Para
onde devem ir os investimentos em defesa no 4º governo Lula?
Em
entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmam que a relação entre os
governos Lula e as Forças Armadas nunca foi ruim e que em todas as gestões do
presidente houve investimentos significativos na Defesa, mas ainda é preciso
avançar na autonomia tecnológica e na interoperabilidade das forças.
A
reformulação do Ministério da Defesa foi um dos temas de campanha das eleições
deste ano. Reeleito presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva já
afirmou que uma das prioridades de seu quarto mandato será o fortalecimento das
Forças Armadas para proteger a soberania do Brasil, diante do avanço da
presença dos EUA no continente sul-americano.
No
início deste ano, Lula recebeu do Exército e da Marinha planos de modernização
que somam cerca de R$ 706 bilhões até 2040. Entre as medidas estudadas pelo
governo está a unificação da compra de material bélico para fortalecer a
interoperabilidade entre Exército, Marinha e Aeronáutica.
Sandro
Teixeira, professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME),
aponta à Sputnik Brasil que o mundo vive um momento de maior conflitividade, e
embora isso não signifique que o Brasil vai se envolver em alguma contenda, o
país deve garantir suas "capacidades duras" de defesa.
"Nem
só de boas intenções viverá o papel do Brasil na ordem internacional. Muitas
vezes, terá de demonstrar capacidade de defender seus interesses num cenário em
que tem se observado muito mais a utilização da força para a defesa dos
interesses. Então o Brasil deve ter capacidade não para impor a outros, mas
para dissuadir outros de tomarem ações de força contra os interesses
brasileiros", afirma.
Ele diz
que a necessidade de reforçar a interoperabilidade e a capacidade conjunta de
operação das Forças Armadas se dá porque em conflitos futuros não haverá mais
emprego singular de uma única força.
"Toda
vez que for realizado um emprego militar, sempre será conjunto. Portanto, os
investimentos devem seguir nessa direção, ter forças que não só estejam com
capacidade tecnológica, mas saibam atuar de maneira conjunta, vencendo diversos
vícios da nossa história militar, que sempre esteve caracterizada pelas forças
trabalhando de maneira individual e singular."
Ele
considera que a pressão dos EUA vai exigir uma capacidade de coordenação que
não é da defesa, e sim do governo ― ao mesmo tempo, um diálogo com os vizinhos
e uma construção de pontes para diminuir o peso da atuação de Washington e a
possibilidade de constrangimento do Brasil em fóruns internacionais e na
própria região.
Ele diz
que a relação de Lula com as Forças Armadas, em todos os seus governos, nunca
foi ruim, e desde seu primeiro mandato ele realizou uma série de investimentos
na Defesa.
"O
que talvez esteja esbarrando aqui sejam as visões mais ideológicas do Partido
dos Trabalhadores em relação às Forças Armadas. E aí acaba envolvendo esse
cenário de polarização."
No
entanto, ele avalia que a questão ideológica não é irrelevante, pois a política
de defesa deve ser sempre pensada em nível de Estado.
"Inclusive
pelo horizonte temporal, que muitas vezes superará o tempo de qualquer governo;
o tempo, por exemplo, de quatro anos de governo", complementa.
Bernardo
Salgado, professor adjunto do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ), considera que uma das
mudanças mais urgentes para o Ministério da Defesa é o fortalecimento da
própria pasta.
"Pensar
uma grande estratégia nacional, que incorpore defesa, política externa,
desenvolvimento econômico e social. Sem esse norte, a gente perde o nosso fio
condutor", afirma.
Já em
relação a investimentos, ele diz que o principal é recuperar a capacidade
operacional, que acabou ficando defasada.
"O
grande pulo do gato é justamente a gente reverter esse direcionamento dos
investimentos em defesa para a parte de investimentos, para a parte de
capacitação em detrimento do que a gente possui na atualidade, que é muito mais
voltado para gasto com pessoal."
Outro
ponto é o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) para reduzir
dependências tecnológicas externas, ampliando a produção nacional de sistemas
estratégicos. Salgado diz que tudo isso está relacionado ao próprio governo
Lula, mas precisa ser materializado.
"Essa
associação da soberania e autonomia tecnológica, desenvolvimento industrial,
atuação constitucional das Forças Armadas tem de sair um pouco do âmbito da
teoria e ser materializada na prática", avalia.
Segundo
Salgado, a falta de interoperabilidade é um problema cultural e estrutural que
remete à própria nascente das forças. O problema é que cada força possui
sistemas, processos de aquisição de material bélico, estruturas de comando,
culturas organizacionais próprias, o que dificulta operações conjuntas.
"A
interoperabilidade precisa deixar de ser apenas um objetivo doutrinário, que
está presente no Livro Branco, na Estratégia Nacional de Defesa, e se tornar um
critério efetivo de planejamento, de orçamento e de avaliação dos próprios
resultados das três forças conjuntamente."
Ele
acrescenta que a proximidade geográfica com os EUA e a assimetria de poder
entre os países torna cada vez mais relevante que o Brasil tenha capacidade
própria de decisão e de dissuasão e soberania para saber quais rumos busca
seguir para o futuro.
"Isso
não significa tratar os EUA como inimigo, mas reconhecer que os interesses
deles podem ser divergentes, reconhecer que há uma dependência de fornecedores
estrangeiros, de componentes críticos, de tecnologias militares que podem, sim,
limitar a autonomia estratégica brasileira em momentos de crise", afirma
Salgado.
Adriana
Marques, professora do curso de defesa e gestão estratégica internacional da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenadora do Observatório do
Ministério da Defesa (OMD) e do Laboratório de Estudos de Segurança e Defesa
(LESD), diz que a mudança mais urgente, que já deveria ter sido feita em 2023,
é alterar o desenho organizacional do Ministério da Defesa.
"Da
maneira como o desenho organizacional do Ministério da Defesa está posto, é
impossível fazer qualquer mudança substantiva, porque tudo o que é importante
no ministério está sob o comando do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas do
Ministério da Defesa, que é uma prerrogativa de oficial-general, então é um
posto a ser ocupado por um militar, um oficial-general de quatro
estrelas", afirma.
Marques
acrescenta que esse oficial-general toma as decisões mais importantes em
relação à pasta, e o que sobra é discutir orçamento, o que basicamente também
conta com uma ingerência bem forte das três forças. Segundo ela, sem mudar esse
desenho organizacional, não é possível fazer nenhuma mudança substantiva.
"Nós
temos uma recém-criada carreira de desenvolvimento das políticas de Justiça e
Defesa, que está deslocando agora, pela primeira vez, um conjunto de servidores
de carreira para o Ministério da Defesa, e é importante que esses servidores,
ao longo da sua carreira, possam ocupar funções importantes no ministério. É
algo que o atual desenho organizacional do Ministério da Defesa não permite,
porque quase todas as funções importantes são privativas de militares."
Ela
afirma ainda que o investimento em Defesa deve ser revertido para ciência,
tecnologia e equipamentos militares, não para pensões e salários, que hoje
dominam o orçamento da pasta, e que é importante também reduzir o número de
servidores fora das forças.
"A
gente tem os militares, eles devem voltar para as forças, porque agora estão
ocupando as principais funções no Ministério da Defesa. E agora nós já temos
servidores burocratas de carreira que podem ocupar essas funções. Tem coisas
que são inaceitáveis. Tinha um general de divisão como assessor parlamentar do
Exército", observa Marques.
Marques
destaca que as gestões de Lula atenderam a todos os pleitos das Forças Armadas
e foram as que mais fizeram investimentos no setor de defesa. No entanto, ela
frisa que a ditadura de 1964 acabou com o pluralismo político dentro das Forças
Armadas, que hoje tem uma cúpula mais alinhada à direita, quando deveria ser
neutra para preservar a democracia no Brasil.
"O
ideal é que não haja alinhamento ideológico das Forças Armadas. Elas devem
estar subordinadas às autoridades políticas, independentemente da perspectiva
ideológica dessas autoridades políticas. A lealdade delas é ao Estado e à
figura funcional do presidente da República, independentemente de esse
presidente ser de direita ou de esquerda."
• Por que o projeto Prosub não
'desencalha' no Brasil? Especialista explica
O novo
adiamento do submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, agora para 2038,
principal projeto do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub),
reacende o debate sobre os limites da capacidade brasileira de transformar
ambições estratégicas em poder militar efetivo.
Até o
momento, o projeto demandou investimentos de cerca de R$ 40 bilhões e exige um
tempo de maturação para a sua execução, conforme explicou Thayná Fernandes,
doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de
Guerra Naval (PPGEM/EGN), em entrevista à Sputnik Brasil.
"Desde
o lançamento do Prosub, foram investidos cerca de R$ 40 bilhões. É uma questão
de continuidade de investimentos que atrasam e acabam atrapalhando um pouco a
percepção de priorização dos projetos estratégicos. A ideia do Prosub foi, de
fato, a renovação da esquadra marítima e o nosso poder naval, só que são
projetos que demoram e são custosos", disse.
A
especialista aponta que, ao manter o programa, Brasília visa dominar a
expertise tecnológica de uma embarcação de propulsão nuclear, um processo
complexo cujas etapas de produção o país ainda não domina.
"A
escolha do Brasil foi por ter autonomia no desenvolvimento dessa tecnologia de
propulsão naval, que é com urânio de baixo enriquecimento; de toda maneira, é
algo que o Brasil nunca desenvolveu, e essa troca com os franceses leva tempo e
é bastante custosa. O Prosub não envolve só um único submarino de propulsão
nuclear, mas existem outros três submarinos convencionais", comenta.
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Projeto Prosub deve ser mantido, apesar dos pesares
Segundo
a análise de Fernandes, apesar de o Prosub ter sido iniciado em 2009 e de ainda
não haver uma conclusão efetiva do submarino de propulsão nuclear, esse
programa deve continuar por ser um vetor importante para o desenvolvimento da
Defesa brasileira.
"Se
a gente conseguir fazer esse investimento interno, esse desenvolvimento dessa
capacidade nossa, ele pode se espraiar para outras áreas também. Então, são
questões importantes: embora seja chato, seja demorado, seja questionável, seja
muito custoso, de maneira estratégica é importante que o projeto tenha
continuidade no sentido da autonomia", destaca.
Outro
ponto levantado pela pesquisadora é que, além de reivindicar um outro tipo de
negociação com a França, país parceiro do Brasil nessa empreitada, a própria
parte brasileira precisa fazer uma intensa avaliação interna para rever pontos
que possam acelerar o processo sem depender tanto dos franceses.
"O
que a gente precisa estabelecer talvez seja um novo tipo de negociação [com a
França] ou fazer com que os processos consigam ser acelerados. Mas é uma
questão também de revisão interna nossa. O quanto que a gente precisa repensar
nos nossos orçamentos, no quanto a gente investe, na priorização que a gente
tem escolhido fazer dentro desses projetos estratégicos", observa.
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Prosub destaca o Brasil entre os países do Sul Global
Para
Thayná, o processo do Prosub, assim como sua futura conclusão, permitirá uma
posição privilegiada em âmbito militar que diferenciará o país entre as nações
do Sul Global, devido à alta tecnologia envolvida em um submarino de propulsão
nuclear.
"Se
bem que a gente precisa pensar: 'a tecnologia está tão avançada que talvez lá
em 2038 pensar em um submarino de propulsão nuclear tenha se tornado algo
obsoleto'. Ok, mas será que ter a autonomia para desenvolver um reator de
propulsão nuclear não é interessante para a gente enquanto nação? Porque isso
coloca o Brasil num status diferenciado em relação aos países do Sul
Global", conclui.
Em um
sistema-mundo cada vez mais fragmentado e recrudescido, o setor de Defesa, além
de primordial, é obrigado a inovar no âmbito tecnológico. O caso do Prosub
demonstra o quanto o Brasil precisa, além de investimento, priorizar também
soluções autóctones.
Fonte:
Sputnik Brasil

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