Michelle
e Carlos não se gostam, mas vão tentar manter bolsonarismo vivo, aponta Sérgio
Abranches
Passada
a euforia da
sua reeleição, no domingo (25/10), Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
deve começar a se preparar para o seu último
mandato como presidente do Brasil, que, para muitos, pode ser o mais
difícil de todos.
Para
conseguir construir maiorias significativas dentro de um Legislativo com uma
oposição fortalecida, Lula precisará contornar a rivalidade acirrada que se
formou na eleição para atrair legendas bolsonaristas, como parte do
próprio PL, e montar uma coalizão funcional junto com o PT.
Essa é
a análise do sociólogo e cientista político Sérgio Abranches, autor de Presidencialismo
de coalizão: Raízes e evolução do modelo político brasileiro (Companhia das
Letras, 2018), livro que carrega o nome do conceito que ele criou, nos anos
1980, para descrever as relações institucionais entre Executivo e Legislativo
no desenho político brasileiro.
"Lula
vai precisar colocar mais os partidos que elegeram poucos deputados [na sua
coalizão] e ainda transformar alguns partidos bolsonaristas em aliados ao
governo no Centrão, porque, se não, ele não conseguirá governar", diz
Abranches em entrevista à BBC News Brasil.
O
próprio Lula indicou que pretende seguir esse caminho. "Eu não escolhi o
Congresso. Foi o povo que escolheu e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar
e vou aprovar as coisas", disse em seu discurso após a oficialização do
resultado, em um hotel de São Paulo.
Abranches
prevê que boa parte dos congressistas dos partidos de direita, como o próprio
PL, por exemplo, tenderão a aceitar se integrar à coalizão governista.
"O
PL ficou muito forte no Congresso: fez a maior bancada da Câmara [com 121
deputados] e fez vários senadores [19]. Isso deu uma sobrevida
parlamentar à extrema-direita, mas a centro-direita vai migrar para a coalizão
do Lula, e é aí que ela poderá usar as suas lideranças democráticas para fazer
um contraponto conservador, de centro-direita, ao PT e ao PSB", argumenta.
"Eles
ainda querem ir para o governo, ainda querem ser ministros, ainda querem
dirigir certas organizações, etc", completa. Será nessa relação
institucional que, acredita o cientista político, uma "direita
democrática" pode se impor sobre a direita radical.
Na
entrevista que concedeu à BBC News Brasil, Sérgio Abranches também discutiu os
motivos que levaram o petista à segunda reeleição da sua história política e a
continuidade do bolsonarismo, como força política, depois da sua segunda
derrota seguida nas urnas.
>>>>
Leia trechos da conversa a seguir.
·
Nunca havia acontecido uma virada do primeiro para o
segundo turno. Como Lula conseguiu fazer isso?
Sérgio
Abranches –
O fator fundamental foi a mudança do tom da campanha dele, que foi muito gelada
no primeiro turno. Flávio Bolsonaro teve uma presença mais intensa nas ruas.
·
Por que isso aconteceu?
Abranches
–
Lula achou que ia ganhar já no primeiro turno. Inclusive, parte da abstenção
ali [de 21,08%] se deveu a isso. Os idosos pensaram que ele já estava
reeleito e sequer se preocuparam em ir votar. Daí, quando viram a ameaça da
derrota, compareceram [às urnas no segundo turno]. A redução da
abstenção também foi fundamental para a reeleição.
Soma-se
a isso a digitalização da campanha. No primeiro turno, uma parte da campanha do
Flávio foi digital, enquanto a do Lula foi quase nada [digital]. No
segundo, ele foi totalmente para o digital. Um dos problemas das pesquisas [de
intenção de voto em acertar os resultados], inclusive, é que elas não veem
o digital.
É que
estamos em um sistema híbrido: o digital está avançando muito rápido, enquanto
alguns aspectos da velha sociedade analógica continuam funcionando. Não é à toa
que o fator rua foi muito fundamental também. A ausência de Lula nas ruas no
primeiro turno foi o que o fez perder. Da mesma forma, a ida da campanha para a
rua no segundo turno, do jeito que foi — com entusiasmo, com empolgação — fez
toda a diferença.
Essas
duas coisas foram decisivas: a digitalização da campanha e a rua.
·
O cientista político Marcos Nobre disse à BBC, há alguns
dias, que essa digitalização da campanha do Lula, sobretudo no WhatsApp, com o
André Janones, não tem o
mesmo tamanho do "partido digital bolsonarista".
Como essa digitalização tardia conseguiu competir com essa estrutura
consolidada?
Abranches
– Na
verdade, ele (Lula) conseguiu neutralizar o partido digital bolsonarista,
principalmente quando ganhou alguns políticos digitais, como a Ana Elisa [segunda
deputada mais votada em Minas Gerais, pelo PT, com 524.219 votos] ou o
próprio Janones. Imagine 10 milhões de pessoas seguindo as recomendações dele e
indo para o digital? O efeito multiplicador disso é muito grande. Há um
conjunto desses políticos digitais que se elegeram, gente da nova geração, que
ganhou votos predominantemente no digital.
A Ana
Elisa, por exemplo, fez campanha séria mesmo em apenas dois municípios de Minas
Gerais, e mesmo assim foi eleita. Esse partido digital que está se formando
dentro do PT — e que também vai se formar em outros partidos da centro-direita
— fica 24 horas no ar, não só no período eleitoral. Isso faz uma grande
diferença.
·
Lula melhorou seu desempenho nos Estados de São Paulo e
do Rio de Janeiro, justamente os dois colégios eleitorais onde ele e Flávio
Bolsonaro fizeram mais atos de rua nos últimos dias. Essa presença foi mais
importante do que a digitalização?
Abranches
– Sim,
foi fundamental. Mais do que isso: quando Lula percebeu que perdeu [no
primeiro turno], ele formou uma equipe melhor que resolveu fazer uma
campanha mais focada no Rio, em São Paulo e em Minas e na expansão no Nordeste
— onde ele precisava compensar os votos que não já teria no Rio e em São Paulo.
Essa combinação das estratégias de levar a campanha para a rua e ir para o
digital ao mesmo tempo fez a diferença. Nós costumamos dizer que o segundo
turno é outra eleição, mas, dessa vez, foi uma novíssima eleição.
·
Por quê?
Abranches
– Porque
houve um comportamento totalmente diferente do candidato incumbente no segundo
turno, enquanto Flávio, o candidato opositor, manteve o mesmo tom da campanha
do primeiro turno, apenas melhorando algumas ênfases aqui e ali.
·
A campanha de Flávio cometeu algum erro decisivo?
Abranches
–
Sim. Um erro grave: ele achou que já estava eleito e, aí, entrou no segundo
turno muito arrogante. Já estava distribuindo ministérios... Esse foi o erro do
Lula no primeiro turno, inclusive, e que o Flávio reproduziu no segundo. Eles
empataram nesse erro.
·
As denúncias que ele enfrenta no STF e em inquéritos da
Polícia Federal colaboraram com isso em algum sentido?
Abranches
– O
Flávio era um candidato muito vulnerável por conta dessas acusações, que são de
processos judiciais em andamento, muito lesivos, que contrariam até o que ele
diz sobre si. Era natural que saíssem mais informações [conforme a campanha
seguisse]. Lula foi muito leal, inclusive, porque não usou o poder que tem
para pegar mais informações com a Polícia Federal e vazá-las. Ele se comportou
como um estadista.
·
Foi a segunda derrota seguida de um Bolsonaro. Como fica
o bolsonarismo, agora, a nível institucional?
Abranches
– Flávio
perdeu a eleição e o mandato. Ficará ao relento. Por outro lado, o mais radical
da família [Bolsonaro], Carlos, foi eleito senador [por Santa
Catarina, com cerca de 1,9 milhão de votos], além da Michelle [Bolsonaro,
ex-primeira dama e eleita para o Senado pelo Distrito Federal]. Embora eles
não se gostem muito, são polos que podem tentar manter o bolsonarismo vivo,
embora ele fique mais fraco agora. Isso vai dar espaço para a direita
democrática crescer.
É que,
no governo [de Jair] Bolsonaro [entre 2019 e 2022] e depois, ao
longo desse atual governo Lula, com a oposição bolsonarista e o crescimento do
Flávio como candidato, eles engoliram a direita democrática. O PSD, por
exemplo, é um partido com várias lideranças democráticas que ficou vendido para
a extrema-direita. O [Gilberto] Kassab [presidente do PSD]
cometeu um erro grave ao decidir ficar do lado do Tarcísio [de Freitas,
governador de São Paulo] e do Flávio.
O
avanço da extrema-direita sobre a direita democrática prejudicou o processo
democrático brasileiro, porque se o Brasil tem uma população de direita
importante, significativa, ela precisa ser absorvida pelos partidos da direita
democrática — o PSD, o MDB...
·
Mas existe chance de isso acontecer agora?
Abranches
– Agora
sim, porque eles terão que fazer uma coalizão com o Lula. O PL ficou muito
forte no Congresso: fez a maior bancada da Câmara [com 121 deputados] e
fez vários senadores [19]. Isso deu uma sobrevida parlamentar à
extrema-direita, mas a centro-direita vai migrar para a coalizão do Lula, e é
aí que ela poderá usar suas lideranças democráticas para fazer um contraponto
conservador, de centro-direita, ao PT e ao PSB.
·
Mas, depois dessa eleição tão acirrada, o PL migraria
para a coalizão do governo?
Abranches
– Um
pedaço dele pode, sim. O pedaço não bolsonarista, isto é, o pedaço adesista. O
Centrão que migrou para dentro do PL. Esses deputados já têm algumas divisões
importantes entre eles que provavelmente vão se acentuar, segundo informações
que eu tenho. Não ficaria tão surpreso, inclusive, se alguns parlamentares do
PL migrassem para outros partidos de centro-direita em meio à janela de
mudanças de legendas no Senado e na Câmara.
·
Nos últimos dias da campanha, o Senado aprovou uma série
de medidas que beneficiou Lula — a maioria por intermédio de Davi Alcolumbre
(União-AP). Por que ele resolveu apoiar o governo depois de entrar em colisão
com ele por diversas vezes?
Abranches
– O
Alcolumbre perdeu a eleição no Estado dele [seus aliados candidatos a
governador e senador no Amapá não foram eleitos]. Ficou fraco lá e precisa
do Lula para se fortalecer. Se, de um lado, ele tem o trunfo de já ser o
presidente do Senado e, portanto, ter condições de se reeleger, de outro ele
terá que se contrapor à bancada bolsonarista, que vai querer fazer seu presidente
— provavelmente o Rogério Marinho (PL-RN). Alcolumbre tem toda a razão em
continuar apoiando o Lula, porque é a única saída dele.
Na
Câmara dos Deputados, porém, a sucessão do presidente [Hugo Motta, do
Republicanos-PB] é mais complicada, porque a bancada do PL é muito forte e
muito grande. A gente vai ver como tudo se organizará agora no final do Lula 3.
·
Quais são as condições de governabilidade desse novo
governo?
Abranches
–
Vai ter que ser um governo muito diferente do Lula 3. Ele terá que construir
uma coalizão mais líquida — principalmente em relação aos dois primeiros
governos dele [entre 2003 e 2010] — e em um Congresso mais adverso. Ele
já teve uma coalizão líquida nesse mandato atual, com muita dificuldade em
aprovar coisas, inclusive no Supremo Tribunal Federal. Agora, terá que dar mais
espaço para a centro-direita e, por isso, será um governo mais pluralista, mais
mitigado, com menos PT.
·
Mas isso não vai gerar uma reação de quem foi à rua
defendê-lo neste segundo turno e que demandava, em paralelo, um governo
"mais PT" caso Lula vencesse?
Abranches
– Não
sei se a rua estava querendo um governo mais à esquerda, Dessa vez, a rua não
foi comandada pelo PT e pelas centrais sindicais, mas, sim, pelos movimentos
sociais mais independentes, como os estudantes, e aquelas pessoas mais
democratas que não queriam o Flávio de jeito nenhum. O antibolsonarismo não
petista e não-esquerda também foi às ruas apoiá-lo.
A
demanda, na verdade, é que Lula preserve a democracia. Para isso, ele terá que
fazer uma aliança mais forte com os partidos de representação no Congresso.
·
O novo governo, embora legitimado pelas urnas, terá
condições de fazer isso?
Abranches
– Se
você pegar os principais partidos do Congresso, o PL fez 121 deputados — um
aumento de 88 parlamentares na sua bancada que o transformou em uma força
respeitável. Ele dificulta qualquer formação de maioria que não seja firme o
suficiente. Isso significa que, para qualquer maioria do Lula 4 ser forte, terá
que colocar mais gente dentro dela. Isso significa ceder mais aos partidos de
centro-direita. Ele vai ter que conversar seriamente com o Kassab, sobretudo.
O PSDB
não existe mais: fez 11 deputados. Está fora do jogo. O MDB fez 36 deputados. É
muito pequeno. O PSD fez 43 e o PT, 70 parlamentares. Então, para construir
maioria, Lula vai precisar colocar mais partidos que elegeram poucos deputados
[na sua coalizão] e ainda transformar alguns partidos bolsonaristas em
aliados ao governo no Centrão, porque, se não, ele não conseguirá governar
O
problema do presidencialismo de coalizão é que um presidente sem maioria, sem
coalizão majoritária, não passa nada no Congresso. É por isso que eu presumo
que Lula vá tentar tomar algumas medidas importantes já agora, logo depois da
eleição, assim que o velho Congresso voltar a funcionar, negociando com o
Alcolumbre e com o presidente da Câmara.
·
O quê, por exemplo?
Abranches
– Ele
vai indicar logo o ministro do Supremo que está faltando desse mandato, por
exemplo, para ficar mais tranquilo no STF. Também vai aprovar algumas questões
que ele vai querer manter no Lula 4. Na verdade, ele vai ter que antecipar
parte da agenda do seu quarto mandato para agora, no fim desse terceiro,
aproveitando a força da reeleição, porque terá mais dificuldades no governo
seguinte com o Congresso mais à direita.
O
quarto mandato vai ser mais complicado do que o terceiro. É fato.
·
Mas é possível construir essa relação com os partidos
bolsonaristas?
Abranches
– De
cara, não, mas quando o novo Congresso vier, o PL terá necessidade de ter apoio
do governo. A parte mais moderada do PL, que não é bolsonarista fanática,
poderá até migrar do PL para outros partidos justamente para ajudar o governo
Lula.
É
preciso entender que a política funciona com base em duas coisas: uma é [quem
está] no poder do momento — porque ele (o presidente) tem o Tesouro,
ou seja, poder para alocar verbas, por exemplo. O Congresso até ficou mais
independente do Executivo nos últimos tempos por causa das emendas, que
cresceram muito, mas ele continua precisando [de uma relação saudável com o
Executivo]. Continua precisando de alguns cargos estratégicos para
influenciar seus colégios eleitorais contra opositores, por exemplo. Eles ainda
querem ir para o governo, ainda querem ser ministros, ainda querem dirigir
certas organizações, etc. Então, o poder de agora conta.
A outra
coisa é a expectativa de poder futuro — e, agora [com a derrota de Flávio],
o PL perdeu sua expectativa de poder futuro. Com [Jair] Bolsonaro doente
e preso, sem a possibilidade de um indulto, com Flávio derrotado e sem mandato
e um Bolsonaro muito menos hábil e mais radical no Congresso, o Carlos, além da
Michele — uma populista religiosa da qual não sabemos a real capacidade de fazer
política, mas que deve ser um canal de condução do Jair —, a expectativa futura
de poder está vazia.
Provavelmente
surgirão lideranças com capacidade de disputar as eleições em 2030 que, ao se
mostrarem interessadas, vendo crescer a sua influência nacionalmente,
provavelmente até vão viajar mais pelo Brasil, vão fazer mais campanha digital.
Essa expectativa de poder construirá lideranças que servirão como polos.
Podemos até ver o surgimento de uma liderança mais significativa de oposição.
Isso
sem contar o papel do [Geraldo] Alckmin.
·
O senhor vê ele como um futuro protagonista?
Abranches
–
Ele mudou para o PSB para ficar mais confortável. Tem 73 anos. Quando terminar
o Lula 4, estará com 77 anos, isto é, ainda terá condições de disputar uma
eleição. Pode vir a ser uma alternativa. Ele já disputou um pleito presidencial
e, embora tenha perdido [em 2006, para Lula], teve uma votação
importante [cerca de 39,9 milhões de votos no segundo turno]. Tem
ainda um recall nacional de ser o atual vice do Lula, de ter sido
ministro, etc. É uma figura para prestar atenção.
·
E a crise do Supremo? É de se esperar que o Congresso
mais à direita paute o impeachment de ministros à revelia de Lula?
Abranches
– Eu
acho que não. Isso já está resolvido. Lula vai nomear rapidamente um novo
ministro para STF para garantir uma maioria tranquila. Essa crise vai ser
apagada.
·
Esse mandato também será determinante para os sucessores
de ambos os movimentos: do PT e do bolsonarismo?
Abranches
– Sim.
Todos os partidos terão que produzir lideranças para essa nova fase. Estamos
vivendo um encerramento do ciclo PT e Lula e, em especial, daqui em diante, o
PT não será mais o partido competitivo que vem sendo até hoje. Os outros
partidos, que nunca foram tão competitivos nos pleitos presidenciais,
precisarão disputar esse espaço com o PL. Isso vai resultar em um processo de
busca por lideranças com capacidade eleitoral presidencial. Vai mudar muito a
natureza das eleições futuras.
Fonte:
BBC News Brasil

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