quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Carmen Nery: Convite ao diálogo num Brasil atormentado

Eu sou grande entusiasta e medíocre estudiosa da filosofia. Com minha fuleira bagagem filosófica, conduzo minha vida a partir da resposta que dei a uma das perguntas fundamentais da filosofia: qual o propósito da minha existência? Na minha concepção, viemos a este mundo marcado pela dualidade para profundamente experimentá-la e, quiçá, integrá-la. Nossa experiência mundana é essencialmente dual: bem e mal, dia e noite, frio e quente, homem e mulher, esquerda e direita… O bem viver depende de nossa capacidade de promover a integração de polos opostos. Não a superação, não a oposição, não a supressão; a integração. Quando a dualidade é integrada ela se torna um paradoxo, pois a maldição pode se tornar uma benção.

Apesar das incertezas, vivemos um tempo único. É um renascimento da espiritualidade na ciência. A lei do emaranhamento quântico nos mostra que partículas que uma vez estiveram fisicamente ligadas permanecem energeticamente conectadas, ainda que fisicamente separadas. Isso importa porque do ponto de vista científico, o universo se iniciou de uma tremenda descarga energética chamada Big Bang. A energia foi então liberada e começou a se expandir. Cientistas dizem que no momento do Big Bang toda matéria existente no Universo tinha o tamanho de uma ervilha. Toda matéria de todos os corpos, planetas e estrelas (que, por sinal, representa apenas 4% de todo o universo – os outros 96% está “vazio”), poderia ser compactada dentro de uma ervilha. Assim, a despeito do universo ter se expandido e seguir se expandindo neste exato momento, apesar de a matéria estar agora fisicamente separada, todo o universo está conectado. Nós estamos conectados a nós mesmos, ao nosso planeta a outras estrelas e outros planetas. E mais: os 96% “vazio” do universo não está faltando porque não é ocupado pela matéria, ele é um campo de energia invisível, que dá massa às partículas elementares. Partículas interagem com o campo ao se moverem e quanto maior a interação maior a massa. Se você, assim como eu, já achava a física complexa quando nos apresentaram o modelo de elétrons, prótons e nêutrons, saiba que ele está desatualizado. O átomo é feito de campos energéticos que vibram e se concentram em um lugar mais do que em outros. Esse modelo vibratório do átomo abriu caminho na ciência para a identificação de partículas e subpartículas de extrema complexidade. Na teoria quântica de campos, a base do modelo padrão da física de partículas, o fundamental não são exatamente as partículas, mas sim os campos que preenchem o universo. Uma partícula é uma pequena excitação de um campo. O bóson de Higgs, ondulação que dá massa às partículas, foi detectado em 2012 no CERN, provando que o campo existe e rendeu o Nobel de Física a Peter Higgs e Francois Englert em 2013. Alguns chamam de campo de Higgs, outros de fonte, outros de matrix. O que se investiga agora é se há a possibilidade de reduzir a matéria de forma subjetiva e no nível do abstrato até a consciência. Há uma inteligência suprema, uma causa primária, uma consciência que transforma as possibilidades da matéria naquilo que chamamos de realidade? Max Planck disse, já em 1944, que toda a matéria tem origem e existe por força de uma consciência, de uma mente inteligente, que ele chamou de matrix de toda a matéria. A teoria das supercordas é uma proposta que poderia explicar a “partícula divina consciencial” no final da escala das partículas subatômicas. De maneira simplória, a teoria postula que os quarks (mais ínfima partícula subatômica conhecida até o momento) estariam ligados entre si por “supercordas” que, de acordo com sua vibração, dariam a “tonalidade” específica ao núcleo atômico a que pertencem, dando assim as qualidades físico-químicas da partícula em questão. Esta teoria traz a ilação de que tal tonalidade vibratória é dada por algo ou alguém de onde abstraímos a “consciência” como fator propulsor dessas cordas quânticas e que existe uma unidade consciencial vibrando a partir de cada objeto, de cada ser. A teoria das supercordas não tem comprovação experimental, mas a ponte está se formando.

A ideia de que existe um campo energético que conecta todas as coisas não é nova. A tradição hindu descreve o Deus Indra como responsável pela teia da criação que se estende infinitamente em todas as direções, que na intersecção de cada ponto dessa rede há uma brilhosa joia de luz e que cada uma dessas joias contém um universo próprio. Se a teoria das supercordas é hoje a mais ambiciosa, ao tentar unificar toda a física, na tradição Tupi Guarani o ser é um som. “Tu” significa som e “pi” significa assento. A palavra tupi é a designação da linguagem para o ser encarnado. É um som que toma assento, que ancora. O som harmônico é o ser conectado. Daniel Barenboim, em A música desperta o tempo, fala que o som não é independente. Ele está em relação constante, inevitável e permanente com o silêncio. A primeira nota não é o começo, ela emerge do silêncio que a precede e cada nota tem seu tempo de vida: a nota morre. O maestro diz que o desvanecimento do som por sua transformação em silêncio é a própria definição dos limites de espaço e tempo.

A teoria das supercordas também propõe a inserção das cordas em um espaço multidimensional (alguns cientistas propõem 11 além das quatro em que vivemos – largura, comprimento, altura e tempo) e, portanto, teríamos acesso a apenas alguns dos aspectos que as formam. A teoria das supercordas forneceu o exemplo mais concreto e matematicamente preciso do chamado princípio holográfico, a ideia de que tudo o que acontece num volume de espaço pode ser explicado por informações registradas na sua fronteira, que tem uma dimensão a menos. Ou seja, o reflexo do todo existe em cada uma de suas partes. O princípio holográfico está contido em quase todas as tradições religiosas. No judaísmo o homem é feito à imagem de Deus. O Pai Nosso, uma das orações mais poderosas do cristianismo, tem o movimento da correspondência em assim na terra como no céu. Na tradição sufi o ser humano é o microcosmo que reúne em si todos os nomes divinos espalhados pelo universo.

Como aplicar a holografia de forma precisa ao universo real ainda é uma questão aberta, mas surge a hipótese de que a realidade é uma simulação. A física não corrobora a ideia de uma ilusão, a proposta é a de que pode haver mais de uma descrição válida para a realidade e que uma delas usa menos dimensões. Nada obstante, o mundo tridimensional que experimentamos continua tão real quanto antes.

Mas exploremos a hipótese de vivermos em uma simulação. A definição mais simples de simulação é um ambiente prático, uma réplica da vida real, com o propósito de treinar e aprender uma nova habilidade e, depois disso, aplicá-la na vida real. Pilotos de avião, por exemplo, treinam primeiro em simuladores antes de qualquer voo em aeronaves reais. A teoria da simulação imagina o mundo físico como um ambiente construído e que um campo contínuo de informação conecta o mundo físico à fonte, um lugar de puro potencial, traduzindo potencial em forma. Essa outra realidade, da qual a nossa realidade é uma extensão, recebeu diferentes nomes ao longo da história humana. A alegoria da caverna em Platão dá a ideia de uma realidade de sombras, mas que para além dela há uma tão radiante que a princípio pode nos cegar, até que nossos olhos a ela se acostumem. Na tradição hindu, Maya é um estado de sonho poderoso, mas impermanente. Sob a influência de maya tem-se a ilusão da separação, da confusão da alma com o corpo. A iluminação se dá pela capacidade de escapar da ilusão.

A teoria da simulação é baseada num modelo de específico: um fluxograma descendente de realidades. Simulação é a linguagem da geração Z para a espiritualidade do mundo antigo. Nós nos relacionamos com conceitos a partir de nosso ambiente e vídeogame é uma parte importante do entretenimento moderno. O léxico e a cultura do videogame estão costurados no espírito desta era. Nos dias de hoje, a palavra avatar se relaciona com um personagem de vídeogame. Nós controlamos as decisões, movimentos e opções do personagem dentro do videogame. Se vivemos em uma realidade simulada, a alma encarnada seria a consciência operando através de um avatar humano?

Na cosmologia gnóstica Sofia é a personificação da sabedoria. Ela é a energia primordial feminina. Tem compaixão, é criativa e curiosa. Sua fé não é cega, é oriunda de sua conexão com o divino e ela encarna a essência da sabedoria: abertura. Sofia anseia conhecer a luz da fonte de onde veio e sua sabedoria é incompleta sem a fagulha da curiosidade que a motiva a entender. Assim, nos textos gnósticos (são contados de diversas formas, mas a essência se mantém) o mundo material nasceu de uma deformação cósmica, quando Sofia caiu de sua casa no pleroma (eternidade em seu infinito potencial criativo) em um mundo mais denso, uma inversão do divino. A luz da fonte se tornou uma falsa luz, uma imitação arrogante. A partir de um espelho distorcido, a curiosidade tornou-se inveja, o anseio tornou-se falta e a paixão esquecimento. Sua sabedoria transformou-se em ignorância. Ela se esqueceu de sua divindade, mas a sua divindade nunca se esqueceu de Sofia, permaneceu como uma chama eterna, escondida dentro dela. Uma chama silenciosa, mas que a guiava enquanto Sofia vagava por esse estranho e fraturado mundo. A queda de Sofia na falsa luz ecoa no imaginário coletivo dos mitos de diversas culturas. É o mapa da jornada do herói, é a história de queda na matéria e ascensão ao reino espiritual da deusa suméria Inana, da deusa babilônica Ishtar. A humanidade na tradição judaico-cristã também caiu do Éden, Perséfone em Hades.

A jornada de Sofia mostra que a queda e o sofrimento não são o fim, mas o começo da transformação. A cada desafio a sabedoria está se gestando dentro de nós, nos convidando a criar coerência a partir do paradoxo. Não devemos escapar dos desafios que se nos apresentam, ao contrário, devemos experimentá-los intensamente. Quando vivemos a partir dessa consciência, até o mais mundano se torna extraordinário e as sombras carregam a semente da luz.

Nós, como humanidade, temos feito um trabalho sofrível quanto à tentativa de passar de fase na simulação do mundo dual. E quanto mais resistimos ao currículo da Terra, mais fortes são os desafios e mais angústia e sofrimento eles oferecem. Aumento da sensação de separação, do totalitarismo em todas as partes do globo, guerras e o colapso da saúde mental.

A política brasileira é só mais um exemplo. Falo abertamente que votei em Lula e o farei no segundo turno. Não porque sou petista ou porque me esqueci do mensalão, do petrolão, do seletivo discurso de multilateralismo em que o presidente enaltece ditaduras de esquerda, dentre tantos outros exemplos citáveis. Mas porque, como diagnosticou Milan Svolik, estou disposta a engolir os abusos do meu candidato porque enxergo na oposição um mal maior. Democracias doentes nos impõem uma cegueira autoinflingida em que o debate de ideias sequer é cogitado. O voto se dá pela negação do adversário. Justamente pela minha experiência do voto de repulsa, não acredito que os 56 milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro o fizeram porque estão interessados no colapso das instituições e do jogo democrático e na instauração de um estado miliciano. A juventude hoje é conservadora porque a essência da juventude é ser antissistema. Há um cansaço coletivo do governo que representou 18 dos últimos 24 anos. Há uma sede de mudança.

Essencialmente somos todos brasileiros, estamos no mesmo barco e queremos um Brasil melhor. Essa é a premissa da qual devemos partir e que dá condições à abertura, raiz da sabedoria e remédio para o espelho distorcido da ignorância. Mas se a premissa já é difícil de estabelecer, mais complexo ainda é tentar iniciar qualquer processo integrativo de uma sociedade polarizada. Tomemos o crescente movimento pela abolição do voto feminino como exemplo. Mais interessante do que falar de conquistas jurídicas femininas dos últimos (recentes) tempos, quero falar sobre saberes. Na tradição chinesa a energia feminina é líder e a masculina é a força motora. A energia yang transforma, constrói e move. A princípio pode parecer que aquele que move é também o que lidera. Mas a biologia, na reprodução, por exemplo, nos mostra que a despeito de milhões de espermas se moverem em grande quantidade e com força, é o óvulo quem lhes dá direção e escolhe qual esperma é útil. Sem o óvulo, toda a força e movimento é apenas caos. Na medicina chinesa mulheres incorporam a energia yin, yin dá a yang o sentido do movimento. Fisiologicamente deveria haver uma corregulação entre o masculino e o feminino. Um feminino conectado cria coerência entre céu e terra e o masculino se regula a partir desse campo. A sociedade moderna desconectou a energia feminina da energia masculina e o yin parou de liderar. Yang perdeu a direção e eventualmente seu caos se tornou raiva e começou a promover dominação e controle sobre tudo, inclusive sobre o yin, sua própria força reguladora. Esse é o colapso da regulação de yin e yang, porque sem o yin para dar direção, tudo que yang conhece é destruição. Um Brasil em que as mulheres não podem votar é para a Constituição de 1988 impossível e requereria uma ruptura institucional. Só a discussão a respeito já dá à hipótese condição de possibilidade.

Se você acredita que, a partir de um congresso de maioria formada pela extrema direita, dar à oposição o cargo do executivo é saudável para o jogo democrático vote em Lula no segundo turno. Se acha que é melhor dar à direita todas as condições para governar com carta branca, vote em Flávio Bolsonaro. Para o que quero construir com este texto isso não importa. Importa lembrar-se de que todas as crianças são nossas crianças, que toda pobreza é nossa pobreza. Que guerra e genocídio em qualquer parte do globo reverberam em nossa própria biologia e que as flores que o el niño produziu no deserto do Atacama recentemente nos lembram de que até os terrenos mais áridos são fonte da mais delicada forma de vida.

Nenhuma solução que negue a profunda experiência de integração do currículo dual da vida na Terra nos trará paz. Não há fórmula milagrosa. Não acredite em soluções simples. Não acredite em soluções que busquem o aniquilamento daquilo que você considera diferente, errado, ruim. Isso é profundamente contrário à evolução espiritual programada para essa existência.

Zhao Tingyang, em All under Heaven, trabalha o conceito de Tianxia da antiguidade chinesa como possibilidade para uma nova ordem global. Tianxia significa tudo aquilo que está sob o céu e a ideia é que inexiste lado de fora. O autor propõe um movimento em direção a uma ordem racional relacional em oposição à racionalidade individual, uma ontologia da coexistência, o indivíduo não está isolado, ser é sempre “ser-com”.

A convocação que faço neste texto é para futuros menores. Luz Horne em seu brilhante livro Futuros menores, faz uma leitura inspiradíssima do conto Às margens da alegria de Joao Guimarães Rosa. Ao final do conto o vaga-lume surge como uma margem de alegria. “Do avião e do voo utópico do início, o conto se direciona primeiro para o não voo, para o seu avesso: para o horizonte plano, para a construção do aeroporto/destruição das árvores e a para a morte do peru. Mas entre essas duas opções de utopia e apocalipse ou civilização versus natureza, o final do conto implica uma abertura para um mundo poroso, de intersecção e de transbordamento dos limites que definem a divisão entre o natural e humano. Um mundo onde existe um voo alternativo, mais baixo e intermitente: o voo do vaga-lume”. Ela propõe futuros menores como aquilo que nos permite imaginar formas de complicar as bordas, de tornar as fronteiras difusas, de esticar as margens e construir outras arquiteturas de mundo. Ailton Krenak acrescenta que futuros menores adiam o fim do mundo.

Marina Garcés, em O novo esclarecimento radical, afirma que o mundo contemporâneo é radicalmente antiesclarecido e que contra o dogma apocalíptico e sua monocronia messiânica e solucionista (condenação ou salvação), o novo esclarecimento radical seria uma tarefa de tecelãs insubmissas, incrédulas e confiantes. Enquanto desacreditam refazem os fios do tempo e do mundo com ferramentas inesgotáveis.

Ontem ao colocar minha filha de 4 anos para dormir, brincávamos de “eu te amo mais”. Disse-lhe que eu a amava até dar uma volta na lua e voltar. Ela me respondeu que me amava desde onde não há mais nada até o chão. Quero crer que essa nova geração já chega com uma sensibilidade quântica capaz de compreender a abstração de que há algo que nos antecede e as profundas implicações desta constatação. Que com isso consigam reconhecer com facilidade que o Deus que habita em mim habita em você também e que a melhoria de cada um implica a melhoria de todos os outros. Que futuros menores são possíveis através de uma arquitetura transbordada e outros modos de viver junto. A luz do vaga-lume não é só esperança, é a materialidade de um outro mundo, um lugar menor para se habitar, mas que produz uma eletricidade vital.

 

Fonte: Outras Palavras

 

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