Parlamentares
dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula
Uma
carta assinada por 13 parlamentares democratas dos Estados Unidos cobra
explicações de Mark Zuckerberg, CEO da Meta, sobre denúncias de tratamento
desigual às campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL)
nas plataformas da empresa durante as eleições presidenciais brasileiras de
2026. Enviada em 22 de outubro, a carta ocorre em meio a denúncias de
restrições a conteúdos políticos, redução de alcance de publicações e
diferenças no funcionamento de ferramentas de inteligência artificial,
episódios que levantaram suspeitas sobre a atuação de empresas estrangeiras no
processo eleitoral brasileiro.
Entre
os signatários estão o senador Bernie Sanders e os deputados Pramila Jayapal,
Greg Casar, Maxwell Frost, Jesús G. (conhecido como Chuy García), Jonathan L.
Jackson, Summer L. Lee, Mark Pocan, Mike Quigley, Delia C. Ramirez, Jan
Schakowsky, Rashida Tlaib e Nydia M. Velázquez.
Os
parlamentares afirmam estar preocupados com os diversos relatos que surgiram ao
longo das eleições brasileiras de que as plataformas da Meta estariam
restringindo ou reduzindo a distribuição de conteúdos ligados à campanha de
Lula, enquanto ampliavam ou recomendavam publicações associadas a Flávio
Bolsonaro e seus aliados. Segundo os signatários, as diferenças de tratamento
poderiam criar condições desiguais na disputa eleitoral.
Entre
os episódios citados está a desativação, em 23 de setembro, da conta de
anúncios da campanha de Lula no Facebook, 11 dias antes do primeiro turno.
Embora a conta tenha sido restabelecida após 24 horas, os parlamentares afirmam
que a Meta não apresentou uma justificativa detalhada para a medida. A carta
também menciona restrições ao impulsionamento de anúncios da campanha no
Instagram entre 9 e 10 de outubro, que, segundo uma estimativa da própria
campanha, teriam impedido cerca de 1,3 milhão de pessoas de visualizar as
publicações.
O
documento cita ainda uma reportagem da Folha de S.Paulo sobre comunicações
internas da Meta que indicariam que funcionários da empresa tinham conhecimento
de recomendações algorítmicas que promoviam o perfil de Flávio Bolsonaro e um
canal do WhatsApp associado à sua campanha, prática que é proibida pelo
Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A carta
também menciona um levantamento da organização Ctrl Z, divulgado pela Agência
Pública, que documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas
plataformas da Meta na primeira quinzena do mês. Entre os conteúdos cuja
orientação política pôde ser identificada, nove em cada dez eram favoráveis a
Lula ou progressistas. O levantamento registrou casos de perda de alcance,
restrições às funcionalidades de contas e remoção de publicações.
Os
parlamentares dos Estados Unidos pedem que Zuckerberg esclareça quais medidas
foram adotadas, quais regras orientam a moderação de conteúdo político em
eleições estrangeiras e se a empresa mantém comunicações com integrantes do
governo Donald Trump sobre o Judiciário brasileiro, a regulamentação das
plataformas e as eleições de 2026.
O
documento também questiona como a Meta pretende garantir que restrições
automatizadas às contas de anúncios dos candidatos sejam analisadas por pessoas
em até duas horas. Por fim, os signatários perguntam se a empresa permitirá que
um auditor independente examine dados internos de moderação e distribuição de
conteúdo político relacionado às eleições brasileiras.
Os
parlamentares estabeleceram o dia 4 de novembro como prazo para o envio das
respostas por escrito, sem retorno até o momento de publicação dessa nota.
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Alertas da sociedade civil
Para
Luã Cruz, diretor de Litigância Estratégica da Ctrl+Z, os episódios reforçam os
alertas sobre os riscos de concentrar o debate político nas plataformas
controladas pelas Big Techs. “A sociedade civil brasileira de direitos digitais
tem alertado há anos sobre o problema de deixar todo o sistema de discussão
política pública dentro de ferramentas que são controladas por empresas
estrangeiras. As eleições mostraram isso justamente por ser um momento
delicado”, afirma.
Segundo
Luã, as denúncias reuniram evidências de diferentes formas de interferência,
desde anúncios com desinformação e pagamentos em moeda estrangeira até o
descumprimento de regras eleitorais e a derrubada de conteúdos progressistas:
“Isso reforça de maneira mais aguda que a gente não pode depender delas”, diz.
O
diretor ressalta que as plataformas continuam sendo importantes para a
comunicação política – “Não é à toa que o canal dos Janones ajudou
incrivelmente a campanha do Lula” – mas defende que o país desenvolva
alternativas para reduzir a dependência desses serviços.
Outro
episódio destacado é o funcionamento da Meta AI, assistente de Inteligência
Artificial da Meta no WhatsApp. O Núcleo Jornalismo reproduziu testes em que a
ferramenta se recusava a criar imagens com referências a Lula, ao PT e ao
número 13, mas atendia a comandos equivalentes relacionados a Flávio Bolsonaro,
ao PL e ao número 22. A Meta reconheceu a falha e afirmou ter adotado medidas
adicionais para impedir a geração de imagens de candidatos, inclusive quando os
comandos usavam apenas o primeiro nome e o número eleitoral. A organização
Ctrl+Z também apresentou uma denúncia formal à Corregedoria da Justiça
Eleitoral sobre a diferença de tratamento.
A carta
dos parlamentares norte-americanos também menciona a ocorrência, com base em
reportagem publicada por Mônica Bergamo em 14 de outubro, que apontou
diferenças na geração de imagens favoráveis aos dois candidatos. As denúncias
levaram o TSE a determinar que a Meta garantisse tratamento igualitário às
candidaturas.
Na
decisão, porém, o ministro Marco Aurélio Bellizze afirmou que, embora houvesse
indícios de falha na ferramenta, não havia elementos suficientes para concluir
que ela decorreu de um critério deliberado ou que ocorreu de forma sistemática.
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Ministério Público acionou a Justiça
As
denúncias também motivaram medidas do Ministério Público Federal (MPF). A
Agência Pública relatou que o órgão adotou iniciativas para tentar impedir
bloqueios de contas e restrições de alcance considerados indevidos nas
plataformas da Meta.
Na
Justiça Federal do Rio Grande do Sul, o MPF ajuizou uma ação civil pública com
pedido de urgência para impedir decisões de bloqueio de conteúdo baseadas
exclusivamente em algoritmos e exigir que reavaliações e recursos sejam
analisados por equipes humanas especializadas. O órgão também pediu a
possibilidade de aplicação de multa diária de R$ 500 mil por conta afetada em
caso de descumprimento.
Em
outra frente, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) encaminhou
uma recomendação extrajudicial à Meta, cobrando providências de transparência e
proteção à liberdade de expressão durante o período eleitoral. A empresa
recebeu prazo de 48 horas para informar se acataria as recomendações e de 30
dias para apresentar um relatório conclusivo.
As
medidas foram motivadas por denúncias apresentadas pelas organizações Ctrl+Z,
Artigo 19, Conectas e Sleeping Giants Brasil. Entre os casos relatados estão
suspensões de contas e restrições a conteúdos políticos favoráveis a Lula e
contrários a Flávio Bolsonaro. A apuração também identificou casos de perfis e
publicações removidos sob acusações de terrorismo e nudez, sem que houvesse
conteúdo que justificasse essas classificações.
O MPF
considerou genéricas as respostas apresentadas pela Meta e apontou que a
empresa não esclareceu individualmente os motivos das restrições nem detalhou
todos os casos de suspensões e remoções questionados.
Na
avaliação de Luã, a reparação dos usuários afetados deve ser uma das
prioridades na responsabilização da empresa. O diretor também defende a
abertura de dados sobre a moderação de conteúdo e a aplicação de multas
proporcionais à dimensão das plataformas.
“Além
de você reparar o dano para o consumidor como um todo, tem que ter a abertura
dos dados para a gente entender o tamanho do estrago. E, a partir disso, ver o
terceiro ponto que é a multa. Tem que multar pesado. Essas empresas são as mais
ricas da história do capitalismo e elas precisam ser responsabilizadas à
altura”, diz.
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Comitê de Supervisão aponta falhas de moderação
O
Comitê de Supervisão da Meta também apontou falhas na aplicação das regras de
moderação durante as eleições brasileiras. O colegiado criticou as restrições
técnicas impostas às contas de anúncios de Lula e considerou que houve
aplicação excessivamente rigorosa das políticas antifraude da empresa.
O
comitê avaliou que o caso deveria ter sido encaminhado a uma equipe interna de
especialistas, além de destacar que erros de moderação durante períodos
eleitorais podem ocorrer tanto pelo excesso de rigor, que restringe
manifestações políticas legítimas, quanto pela aplicação insuficiente das
regras, que pode comprometer a integridade eleitoral. E cobrou mais
transparência e consistência nos procedimentos de moderação e recomendou a
criação de indicadores públicos que permitam avaliar a eficácia das medidas
adotadas pela empresa, incluindo suas principais falhas.
A
manifestação retoma preocupações sobre a atuação da Meta em eleições anteriores
em outros países, inclusive nos EUA, e a necessidade de mecanismos que permitam
avaliar os resultados de suas políticas de moderação. Embora a empresa divulgue
dados gerais sobre anúncios e contas removidas, o comitê apontou limitações nas
métricas públicas disponíveis para medir a efetividade dessas políticas.
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TSE cobrou tratamento igualitário
O TSE
determinou, em 15 de outubro, que a Meta oferecesse tratamento igualitário aos
dois candidatos. Em 19 de outubro, diante do que o tribunal considerou
descumprimento da decisão, a multa aplicada à empresa foi dobrada.
No dia
seguinte, a Meta declarou ter concluído a implementação de 17 iniciativas para
cumprir a determinação, incluindo um mecanismo de revisão humana das contas de
anúncios das campanhas presidenciais.
Os
episódios também evidenciaram limitações na atuação das instituições
brasileiras diante das plataformas, aponta Luã. “Não foi uma questão de falta
de instrumento jurídico ou até mesmo falta de conhecimento, por exemplo, da
sociedade civil ou da população brasileira sobre o que estava acontecendo.
Faltou ao TSE atuar de maneira diligente”, afirma.
Segundo
o diretor, a sociedade civil alertava para os problemas desde março, quando
foram publicadas as resoluções eleitorais sobre tecnologias.
Fonte:
Por Aline Melo, da Agência Pública

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