quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Holanda pretende injetar R$ 2,7 bilhões  no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) criado pelo Brasil

No dia seguinte à vitória do presidente Lula (PT) nas eleições presidenciais de 2026, o governo dos Países Baixos anunciou a intenção de aportar até US$ 500 milhões (R$ 2,7 bilhões) ao longo de dez anos no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês). O fundo foi lançado na COP30, em Belém, no ano passado.

Com o anúncio, o país se junta à coalizão internacional da qual já fazem parte Brasil, Noruega, Indonésia, Alemanha, França e Reino Unido, que, juntos, já anunciaram US$ 7,8 bilhões (R$ 42,4 bilhões) em aportes no fundo, explica O Globo. Além de recursos de governos nacionais, o TFFF também já conta com participação de investidores privados, lembra a Folha.

O valor total oferecido pela Holanda seria investido em um período de 10 anos, dependendo da viabilidade financeira concreta do fundo, que precisa chegar a um aporte de 10 bilhões de dólares até o fim deste ano para ser colocado em prática. Com o apoio holandês, o projeto agora já soma 7,8 bilhões de dólares.

Ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, disse que a adesão dos Países Baixos ao TFFF representa mais um importante voto de confiança na iniciativa proposta originalmente pelo Brasil para transformar o financiamento da conservação das florestas tropicais.

“Durante décadas, o mundo reconheceu a importância dessas florestas para o equilíbrio do clima, a proteção da biodiversidade e a vida no planeta, mas não criou mecanismos financeiros à altura desse reconhecimento. O TFFF nasce para mudar essa realidade, garantindo recursos permanentes e previsíveis aos países que mantêm suas florestas em pé. Cada nova adesão fortalece essa construção coletiva e nos aproxima de uma mudança histórica de paradigma: fazer com que conservar as florestas seja mais vantajoso do que destruí-las, reconhecendo e remunerando aqueles que prestam esse serviço essencial a toda a humanidade”, ressaltou o ministro.

Rob Jetten, primeiro-ministro holandês, foi um dos vários líderes europeus a congratular Lula pela vitória nas eleições de domingo (25/10). “Estamos ansiosos para continuar nossa excelente colaboração, entre outros, nos campos de segurança, comércio e clima”, escreveu no X o premiê, que já foi ministro de Clima e Energia de seu país.

A formalização da participação holandesa está prevista para ocorrer na COP31, em Antália, Turquia, que começa no dia 9 de novembro. Com o anúncio dos Países Baixos, faltam US$ 2,2 bilhões (R$ 12 bilhões) para o TFFF atingir a meta prevista para este ano, de US$ 10 bilhões (R$ 54,3 bilhões), destaca a Exame.

Além do Brasil e de alguns investidores privados, países como Alemanha, França, Noruega, Luxemburgo, Reino Unido e Indonésia já apoiam a iniciativa. O anúncio oficial por parte da Holanda, no entanto, só deve ser feito daqui a cerca de duas semanas, quando começa a COP31, em Antália, na Turquia.

Para a diretora-geral da organização WWF International (World Wide Fund for Nature), a holandesa Kirsten Schuijt, o investimento de seu país-natal no TFFF é um imenso voto de confiança em "uma das ideias mais inovadoras e ambiciosas para proteger as florestas no mundo".

"Isso demonstra que a comunidade internacional está comprometida em transformar a promessa do TFFF em realidade. No último ano, o TFFF evoluiu para uma iniciativa global, reunindo governos, investidores, instituições internacionais, povos indígenas e comunidades locais em torno de uma visão: criar incentivos financeiros duradouros para manter as florestas de pé", declarou Schuijt.

Merijn van Leeuwen, diretor de Conservação da Natureza do WWF na Holanda, afirmou que "o investimento representa um grande avanço para a proteção das florestas tropicais em todo o mundo. Essas florestas são indispensáveis para um clima habitável, biodiversidade, segurança alimentar e abastecimento de água. Enquanto os países conseguirem lucrar mais com o desmatamento do que com a proteção das florestas, o desmatamento continuará".

<><> Mais de 4 milhões de hectares perdidos em 2025

Segundo informações publicadas no site do WWF, as "florestas tropicais estão desaparecendo a um ritmo alarmante, apesar de sua importância para o clima global, a segurança alimentar, a água potável e as economias. Em 2025, o mundo perdeu 4,3 milhões de hectares de floresta tropical, uma área aproximadamente do tamanho da Holanda".

O primeiro-ministro holandês, por sinal, foi um dos diversos líderes europeus a parabenizar Lula pela reeleição neste domingo. Na rede social X, Rob Jetten escreveu: "Estamos ansiosos para continuar nossa colaboração, em áreas como segurança, comércio e clima".

Não se sabe ao certo se o anúncio do governo da Holanda ocorreu justamente devido ao resultado das urnas brasileiras deste domingo, já que o TFFF é um instrumento focado em remunerar países em desenvolvimento para a proteção e manutenção de suas florestas.

Fato é que uma hipotética eleição de Flávio Bolsonaro (PL) era vista com preocupação em termos ambientais pela Europa e outras regiões. Jornais britânicos, como o The Guardian, e americanos, como o The New York Times, repercutiram preocupações extremas com o futuro da Amazônia nos últimos meses caso o bolsonarismo voltasse ao poder.

<><> Ideia é investir 125 bilhões de dólares

Idealizado pelo Brasil e lançado durante a COP30 em Belém em 2025, o TFFF busca arrecadar pelo menos 125 bilhões de dólares – o equivalente a cerca de R$ 638 bilhões. Desse total, 25 bilhões de dólares (R$ 127 milhões) viriam de recursos públicos e 100 bilhões de dólares (R$ 511 bilhões) de diferentes fontes, a exemplo de investidores privados.

A meta inicial é de 10 bilhões de dólares. Nos últimos meses algumas iniciativas de instituições financeiras tenham conseguido apoio privado para o TFFF. Quando alcançar os 125 bilhões de dólares, esse montante deverá ser colocado em uma carteira de investimentos de renda fixa com rendimentos anuais entre 7% e 8%.

Cerca de 4% devem ficar com os financiadores, enquanto os países que preservarem as florestas ganharão os mesmos 4%. Serão 4 dólares (R$ 20,50) pagos por hectare preservado – e a redução de pagamento caso haja desmatamento ou incêndios.

Comunidades e povos originários também devem ser protegidos, o que tem despertado interesse principalmente entre os europeus.

¨      O que é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e o que ele significa para o Brasil

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, em inglês Tropical Forest Forever Facility) surgiu na COP30, em Belém, como uma proposta para responder a um problema antigo da agenda climática: como garantir financiamento previsível, estável e de longo prazo para manter as florestas tropicais em pé.

Embora o tema tenha ganhado espaço entre governos, investidores e especialistas, ainda há muita dúvida fora desses círculos. Em termos simples, o TFFF busca criar uma estrutura financeira capaz de remunerar, ao longo do tempo, países e esforços que contribuam para a conservação de florestas tropicais. Isso é especialmente relevante para um país como o Brasil, onde a proteção de ecossistemas estratégicos está diretamente ligada ao clima, à biodiversidade, à água, à economia e à segurança territorial.

Se no artigo sobre floresta em pé mostramos por que a floresta funciona como infraestrutura natural do país, o TFFF aparece como uma tentativa concreta de criar a base econômica necessária para sustentar essa visão no longo prazo.

<><> Como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre pretende funcionar

A ideia central do TFFF é relativamente direta: em vez de depender apenas de ciclos curtos de doação, promessas políticas ou recursos irregulares, o mecanismo busca estruturar um fluxo contínuo de capital voltado à conservação. Em outras palavras, trata-se de transformar a proteção florestal em uma agenda com maior previsibilidade financeira.

Isso importa porque conservar a floresta não é um esforço pontual. Exige monitoramento, pesquisa, governança, presença institucional, apoio a comunidades, combate a pressões ilegais e fortalecimento de alternativas econômicas compatíveis com a manutenção dos ecossistemas.

Na prática, o debate em torno do fundo das florestas tropicais ganhou força justamente por apontar para um novo patamar de sofisticação no financiamento da conservação florestal no Brasil: um modelo pensado para durar, escalar e dialogar com atores públicos, filantrópicos e privados.

<><> Paises compõem o Fundo Florestas Tropicais para Sempre

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (Tropical Forest Forever Facility - TFFF) é liderado pelo Brasil e conta com a participação e coalizão de diversos países doadores e detentores de florestas. Em outubro de 2026, os principais países que integram ou anunciaram aportes e compromissos financeiros ao fundo incluem:

  • Brasil (idealizador e líder da iniciativa)
  • Noruega
  • Alemanha
  • França
  • Reino Unido
  • Países Baixos (Holanda) (anunciou um aporte de até US$ 500 milhões em outubro de 2026)
  • Luxemburgo
  • Indonésia (país detentor de floresta tropical integrante da articulação)
  • Colômbia, Gana, Congo e Malásia (países parceiros/detentores de florestas tropicais envolvidos na concepção e expansão do mecanismo)
  • Portugal

O fundo projeta abranger mais de 70 países com florestas tropicais e subtropicais, unindo nações doadoras e guardiões dos biomas em um modelo de financiamento de longo prazo.

<><> Por que o TFFF é importante para o Brasil

O Brasil ocupa uma posição singular nessa conversa. O país abriga parte essencial das florestas tropicais do planeta, concentra biodiversidade incomparável e exerce influência decisiva sobre o equilíbrio climático regional e global. Ao mesmo tempo, enfrenta pressões históricas ligadas ao desmatamento, à degradação, à fragmentação de habitats e à desigualdade territorial.

Nesse contexto, o TFFF pode ser relevante por pelo menos cinco razões:

  • Reconhece o valor estratégico das florestas em pé para o clima, a água, a agricultura e a economia
  • Ajuda a reduzir a dependência de recursos descontínuos , que muitas vezes dificultam planejamento e escala
  • Amplia o diálogo com investidores ESG e doadores institucionais , que buscam instrumentos mais robustos e mensuráveis
  • Fortalece a posição diplomática brasileira ao associar liderança climática com mecanismos concretos de implementação.
  • Cria condições para conectar conservação, ciência e desenvolvimento , em vez de tratar esses temas como agendas separadas.

Esse ponto é importante: o TFFF não diz respeito apenas à Amazônia ou à agenda internacional. Ele dialoga com a capacidade do Brasil de construir uma estratégia moderna de conservação baseada em permanência, governança e credibilidade.

<>< Do discurso à implementação: o que precisa ser observado

Como todo mecanismo inovador, o TFFF desperta entusiasmo, mas também exige leitura crítica. Seu sucesso não depende apenas de lançamento político ou visibilidade internacional. Ele dependerá da qualidade de sua governança, da clareza de seus critérios, da transparência na alocação de recursos e da confiança que conseguirá gerar entre diferentes públicos.

Para jornalistas, pesquisadores, empresas ESG e financiadores, algumas perguntas serão centrais nos próximos anos:

  • Quais serão as fontes efetivas de capitalização do fundo?
  • Como os resultados de conservação serão medidos e acompanhados?
  • De que forma o mecanismo lidará com integridade socioambiental e salvaguardas?
  • Como evitar que o fundo funcione apenas como vitrine política, sem escala prática?
  • De que modo ele poderá complementar outras estratégias, como bioeconomia, restauração e apoio à ciência?

Essas perguntas não enfraquecem o TFFF. Ao contrário: ajudam a separar promessa de implementação verdadeira. Foi esse tipo de tensão, inclusive, que marcou vários debates sobre os resultados da COP30 , entre avanços diplomáticos e a cobrança por execução concreta.

<><> O TFFF e a nova geração de financiamento da conservação

O surgimento do TFFF também sinaliza uma mudança mais ampla: a conservação deixou de ser vista apenas como custo ou compensação e passou a ser compreendida como investimento em estabilidade climática, resiliência econômica e continuidade de serviços ecossistêmicos.

Essa mudança de paradigma aproxima o fundo de outras agendas já debatidas pelo ILPS. Quando falamos sobre bioeconomia na Amazônia , por exemplo, estamos tratando de caminhos para gerar valor com a floresta preservada. Quando discutimos soluções baseadas na natureza , mostramos que proteger ecossistemas também é construir respostas para crises climáticas, hídricas e sociais.

O TFFF entra nesse ecossistema de ideias como uma peça financeira. Ele não substitui políticas públicas, fiscalização, pesquisa ou atuação territorial. Mas pode ajudar a dar sustentação a essas agendas, desde que consiga mobilizar recursos com consistência e regras confiáveis.

<><> O que doadores, empresas ESG e pesquisadores devem acompanhar

Para o público institucional, o TFFF é relevante porque pode inaugurar um referencial novo para a relação entre capital e conservação. Doadores e fundações tendem a observar seu potencial de alavancagem. Empresas ESG devem acompanhar sua capacidade de gerar credibilidade e impacto verificável. Pesquisadores e jornalistas, por sua vez, terão papel essencial em avaliar narrativa, evidência e resultados.

Mais do que perguntar se o fundo é uma boa ideia em abstrato, o ponto central será entender como ele se traduz em incentivos para conservar. Essa é a fronteira decisiva entre inovação financeira e transformação concreta.

<><> O que o TFFF significa para o futuro da conservação no Brasil

Se funcionar como prometido, o TFFF poderá consolidar um legado importante da presidência brasileira da COP30: a defesa de que florestas tropicais precisam de mecanismos permanentes de financiamento à altura de sua relevância planetária.

Para o Brasil, isso significa uma oportunidade rara de alinhar liderança climática, proteção da biodiversidade e inovação institucional. Também significa reforçar a ideia de que conservar não é adiar desenvolvimento, mas criar as condições para um desenvolvimento mais inteligente, mais resiliente e mais justo.

No ILPS, acompanhamos esse debate porque ele conversa diretamente com a nossa missão de fortalecer a conservação por meio de conhecimento, credibilidade e apoio a iniciativas transformadoras. Se quiser conhecer melhor nossa trajetória, visite a página Quem somos , entenda nossas frentes de Atuação e veja como apoiar a agenda de conservação em aqui.

¨      Conclusão

O TFFF fundo florestas tropicais é, acima de tudo, uma tentativa de responder com escala financeira a uma verdade ecológica já conhecida: sem floresta em pé, não há estabilidade climática, segurança hídrica nem futuro sustentável para o Brasil.

Por isso, acompanhar o desenvolvimento do TFFF é acompanhar uma discussão maior sobre o próprio lugar da conservação na economia do século XXI. E essa é uma conversa que interessa, cada vez mais, a financiadores, empresas, pesquisadores, formuladores de política pública e à sociedade como um todo.

 

Fonte: DW Brasil/Instituto Luiza

 

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