quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Eleições de 2026 inauguram nova fase na comunicação da esquerda, avalia especialista

A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que se reelegeu para mais um mandato, neste domingo (26), pode mudar de vez o jeito da esquerda fazer política no Brasil.

Diante das mudanças no cenário político e na relação da população com o debate público, a cientista política e professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) Luciana Santana avaliou os desafios que se colocam para a esquerda a partir de 2027 na maneira de se comunicar, mobilizar e se conectar com a sociedade.

Em entrevista para a Sputnik Brasil, ela ponderou que a guinada para a vitória de Lula ocorreu quando ele conseguiu integrar estratégias tradicionais de mobilização de massa com as da contemporaneidade.

"O presidente Lula foi capaz de ouvir outras percepções e outras alternativas de mobilização que não apenas as tradicionais [...] ele construiu sua vida política fazendo corpo a corpo nas ruas, no movimento sindical, essa mobilização de massas mais física, presencial. Isso possibilitou que ele pudesse conhecer o papel das redes sociais nesse processo, e de que não é excludente utilizar plataformas digitais e mobilizar as ruas."

O trabalho nas redes de maneira articulada com as manifestações de rua foram tidos cruciais para a queda no número de abstenções, o aumento de votos em colégios eleitorais importantes, como Minas Gerais, a mobilização de jovens e de pessoas idosas, pontuou.

© telegram SputnikBrasil

<><> 'Estratégia tem que mudar'

Ao lembrar que no próximo mandato, Lula terá que negociar com uma maioria inédita de partidos da oposição de direita e extrema-direita, ela ressaltou que as redes sociais podem ser estratégicas na mobilização permanente da sociedade de pautas nacionais e políticas públicas.

A estratégia comunicacional do Executivo "tem que mudar", destacou, e demandará transformação digital do governo para comunicar feitos, realizações de propostas, bem como responsabilizar parlamentares sobre determinadas agendas do governo.

A comunicação também deve priorizar parte da oposição que é capaz de dialogar para garantir governabilidade. Santana acrescentou que dentro do PL, partido do rival derrotado Flávio Bolsonaro, há brecha para diálogos.

"Muitos nomes que migraram ali com o PL, muito mais por interesses eleitorais em busca de mais recursos nessa eleição específica, muitos que foram anteriormente do União Brasil, do PP são atores políticos possíveis de diálogo, acho que existe chance", comentou ao ressaltar a habilidade de Lula de negociar com a oposição.

A cientista política acrescentou que os partidos de centro-esquerda conseguiram com as redes sociais espaço de diálogo, de interlocução com setores da sociedade que não tinham até então.

"Hoje, a partir de 2015, os presidentes passaram a ser mais reféns do Legislativo por causa das emendas impositivas [...] A comunicação digital vai ajudar muito nisso, mostrar a responsabilidade que os legisladores têm, inclusive com a responsabilidade orçamentária [...] dar visibilidade, levar para a opinião pública essas questões vai criar constrangimentos e fazer com que esses parlamentares saiam da zona do conforto e se coloquem também como atores responsáveis nesse processo", disse ela.

<><> Interferência de plataformas digitais estrangeiras

A professora acrescentou que, dada a influência das big techs nas eleições, é fundamental desenvolver um arcabouço jurídico que proteja a soberania e autonomia do país. "Essa eleição deixou muito evidente o quanto que o país está refém dos interesses das grandes corporações, das big techs, de lideranças mundiais que muitas vezes não são responsáveis."

"Essa é uma pauta espinhosa que o governo vai ter que enfrentar. [...] O processo de regulação se faz necessário para a gente proteger as nossas políticas públicas,"

Nesse processo, diz, não poderá ser feito apenas na esfera da relação política institucional entre Executivo-Legislativo, mas sim através do diálogo com a sociedade.

"Vejo como necessário e algo que precisa sair do papel. Inclusive, porque os Estados Unidos vão ter uma eleição presidencial daqui a dois anos então provavelmente a conjuntura vai ser muito mais favorável inclusive para que isso aconteça no Brasil."

•        Virada dá musculatura mundial a Lula e brasileiros mostram força diante de pressões estrangeiras

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas comentaram a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), sacramentando o quarto mandato presidencial do pernambucano.

O atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), conquistou na noite do último domingo (26) a reeleição presidencial após derrotar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por mais de 4 milhões de votos de diferença.

O triunfo do petista o colocou em um patamar único na história brasileira. Além de se tornar o primeiro presidente a ser eleito quatro vezes de maneira democrática, Lula foi o único presidenciável a perder o primeiro turno e virar o pleito no momento de um contra um.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas declararam que a vitória de Lula eleva sua biografia em nível internacional e demonstra que os brasileiros podem enfrentar pressões estrangeiras em uma eleição marcada pela sombra de tarifas dos Estados Unidos e questionamentos contra big techs.

Jorge Chaloub, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), declarou que o mito sobre o petista cresceu mais após o pleito deste ano.

Enquanto "essa virada improvável fortalece" a imagem internacional de Lula, a derrota de Flávio "mancha um pouco a imagem do [secretário de Estado dos EUA] Marco Rubio". E, apesar de o Brasil não ser um elemento central do ecossistema norte-americano, o não reconhecimento da vitória do petista cerca de 24 horas após o pleito soa "preocupante".

"Nesse cenário, o não reconhecimento me parece até esperado, mas é preocupante porque já houve uma decisão, uma iniciativa de intervir na política brasileira, e isso ocorreu pelas questões tarifárias. Houve [também] um apoio explícito ao [Flávio] Bolsonaro, que não é usual, e agora parece que tem uma continuidade disso com esse não reconhecimento, que já era esperado."

Para Chaloub, Lula deverá ser habilidoso para lidar com as investidas americanas ao longo dos próximos anos. Na opinião do especialista, é necessário desescalar qualquer tipo de confronto.

"O que interessa ao Brasil é se recolocar nessa relação. Então, acho que o confronto aberto não é o caminho. O caminho é você conseguir resistir às investidas. Por mais que quem está mais à esquerda tenha um desejo muito grande de uma resposta pública, ainda mais em termos de declarações bombásticas, lacração nas redes sociais, a política externa não é um terreno para você lacrar."

Rogério Baptistini, sociólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, pesquisador nas áreas de pensamento político brasileiro e do Estado e do desenvolvimento no Brasil, ratifica o comentário de Chaloub e destaca não só um triunfo eleitoral de Lula, mas uma vitória da democracia brasileira com uma postura altiva e soberana.

"O cidadão brasileiro, a despeito das tarifas, da manipulação algorítmica, votou conscientemente, ordenadamente e manifestou o desejo de continuar o curso que vinha mantendo. Com um governo que fala em defesa da soberania, da Constituição de 1988 — que é um patrimônio de todos os brasileiros —, em redistribuição de riqueza e que fala a voz dos mais humildes."

Sobre não ter a eleição reconhecida de imediato pelos presidentes de Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei, Baptistini acredita ser uma questão política interna dos dois líderes, que enfrentam pleitos em breve: o norte-americano tem as eleições de meio de mandato na próxima semana, enquanto o argentino busca a reeleição no ano que vem.

"Portanto, de Trump e Milei já era previsível. O que importa é que os vizinhos, mesmo participando do Escudo das Américas, mesmo sendo governos de direita ou de extrema-direita, reconheceram a vitória de Lula e o mundo vai seguir o seu curso."

O especialista também classificou o comentário de Donald Trump Jr., filho do presidente norte-americano, que chamou Lula de próximo Nicolás Maduro, como ameaçador. O presidente da Venezuela foi sequestrado dentro do palácio presidencial de Caracas em janeiro deste ano por uma tropa de elite das Forças Armadas dos EUA e levado para Nova York, onde está preso. No entendimento de Baptistini, a fala é feita a partir da notória resistência do petista a flexibilizar a exploração de terras raras no país.

"Com a vitória de Lula, certamente ele [Trump Jr.] vai ter muita dificuldade para levar de forma fácil o que imaginava do Brasil, tratar o Brasil como uma colônia na qual ele exploraria os minérios e as riquezas naturais como homem de negócios que rouba, para usar uma expressão forte, e enriquece vivendo na América do Norte. Ele é um homem de negócios que usa o discurso da força e da violência, nada cortês, mas ele é um ninguém. Para nós, ele é um ninguém."

<><> Lula travará batalha pelo multilateralismo nas Américas

A onda azul nas Américas ― que recentemente ganhou nomes como José Antonio Kast, no Chile, Keiko Fujimori, no Peru, e Rodrigo Paz, na Bolívia ― foi freada pelo triunfo de Lula no Brasil, justamente o país com a maior economia e população da América Latina. A imponência territorial e de habitantes, no entanto, não garantirá ao petista um deslocamento fácil na mesa de negociações dos colegas na região.

Para Chaloub, existe interesse de Washington em esvaziar os grupos de cooperação e blocos das Américas, como a Comunidade Andina e o próprio Mercosul. O especialista acredita que Milei, focado mais na integração ocidental do que regional, pode agir dentro da instituição sul-americana como um peão de Trump.

"A postura de Milei, por exemplo, já aponta que há presidentes que, de fato, vão se alinhar totalmente ao trumpismo e estão, inclusive, dispostos a fustigar e a atuar na política brasileira como representantes do Trump."

O analista destaca que o Itamaraty, historicamente, é visto como um mediador de conflitos e imbróglios internacionais. Lula, por sua vez, leva adiante este legado nacional, mas o esvaziamento do multilateralismo requer que o Brasil priorize a indústria bélica caso queira ser ouvido.

"Acho que o Lula vai ser sempre um ator que vai falar globalmente para fora, em nome do multilateralismo. Agora, daí a ser um mediador eficaz dos principais conflitos internacionais, pode até dizer que pretende ser, mas não creio."

Além da vitória de Lula, Baptistini elencou o governo da presidente do México, Claudia Sheinbaum, como um freio à direita na América Latina e um combustível para o campo progressista. O especialista ressalta que a esquerda deve aprender a disputar espaço não só nas ruas, mas também nas redes sociais.

"Aquele enfrentamento do passado tradicional, das décadas de 1960 e até meados dos anos 1970, que muitas vezes descambou em conflitos armados, isso é coisa para livro de história. Hoje, a esquerda, o campo popular, o campo progressista, tem de fazer o enfrentamento da guerra de posição, tem de chegar nos institutos da sociedade civil, nas igrejas, tem de chegar nas universidades, nas comunidades, dialogar com as pessoas e fazer isso também no mundo virtual."

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

Nenhum comentário: