quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Argentina diz que Flávio Bolsonaro entrou no país na noite da terça-feira; o que se sabe

Derrotado nas eleições presidenciais de domingo (25/10), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil, segundo informações do governo da Argentina publicadas no X na madrugada desta quarta-feira (28/10).

De acordo com a Direção Nacional de Migrações da Argentina, Flávio Bolsonaro, a esposa e as duas famílias entraram no país às 22h50 da terça-feira, no horário local.

Ainda de acordo com o governo argentino, a família entrou no país com "documentação hábil de viagem" e sem nenhum impedimento legal para entrar no país.

Às 23h30 do horário local, a família embarcou em um voo privado da companhia Baires Fly S.A. com destino a Guayaquil, no Equador, conforme o plano de voo, também de acordo com o governo argentino.

Mais cedo na terça-feira (27/10), fontes haviam relatado à BBC News Brasil que ele havia deixado o Brasil e ido aos Estados Unidos.

O governo de Donald Trump afirmou à BBC, antes mesmo da confirmação da chegada do senador, que concederia visto e permitiria sua entrada no país com a família. Ainda segundo as fontes da BBC, Flávio já teria se encontrado com seu irmão Eduardo na Flórida.

Ainda não estão claros os detalhes da rota que Flávio seguiu para deixar o Brasil ou se a intenção do senador é fixar residência nos EUA.

A saída de Flávio do Brasil aconteceu após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a apreensão dos passaportes do senador e o proibir de deixar o país na segunda-feira (26/10).

O prazo para que Flávio entregasse os documentos terminou por volta de 12h desta terça.

O pedido de apreensão aconteceu dentro do inquérito que investiga suposta lavagem de dinheiro de Flávio em parceria com seu amigo advogado Willer Tomaz.

A investigação, que foi sorteada para o gabinete de Moraes, mira suspeitas envolvendo plataformas de pagamento digital e o setor de apostas no Rio de Janeiro, quando o Estado era governado pelo aliado de Flávio, Cláudio Castro (PL), também é alvo no inquérito.

Na segunda, Flávio gravou um vídeo dizendo que a decisão "se baseou numa fala do Eduardo [Bolsonaro] de 23 de outubro que eu deveria deixar o país se eu perdesse a eleição".

"Eu nunca pensei em sair do país", disse o senador no vídeo, um dia antes de ir aos EUA.

Na manhã desta terça, a PF acionou as autoridades da Argentina para identificar se o senador havia ingressado no país vizinho após a derrota nas eleições.

O acionamento aconteceu após informações publicadas pela imprensa argentina de que uma aeronave particular com destino aos EUA estaria no aeroporto de Puerto Iguazú, próximo à fronteira com o Brasil.

O governo da Argentina, comandado por Javier Milei, aliado da família Bolsonaro, informou ao governo brasileiro que não havia registro de entrada oficial de Flávio no país por posto migratório.

Segundo a Direção Nacional de Migrações da nação vizinha, autoridades argentinas foram informadas sobre a possibilidade da presença do senador no aeroporto de Puerto Iguazú e fizeram a averiguação da aeronave privada — da empresa Baires Fly, prefixo LV-JQW — estacionada no local, assim como documentos do avião, e "constataram que não havia nenhum plano de voo que incluía a família Bolsonaro".

Flávio Bolsonaro agora segue os passos do irmão, Eduardo, que decidiu viver nos EUA em março de 2025.

Na época, ele justificou a decisão como uma forma de atuar junto ao governo Donald Trump pela anistia aos envolvidos nos ataques do 8 de janeiro no Brasil e para obter sanções ao ministro Alexandre de Moraes, relator do processo sobre golpe de Estado no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado.

Em dezembro, Eduardo teve seu mandato de deputado federal cassado por excesso de faltas. Já em junho deste ano, ele foi condenado no STF a 4 anos e 2 meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo.

Segundo a Corte, ele atuou nos Estados Unidos para tentar interferir no julgamento que levou à condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.

Em julho, ele anunciou que obteve o famoso green card, o documento que permite viver em terras americanas sem restrições.

Antes de deixar o Brasil, Flávio recusou-se a reconhecer a derrota na domingo, alegando que a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de adiar em duas horas o fim da eleição mudou "as regras do jogo".

Na segunda-feira (26/10), porém, a campanha de Flávio divulgou nota em que agradece os 60 milhões de votos e dizendo que, a partir de agora, "assume a liderança da oposição". O PL, partido de Flávio, reconheceu o resultado das eleições.

Também na segunda, Flávio anunciou que, em vez da anulação das eleições, pediria a cassação da chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no domingo com 51,79%, por abuso de poder.

<><> Flávio ainda não é foragido

Flávio Bolsonaro não deve ser tratado como foragido da Justiça, mesmo com sua saída do país após o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinar a apreensão de seus passaportes.

Segundo criminalistas ouvidos pela BBC News Brasil, o senador só poderia ser tratado como foragido se houvesse uma ordem de prisão preventiva contra ele.

A decisão de Moraes veio dentro de um inquérito que investiga Flávio por suposta lavagem de dinheiro com o advogado Willer Tomaz.

"Foragido é quem tem contra si uma ordem de prisão e não se apresenta para o seu cumprimento. O que o Flávio tem contra ele é uma ordem de uma medida cautelar alternativa à prisão: a proibição de ausentar-se do país, tendo como mecanismo para assegurá-la a entrega dos passaportes", disse o criminalista Gustavo Badaró, professor titular de Direito Processual Penal da Universidade de São Paulo (USP).

"A situação dele é de alguém que está sendo investigado em um inquérito policial e descumpriu uma medida cautelar alternativa à prisão. Pode até ocorrer que, em virtude deste descumprimento, seja requerida a prisão preventiva dele e o ministro Alexandre de Moraes a decrete. Neste caso, se houver uma ordem de prisão contra ele, aí ele poderá ser considerado foragido", continuou.

A avaliação é a mesma do professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Davi Tangerino.

"Enquanto não houver uma ordem de prisão, não podemos chamá-lo de foragido. Por enquanto, tudo que ele fez foi descumprir uma cautelar de entrega de passaporte".

Por outro lado, o descumprimento da ordem judicial que determinou a entrega dos passaportes caracteriza crime de desobediência, previsto no artigo 330 do Código Penal, com pena prevista de detenção de quinze dias a seis meses, além de multa.

<><> Investigações contra Flávio seguirão no STF

Flávio perderá o foro privilegiado após 31 de janeiro, quando acaba seu mandato parlamentar.

Apesar disso, os inquéritos contra ele devem continuar STF, avaliam criminalistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Mesmo com a ida dele aos EUA, isso também não impede que as investigações continuem avançando. O seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), mora nos EUA e foi investigado, processado e condenado por tentar obstruir a ação criminal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.

A atual jurisprudência da Corte determina que investigações em curso são mantidas no STF, quando os supostos crimes forem cometidos durante o mandato e relacionados à sua atuação no cargo.

Duas investigações estão em andamento: uma apura possíveis irregularidades no repasse de quase 70 milhões de dólares do Banco Master para o filme Dark Horse, em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto outra investiga suposta lavagem de dinheiro em parceria com o advogado Willer Tomáz.

¨      Quais seriam os caminhos possíveis para Flávio Bolsonaro ficar legalmente nos EUA

As dúvidas sobre o paradeiro do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato derrotado nas eleições presidenciais, se intensificaram após o Departamento de Estado dos EUA afirmar que concederia visto a ele e sua família, e permitiria a entrada deles no país.

Ao longo do dia, a possibilidade de Flávio ter viajado para os EUA gerou reações tanto em seu próprio campo político quanto entre os partidários do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No início da noite, o próprio coordenador da campanha de Flávio à Presidência, senador Rogério Marinho (PL-RN), afirmou em declaração à imprensa que não tinha conhecimento do paradeiro do ex-candidato.

Na segunda-feira, Flávio havia dito que não tinha a intenção de deixar o Brasil, em vídeo publicado nas redes sociais em que falava que havia sido abordado pela Polícia Federal para receber a ordem de entregar seus passaportes.

"Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar", disse o senador.

No vídeo, Flávio afirmava que a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de pedir a entrega dos passaportes foi tomada com base em uma fala de seu irmão, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL), que vive nos Estados Unidos desde 2025. Em entrevista na semana passada, Eduardo defendeu que, em caso de derrota nas urnas, Flávio deveria deixar o país.

Duas investigações contra o senador estão em andamento: uma apura possíveis irregularidades no repasse de quase US$ 70 milhões do Banco Master para o filme Dark Horse, em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto outra investiga suposta lavagem de dinheiro em parceria com o advogado Willer Tomáz.

Derrotado na disputa presidencial, o senador perderá o foro privilegiado — direito concedido a autoridades de não ser julgado na primeira instância judicial — após 31 de janeiro, quando acaba seu mandato parlamentar.

<><> Pedido de asilo

Para uma possível permanência, Flávio poderia pedir asilo nos EUA, onde a lei autoriza pedidos deste tipo em casos de perseguição por raça, religião, nacionalidade, por ser membro de algum grupo perseguido, ou por opinião política.

Podem pedir asilo por opinião política nos Estados Unidos pessoas que estão fisicamente presentes no país e que conseguem comprovar ou demonstrar um temor fundado de perseguição em seu país de origem, motivado especificamente pelo que pensam ou expressam politicamente.

No caso de Flávio Bolsonaro, que teria cidadania italiana e, portanto, acesso ao passaporte italiano, isso poderia ser um fator complicador para o pedido de asilo, dizem advogados de imigração consultados pela BBC News Brasil.

Isso porque, em 9 de outubro de 2026, o Board of Immigration Appeals (BIA), tribunal que revisa as decisões dos juízes de imigração nos EUA, publicou uma decisão que determina que pedidos de asilo de cidadãos de países "democráticos e desenvolvidos" devem, em regra, ser negados.

A lista inclui todos os países da União Europeia, além de Reino Unido, Canadá, Austrália, Japão e Coreia do Sul.

O Brasil não está nesta relação. Mas, com a decisão, quem tem dupla cidadania precisa provar que corre risco de perseguição nos dois países. Para quem também é cidadão europeu, esse risco em geral não se sustenta, apontam advogados ouvidos pela reportagem, já que a pessoa pode morar em qualquer país do bloco.

O advogado Alexandre Piquet, radicado em Miami e sócio-fundador da Piquet Law Firm, observa que essa decisão foi tomada envolvendo uma pessoa com dupla cidadania do Gabão e da França, mas que há outras decisões judiciais nos EUA com entendimentos distintos. A jurisprudência, portanto, não é unânime.

"Então, [a decisão recente do BIA] não impede o protocolo do pedido de asilo, mas pode prejudicar o caso [de Flávio]", diz Piquet, que lembra que os índices de aprovação de pedidos de asilo nos EUA são baixos.

Em 2025, a taxa anual de concessão de asilo nos tribunais de imigração dos EUA caiu para a mínima histórica de 9,9%, segundo uma análise do Serviço de Pesquisa do Congresso (Congressional Research Service) baseada em dados do Escritório Executivo de Revisão de Imigração (EOIR, na sigla em inglês).

Sabe-se que Eduardo Bolsonaro tem um passaporte italiano, que ele inclusive exibiu em vídeo no Instagram publicado em 11 de outubro, reagindo a decisão de Alexandre de Moraes de cancelar os passaportes do ex-deputado federal.

Eduardo e Flávio entraram juntos com pedido de cidadania italiana em 2022, logo após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva, segundo reportagens à época.

De acordo com a CNN, com base em informações do governo da Itália, Flávio teria cidadania italiana desde 2023. A informação foi corroborada pelo jornal Folha de S.Paulo.

<><> Vistos de não imigrante

Outro caminho possível são os vistos de não imigrante, temporários e concedidos por um período determinado a grupos específicos, como estudantes, jornalistas e profissionais contratados por empresas americanas. Segundo Piquet, há mais de 180 tipos de visto nesta categoria.

O advogado não acredita, porém, que esse seria um caminho prioritário para Flávio Bolsonaro. Ele diz que o senador poderia se qualificar para vistos temporários, a depender do que pretendesse: ficar por um período e voltar ao Brasil ou se estabelecer de vez nos EUA.

"Ele poderia se qualificar, por exemplo, se um escritório de advocacia de Washington quisesse contratá-lo como lobista. Ele poderia se qualificar para o visto O-1, de trabalho", afirma. "Só que esse visto vale por três anos. Então, dependeria da ambição, se ele quer voltar para o Brasil ou se ele quer ficar permanentemente."

<><> Green card

Por fim, outro caminho possível para Flávio ficar legalmente nos EUA seria ele conseguir um green card, o cartão de residente permanente dos Estados Unidos.

Diferentemente dos vistos temporários, ele dá ao estrangeiro o direito de morar e trabalhar no país por tempo indeterminado e, em geral, após cinco anos, de pedir a cidadania americana.

Há alguns meios pelos quais o senador poderia se qualificar para obter a residência permanente. Eduardo, por exemplo, obteve um visto do tipo EB-1A, destinado a pessoas com "habilidades extraordinárias".

Nesse tipo de visto, a pessoa precisa provar que cumpre três de dez critérios estabelecidos pelo Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS), como ter recebido prêmios de excelência, ter desempenhado papel de liderança em organizações de grande prestígio, ter uma remuneração alta em comparação com pessoas da mesma área, entre outros.

"Tem alguns pré-requisitos ali que facilmente um senador e, sobretudo, um candidato à Presidência poderia atender. E é um processo mais interessante do que um processo de asilo, em que você tem muitos complicadores", observa Piquet.

Outro caminho possível, segundo o advogado, seria um visto do tipo EB5, para investidores estrangeiros. Nesse caso, é preciso investir US$ 1,05 milhão no país ou US$ 800 mil em áreas de emprego prioritário, mas é preciso comprovar a origem do recurso, o que também pode ser um fator complicador.

O tempo de análise, diz o advogado, costuma demorar alguns meses. Mas é possível acelerar o processo com o pagamento de uma taxa, a premium processing. Com ela, a resposta do processo imigratório pode sair de 15 a 45 dias.

>>> Os bolsonaristas que vivem atualmente nos EUA

Caso se confirme a ida de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, o senador se somará a uma lista de bolsonaristas que já vivem no país, todos com complicações com a Justiça e que alegam ser vítimas de perseguição no Brasil. Confira a lista:

<><> Alexandre Ramagem

Ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e ex-deputado federal, deixou o Brasil em setembro de 2025 e está nos Estados Unidos como foragido da Justiça brasileira, após ser condenado a mais de 16 anos de prisão por participação na trama golpista de 8 de janeiro.

Ele foi detido pelo ICE, serviço de imigração americano, em abril de 2026, mas liberado dois dias depois, enquanto seu processo migratório e o pedido de asilo seguem em andamento.

<><>  Allan dos Santos

Deixou o Brasil em julho de 2020 e é considerado foragido da Justiça brasileira. À época de sua partida, Santos era alvo de dois inquéritos no STF e já havia sido alvo de operações da Polícia Federal.

O blogueiro teve a prisão preventiva decretada por Alexandre de Moraes em outubro de 2021, no âmbito do inquérito das milícias digitais, e no ano seguinte foi condenado a 1 ano e 7 meses em regime aberto por calúnia, difamação e injúria contra a cineasta Estella Renner.

<><> Eduardo Bolsonaro

O deputado federal está foragido nos EUA, onde vive no Texas. Ele foi cassado partiu para os EUA em março de 2025. À época, ele disse que ficaria no país para se dedicar em tempo integral a convencer o governo Trump a atuar pela anistia aos envolvidos nos ataques do 8 de janeiro e por sanções contra Moraes.

Eduardo obteve o green card do governo americano em julho de 2026, após ser condenado em junho pelo STF a 4 anos e 2 meses de prisão, pelo crime de coação no curso do processo, por ter atuado para interferir no julgamento da ação penal em que o pai foi condenado por tentativa de golpe de Estado.

<><> Paulo Figueiredo

É neto do ex-ditador João Batista Figueiredo e amigo do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Os dois foram denunciados pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por coação no curso de processo, mas o processo foi desmembrado e o de Figueiredo ainda aguarda julgamento.

Mudou-se para os EUA em 2015, após encerrar uma parceria de negócios com Donald Trump para um projeto hoteleiro no Rio de Janeiro.

 

Fonte: BBC News Brasil



 

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