Zero
glúten: é possível na prática?
Aos
nove anos, Vinícius começou a apresentar um cansaço incomum para uma criança
praticante de esportes. Nos treinos de futebol, já não conseguia correr por
mais de dez ou 15 minutos. Vieram também episódios de diarreia, alguns dias de
febre e alterações na pele. Como os sintomas apareciam e desapareciam, a
família pensava nas explicações mais comuns: uma virose, uma infecção, o calor
excessivo durante o treino. Até que um dia Vinícius voltou para casa tão
debilitado que o pai, o infectologista Alexandre Rodrigues Marra, precisou
ajudá-lo a tirar a roupa. “Estava tão fraco que não conseguia tomar banho
sozinho de tanta fadiga. Fiquei preocupado”, recorda.
Uma
investigação revelou que o menino tinha doença celíaca, uma condição autoimune
desencadeada, em pessoas geneticamente predispostas, pelo consumo de glúten –
um conjunto de proteínas encontrado principalmente no trigo, no centeio e na
cevada. Dez anos depois do diagnóstico e de mudanças que envolveram toda a
família, Marra relatou a experiência em uma carta publicada na revista
científica Einstein. Sob o título Gluten-free is not enough (“Sem glúten não é
suficiente”), o texto chama atenção para dois desafios ainda presentes na vida
de quem tem a doença: chegar ao diagnóstico e, depois dele, manter uma
alimentação efetivamente segura. “Os verdadeiros desafios não estão na
adequação nutricional, mas no diagnóstico correto, na segurança e na inclusão
social”, diz.
Estima-se
que a doença celíaca atinja cerca de 1% da população mundial, mas uma grande
parcela dos casos permanece sem diagnóstico. Um dos motivos para explicar essa
subnotificação é a variedade de manifestações. Embora a doença tenha sido
associada durante muito tempo a crianças magras e com diarreia crônica, hoje se
sabe que a condição pode aparecer em qualquer idade, inclusive em pessoas com
sobrepeso ou obesidade, e provocar sintomas que vão além do intestino,
atrasando o reconhecimento dos sinais.
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Ataque ao próprio intestino
A
gastroenterologista Lorete Kotze, professora da Universidade Federal do Paraná
(UFPR), presidente de honra do Instituto Brasileiro para Estudo da Doença
Celíaca (IBREDOC, ligado à Federação Brasileira de Gastroenterologia), e
estudiosa do tema há mais de 50 anos, explica que a reação começa quando o
glúten chega ao intestino delgado de uma pessoa predisposta. A proteína
desencadeia uma resposta do sistema imunológico que provoca uma agressão ao
próprio organismo.
Uma das
consequências desse ataque é a atrofia das vilosidades, projeções que revestem
o intestino delgado e são responsáveis por ampliar a área disponível para a
absorção dos nutrientes. À medida que essas estruturas são danificadas, o
organismo pode ter dificuldade para absorver ferro, cálcio, vitaminas e outros
nutrientes essenciais. “É como se uma superfície cheia de saliências ficasse
progressivamente achatada”, diz Kotze.
As
principais manifestações da doença celíaca são diarreia, distensão e dor
abdominal, mas não são as únicas. Sintomas como constipação, anemia, alterações
de humor, cefaleia, fraqueza e fadiga também podem aparecer. Dependendo da
idade do paciente, podem ocorrer alterações ósseas, neurológicas,
dermatológicas e até reprodutivas. A doença pode ser descoberta, por exemplo,
durante a investigação de uma osteoporose precoce ou de uma anemia sem causa
aparente.
É por
isso que chegar ao diagnóstico pode levar anos. “A jornada é longa. Às vezes, o
paciente passa por vários especialistas e ninguém percebe os sinais menos
comuns”, afirma Kotze. Para ela, é preciso que os profissionais de saúde
abandonem a imagem tradicional do celíaco necessariamente muito magro e com
diarreia. “O perfil dos pacientes mudou nas últimas décadas. Temos que adaptar
o diagnóstico para o período em que vivemos”, ressalta.
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Investigar é preciso
Chegar
ao diagnóstico correto não é simples. Diante da suspeita clínica, o mais comum
é investigar a partir de exames de sangue para detectar anticorpos relacionados
à doença e, às vezes, de uma endoscopia digestiva alta com biópsia do intestino
delgado. Isso é necessário para uma análise microscópica dos fragmentos a fim
de identificar alterações características da doença, entre elas a atrofia das
vilosidades do intestino.
Foi a
biópsia que confirmou o diagnóstico de Vinícius. Embora a mucosa parecesse
normal na endoscopia, a análise microscópica revelou comprometimento importante
do intestino do garoto. O caso ilustra uma das dificuldades apontadas por
Kotze: alterações intestinais podem não ser facilmente percebidas visualmente e
não necessariamente estão distribuídas de maneira uniforme ao longo do trato.
Por isso, a coleta adequada de fragmentos e a análise do patologista são
fundamentais.
Um dos
problemas é que, diante de sintomas digestivos, algumas pessoas decidem aderir
por conta própria a uma dieta sem glúten sem procurar um médico. A especialista
alerta que esse comportamento pode dificultar a investigação e o diagnóstico,
já que a retirada da proteína da alimentação reduz a resposta imunológica e
pode alterar os resultados da sorologia e da avaliação da mucosa. “Orientamos
que o paciente faça os exames comendo glúten.” Uma vez estabelecido o
diagnóstico, a recomendação se inverte: o glúten precisa ser excluído da dieta
permanentemente.
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Abstinência completa
O
tratamento da doença celíaca continua sendo a exclusão total do glúten da
alimentação, além da correção de deficiências nutricionais e do acompanhamento
de possíveis condições relacionadas. Ainda não existe medicamento aprovado que
substitua a dieta sem glúten. Mas há estratégias terapêuticas em estudo, entre
elas imunobiológicos que visam interferir em etapas da resposta imunológica
desencadeada pelo glúten. “Acredito que, em poucos anos, teremos tratamentos
capazes de mudar a vida dos celíacos. Tenho acompanhado a evolução das doenças
inflamatórias e hoje temos medicamentos biológicos potentes”, afirma Kotze, que
vê o desenvolvimento desse tipo de fármacos com uma perspectiva promissora.
Por
enquanto, nenhum deles substitui a dieta rigorosa. Por isso, o nutricionista
especializado é peça-chave para orientar o paciente a adotar uma alimentação
segura e equilibrada e a evitar deficiências nutricionais, além de ganhos ou
perdas inadequados de peso. O problema é que retirar pão, macarrão, pizza e
bolo não resolve a questão. Isso porque os alimentos naturalmente sem glúten
podem entrar em contato com a proteína durante o armazenamento, a produção ou o
preparo.
Uma
tábua usada para cortar um pão francês convencional, uma torradeira com
migalhas, uma esponja de lavar a louça, uma faca ou até o óleo usado para
fritar um alimento empanado podem servir de veículo para o contato cruzado e
expor o paciente celíaco ao glúten. Por isso, escolher um produto identificado
como “livre de glúten” é apenas parte do cuidado e é preciso observar como ele
será armazenado, manipulado e preparado.
“Para o
celíaco, não basta só ler o rótulo para estar seguro”, afirma a nutricionista e
tecnóloga de alimentos Raísa Moreira Dardaque Mucinhato, da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), que desenvolve pesquisas voltadas à melhoria da
segurança da alimentação sem glúten, por meio do Projeto Geração da FAPESP.
Na
família de Marra, esses cuidados extras viraram rotina com o diagnóstico de
Vinícius. Nas viagens, eles levam uma torradeira de casa, usada exclusivamente
para produtos sem glúten. A precaução evita que o pão de Vinícius entre em
contato com migalhas deixadas por hóspedes em uma torradeira compartilhada, num
exemplo de como o risco de contato cruzado acompanha o paciente fora de casa.
Mas
Mucinhato ressalta que isso não torna impossível preparar uma refeição segura
em uma cozinha que manipule alimentos com glúten. “É possível fazê-lo desde que
sejam adotadas boas práticas e que funcionários e gestores dos serviços de
alimentação recebam treinamento adequado”, ressalta.
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Mercado livre?
A
oferta de alimentos sem glúten mudou nas últimas duas décadas. No início dos
anos 2000, encontrar versões de pães, massas e outros produtos destinados a
celíacos era mais difícil. Segundo a nutricionista Vanessa Dias Capriles,
docente de nutrição na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e
pesquisadora na área de alimentos sem glúten há 20 anos, o mercado começou a se
expandir na década de 2010, quando a dieta sem glúten se popularizou entre
pessoas sem doença celíaca ou outra condição que justificasse a restrição.
“A fama
da dieta sem glúten foi impulsionada por influenciadores e celebridades que
passaram a associar a retirada do ingrediente ao emagrecimento e a uma
alimentação mais saudável. Com isso, a procura aumentou e ampliou a variedade
de produtos”, conta a Capriles.
O
crescimento da oferta, no entanto, não resolveu todos os problemas. “Ainda
prevalecem dificuldades como alto custo, baixa variedade, pouca conveniência,
limitações de textura e sabor e, principalmente, o perfil nutricional”, afirma
Capriles. Ela destaca que vários produtos sem glúten são feitos à base de
amidos e farinhas refinadas e podem apresentar composição nutricional pobre.
Isso
acontece especialmente pelo uso de aditivos. Como o glúten tem função
importante na estrutura e na textura dos alimentos, sua retirada cria um
desafio tecnológico para a indústria. Para tentar reproduzir características
como maciez, elasticidade e estabilidade, as formulações recorrem a combinações
de ingredientes e aditivos. “Há consumidores buscando alimentos sem glúten por
acreditar que são mais saudáveis ou menos processados que as versões
convencionais, mas esses produtos frequentemente apresentam listas extensas de
ingredientes e de aditivos”, diz Capriles.
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Em busca de um pão melhor
Parte
desses desafios motivou o início da linha de pesquisa de Capriles na Unifesp em
2013, por meio do programa Jovem Pesquisador da FAPESP. Há mais de uma década o
grupo do Laboratório de Tecnologia de Alimentos e Nutrição (LabTAN/ Unifesp)
investiga como produzir alimentos sem glúten que aliem segurança, melhor
composição nutricional e características como sabor, textura e maciez.
O pão é
um dos principais alvos de investigação, já que é um alimento símbolo do café
da manhã do brasileiro. Com financiamento da FAPESP, o grupo montou uma
planta-piloto de panificação exclusiva para produtos sem glúten. Ali são
estudadas combinações de ingredientes como milheto, sorgo, amaranto,
trigo-sarraceno, quinoa, grão-de-bico, arroz e até farinha de pinhão,
tipicamente brasileira, e rica em nutrientes. Algumas formulações desenvolvidas
pelos cientistas originaram pedidos de patente.
“Nosso
objetivo não é apenas chegar a um pão parecido com o tradicional. Queremos
aumentar o teor de fibras e melhorar a qualidade nutricional das formulações”,
diz Capriles, que também desenvolve pesquisas com consumidores para identificar
demandas. . Em uma enquete do grupo com quase 200 brasileiros com doença
celíaca, apareceram reclamações sobre preço, disponibilidade, sabor, textura,
vida de prateleira e qualidade nutricional dos alimentos. “O desafio científico
é desenvolver produtos livres da proteína que desencadeia a doença, mas que
sejam saborosos, saudáveis e acessíveis”, afirma.
O grupo
criou o Centro de Estudos de Nutrição em Doença Celíaca (CENUC), com o objetivo
de transformar os resultados obtidos em subsídios técnicos para o aprimoramento
de legislações, materiais educativos e políticas públicas, além de ações de
divulgação científica voltadas para profissionais do setor da alimentação e
consumidores.
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Comer também é conviver
Dentro
desse cenário, ainda há o impacto da doença celíaca sobre a vida social. Comer
faz parte de aniversários, viagens, encontros familiares, escola e trabalho.
Para quem precisa evitar o glúten permanentemente, essas situações exigem
planejamento. Em um restaurante, não basta saber se determinado prato leva
farinha, é preciso ter segurança sobre a forma de preparo. Em uma festa, pode
ser necessário levar a própria comida. Durante uma viagem, localizar
previamente restaurantes e mercados faz parte do roteiro.
Mucinhato
chama de “autovigilância” essa carga sobre o paciente: ele precisa ler
corretamente os rótulos, perguntar sobre ingredientes, investigar como a
refeição foi preparada e avaliar o risco de exposição constantemente. Para a
pesquisadora, essa responsabilidade não deveria ficar apenas com o indivíduo.
Kotze
acrescenta que a preocupação com a segurança não pode levar o celíaco ao
isolamento social. “Não o coloque numa clausura. É absolutamente possível ter
uma vida normal.” Para ela, é importante que as pessoas ao redor, seja na
escola, no trabalho ou em outros espaços de convivência, conheçam a condição e
evitem contato com glúten. Hoje, aos 19 anos, Vinícius é saudável. A dieta
funciona, mas a experiência da família ensinou ao pai que a expressão “sem
glúten” é mais complexa do que livrar o prato de determinados alimentos.
Fonte:
Por Fernanda Bassette – Revista Pesquisa Fapesp

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