Quem
ganha com a cultura da violência na política brasileira?
A
segurança pública é, há tempos, instrumentalizada para mobilizar afetos e
fomentar uma cultura armamentista. A imagem de uma criança segurando uma arma
durante uma manifestação da extrema direita, que circulou amplamente, pode ser
considerada um símbolo dessa cultura. Outros episódios durante a campanha
eleitoral reforçaram essa percepção, como o uso de armas de fogo para coibir
manifestações, ou coagir eleitores a votarem em determinados candidatos. Nesse
contexto, torna-se fundamental analisar mais de perto essas candidaturas que se
articulam em torno do tema da segurança pública.
A
presença de candidaturas que emulam a questão militar e de forças de segurança
não é uma novidade. Para esse fenômeno, o Instituto Sou da Paz dá o nome de
policialismo. Essa participação, porém, vem se transformando. Anteriormente, a
representação era mais corporativa, pautando benefícios para as categorias das
polícias e militares. A partir de 2022, ganha protagonismo o policial
influenciador que, com um discurso populista sobre segurança pública e, por
meio de confrontos antidemocráticos, obtém engajamento nas redes sociais. Aproveitando-se desse cenário, a presidência
da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos
Deputados (CSPCCO)anunciou a criação de uma sala para podcasts este ano.
Apesar
dessa mudança de perfil – ou por causa dela –, o Perfil das Candidaturas nas
Eleições 2026, análise realizada pelo Inesc e Common Data, demonstrou que o
projeto de trazer a cultura da segurança pública para dentro da política se
consolidou e, não só isso, ele está consolidado à direita. A partir da análise
dos nomes de urna, foram encontradas 832 candidaturas com referências ao
universo da segurança. Dessas, 76,6% (637) eram de partidos da direita, o que
representou 4% das 20.448 candidaturas registradas no país. Já entre as 954
candidaturas que declararam ocupação em alguma instituição militar ou policial,
também predomina o campo político de direita com 71,4% (681), seguido pelo
centro, com 16,4% (156) e pela esquerda, com 12,3% (117). O perfil mais
predominante é o do homem branco ou pardo, do Sudeste, concorrendo a deputado
estadual.
O
estudo também demonstra que nem todos que colocam o nome de urna com
designações das forças de segurança declaram ocupação nessas instituições, 832
candidatos (32,1%) estão nessa situação. No entanto, sendo ou não um policial
de fato, essas candidaturas entram na eleição carregando consigo um capital
simbólico que outros candidatos não têm. Para parte da população, esses perfis
estão associados à coragem, autoridade, proteção, disciplina e enfrentamento do
crime. Ainda que seja necessário o afastamento prévio do cargo para se
candidatar, e mesmo com as vedações da justiça eleitoral, o policial
influenciador muitas vezes se vale da farda, do distintivo, de armas de fogo,
quando não de operações violentas, porque sabe que esse tipo de conteúdo gera
visualizações – e votos.
Em
comparação com as eleições gerais de 2022, houve uma leve redução de 0,7 pontos
percentuais de candidaturas que usam no nome de urna termos vinculados a
militares e forças de segurança. Em 2022, elas representavam 4,7% do total de
candidaturas, percentual que caiu para 4% em 2026.
Considerando
os dois grupos, de ocupação e nome de urna, foram eleitas 100 candidaturas que
se utilizaram da temática de segurança pública em 2026, 6% do total de eleitos.
Dois disputaram o segundo turno, mas perderam: Coronel Aníbal/PL, candidato a
vice-governador no Amazonas e Eliane Leal/PL, candidata a vice-governadora no
Espírito Santo. No comparativo com 2022, também considerando as duas categorias
juntas, houve aumento de 1,1 pontos percentuais, passando de 7,1% para 8,2%,
sendo 6 eleitos a mais em termos absolutos.
Foram
eleitos 56 (56%) deputados estaduais, 38 (38%) deputados federais, 3 (3%)
senadores, 1 (1%) primeiro suplente para o Senado, 2 (2%) segundos suplentes
para o Senado e 2 (2%) vice-governadores. Desse total, 88 (88%) são homens e 12
(12%) são mulheres. Em relação ao espectro político, 94 (94%) são de direita, 3
(3%) são de centro e 3 (3%) são de esquerda.
Para a
Câmara dos Deputados, foram eleitos 38 parlamentares, sendo 34 homens e 4
mulheres. O Partido Liberal – PL reúne 52,6% dos deputados federais eleitos
desse perfil em 2026. A sigla também tem ocupado posição de destaque nas
discussões sobre segurança pública no Congresso, conquistando as duas últimas
presidências da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da
Câmara, com representantes da Polícia Civil e da Polícia Militar.
Os
termos utilizados pelos eleitos nas duas categorias, nome de urna e ocupação
declarada, foram: 35 (38,89%) delegados; 20 (22,22%) coronéis; 11 (12,22%)
sargentos; 8 (8,89%) capitães; 4 (4,44%) cabos; 3 (3,33%) soldados; 2 (2,22%)
generais; 2 (2,22%) subtenentes; 2 (2,22%) tenentes; 1 (1,11%) comandante; 1
(1,11%) major; 1 (1,11%) policial.
Também
é importante um olhar mais atento aos eleitos que participaram de gestões nos
respectivos governos estaduais, como ocorreu nos casos do recém-eleito senador
Guilherme Derrite e do eleito deputado federal Felipe Curi. Derrite foi
secretário de Segurança Pública no governo de Tarcísio de Freitas, em São
Paulo, com o número de urna 111, o mesmo número de mortos no Massacre do
Carandiru. Curi foi secretário de Estado de Polícia Civil do Rio de Janeiro no
governo de Cláudio Castro, elegendo-se com o número de urna 122 – o mesmo
número de mortos na chacina ocorrida nos Complexos do Alemão e da Penha,
durante a Operação Contenção. Tarcísio de Freitas e Luciano Zucco, eleitos,
respectivamente, governadores de São Paulo e do Rio Grande do Sul, também são
provenientes das Forças Armadas.
É
preciso observar se a produção legislativa dos recém-eleitos contribuirá para a
construção de políticas públicas mais eficazes. As comissões temáticas de
segurança vêm sendo instrumentalizadas, com forte presença de parlamentares que
se utilizam dessa simbologia, para afirmar que são os únicos legítimos para
discutir sobre segurança. Ademais, são pouquíssimos projetos de lei
efetivamente aprovados, enquanto a maior parte do debate se concentra na
discussão de requerimentos (de louvor aos profissionais da segurança pública ou
de repúdio ao governo atual), que se tornam vídeos para as redes sociais. O
debate desqualificado gera curtidas nas redes, funcionando muitas vezes como
uma recompensa ao populismo penal que tem predominado nas discussões. Porém,
não basta a farda e o distintivo, mas também vontade política para ir além de
jargões e pensar no que funciona para o Brasil.
Fonte:
Por Carmela Zigoni e Marcele de Oliveira, no Le Monde

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