Investigação
contra Flávio Bolsonaro deve continuar com Moraes mesmo com perda de foro
privilegiado
Derrotado
na disputa presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) perderá o foro
privilegiado após 31 de janeiro, quando acaba seu mandato parlamentar.
Apesar
disso, os inquéritos contra ele devem continuar tramitando no Supremo Tribunal
Federal (STF), avaliam criminalistas ouvidos pela BBC News Brasil.
A atual
jurisprudência da Corte determina que investigações em curso são mantidas no
STF, quando os supostos crimes forem cometidos durante o mandato e relacionados
à sua atuação no cargo.
Duas
investigações estão em andamento: uma apura possíveis irregularidades no
repasse de quase 70 milhões de dólares do Banco Master para o filme Dark Horse,
em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto outra investiga suposta
lavagem de dinheiro em parceria com o advogado Willer Tomáz.
O
inquérito que investiga os repasses para o filme Dark Horse tramita no gabinete
de André Mendonça, mas está suspenso por decisão do presidente Edson Fachin,
após a grave crise que dividiu o STF em setembro e levantou acusações de
parcialidade contra o ministro.
Já o
inquérito que investiga a suposta lavagem de dinheiro em parceria com Willer
Tomaz está no gabinete de Alexandre de Moraes, ministro desgastado por
suspeitas envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e que está
sob ameaça de processo de impeachment após o campo bolsonarista conquistar a
maioria do Senado nestas eleições.
Foi
nesse segundo inquérito que o ministro determinou, na segunda-feira (26/10), a
apreensão dos passaportes de Flávio Bolsonaro. O senador não entregou os
documentos à Polícia Federal dentro do prazo, que terminou por volta de 12h
desta terça.
Também
nesta terça, a PF acionou as autoridades da Argentina para identificar se
Flávio Bolsonaro ingressou no país vizinho após a derrota nas eleições. O
acionamento aconteceu após informações de que uma aeronave particular com
destino aos EUA estaria no aeroporto de Puerto Iguazú, próximo à fronteira com
o Brasil.
Mesmo
que o senador deixe o país, porém, isso não impede que as investigações
continuem avançando. O seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), mora
nos EUA e foi investigado, processado e condenado por tentar obstruir a ação
criminal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de
golpe de Estado.
"A
posição atual do Supremo é que, se o crime foi cometido no exercício do mandato
e tenha relação com o cargo, mesmo que a pessoa deixe o mandato, ela tem que
ser julgada no foro por prerrogativa de função", explica o criminalista
Gustavo Badaró, professor titular de Direito Processual Penal da Universidade
de São Paulo (USP).
De
acordo com o professor, ao determinar a continuidade do caso no STF, a Corte
precisa avaliar se os crimes apurados teriam relação com o exercício do mandato
de senador. Na sua avaliação, isso parece ter ocorrido.
"Se
eu chegasse para o Vorcaro e pedisse dinheiro para fazer o filme do meu pai,
que foi professor, ele não ia me dar. Ele deu ao Flávio porque ele queria
agradar o Flávio", nota o criminalista.
"E,
no caso do Willer Tomaz, se a suspeita é que eles teriam lavado dinheiro de
corrupção, e a corrupção ele ganhou em relação ao mandato, também fica uma
linha tênue pra dizer que isso não tem nenhuma relação com o mandato".
O
criminalista João Pedro Pádua, professor de direito da Universidade Federal
Fluminense (UFF), também acredita que os casos continuarão no STF.
"Se
tem relação [com o mandato], o Supremo Tribunal Federal tem jurisprudência
pacífica de que o foro privilegiado se mantém no próprio STF. Se não tem, vai
para a primeira instância."
"De
qualquer maneira, parece que o STF considera que há ligação com o mandato de
senador, porque, se considerasse que não haveria, já poderia ter mandado o caso
para primeira instância, mesmo na constância do mandato."
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Entenda o inquérito envolvendo Willer Tomaz
O novo
inquérito vai apurar suposto crime de lavagem de dinheiro por Flávio e seu
amigo advogado Willer Tomaz.
A
investigação mira suspeitas envolvendo plataformas de pagamento digital e o
setor de apostas no Rio de Janeiro, quando o Estado era governado pelo aliado
de Flávio, Cláudio Castro (PL). O ex-governador também é alvo no inquérito.
A
apuração tem origem na análise do celular de Willer Tomaz, apreendido no início
de agosto em uma operação da Polícia Federal para apurar o possível
envolvimento do advogado no esquema que desviou bilhões do INSS — Flávio não é
alvo desse outro inquérito.
No
relatório que embasa a abertura do inquérito, a PF diz que encontrou no
material analisado "referências a festas, encontros e reuniões envolvendo
ambos [Tomaz e Flávio]".
Há
também registro de vínculo em uma conta bancária em nome da empresa Alcazar
Holding, com sede em Portugal, na qual Flávio era mencionado como "usuário
master".
Ainda
segundo o relatório, foi identificado um grande volume de transações entre
diferentes empresas e casas de apostas.
Apenas
uma conta bancária de Willer chegou a movimentar "aproximadamente R$ 130
milhões entre março e maio de 2025", destaca o relatório.
"Verificou-se
que o volume diário de apostas realizado pelo investigado [Tomaz] alcança
cifras milionárias, em patamar muito superior ao normalmente esperado para uma
atividade de jogo recreativa", diz ainda a PF.
Segundo
informações do jornal O Estado de S. Paulo e da TV Globo, a PF também suspeita
que uma "sala secreta" encontrada em agosto — após uma denúncia
anônima — no hangar usado por aviões de Willer Tomaz no aeroporto de Brasília
teria sido usada para guardar dinheiro vivo.
Os
investigadores identificaram ainda suspeitas de que uma empresa de meio de
pagamento de Tomaz, a Pixs Cobrança (posteriormente denominada RioPag), teria
sido favorecida no governo de Cláudio Castro para vencer um edital da Loterj
para processar os pagamentos dos apostadores às empresas de apostas autorizadas
pela autarquia.
Ainda
segundo a PF, outra empresa de Tomaz, a Rede Loto, foi a primeira a obter
autorização da Loterj para explorar apostas esportivas de quota fixa, com prazo
inicial de até cinco anos.
O
relatório aponta ainda que a Cathedral, uma holding do ramo de apostas online
de propriedade de Tomaz, pagou viagens internacionais para Flávio e sua
família.
Flávio
reconhece ser amigo próximo de Willer Tomaz. Já era sabido que o senador e sua
família com frequência viajam ao exterior de jatinho com o advogado.
Segundo
reportagem do jornal O Globo de 18 de setembro, ambos fizeram cinco viagens
internacionais juntos entre janeiro e maio de 2025, para destinos como Estados
Unidos, África do Sul e Europa. Procurado na ocasião, o senador não respondeu
sobre quem custeou as viagens.
Em uma
delas, o senador viajou com sua família da Flórida (EUA) a Brasília em janeiro
do ano passado em um jatinho que pertencia a Tomaz em sociedade com uma empresa
de Daniel Vorcaro. O advogado também estava no voo.
A BBC
News Brasil procurou a assessoria de Flávio Bolsonaro, mas não obteve retorno.
Em nota
enviada ao Estado de S. Paulo no domingo, o senador negou estar sendo
investigado no STF.
"Os
autos que chegaram à Corte sequer foram convertidos em inquérito, não houve
manifestação da Procuradoria-Geral da República ou qualquer decisão judicial a
respeito. Noticiar como 'novo inquérito' o que não passa de um expediente
recém-autuado, pendente de análise, distorce a realidade e induz o leitor a
erro", disse.
Por
meio de nota à BBC News Brasil, o escritório de Willer Tomaz criticou o
vazamento de informações sigilosas a poucos dias da eleição e disse que
"todas as empresas e participações do advogado são lícitas, identificadas
em registros públicos e informadas em sua declaração de imposto de renda".
"Não
há sócios ocultos, contas não declaradas nem patrimônio escondido. A Rede Loto,
integralmente detida pela Cathedral, nunca lançou operação de apostas",
reforçou.
"O
senador Flávio Bolsonaro jamais teve acesso ou poderes sobre conta de qualquer
empresa do advogado. A relação entre os dois é de amizade entre famílias, e
amizade não é crime", disse ainda.
Já
Cláudio Castro respondeu à BBC News Brasil por meio de sua assessoria. O
ex-governador disse que é amigo de Tomaz e o conhece desde 2020, mas nega
ilegalidades. Informou ainda que o advogado atuou em sua defesa em alguns
processos de graça.
"Cláudio
Castro afirma que não praticou qualquer ato ilícito, não recebeu vantagem
indevida e nega qualquer relação entre sua amizade com Willer e decisões
administrativas do Governo do Estado", afirmou também.
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Entenda o inquérito envolvendo o Banco Master
Flávio
Bolsonaro é alvo de um inquérito da Polícia Federal que apura suposta lavagem
de dinheiro, corrupção e outros possíveis crimes no financiamento do filme Dark
Horse junto ao Banco Master.
O
senador negociou diretamente com o então banqueiro Daniel Vorcaro um contrato
de cerca de R$ 134 milhões para financiar o filme sobre a vida de seu pai, o
ex-presidente Jair Bolsonaro.
Cerca
de metade do valor foi de fato pago (R$ 70 milhões), segundo a PF, até que os
desembolsos foram interrompidos com a liquidação do Master em novembro de 2025,
após o Banco Central detectar fraudes bilionárias.
A
suspeita da PF é que parte dos recursos repassados tenha sido desviada para
outra finalidade. Até o momento, a produtora do filme não detalhou como os
quase R$ 70 milhões recebidos foram gastos.
O
dinheiro não foi diretamente para a produtora, mas para um fundo imobiliário
nos Estados Unidos administrado pelo advogado Paulo Calixto, amigo de Eduardo
Bolsonaro.
Flávio
Bolsonaro nega qualquer ilegalidade. "Eu estou falando de um pedido de um
patrocínio privado para um filme privado, sem absolutamente nenhuma
contrapartida", afirmou em 15 de outubro durante sabatina da TV Globo.
Os
contatos do senador com Vorcaro começaram no final de 2024 e se estenderam até
mesmo após a primeira prisão do banqueiro, em 17 de novembro de 2025. O senador
chegou a encontrar Vorcaro em dezembro daquele ano, em sua casa, quando ele
estava em prisão domiciliar, usando tornozeleira eletrônica.
Segundo
Flávio, o encontro serviu apenas para encerrar a relação e o financiamento do
filme.
Vorcaro
foi preso novamente em março. Ele é suspeito de liderar fraudes bilionárias à
frente do banco, que envolveram depósitos de grandes fundos de pensão de
servidores estaduais e municipais.
Um
deles foi o Rioprevidência, dos servidores estaduais do Rio de Janeiro, na
época governado por Cláudio Castro (PL). O fundo aplicou R$ 3,69 bilhões no
Master e amarga prejuízos com a operação.
Fonte:
BBC News Brasil

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