Eleições
de 2026 inauguram nova fase na comunicação da esquerda, avalia especialista
A
vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que se reelegeu para mais
um mandato, neste domingo (26), pode mudar de vez o jeito da esquerda fazer
política no Brasil.
Diante
das mudanças no cenário político e na relação da população com o debate
público, a cientista política e professora da Universidade Federal de Alagoas
(UFAL) Luciana Santana avaliou os desafios que se colocam para a esquerda a
partir de 2027 na maneira de se comunicar, mobilizar e se conectar com a
sociedade.
Em
entrevista para a Sputnik Brasil, ela ponderou que a guinada para a vitória de
Lula ocorreu quando ele conseguiu integrar estratégias tradicionais de
mobilização de massa com as da contemporaneidade.
"O
presidente Lula foi capaz de ouvir outras percepções e outras alternativas de
mobilização que não apenas as tradicionais [...] ele construiu sua vida
política fazendo corpo a corpo nas ruas, no movimento sindical, essa
mobilização de massas mais física, presencial. Isso possibilitou que ele
pudesse conhecer o papel das redes sociais nesse processo, e de que não é
excludente utilizar plataformas digitais e mobilizar as ruas."
O
trabalho nas redes de maneira articulada com as manifestações de rua foram
tidos cruciais para a queda no número de abstenções, o aumento de votos em
colégios eleitorais importantes, como Minas Gerais, a mobilização de jovens e
de pessoas idosas, pontuou.
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'Estratégia tem que mudar'
Ao
lembrar que no próximo mandato, Lula terá que negociar com uma maioria inédita
de partidos da oposição de direita e extrema-direita, ela ressaltou que as
redes sociais podem ser estratégicas na mobilização permanente da sociedade de
pautas nacionais e políticas públicas.
A
estratégia comunicacional do Executivo "tem que mudar", destacou, e
demandará transformação digital do governo para comunicar feitos, realizações
de propostas, bem como responsabilizar parlamentares sobre determinadas agendas
do governo.
A
comunicação também deve priorizar parte da oposição que é capaz de dialogar
para garantir governabilidade. Santana acrescentou que dentro do PL, partido do
rival derrotado Flávio Bolsonaro, há brecha para diálogos.
"Muitos
nomes que migraram ali com o PL, muito mais por interesses eleitorais em busca
de mais recursos nessa eleição específica, muitos que foram anteriormente do
União Brasil, do PP são atores políticos possíveis de diálogo, acho que existe
chance", comentou ao ressaltar a habilidade de Lula de negociar com a
oposição.
A
cientista política acrescentou que os partidos de centro-esquerda conseguiram
com as redes sociais espaço de diálogo, de interlocução com setores da
sociedade que não tinham até então.
"Hoje,
a partir de 2015, os presidentes passaram a ser mais reféns do Legislativo por
causa das emendas impositivas [...] A comunicação digital vai ajudar muito
nisso, mostrar a responsabilidade que os legisladores têm, inclusive com a
responsabilidade orçamentária [...] dar visibilidade, levar para a opinião
pública essas questões vai criar constrangimentos e fazer com que esses
parlamentares saiam da zona do conforto e se coloquem também como atores
responsáveis nesse processo", disse ela.
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Interferência de plataformas digitais estrangeiras
A
professora acrescentou que, dada a influência das big techs nas eleições, é
fundamental desenvolver um arcabouço jurídico que proteja a soberania e
autonomia do país. "Essa eleição deixou muito evidente o quanto que o país
está refém dos interesses das grandes corporações, das big techs, de lideranças
mundiais que muitas vezes não são responsáveis."
"Essa
é uma pauta espinhosa que o governo vai ter que enfrentar. [...] O processo de
regulação se faz necessário para a gente proteger as nossas políticas
públicas,"
Nesse
processo, diz, não poderá ser feito apenas na esfera da relação política
institucional entre Executivo-Legislativo, mas sim através do diálogo com a
sociedade.
"Vejo
como necessário e algo que precisa sair do papel. Inclusive, porque os Estados
Unidos vão ter uma eleição presidencial daqui a dois anos então provavelmente a
conjuntura vai ser muito mais favorável inclusive para que isso aconteça no
Brasil."
• Virada dá musculatura mundial a Lula e
brasileiros mostram força diante de pressões estrangeiras
Em
entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas comentaram a
vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL),
sacramentando o quarto mandato presidencial do pernambucano.
O atual
presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), conquistou na noite do
último domingo (26) a reeleição presidencial após derrotar o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) por mais de 4 milhões de votos de diferença.
O
triunfo do petista o colocou em um patamar único na história brasileira. Além
de se tornar o primeiro presidente a ser eleito quatro vezes de maneira
democrática, Lula foi o único presidenciável a perder o primeiro turno e virar
o pleito no momento de um contra um.
Em
entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas declararam que
a vitória de Lula eleva sua biografia em nível internacional e demonstra que os
brasileiros podem enfrentar pressões estrangeiras em uma eleição marcada pela
sombra de tarifas dos Estados Unidos e questionamentos contra big techs.
Jorge
Chaloub, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), declarou que o mito sobre o petista cresceu mais após o pleito
deste ano.
Enquanto
"essa virada improvável fortalece" a imagem internacional de Lula, a
derrota de Flávio "mancha um pouco a imagem do [secretário de Estado dos
EUA] Marco Rubio". E, apesar de o Brasil não ser um elemento central do
ecossistema norte-americano, o não reconhecimento da vitória do petista cerca
de 24 horas após o pleito soa "preocupante".
"Nesse
cenário, o não reconhecimento me parece até esperado, mas é preocupante porque
já houve uma decisão, uma iniciativa de intervir na política brasileira, e isso
ocorreu pelas questões tarifárias. Houve [também] um apoio explícito ao
[Flávio] Bolsonaro, que não é usual, e agora parece que tem uma continuidade
disso com esse não reconhecimento, que já era esperado."
Para
Chaloub, Lula deverá ser habilidoso para lidar com as investidas americanas ao
longo dos próximos anos. Na opinião do especialista, é necessário desescalar
qualquer tipo de confronto.
"O
que interessa ao Brasil é se recolocar nessa relação. Então, acho que o
confronto aberto não é o caminho. O caminho é você conseguir resistir às
investidas. Por mais que quem está mais à esquerda tenha um desejo muito grande
de uma resposta pública, ainda mais em termos de declarações bombásticas,
lacração nas redes sociais, a política externa não é um terreno para você
lacrar."
Rogério
Baptistini, sociólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie,
pesquisador nas áreas de pensamento político brasileiro e do Estado e do
desenvolvimento no Brasil, ratifica o comentário de Chaloub e destaca não só um
triunfo eleitoral de Lula, mas uma vitória da democracia brasileira com uma
postura altiva e soberana.
"O
cidadão brasileiro, a despeito das tarifas, da manipulação algorítmica, votou
conscientemente, ordenadamente e manifestou o desejo de continuar o curso que
vinha mantendo. Com um governo que fala em defesa da soberania, da Constituição
de 1988 — que é um patrimônio de todos os brasileiros —, em redistribuição de
riqueza e que fala a voz dos mais humildes."
Sobre
não ter a eleição reconhecida de imediato pelos presidentes de Estados Unidos,
Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei, Baptistini acredita ser uma questão
política interna dos dois líderes, que enfrentam pleitos em breve: o
norte-americano tem as eleições de meio de mandato na próxima semana, enquanto
o argentino busca a reeleição no ano que vem.
"Portanto,
de Trump e Milei já era previsível. O que importa é que os vizinhos, mesmo
participando do Escudo das Américas, mesmo sendo governos de direita ou de
extrema-direita, reconheceram a vitória de Lula e o mundo vai seguir o seu
curso."
O
especialista também classificou o comentário de Donald Trump Jr., filho do
presidente norte-americano, que chamou Lula de próximo Nicolás Maduro, como
ameaçador. O presidente da Venezuela foi sequestrado dentro do palácio
presidencial de Caracas em janeiro deste ano por uma tropa de elite das Forças
Armadas dos EUA e levado para Nova York, onde está preso. No entendimento de
Baptistini, a fala é feita a partir da notória resistência do petista a
flexibilizar a exploração de terras raras no país.
"Com
a vitória de Lula, certamente ele [Trump Jr.] vai ter muita dificuldade para
levar de forma fácil o que imaginava do Brasil, tratar o Brasil como uma
colônia na qual ele exploraria os minérios e as riquezas naturais como homem de
negócios que rouba, para usar uma expressão forte, e enriquece vivendo na
América do Norte. Ele é um homem de negócios que usa o discurso da força e da
violência, nada cortês, mas ele é um ninguém. Para nós, ele é um ninguém."
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Lula travará batalha pelo multilateralismo nas Américas
A onda
azul nas Américas ― que recentemente ganhou nomes como José Antonio Kast, no
Chile, Keiko Fujimori, no Peru, e Rodrigo Paz, na Bolívia ― foi freada pelo
triunfo de Lula no Brasil, justamente o país com a maior economia e população
da América Latina. A imponência territorial e de habitantes, no entanto, não
garantirá ao petista um deslocamento fácil na mesa de negociações dos colegas
na região.
Para
Chaloub, existe interesse de Washington em esvaziar os grupos de cooperação e
blocos das Américas, como a Comunidade Andina e o próprio Mercosul. O
especialista acredita que Milei, focado mais na integração ocidental do que
regional, pode agir dentro da instituição sul-americana como um peão de Trump.
"A
postura de Milei, por exemplo, já aponta que há presidentes que, de fato, vão
se alinhar totalmente ao trumpismo e estão, inclusive, dispostos a fustigar e a
atuar na política brasileira como representantes do Trump."
O
analista destaca que o Itamaraty, historicamente, é visto como um mediador de
conflitos e imbróglios internacionais. Lula, por sua vez, leva adiante este
legado nacional, mas o esvaziamento do multilateralismo requer que o Brasil
priorize a indústria bélica caso queira ser ouvido.
"Acho
que o Lula vai ser sempre um ator que vai falar globalmente para fora, em nome
do multilateralismo. Agora, daí a ser um mediador eficaz dos principais
conflitos internacionais, pode até dizer que pretende ser, mas não creio."
Além da
vitória de Lula, Baptistini elencou o governo da presidente do México, Claudia
Sheinbaum, como um freio à direita na América Latina e um combustível para o
campo progressista. O especialista ressalta que a esquerda deve aprender a
disputar espaço não só nas ruas, mas também nas redes sociais.
"Aquele
enfrentamento do passado tradicional, das décadas de 1960 e até meados dos anos
1970, que muitas vezes descambou em conflitos armados, isso é coisa para livro
de história. Hoje, a esquerda, o campo popular, o campo progressista, tem de
fazer o enfrentamento da guerra de posição, tem de chegar nos institutos da
sociedade civil, nas igrejas, tem de chegar nas universidades, nas comunidades,
dialogar com as pessoas e fazer isso também no mundo virtual."
Fonte:
Sputnik Brasil

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