Manejo
florestal: exploração e conservação podem coexistir?
O
manejo florestal é uma tentativa de explorar as florestas sem cair no
extrativismo predatório: os recursos são extraídos de forma planejada, mas a
prática não impede a derrubada de árvores. O desafio é conciliar o uso dos
recursos florestais com a conservação dos ecossistemas, para que a floresta não
seja destruída e continue fornecendo seus produtos e serviços.
No
Brasil, a Lei nº 11284, de 2006, define manejo florestal sustentável como a
“administração da floresta para a obtenção de benefícios econômicos, sociais e
ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto
do manejo e considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de
múltiplas espécies madeireiras, de múltiplos produtos e subprodutos não
madeireiros, bem como a utilização de outros bens e serviços de natureza
florestal”.
Mas
antes de sair cortando árvores, é preciso conhecer a floresta.
<><>
Como funciona o manejo florestal sustentável?
O
manejo florestal sustentável começa com o planejamento da exploração e o
inventário das árvores. Esse levantamento identifica as espécies presentes,
onde estão exatamente, suas dimensões e o volume de madeira disponível.
Essas
informações ajudam a definir quais árvores podem ser cortadas e quais devem
permanecer na floresta. Todas as regras para a exploração são estabelecidas no
chamado Plano de Manejo Florestal Sustentável (PMFS).
A
exploração precisa respeitar critérios como o diâmetro mínimo de corte e manter
árvores que contribuam para a regeneração da floresta. Ou seja, nem toda árvore
identificada no inventário pode ser cortada.
A
Resolução CONAMA nº 406/2009 prevê a manutenção de pelo menos 10% das árvores
de cada espécie que atendam aos critérios de seleção para corte, respeitando o
mínimo de três árvores por espécie a cada 100 hectares em cada Unidade de
Trabalho (UT).
<><>
Quanto de madeira pode ser retirado?
A
derrubada de árvores não pode acontecer de uma só vez em toda a área. Nas
concessões florestais, em que o Poder Público autoriza empresas ou outras
organizações a manejar uma floresta pública, a área é dividida em Unidades de
Produção Anual (UPAs), exploradas em sistema de rodízio.
Depois
do corte em uma unidade, é preciso aguardar o intervalo previsto no ciclo de
manejo antes de voltar a explorá-la. Para planos que utilizam máquinas para
arrastar as toras de madeira, a Resolução CONAMA nº 406/2009 prevê ciclos
iniciais de 25 a 35 anos. Esse tempo de espera está relacionado à quantidade de
madeira retirada.
O
rodízio é para dar tempo para a floresta se refazer, mas nem sempre o tempo que
a regra prevê é o que ela precisa.
Nesse
tipo de manejo, o limite pode chegar a 30m³ de madeira por hectare em um ciclo
de 35 anos. O teto é esse, mas o volume autorizado em cada área depende do
plano de manejo, e é nele que se decide quanto sai da floresta. Além disso, o
planejamento precisa considerar ainda as áreas que devem permanecer protegidas.
<><>
Como a floresta é protegida?
Nas
concessões florestais públicas, a Lei nº 11284/2006 determina que pelo menos 5%
da área concedida seja mantida como reserva absoluta. Isso significa que a área
deve ser destinada à conservação da biodiversidade e ao monitoramento dos
impactos do manejo.
Também
é necessário respeitar as Áreas de Preservação Permanente (APPs). Elas incluem
faixas às margens dos rios e encostas íngremes, entre outras áreas protegidas
pelo Novo Código Florestal.
<><>
De onde vem a madeira?
Além do
manejo, o registro das árvores e o acompanhamento da exploração também ajudam a
verificar de onde vem a madeira. Nas concessões públicas, sistemas de controle
permitem monitorar a produção e rastrear sua procedência. A certificação
florestal é outra forma de avaliar se a atividade atende a determinados
critérios ambientais e de manejo. Mas há uma diferença importante: registrar as
árvores no inventário não significa, por si só, que a madeira seja certificada.
<><>
O manejo florestal na Amazônia é sustentável?
Embora
o manejo florestal sustentável estabeleça regras para limitar a retirada de
madeira e favorecer a regeneração da floresta, isso não significa que a
vegetação consiga se recuperar plenamente entre um ciclo de exploração e outro.
Um
relatório do Science Panel for the Amazon (SPA), publicado em 2023, aponta para
a urgência em se rever as práticas utilizadas para o manejo florestal,
principalmente na Amazônia.
Segundo
a publicação, as atuais regras para o gerenciamento da extração de madeira
atendem às demandas do mercado. Por outro lado, são ecologicamente inadequadas,
além de impedirem que a floresta se reconstitua completamente, dentro do ciclo
de corte.
Para
garantir a recuperação das reservas de madeira a longo prazo, o relatório
recomenda reduzir em 50% a intensidade de corte e ampliar para 60 anos o ciclo
mínimo entre as explorações. Segundo os pesquisadores, porém, mesmo com essas
restrições, a área de florestas naturais da Amazônia destinada à produção não
seria suficiente para atender à crescente demanda por produtos madeireiros.
<><>
Alternativas para reduzir a pressão sobre as florestas
Para
atender a essa demanda sem aumentar a pressão sobre as florestas naturais, o
relatório aponta alternativas como o manejo de florestas secundárias e
degradadas. Também indica o cultivo de diferentes espécies nativas para a
produção de madeira. Essas áreas podem ampliar a oferta de produtos madeireiros
e permitir que mais florestas naturais sejam destinadas à conservação.
Além
disso, o SPA também defende o fortalecimento do manejo florestal comunitário,
com apoio técnico e regras adequadas. Além de medidas para combater a extração
ilegal de madeira, que concorre de forma desleal com a produção legal.
Mas há
outro fator que dificulta o planejamento do manejo florestal: as mudanças
climáticas. Esse é um fator que altera as condições de crescimento das árvores
e pode comprometer a composição das florestas ao longo do tempo.
<><>
Como as mudanças climáticas afetam o manejo florestal?
Um
estudo publicado em 2024 na revista Nature Ecology & Evolution analisou 69
espécies de árvores para avaliar se elas continuariam adaptadas às condições
climáticas ao longo do século 21.
Embora
a pesquisa se concentre na Europa, seus resultados chamam a atenção para um
desafio que pode afetar o manejo florestal em outras regiões do mundo: escolher
espécies capazes de se adaptar às mudanças climáticas.
Os
resultados indicam que as mudanças climáticas podem reduzir entre 33% e 49% o
número de espécies atualmente disponíveis para o manejo, dependendo do cenário
climático considerado.
Essa
redução pode dificultar o planejamento de longo prazo, já que o manejo depende
da escolha de espécies capazes de crescer e se regenerar nas condições
ambientais de cada região. À medida que o clima muda, espécies antes adequadas
podem perder espaço, exigindo mudanças nas estratégias atuais.
Além de
reduzir as opções de espécies para o manejo, esse cenário pode prejudicar a
produção de madeira, o armazenamento de carbono e a conservação da
biodiversidade. O estudo também aponta que a perda de espécies adequadas ao
clima pode dificultar a formação de florestas mistas, uma estratégia importante
de adaptação climática.
<><>
Benefícios e limites do manejo florestal
Afinal,
retirar madeira de uma floresta sem destruir tudo o que existe nela é possível?
O manejo florestal sustentável busca justamente esse equilíbrio: permitir o uso
dos recursos da floresta sem comprometer sua capacidade de continuar existindo
e se regenerando.
No
Brasil, esse ideal está previsto em lei. Mas ter regras para cortar árvores não
significa que a floresta vá se recuperar plenamente, muito menos que as regras
serão seguidas à risca.
A
recuperação depende da intensidade da exploração, do tempo entre os cortes e
das condições ambientais. Depende também do comprometimento humano com a
conservação das florestas. As mudanças climáticas acrescentam outro desafio,
pois podem comprometer a capacidade das árvores de continuar crescendo e se
desenvolvendo em algumas regiões.
A forma
como a madeira é produzida e comercializada também faz diferença. É preciso
garantir que essas regras sejam respeitadas e que a madeira comercializada
tenha origem conhecida. Afinal, de pouco adianta ter um modelo pensado para
conciliar exploração e conservação se, na prática, ele não funcionar como
deveria.
Nesse
contexto, nós, consumidores, também temos um papel importante: buscar
informações sobre a origem da madeira e dar preferência a produtos de
procedência legal.
Mais do
que permitir a exploração dos recursos florestais, o desafio é garantir que as
florestas continuem vivas e capazes de sustentar a biodiversidade e as
comunidades que dependem delas.
Fonte:
eCycle

Nenhum comentário:
Postar um comentário