Pesquisadores
revelam rotas e padrões do tráfico de animais na Amazônia
Berço
da maior biodiversidade do mundo, a Amazônia brasileira é um dos principais
polos do tráfico internacional de animais silvestres. Todos os dias, milhares
de animais são retirados da floresta para serem vendidos em outras partes do
país e no exterior. Apesar de seu papel central nesse mercado ilegal, ainda
faltam informações sobre o tráfico de animais na região.
Os
dados sobre apreensões de animais estão dispersos em órgãos municipais,
estaduais e federais. Além da ausência de um sistema integrado, os vastos
territórios amazônicos e a falta de controle nas fronteiras dificultam a
produção de inteligência sobre este crime ambiental.
“Todo
rio que você for na Amazônia vai ter eventos de tráfico”, disse à Mongabay o
especialista em inteligência de conservação Antônio de Carvalho, da ONG de
conservação WCS Brasil.
A
organização está desenvolvendo um observatório global de tráfico de animais,
que vai usar inteligência artificial para coletar informações em sites de
notícias e pesquisas acadêmicas. O objetivo é apoiar o trabalho de
investigadores, agentes ambientais e jornalistas.
“Muitos
dados de apreensões são perdidos porque os animais são soltos ali mesmo, no
local da apreensão, e aquilo não vira nem estatística institucional”, explicou
Carvalho.
Em mais
uma tentativa de preencher esse vazio de informações e ajudar a definir
estratégias para proteger a fauna brasileira, pesquisadores analisaram 34
artigos científicos sobre o tráfico de animais silvestres na Amazônia para
identificar as principais causas, rotas e espécies visadas. O estudo foi
publicado em julho na revista Human Ecology.
“Eu
sentia que faltava uma visão ampla [sobre o tema], como uma fotografia de
cima”, disse à Mongabay a pesquisadora Marta Custódio Lopes, da Universidade
Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
O
estudo identificou 137 espécies de animais silvestres sendo comercializadas
ilegalmente na Amazônia brasileira. A maior parte delas era de aves (36,4%),
seguidas por mamíferos (28,4%), répteis (18,9%) e peixes (15,3%).
“Em
todo o Brasil, o que mais move o tráfico são as aves, e na Amazônia eu
encontrei uma grande diversidade de espécies de aves [sendo comercializadas
ilegalmente]”, relatou Lopes.
Ao
contrário de outras regiões do país, o comércio de animais de estimação não é o
único fator que impulsiona o tráfico de aves na Amazônia. “Havia muitas
espécies de aves de grande e médio porte que eram utilizadas na alimentação, o
que é uma característica mais local”, ela explicou.
A
alimentação também é um vetor do tráfico de tartarugas e seus ovos, que são
consumidos no Brasil e contrabandeados para os países vizinhos. Segundo
Carvalho, uma rota bem conhecida atravessa a fronteira com o Peru e chega até
países asiáticos. “Os filhotes de Podocnemis [gênero de tartarugas de água
doce] chegam na Ásia e entram em fazendas de produção, onde são alimentados
como se fossem peixes. Aí eles vão crescendo e são abatidos”, disse ele.
Fins
medicinais, espirituais e religiosos também aparecem entre os principais
motivadores do tráfico de animais na Amazônia, segundo a pesquisa de Lopes.
“Achei
interessante que mais de um terço das espécies traficadas são para fins
mágico-religiosos”, mencionou a consultora em biodiversidade Sandra Charity em
entrevista à Mongabay. “Mas senti falta de resultados que justifiquem uma
finalidade voltada ao turismo, por exemplo, experiências de ‘ecoturismo’ de
nadar com botos mantidos em cativeiro, assim como as dezenas de mini-zoos
espalhados pela Amazônia.”
Em
2020, Charity e Juliana Ferreira, diretora-executiva da Freeland Brasil,
fizeram um relatório abrangente sobre o tráfico de animais silvestres no Brasil
para a ONG internacional Traffic. Elas recorreram a diversos dados, como
apreensões de animais silvestres pelo Ibama, reportagens na imprensa e
entrevistas com agentes ambientais.
O
estudo de Lopes, por sua vez, baseia-se exclusivamente em artigos revisados por
pares e publicados em revistas científicas. O resultado é que o estudo ficou
restrito às regiões amazônicas mais acessíveis aos pesquisadores. “A gente tem
vários pontos cegos onde não encontramos artigos”, comentou Lopes. “O
pesquisador não tem dinheiro para fazer pesquisa muito distante das calhas dos
rios ou das capitais.”
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Países vizinhos servem como rotas de exportação
Muitos
traficantes utilizam os países vizinhos como plataformas de exportação da fauna
brasileira. Um exemplo é o cascudo-zebra (Hypancistrus zebra), um peixe
criticamente ameaçado de extinção, que só existe em um trecho do rio Xingu, no
Pará. Muito cobiçada como peixe ornamental, a espécie percorre dois mil quilômetros nas mãos de traficantes para
chegar à tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.
“Ele
sai lá do Xingu e atravessa todo o estado do Amazonas para chegar à fronteira,
e depois que entra na Colômbia ele é comercializado para países como os Estados
Unidos e a Alemanha”, disse Carvalho. No início de setembro, a Mongabay mostrou
que o cascudo-zebra também estava à venda no Mercado Chatuchak, em Bangcoc, na
Tailândia. Segundo Carvalho, os ribeirinhos recebem cerca de um real por cada
peixe, que é vendido por até 300 reais nos Estados Unidos. “Ele se torna muito
valioso.”
O
município amazonense de Tabatinga, no Brasil, e a cidade de Leticia, na Colômbia, são separados por uma
única rua e considerados “pontos de passagem obrigatórios na rota do tráfico”,
segundo o relatório de 2020 da Traffic. “Nesta região de fronteira, animais
silvestres como quelônios de água doce e peixes para consumo são transportados
e vendidos em grandes quantidades”, afirma o relatório.
Outras
importantes rotas de tráfico passam pela Guiana e pelo Suriname. Ao contrário
do Brasil, esses países permitem a captura e o comércio de determinadas
quantidades de animais silvestres. Segundo especialistas, animais capturados
ilegalmente no Brasil são “lavados” nesses países e, em seguida, enviados para
outros mercados internacionais como se fossem legais.
“As
rotas são determinadas pela relativa facilidade de lavagem da procedência
ilegal de muitas espécies pan-amazônicas”, disse Charity. Segundo ela, o
tráfico de animais na Amazônia brasileira tem estado cada vez mais ligado a
outros crimes ambientais, como o desmatamento ilegal, e às facções criminosas.
Fonte:
Mongabay

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