Carmen
Leitão: Sobre a vitória democrática e o direito ao voto
O
direito de escolher os governantes por meio do voto é um dos pilares da
democracia. No segundo turno das eleições brasileiras de 2026, uma ampla
mobilização tomou conta do país, com a participação de pessoas de diferentes
gerações, inclusive idosos, e a redução da abstenção em relação ao primeiro
turno. Ao mesmo tempo, denúncias de dificuldades de deslocamento em diferentes
cidades trouxeram ao centro do debate as condições desiguais de acesso ao voto,
especialmente para quem depende do transporte público, e o dever dos entes
públicos de respeitar as regras eleitorais e de garantir condições de acesso às
urnas.
Para
Robert Dahl, a democracia exige que os cidadãos tenham oportunidades de
formular e expressar suas preferências e de vê-las consideradas em condições de
igualdade. O direito de voto é uma das garantias necessárias para isso. Mas seu
exercício também depende de condições concretas: quando parte da população
enfrenta obstáculos para chegar às urnas, a igualdade política formal corre o
risco de não se realizar plenamente.
Em
Salvador, o problema do transporte ganhou contornos concretos. Após denúncias
de eleitores, o Procon da Bahia informou ter encontrado, inicialmente, 370
ônibus parados em quatro garagens. O levantamento registrou, ao longo do dia,
908 veículos em nove garagens. O presidente do Tribunal Regional Eleitoral da
Bahia determinou o restabelecimento da frota e a prisão do secretário municipal
de Mobilidade, Pablo Souza; a prefeitura apresentou explicações operacionais e
ordenou a liberação dos veículos. A ordem de prisão foi revogada em 26 de
outubro, sem ter sido cumprida, mas a investigação foi mantida.
Em São
Paulo, Sergipe e outras localidades, também houve denúncias de redução da
circulação de ônibus e dificuldades de deslocamento. Na capital paulista, a
Justiça Eleitoral havia determinado a oferta de frota equivalente à praticada
em dias úteis. A Polícia Federal passou a apurar ocorrências em São Paulo,
Bahia, Sergipe, Alagoas e Piauí e a investigar se os problemas dificultaram o
exercício do voto. As circunstâncias e eventuais responsabilidades devem ser
esclarecidas; a existência de relatos em diferentes locais não demonstra, por
si só, uma ação coordenada.
Os
pedidos de ampliação do horário surgiram nesse contexto. Às 13h22, a campanha
de Lula pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a prorrogação para três
municípios baianos. Às 15h42, ampliou o pedido às unidades da Federação em que
se registrassem ocorrências semelhantes. A campanha de Flávio Bolsonaro também
pediu mais tempo de votação em localidades afetadas por dificuldades de
deslocamento e outros problemas. Os pedidos tinham abrangências e
justificativas distintas, mas ambos recorriam à prorrogação com o objetivo
declarado de proteger o exercício do voto.
Diante
da ausência de decisão do TSE sobre os pedidos, a campanha de Lula recorreu ao
Supremo Tribunal Federal (STF). O processo foi distribuído por sorteio a
Cristiano Zanin, às 16h33, e a decisão de ampliar a votação até as 19h foi
divulgada após o horário habitual de encerramento. Esse percurso importa porque
a narrativa de uma articulação pessoal entre Lula e seu antigo advogado omite o
procedimento de distribuição do processo. A atuação anterior do ministro pode
ser objeto de debate quanto à imparcialidade, assim como a competência e o
procedimento adotados podem ser submetidos ao escrutínio jurídico; nenhuma
dessas questões, isoladamente, demonstra manipulação do resultado.
O TSE
esclareceu que a votação prosseguiria apenas nas seções que ainda não haviam
sido encerradas às 17h, no horário de Brasília. Milhares de urnas já estavam
fechadas quando a determinação chegou. A comunicação tardia exigiu adaptações
operacionais e provocou acúmulo de arquivos à espera de processamento,
dificuldades registradas pelo presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques.
Levantamento
do TSE, divulgado em 27 de outubro, identificou 34.393 votos registrados após
as 17h em território nacional, o que corresponde a cerca de 0,03% do total. O
número não corresponde apenas a votos em Lula e não pode ser atribuído
integralmente à prorrogação: inclui, potencialmente, eleitores que já estavam
nas filas às 17h e tinham direito a votar. Esse total é muito inferior à
diferença entre os candidatos e, isoladamente, não alteraria o resultado.
A
controvérsia que se seguiu à decisão de estender a votação até às 19h revelou
questões que precisam ser examinadas com rigor. Em 25 de outubro de 2026, Luiz
Inácio Lula da Silva foi reeleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79%
dos votos válidos. Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%. A
diferença foi de 4.430.191 votos. Uma escolha dessa dimensão pertence ao povo
brasileiro e deve ser respeitada, mesmo por aqueles que dela discordam. Essa é
outra condição democrática. O questionamento inicial do candidato derrotado e
de seus apoiadores precisa ser confrontado com o fato de que sua própria
campanha também havia solicitado mais tempo de votação.
Ao
mesmo tempo, as denúncias sobre o transporte lembram que a integridade
eleitoral não se resume à contagem dos votos. A falta de ônibus, barcos e
outros meios de transporte, quando dificulta o deslocamento de quem depende do
serviço, pode afetar o exercício de um direito. Cabe lembrar que, no segundo
turno de 2022, operações da Polícia Rodoviária Federal em rodovias do país
também geraram denúncias de que a fiscalização dificultava o deslocamento
dos(as) eleitores(as) até os locais de votação.
Na
noite de 25 de outubro de 2026, após a divulgação do resultado, registrou-se
mais uma tentativa de deslegitimar o processo eleitoral. Flávio Bolsonaro
afirmou que fiscais do PL haviam sido retirados da sala-cofre do TSE. A Justiça
Eleitoral classificou a afirmação como falsa e informou que representantes do
partido acompanharam o teste de integridade e a totalização nos espaços
destinados à fiscalização. Segundo o tribunal, a sala-cofre não é aberta à
visitação. Boletins de urna e arquivos disponíveis para auditoria oferecem
instrumentos concretos para examinar eventuais divergências.
A
contestação também teve repercussão no exterior. Martin De Luca, advogado
ligado à Trump Media, apresentou a ligação anterior do ministro Cristiano Zanin
com Lula e a rapidez da decisão como sinais de manipulação. A sequência dos
pedidos, porém, exige distinguir a espera por uma resposta do TSE do tempo de
tramitação no STF. Entre a distribuição do processo a Zanin e a divulgação da
decisão decorreram cerca de 30 minutos. Esse intervalo, por si só, não
demonstra manipulação do resultado.
No
plano internacional, após o silêncio inicial, o presidente Donald Trump afirmou
que a eleição brasileira parecia fraudada, sem apresentar provas. O filho do
presidente, Donald Trump Jr., republicou uma mensagem de Martin De Luca e
sugeriu que a imprensa americana reagiria de outra maneira se a medida
beneficiasse um governo conservador. Ainda durante a apuração, o presidente
argentino Javier Milei havia compartilhado publicações que insinuavam fraude e
associavam Lula a Nicolás Maduro.
Essas
declarações retomam um repertório de suspeitas eleitorais sem comprovação
mobilizado após a derrota de Trump nos Estados Unidos, em 2020, e na
contestação da eleição brasileira de 2022, quando aliados internacionais do
bolsonarismo também difundiram acusações de fraude. Agora, voltam a ocorrer, às
vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em que a
manutenção da maioria republicana no Congresso estará em disputa, com
consequências para a capacidade de Trump de obter apoio à sua agenda.
As
reações externas, contudo, não foram uniformes. Governos de diferentes
orientações, entre eles os do Chile, do Peru, do Equador, do Paraguai e da
Colômbia, reconheceram o resultado e manifestaram disposição para manter a
cooperação com o Brasil. A Comissão Europeia, a Índia e a China também se
manifestaram. As posições refletem interesses e perspectivas diferentes, mas
mostram que as relações entre Estados não devem depender de afinidade
político-partidária.
O
histórico brasileiro recente torna a tentativa de subordinar a legitimidade
eleitoral à aceitação do resultado pelo derrotado especialmente grave. Recorrer
aos tribunais integra a democracia; transformar suspeitas, sem demonstração, em
fundamento para deslegitimar a escolha popular e disseminar desinformação é
outra questão.
Em 26
de outubro, Flávio Bolsonaro anunciou que organizaria a oposição, e sua
campanha recuou da proposta de anular a eleição, embora mantivesse a intenção
de questionar judicialmente a chapa eleita por suposto abuso de poder. O papel
democrático da oposição é exercer a crítica e a fiscalização do governo e
preparar-se para disputar novamente a confiança do eleitorado nas eleições
seguintes. Flávio Bolsonaro, porém, deixou o Brasil sorrateiramente rumo aos
Estados Unidos após ser proibido de sair do país e intimado a entregar seus
passaportes, em uma investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro.
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Soberania popular
É
preciso reconhecer que, apesar das desigualdades nas condições de exercício da
cidadania e dos obstáculos à participação, milhões de pessoas se mobilizaram no
Brasil em defesa de um projeto democrático, no qual o “direito a ter direitos”
ocupa um lugar central.
A
reeleição de Lula abre, assim, uma etapa em que a defesa da soberania popular
também passa pelo desafio da governabilidade. Será necessário negociar com o
Congresso, prestar contas, renovar a participação social e responder às
necessidades de quem apoiou a candidatura progressista e de quem escolheu outro
caminho nas urnas. O governo Lula também terá de lidar com narrativas de
perseguição política que possam ser difundidas sem fatos concretos que as
sustentem. A mobilização que marcou a eleição deve permanecer ativa no
cotidiano democrático, acompanhando as decisões do governo e cobrando
resultados, mas também assumindo um papel na defesa da própria democracia,
diante de discursos negacionistas e de tentativas de deslegitimar as
instituições e a escolha feita nas urnas.
A
autonomia para decidir o lugar do Brasil no mundo se fortalece quando encontra
respaldo nos direitos exercidos no país. Garantir condições de participação,
respeitar os votos e transformar escolhas democráticas em responsabilidade
pública são tarefas permanentes. As brasileiras e os brasileiros já escolheram
seu presidente e seguem, sem pedir licença a ninguém, construindo o próprio
futuro.
• Kakay: “A vitória de Lula é a referência
mundial de manutenção da democracia”
A
eleição brasileira, que culminou na vitória do presidente Lula, ultrapassou as
fronteiras nacionais e transformou o país na principal referência em defesa da
ordem democrática. O resultado nas urnas garantiu uma vantagem de mais de 4,3
milhões de votos e redefiniu a imagem do Brasil no exterior, reafirmando seu
papel de liderança e resistência em um momento de profunda instabilidade
geopolítica.
A
dimensão internacional da vitória foi o eixo central da análise do renomado
advogado criminalista Kakay, durante participação no programa TVGGN 20 Horas
desta segunda [confira abaixo]. Em diálogo com o jornalista Luis Nassif, Kakay
destacou que o peso de Lula no exterior supera a política doméstica.
“O Lula
passou a ser a referência mundial de manutenção da democracia. É uma coisa
incrível. A vitória que nós tivemos é muito maior do que só resistir ao
fascismo interno, porque no momento em que a ultradireita está dominando o
mundo, o Lula sintetizou e sintetiza esse sentimento fantástico de
resistência.”
Para
ilustrar essa projeção global, o criminalista relembrou episódios marcantes que
presenciou na Europa, como o momento em que jovens franceses se emocionaram ao
ouvir o presidente na lendária Universidade de Sorbonne, em Paris, além de uma
cena emblemática vivida na capital francesa.
“Eu
estava na minha varanda lá em Paris, estava passando uma manifestação. Eles
estavam passando debaixo da minha varanda e eu comecei a gritar assim: ‘Olê,
olê, olê, olá, Lula! Lula!’ Do nada, em português mesmo. E para minha surpresa,
as pessoas passando começaram a gritar ‘Lula’! Todo mundo conhecia o gesto.
Veio um francês falar comigo e disse: ‘A França está de olho no Brasil, que é
uma chance que a gente tem de ganhar do fascismo’.”
Na
avaliação de Kakay, esse reconhecimento internacional contrasta com o alarmismo
que setores do poder econômico tentam criar internamente. O advogado não poupou
críticas à reação do mercado financeiro pós-pleito, classificando o pânico dos
investidores como pretexto para especulação. “O mercado estar assim
pretensamente desestabilizado por um candidato que é pela quarta vez presidente
da República? Isso é uma piada, lógico! É gente fazendo especulação, ganhando
dinheiro em cima de especulação.“.
Para
ele, o governo Lula oferece previsibilidade e diálogo. “Eu falei isso para 200
pessoas do mercado financeiro que são meus clientes, ou são meus amigos, ou
foram meus clientes: ‘Gente, existe um caminho. Querem modificar, querem
conversar sobre mudanças? É possível. A democracia é isso, vamos conversar’.”
Além da
geopolítica e da economia, o criminalista descreveu o clima de “alma lavada” e
a emoção das ruas na noite da apuração em Brasília, quando comemorou no
tradicional bar Pardim ao lado da juventude e de estudantes da UnB. “Eu fui
comprar uma cerveja e veio um bando de meninos estudantes. Começaram a me
carregar. Uma coisa linda! Eu andando no meio de uma multidão de gente sendo
carregado.”
Para
resumir o significado da virada e a necessidade de defender o pacto
republicano, Kakay lembrou uma frase que adotou como bandeira nos últimos
meses: “Numa democracia é normal que você perca uma eleição; o que não pode
ocorrer é numa eleição você perder a democracia.” Agora, com a eleição
sacramentada, o advogado cobra que o Judiciário e os órgãos de controle cumpram
seu papel com rigor, pondo fim à impunidade das ilegalidades cometidas no país.
Fonte:
Outras Palavras/GGN

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