Ian
Bremmer: 'Se Lula não agir rápido na economia, o mercado vai castigá-lo
duramente'
Um mês
antes do primeiro turno, Ian Bremmer conversou com a BBC News
Brasil
e previa um leve favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), dado o peso da
máquina do governo.
As
pesquisas viraram, Flávio Bolsonaro (PL) chegou ao
segundo turno à frente em quase todos os levantamentos — e Lula, mesmo assim, virou o jogo no domingo (25/10) e
venceu por 4 milhões de votos.
Bremmer,
fundador e presidente do Eurasia Group, a maior consultoria de risco político
do mundo, ficou surpreso. "Mas não chocado", diz. "O Brasil não
é para amadores."
Na
segunda entrevista à BBC News Brasil, feita horas depois do resultado do
segundo turno, o cientista político faz uma avaliação crua do que vem pela
frente. Os mercados reagiram mal, e Bremmer acha que
a punição será severa se Lula não mudar o tom rapidamente.
O Congresso eleito é de maioria de
direita. E o Supremo Tribunal Federal (STF), mergulhado na
crise do escândalo do banqueiro Daniel Vorcaro, é um problema que
Lula terá de enfrentar de frente — "um dano severo à democracia
brasileira" se não o fizer.
Sobre
Flávio Bolsonaro, que inicialmente pediu a anulação da eleição antes de recuar,
Bremmer não poupa palavras: "É patético. É o oposto de liderança".
E sobre
a expectativa de que a vitória de Lula seja um símbolo global contra a direita,
é cético. "Uma eleição não muda uma tendência."
Bremmer
também é direto sobre a idade de Lula, que completa 81 anos nesta terça-feira
(27/10).
"Eu
não acho que um homem de 81 anos deveria estar dirigindo um país tão importante
quanto o Brasil."
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Confira os principais trechos da entrevista.
·
O senhor ficou surpreso com o resultado?
Ian
Bremmer –
Fiquei surpreso, sim. As pesquisas estavam apertando e Lula vinha ganhando
terreno, mas o efeito anti-incumbência, no Brasil e na América Latina como um
todo, ainda era muito forte. E os candidatos de terceira via que foram
eliminados estavam à direita, o que favorecia Flávio.
Para
mim, parecia que ia ser mais apertado do que as pessoas esperavam, mas que
Bolsonaro ainda levaria. Então fiquei surpreso, mas não chocado. Como se diz, o
Brasil não é para amadores. Nunca se deve ter muita confiança quando se entra
numa eleição brasileira.
·
O que fez a diferença? Lula teve 10 milhões de votos a
mais do que no primeiro turno.
Bremmer
– Uma
coisa grande: os brasileiros da classe trabalhadora ficaram com medo de perder
seus benefícios sociais se Flávio entrasse. Ele não é um militar; é um operador
político. O mercado o adorava. Queria reduzir impostos para os mais ricos.
Falava em responsabilidade fiscal. E os trabalhadores viram no Lula alguém que,
mesmo que não amassem, mesmo que achassem corrupto, ainda era um deles.
Foi uma
eleição em que a segurança pesou menos do que a economia, do que o custo de
vida. E no custo de vida, a direita não tem a mesma vantagem que tem na
segurança — na Argentina, sim, mas no México, não, e em muitos outros países,
também não.
E tem
as redes sociais. Muita gente temia que houvesse influência externa a favor da
direita, mas no fim das contas o Lula e a equipe dele foram extraordinariamente
eficientes no Instagram e no Facebook. As campanhas digitais ajudaram muito a
mobilizar o voto.
·
Flávio inicialmente contestou o resultado, pediu a
anulação. Agora parece estar recuando. Como o senhor lê isso — é 2022 de novo?
Bremmer
– É
patético. Trump, claro, nunca assume responsabilidade por nada que não dê
certo, mas isso não é de um líder. Numa democracia, você liga para o
adversário, reconhece a derrota e parabeniza o vencedor, mesmo quando não é do
seu lado. Quando se vê líderes que se recusam a fazer isso, como vimos com Jair
Bolsonaro quando perdeu para Lula, ou com Trump quando perdeu para Biden, é um
comportamento irresponsável. Não é compatível com uma democracia funcional. Eu
detestaria ver Flávio seguir esse caminho.
Aceito
que houve irregularidades nesta eleição. Vimos que tanto Lula quanto Bolsonaro,
por razões diferentes, pediram a extensão da votação em certas regiões. E vimos
uma decisão a favor do pedido de Lula por um ministro do Supremo que já foi
advogado pessoal dele. Eu não gosto de ver nada disso. É lamentável e vai
alimentar teorias conspiratórias.
Mas sou
cientista político e trabalho com análise e fatos. Os fatos são que Lula venceu
por 4 milhões de votos. O número de votos afetados pelas mudanças de horário
determinadas pela Justiça foi de dezenas de milhares. Não é relevante. Não é
uma contestação razoável do resultado. Flávio perdeu. Lula ganhou. Tudo bem.
Você vive para lutar outro dia. O mais importante não é quem ganha. O mais
importante é que haja uma democracia e todos participem.
No
Brasil, onde o voto é obrigatório, as pessoas levam isso a sério. Tinha gente
de todo o país passando horas em ônibus, trens e barcos, gravando vídeos
mostrando que estavam saindo para votar. É um orgulho cívico. E eu acho um
desserviço gravíssimo ao povo brasileiro e à grande democracia brasileira
questionar o resultado de uma eleição obviamente livre e justa. É o oposto de
liderança.
·
Trump disse que a eleição "pareceu ter fraude",
mas que gosta do Lula. Como o senhor prevê a postura dele em relação ao governo
Lula?
Bremmer
– Trump
teve reuniões e telefonemas com Lula. Os dois trabalharam para normalizar um
pouco a relação, o que ajudou no lado comercial. E Trump não tentou intervir na
eleição nas semanas antes do segundo turno. Houve outras eleições em que ele e
membros do governo decidiram tomar partido, e nem sempre deu certo.
Acho
que houve o reconhecimento de que apoiar Bolsonaro só ajudaria Lula. E, sejamos
francos, a eleição brasileira foi sobre política doméstica, não sobre política
externa. Política externa é pouco relevante para o eleitorado brasileiro. Então
foi não só inteligente, mas boa política, Trump ter ficado de fora.
Agora
que Lula está lá, para um mandato inteiro, espero que Trump parta do
reconhecimento de que suas políticas externas mais bem-sucedidas foram na
América Latina — incluindo com Claudia Sheinbaum no México, que não é
exatamente uma criatura da direita, e com quem conseguiu trabalhar de forma
eficaz. Acho que vai tentar fazer a mesma coisa com a Presidência de Lula.
·
Os mercados reagiram muito mal hoje. É um sinal do que
vem pela frente ou é apenas a primeira reação?
Bremmer
– É
um problema real. Os juros subiram. O serviço da dívida vai ficar mais pesado.
Lula fez muitas promessas de gasto fiscal para garantir a vitória, e elas não
são sustentáveis. Ele vai ter de lidar com um Congresso inclinado
significativamente para a direita, que não vai se alinhar com seus esforços de
legislar, inclusive na tributação.
O que
ele diz querer fazer é crescer a economia para que a classe trabalhadora não
tenha de pagar pelos erros de governos anteriores. Todo mundo diz isso. Ninguém
quer aumentar impostos, ninguém quer cortar gastos, todo mundo quer crescer.
Mas crescimento geralmente não funciona como estratégia isolada. Precisa
funcionar em harmonia com outras estratégias.
E eu
acho que o mercado vai castigar o governo Lula duramente se ele não mudar o tom
rapidamente. Parte disso, claro, vai depender das nomeações que ele fizer para
as pastas econômicas e para a chefia de gabinete nos próximos dias e semanas.
·
Lula está sendo visto por muita gente como um símbolo de
resistência contra a direita radical no mundo — o primeiro líder de esquerda a
vencer na América Latina desde que Trump voltou ao poder. Pedro Sánchez, na
Espanha, disse que a Espanha pode fazer o mesmo. Nos Estados Unidos, alguns
diziam que "se o Brasil conseguiu, nós conseguimos". Isso se
sustenta?
Bremmer
– Não
acho que estejam dizendo isso na França. Não acho que estejam dizendo isso na
Alemanha, onde a tendência é na direção oposta. Até esta semana, todo mundo
dizia que todas as eleições na América Latina estavam indo para a direita. Uma
eleição não muda uma tendência.
E Lula
vai fazer 81 anos nesta terça (27/10). Vou ser honesto: eu não acho que um
homem de 81 anos deveria estar dirigindo um país tão importante quanto o
Brasil. É um trabalho desafiador, estressante. Ninguém traria um CEO dessa
idade para uma das maiores empresas do mundo, mas estamos elegendo líderes
dessa idade.
Eu
tampouco era fã de Flávio. Acho que a maioria dos brasileiros estava votando
entre o menos ruim dos dois. Estavam decepcionados com o incumbente e
decepcionados com Flávio, que é filho de um incumbente que está preso. Os dois
não se trataram com respeito. Há muita corrupção. E não dá para se empolgar com
Lula sem reconhecer o quanto o Supremo e seus ministros se tornaram ilegítimos
— muitos dos quais politicamente alinhados com Lula.
Eu
acredito no povo brasileiro e adoro o país, passo muito tempo lá, temos
escritórios lá. Mas o sistema político tem muitos problemas agora. Assim como o
meu (Estados Unidos). Depois que Trump saiu e Biden entrou (ele tinha 78 anos
quando assumiu o cargo), as pessoas ficaram muito empolgadas. E aí vimos que,
no último ano do governo Biden, ele não estava nem coerente para governar, e os
próprios assessores mentiram por ele. Isso foi um escândalo enorme que trouxe
Trump de volta. Então acho que devemos ter cuidado antes de depositar muita
esperança em mais um governo Lula. O Brasil estaria muito melhor se tivesse
tido dois candidatos inteiramente diferentes desde o início.
·
O que o senhor acha que é o maior desafio de Lula agora?
A economia, o Supremo, a idade? Ou tudo junto?
Bremmer
– Não
é tudo. Lula fez um trabalho fantástico em reverter o desmatamento. E o Brasil,
com a Amazônia, é a parte mais importante da biosfera global. Então fico
particularmente satisfeito de ter Lula e não Bolsonaro, que teria sido parte do
problema de novo.
Mas os
desafios que você mencionou são todos sérios. E eu acrescentaria a inteligência
artificial, na qual os brasileiros estão ficando para trás. O Brasil tem muitos
minerais críticos que pode usar como alavanca, porque fazem parte da cadeia de
suprimentos. Mas a realidade é que o Brasil não tem muitas dessas empresas, não
tem muitos funcionários de governo que entendam de IA, e precisa implantá-la.
Vai mudar o mundo. E agora o Brasil não parece estar na fronteira. Isso precisa
mudar nos próximos anos, porque o mundo vai mudar e não queremos que os
brasileiros fiquem para trás.
·
O senhor acha que Lula vai enfrentar a crise do Supremo?
Bremmer
– Ele
tem de enfrentar. Qualquer pessoa que viu as mensagens, as transcrições das
conversas sobre o Banco Master — é um comportamento inaceitável para um membro
da cúpula do Judiciário brasileiro. E Lula agora tem de assumir
responsabilidade direta por isso, já que venceu. Se não enfrentar, será um dano
severo à democracia do Brasil. E eu gostaria de acreditar que é algo que ele
vai encarar.
Fonte:
BBC News Brasil

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