quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Quem ganha com a cultura da violência na política brasileira?

A segurança pública é, há tempos, instrumentalizada para mobilizar afetos e fomentar uma cultura armamentista. A imagem de uma criança segurando uma arma durante uma manifestação da extrema direita, que circulou amplamente, pode ser considerada um símbolo dessa cultura. Outros episódios durante a campanha eleitoral reforçaram essa percepção, como o uso de armas de fogo para coibir manifestações, ou coagir eleitores a votarem em determinados candidatos. Nesse contexto, torna-se fundamental analisar mais de perto essas candidaturas que se articulam em torno do tema da segurança pública.

A presença de candidaturas que emulam a questão militar e de forças de segurança não é uma novidade. Para esse fenômeno, o Instituto Sou da Paz dá o nome de policialismo. Essa participação, porém, vem se transformando. Anteriormente, a representação era mais corporativa, pautando benefícios para as categorias das polícias e militares. A partir de 2022, ganha protagonismo o policial influenciador que, com um discurso populista sobre segurança pública e, por meio de confrontos antidemocráticos, obtém engajamento nas redes sociais.  Aproveitando-se desse cenário, a presidência da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados (CSPCCO)anunciou a criação de uma sala para podcasts este ano.

Apesar dessa mudança de perfil – ou por causa dela –, o Perfil das Candidaturas nas Eleições 2026, análise realizada pelo Inesc e Common Data, demonstrou que o projeto de trazer a cultura da segurança pública para dentro da política se consolidou e, não só isso, ele está consolidado à direita. A partir da análise dos nomes de urna, foram encontradas 832 candidaturas com referências ao universo da segurança. Dessas, 76,6% (637) eram de partidos da direita, o que representou 4% das 20.448 candidaturas registradas no país. Já entre as 954 candidaturas que declararam ocupação em alguma instituição militar ou policial, também predomina o campo político de direita com 71,4% (681), seguido pelo centro, com 16,4% (156) e pela esquerda, com 12,3% (117). O perfil mais predominante é o do homem branco ou pardo, do Sudeste, concorrendo a deputado estadual.

O estudo também demonstra que nem todos que colocam o nome de urna com designações das forças de segurança declaram ocupação nessas instituições, 832 candidatos (32,1%) estão nessa situação. No entanto, sendo ou não um policial de fato, essas candidaturas entram na eleição carregando consigo um capital simbólico que outros candidatos não têm. Para parte da população, esses perfis estão associados à coragem, autoridade, proteção, disciplina e enfrentamento do crime. Ainda que seja necessário o afastamento prévio do cargo para se candidatar, e mesmo com as vedações da justiça eleitoral, o policial influenciador muitas vezes se vale da farda, do distintivo, de armas de fogo, quando não de operações violentas, porque sabe que esse tipo de conteúdo gera visualizações – e votos.

Em comparação com as eleições gerais de 2022, houve uma leve redução de 0,7 pontos percentuais de candidaturas que usam no nome de urna termos vinculados a militares e forças de segurança. Em 2022, elas representavam 4,7% do total de candidaturas, percentual que caiu para 4% em 2026.

Considerando os dois grupos, de ocupação e nome de urna, foram eleitas 100 candidaturas que se utilizaram da temática de segurança pública em 2026, 6% do total de eleitos. Dois disputaram o segundo turno, mas perderam: Coronel Aníbal/PL, candidato a vice-governador no Amazonas e Eliane Leal/PL, candidata a vice-governadora no Espírito Santo. No comparativo com 2022, também considerando as duas categorias juntas, houve aumento de 1,1 pontos percentuais, passando de 7,1% para 8,2%, sendo 6 eleitos a mais em termos absolutos.

Foram eleitos 56 (56%) deputados estaduais, 38 (38%) deputados federais, 3 (3%) senadores, 1 (1%) primeiro suplente para o Senado, 2 (2%) segundos suplentes para o Senado e 2 (2%) vice-governadores. Desse total, 88 (88%) são homens e 12 (12%) são mulheres. Em relação ao espectro político, 94 (94%) são de direita, 3 (3%) são de centro e 3 (3%) são de esquerda.

Para a Câmara dos Deputados, foram eleitos 38 parlamentares, sendo 34 homens e 4 mulheres. O Partido Liberal – PL reúne 52,6% dos deputados federais eleitos desse perfil em 2026. A sigla também tem ocupado posição de destaque nas discussões sobre segurança pública no Congresso, conquistando as duas últimas presidências da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara, com representantes da Polícia Civil e da Polícia Militar.

Os termos utilizados pelos eleitos nas duas categorias, nome de urna e ocupação declarada, foram: 35 (38,89%) delegados; 20 (22,22%) coronéis; 11 (12,22%) sargentos; 8 (8,89%) capitães; 4 (4,44%) cabos; 3 (3,33%) soldados; 2 (2,22%) generais; 2 (2,22%) subtenentes; 2 (2,22%) tenentes; 1 (1,11%) comandante; 1 (1,11%) major; 1 (1,11%) policial.

Também é importante um olhar mais atento aos eleitos que participaram de gestões nos respectivos governos estaduais, como ocorreu nos casos do recém-eleito senador Guilherme Derrite e do eleito deputado federal Felipe Curi. Derrite foi secretário de Segurança Pública no governo de Tarcísio de Freitas, em São Paulo, com o número de urna 111, o mesmo número de mortos no Massacre do Carandiru. Curi foi secretário de Estado de Polícia Civil do Rio de Janeiro no governo de Cláudio Castro, elegendo-se com o número de urna 122 – o mesmo número de mortos na chacina ocorrida nos Complexos do Alemão e da Penha, durante a Operação Contenção. Tarcísio de Freitas e Luciano Zucco, eleitos, respectivamente, governadores de São Paulo e do Rio Grande do Sul, também são provenientes das Forças Armadas.

É preciso observar se a produção legislativa dos recém-eleitos contribuirá para a construção de políticas públicas mais eficazes. As comissões temáticas de segurança vêm sendo instrumentalizadas, com forte presença de parlamentares que se utilizam dessa simbologia, para afirmar que são os únicos legítimos para discutir sobre segurança. Ademais, são pouquíssimos projetos de lei efetivamente aprovados, enquanto a maior parte do debate se concentra na discussão de requerimentos (de louvor aos profissionais da segurança pública ou de repúdio ao governo atual), que se tornam vídeos para as redes sociais. O debate desqualificado gera curtidas nas redes, funcionando muitas vezes como uma recompensa ao populismo penal que tem predominado nas discussões. Porém, não basta a farda e o distintivo, mas também vontade política para ir além de jargões e pensar no que funciona para o Brasil.

 

Fonte: Por Carmela Zigoni e Marcele de Oliveira, no Le Monde

 

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