Carmen
Nery: Convite ao diálogo num Brasil atormentado
Eu sou
grande entusiasta e medíocre estudiosa da filosofia. Com minha fuleira bagagem
filosófica, conduzo minha vida a partir da resposta que dei a uma das perguntas
fundamentais da filosofia: qual o propósito da minha existência? Na minha
concepção, viemos a este mundo marcado pela dualidade para profundamente
experimentá-la e, quiçá, integrá-la. Nossa experiência mundana é essencialmente
dual: bem e mal, dia e noite, frio e quente, homem e mulher, esquerda e
direita… O bem viver depende de nossa capacidade de promover a integração de
polos opostos. Não a superação, não a oposição, não a supressão; a integração.
Quando a dualidade é integrada ela se torna um paradoxo, pois a maldição pode
se tornar uma benção.
Apesar
das incertezas, vivemos um tempo único. É um renascimento da espiritualidade na
ciência. A lei do emaranhamento quântico nos mostra que partículas que uma vez
estiveram fisicamente ligadas permanecem energeticamente conectadas, ainda que
fisicamente separadas. Isso importa porque do ponto de vista científico, o
universo se iniciou de uma tremenda descarga energética chamada Big Bang.
A energia foi então liberada e começou a se expandir. Cientistas dizem que no
momento do Big Bang toda matéria existente no Universo tinha o tamanho
de uma ervilha. Toda matéria de todos os corpos, planetas e estrelas (que, por
sinal, representa apenas 4% de todo o universo – os outros 96% está “vazio”),
poderia ser compactada dentro de uma ervilha. Assim, a despeito do universo ter
se expandido e seguir se expandindo neste exato momento, apesar de a matéria
estar agora fisicamente separada, todo o universo está conectado. Nós estamos
conectados a nós mesmos, ao nosso planeta a outras estrelas e outros planetas.
E mais: os 96% “vazio” do universo não está faltando porque não é ocupado pela
matéria, ele é um campo de energia invisível, que dá massa às partículas
elementares. Partículas interagem com o campo ao se moverem e quanto maior a
interação maior a massa. Se você, assim como eu, já achava a física complexa
quando nos apresentaram o modelo de elétrons, prótons e nêutrons, saiba que ele
está desatualizado. O átomo é feito de campos energéticos que vibram e se
concentram em um lugar mais do que em outros. Esse modelo vibratório do átomo
abriu caminho na ciência para a identificação de partículas e subpartículas de
extrema complexidade. Na teoria quântica de campos, a base do modelo padrão da
física de partículas, o fundamental não são exatamente as partículas, mas sim
os campos que preenchem o universo. Uma partícula é uma pequena excitação de um
campo. O bóson de Higgs, ondulação que dá massa às partículas, foi detectado em
2012 no CERN, provando que o campo existe e rendeu o Nobel de Física a Peter Higgs
e Francois Englert em 2013. Alguns chamam de campo de Higgs, outros de fonte,
outros de matrix. O que se investiga agora é se há a possibilidade de reduzir a
matéria de forma subjetiva e no nível do abstrato até a consciência. Há uma
inteligência suprema, uma causa primária, uma consciência que transforma as
possibilidades da matéria naquilo que chamamos de realidade? Max Planck disse,
já em 1944, que toda a matéria tem origem e existe por força de uma
consciência, de uma mente inteligente, que ele chamou de matrix de toda a
matéria. A teoria das supercordas é uma proposta que poderia explicar a
“partícula divina consciencial” no final da escala das partículas subatômicas.
De maneira simplória, a teoria postula que os quarks (mais ínfima partícula
subatômica conhecida até o momento) estariam ligados entre si por “supercordas”
que, de acordo com sua vibração, dariam a “tonalidade” específica ao núcleo
atômico a que pertencem, dando assim as qualidades físico-químicas da partícula
em questão. Esta teoria traz a ilação de que tal tonalidade vibratória é dada
por algo ou alguém de onde abstraímos a “consciência” como fator propulsor
dessas cordas quânticas e que existe uma unidade consciencial vibrando a partir
de cada objeto, de cada ser. A teoria das supercordas não tem comprovação
experimental, mas a ponte está se formando.
A ideia
de que existe um campo energético que conecta todas as coisas não é nova. A
tradição hindu descreve o Deus Indra como responsável pela teia da criação que
se estende infinitamente em todas as direções, que na intersecção de cada ponto
dessa rede há uma brilhosa joia de luz e que cada uma dessas joias contém um
universo próprio. Se a teoria das supercordas é hoje a mais ambiciosa, ao
tentar unificar toda a física, na tradição Tupi Guarani o ser é um som. “Tu”
significa som e “pi” significa assento. A palavra tupi é a designação da
linguagem para o ser encarnado. É um som que toma assento, que ancora. O som
harmônico é o ser conectado. Daniel Barenboim, em A música desperta o tempo,
fala que o som não é independente. Ele está em relação constante, inevitável e
permanente com o silêncio. A primeira nota não é o começo, ela emerge do
silêncio que a precede e cada nota tem seu tempo de vida: a nota morre. O
maestro diz que o desvanecimento do som por sua transformação em silêncio é a
própria definição dos limites de espaço e tempo.
A
teoria das supercordas também propõe a inserção das cordas em um espaço
multidimensional (alguns cientistas propõem 11 além das quatro em que vivemos –
largura, comprimento, altura e tempo) e, portanto, teríamos acesso a apenas
alguns dos aspectos que as formam. A teoria das supercordas forneceu o exemplo
mais concreto e matematicamente preciso do chamado princípio holográfico, a
ideia de que tudo o que acontece num volume de espaço pode ser explicado por
informações registradas na sua fronteira, que tem uma dimensão a menos. Ou
seja, o reflexo do todo existe em cada uma de suas partes. O princípio
holográfico está contido em quase todas as tradições religiosas. No judaísmo o
homem é feito à imagem de Deus. O Pai Nosso, uma das orações mais poderosas do cristianismo,
tem o movimento da correspondência em assim na terra como no céu. Na
tradição sufi o ser humano é o microcosmo que reúne em si todos os nomes
divinos espalhados pelo universo.
Como
aplicar a holografia de forma precisa ao universo real ainda é uma questão
aberta, mas surge a hipótese de que a realidade é uma simulação. A física não
corrobora a ideia de uma ilusão, a proposta é a de que pode haver mais de uma
descrição válida para a realidade e que uma delas usa menos dimensões. Nada
obstante, o mundo tridimensional que experimentamos continua tão real quanto
antes.
Mas
exploremos a hipótese de vivermos em uma simulação. A definição mais simples de
simulação é um ambiente prático, uma réplica da vida real, com o propósito de
treinar e aprender uma nova habilidade e, depois disso, aplicá-la na vida real.
Pilotos de avião, por exemplo, treinam primeiro em simuladores antes de
qualquer voo em aeronaves reais. A teoria da simulação imagina o mundo físico
como um ambiente construído e que um campo contínuo de informação conecta o
mundo físico à fonte, um lugar de puro potencial, traduzindo potencial em
forma. Essa outra realidade, da qual a nossa realidade é uma extensão, recebeu
diferentes nomes ao longo da história humana. A alegoria da caverna em Platão
dá a ideia de uma realidade de sombras, mas que para além dela há uma tão
radiante que a princípio pode nos cegar, até que nossos olhos a ela se
acostumem. Na tradição hindu, Maya é um estado de sonho poderoso, mas
impermanente. Sob a influência de maya tem-se a ilusão da separação, da
confusão da alma com o corpo. A iluminação se dá pela capacidade de escapar da
ilusão.
A
teoria da simulação é baseada num modelo de específico: um fluxograma
descendente de realidades. Simulação é a linguagem da geração Z para a
espiritualidade do mundo antigo. Nós nos relacionamos com conceitos a partir de
nosso ambiente e vídeogame é uma parte importante do entretenimento moderno. O
léxico e a cultura do videogame estão costurados no espírito desta era. Nos
dias de hoje, a palavra avatar se relaciona com um personagem de vídeogame. Nós
controlamos as decisões, movimentos e opções do personagem dentro do videogame.
Se vivemos em uma realidade simulada, a alma encarnada seria a consciência
operando através de um avatar humano?
Na
cosmologia gnóstica Sofia é a personificação da sabedoria. Ela é a energia
primordial feminina. Tem compaixão, é criativa e curiosa. Sua fé não é cega, é
oriunda de sua conexão com o divino e ela encarna a essência da sabedoria:
abertura. Sofia anseia conhecer a luz da fonte de onde veio e sua sabedoria é
incompleta sem a fagulha da curiosidade que a motiva a entender. Assim, nos
textos gnósticos (são contados de diversas formas, mas a essência se mantém) o
mundo material nasceu de uma deformação cósmica, quando Sofia caiu de sua casa
no pleroma (eternidade em seu infinito potencial criativo) em um mundo mais
denso, uma inversão do divino. A luz da fonte se tornou uma falsa luz, uma
imitação arrogante. A partir de um espelho distorcido, a curiosidade tornou-se
inveja, o anseio tornou-se falta e a paixão esquecimento. Sua sabedoria
transformou-se em ignorância. Ela se esqueceu de sua divindade, mas a sua
divindade nunca se esqueceu de Sofia, permaneceu como uma chama eterna,
escondida dentro dela. Uma chama silenciosa, mas que a guiava enquanto Sofia
vagava por esse estranho e fraturado mundo. A queda de Sofia na falsa luz ecoa
no imaginário coletivo dos mitos de diversas culturas. É o mapa da jornada do
herói, é a história de queda na matéria e ascensão ao reino espiritual da deusa
suméria Inana, da deusa babilônica Ishtar. A humanidade na tradição
judaico-cristã também caiu do Éden, Perséfone em Hades.
A
jornada de Sofia mostra que a queda e o sofrimento não são o fim, mas o começo
da transformação. A cada desafio a sabedoria está se gestando dentro de nós,
nos convidando a criar coerência a partir do paradoxo. Não devemos escapar dos
desafios que se nos apresentam, ao contrário, devemos experimentá-los
intensamente. Quando vivemos a partir dessa consciência, até o mais mundano se
torna extraordinário e as sombras carregam a semente da luz.
Nós,
como humanidade, temos feito um trabalho sofrível quanto à tentativa de passar
de fase na simulação do mundo dual. E quanto mais resistimos ao currículo da
Terra, mais fortes são os desafios e mais angústia e sofrimento eles oferecem.
Aumento da sensação de separação, do totalitarismo em todas as partes do globo,
guerras e o colapso da saúde mental.
A
política brasileira é só mais um exemplo. Falo abertamente que votei em Lula e
o farei no segundo turno. Não porque sou petista ou porque me esqueci do
mensalão, do petrolão, do seletivo discurso de multilateralismo em que o
presidente enaltece ditaduras de esquerda, dentre tantos outros exemplos
citáveis. Mas porque, como diagnosticou Milan Svolik, estou disposta a engolir
os abusos do meu candidato porque enxergo na oposição um mal maior. Democracias
doentes nos impõem uma cegueira autoinflingida em que o debate de ideias sequer
é cogitado. O voto se dá pela negação do adversário. Justamente pela minha
experiência do voto de repulsa, não acredito que os 56 milhões de brasileiros
que votaram em Flávio Bolsonaro o fizeram porque estão interessados no colapso
das instituições e do jogo democrático e na instauração de um estado miliciano.
A juventude hoje é conservadora porque a essência da juventude é ser
antissistema. Há um cansaço coletivo do governo que representou 18 dos últimos
24 anos. Há uma sede de mudança.
Essencialmente
somos todos brasileiros, estamos no mesmo barco e queremos um Brasil melhor.
Essa é a premissa da qual devemos partir e que dá condições à abertura, raiz da
sabedoria e remédio para o espelho distorcido da ignorância. Mas se a premissa
já é difícil de estabelecer, mais complexo ainda é tentar iniciar qualquer
processo integrativo de uma sociedade polarizada. Tomemos o crescente movimento
pela abolição do voto feminino como exemplo. Mais interessante do que falar de
conquistas jurídicas femininas dos últimos (recentes) tempos, quero falar sobre
saberes. Na tradição chinesa a energia feminina é líder e a masculina é a força
motora. A energia yang transforma, constrói e move. A princípio pode
parecer que aquele que move é também o que lidera. Mas a biologia, na
reprodução, por exemplo, nos mostra que a despeito de milhões de espermas se
moverem em grande quantidade e com força, é o óvulo quem lhes dá direção e
escolhe qual esperma é útil. Sem o óvulo, toda a força e movimento é apenas
caos. Na medicina chinesa mulheres incorporam a energia yin, yin
dá a yang o sentido do movimento. Fisiologicamente deveria haver uma
corregulação entre o masculino e o feminino. Um feminino conectado cria
coerência entre céu e terra e o masculino se regula a partir desse campo. A
sociedade moderna desconectou a energia feminina da energia masculina e o yin
parou de liderar. Yang perdeu a direção e eventualmente seu caos se
tornou raiva e começou a promover dominação e controle sobre tudo, inclusive
sobre o yin, sua própria força reguladora. Esse é o colapso da regulação
de yin e yang, porque sem o yin para dar direção, tudo que
yang conhece é destruição. Um Brasil em que as mulheres não podem votar
é para a Constituição de 1988 impossível e requereria uma ruptura
institucional. Só a discussão a respeito já dá à hipótese condição de
possibilidade.
Se você
acredita que, a partir de um congresso de maioria formada pela extrema direita,
dar à oposição o cargo do executivo é saudável para o jogo democrático vote em
Lula no segundo turno. Se acha que é melhor dar à direita todas as condições
para governar com carta branca, vote em Flávio Bolsonaro. Para o que quero
construir com este texto isso não importa. Importa lembrar-se de que todas as
crianças são nossas crianças, que toda pobreza é nossa pobreza. Que guerra e
genocídio em qualquer parte do globo reverberam em nossa própria biologia e que
as flores que o el niño produziu no deserto do Atacama recentemente nos
lembram de que até os terrenos mais áridos são fonte da mais delicada forma de
vida.
Nenhuma
solução que negue a profunda experiência de integração do currículo dual da
vida na Terra nos trará paz. Não há fórmula milagrosa. Não acredite em soluções
simples. Não acredite em soluções que busquem o aniquilamento daquilo que você
considera diferente, errado, ruim. Isso é profundamente contrário à evolução
espiritual programada para essa existência.
Zhao
Tingyang, em All under Heaven, trabalha o conceito de Tianxia da
antiguidade chinesa como possibilidade para uma nova ordem global. Tianxia
significa tudo aquilo que está sob o céu e a ideia é que inexiste lado de fora.
O autor propõe um movimento em direção a uma ordem racional relacional em
oposição à racionalidade individual, uma ontologia da coexistência, o indivíduo
não está isolado, ser é sempre “ser-com”.
A
convocação que faço neste texto é para futuros menores. Luz Horne em seu
brilhante livro Futuros menores, faz uma leitura inspiradíssima do conto
Às margens da alegria de Joao Guimarães Rosa. Ao final do conto o
vaga-lume surge como uma margem de alegria. “Do avião e do voo utópico do
início, o conto se direciona primeiro para o não voo, para o seu avesso: para o
horizonte plano, para a construção do aeroporto/destruição das árvores e a para
a morte do peru. Mas entre essas duas opções de utopia e apocalipse ou
civilização versus natureza, o final do conto implica uma abertura para
um mundo poroso, de intersecção e de transbordamento dos limites que definem a
divisão entre o natural e humano. Um mundo onde existe um voo alternativo, mais
baixo e intermitente: o voo do vaga-lume”. Ela propõe futuros menores como
aquilo que nos permite imaginar formas de complicar as bordas, de tornar as
fronteiras difusas, de esticar as margens e construir outras arquiteturas de
mundo. Ailton Krenak acrescenta que futuros menores adiam o fim do mundo.
Marina
Garcés, em O novo esclarecimento radical, afirma que o mundo
contemporâneo é radicalmente antiesclarecido e que contra o dogma apocalíptico
e sua monocronia messiânica e solucionista (condenação ou salvação), o novo
esclarecimento radical seria uma tarefa de tecelãs insubmissas, incrédulas e confiantes.
Enquanto desacreditam refazem os fios do tempo e do mundo com ferramentas
inesgotáveis.
Ontem
ao colocar minha filha de 4 anos para dormir, brincávamos de “eu te amo mais”.
Disse-lhe que eu a amava até dar uma volta na lua e voltar. Ela me respondeu
que me amava desde onde não há mais nada até o chão. Quero crer que essa nova
geração já chega com uma sensibilidade quântica capaz de compreender a
abstração de que há algo que nos antecede e as profundas implicações desta
constatação. Que com isso consigam reconhecer com facilidade que o Deus que
habita em mim habita em você também e que a melhoria de cada um implica a
melhoria de todos os outros. Que futuros menores são possíveis através de uma
arquitetura transbordada e outros modos de viver junto. A luz do vaga-lume não
é só esperança, é a materialidade de um outro mundo, um lugar menor para se
habitar, mas que produz uma eletricidade vital.
Fonte:
Outras Palavras

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