna: “Essa fuga
é reveladora, mostra que o candidato não possui nenhum respeito pelos eleitores
que ele, agora muito claramente, enganou. O projeto dele não era um projeto de
governo, mas um projeto de poder para ficar fora ao alcance da lei. O fato é
que ele tinha 24 horas para entregar o seu passaporte e não o fez. E deve ter
se utilizado do passaporte para fugir. À Justiça brasileira cabe agora fazer o
pedido de extradição e decretar sua prisão preventiva”.
O
parágrafo primeiro do Artigo 312 do Código de Processo Penal estabelece que a
prisão preventiva pode ser decretada em caso de descumprimento de qualquer das
obrigações impostas por força de medidas cautelares.
A
decretação imediata da prisão preventiva de Flávio Bolsonaro será mais uma
demonstração de que a Justiça brasileira cumpre a lei. Por outro lado, o fato
dele ficar longe destas terras dá uma certa satisfação. Entre uma e outra,
resta a pergunta: por que a Polícia Federal deixou o sujeito escapar?
Fonte:
Brasil 247

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