quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ilan Pappé: Israel e a arquitetura da barbárie

Ao chegarmos à marca de três anos desde a operação Dilúvio de Al-Aqsa e o início do genocídio em Gaza, podemos nos beneficiar da passagem do tempo e enxergar com mais clareza alguns dos aspectos e questões cruciais ligados àquela data fatídica que permaneceram turvos ou invisíveis quando examinados no rescaldo imediato da operação e do genocídio que se seguiu.

É importante refletir sobre essas questões e aspectos, pois eles também se relacionam com o fato de que demasiadas pessoas no mundo, inclusive algumas das que demonstraram apoio à luta palestina, acreditam que este capítulo horrível ficou para trás. O genocídio continua, ainda que de forma incremental, na Faixa de Gaza e agora transbordou para a Cisjordânia, onde a intensificação da violência do exército e dos colonos tem por objetivo transformar a Cisjordânia em outra Faixa de Gaza.

A passagem do tempo nos permite aprender muito mais sobre os motivos do pequeno grupo de líderes do Hamas que planejou a operação. É importante analisar esses motivos de maneira profissional, a fim de refutar a narrativa enganosa e fabricada construída por Israel sobre uma operação concebida em Teerã como parte de um plano para destruir o Estado judeu.

Essa narrativa já foi devidamente contestada por ignorar deliberadamente o contexto histórico da longa trajetória de opressão sionista e do bloqueio desumano imposto à Faixa de Gaza nos anos mais recentes. Mas ela também oculta uma realidade mais complexa, que se desenrolou nos anos imediatamente anteriores à Operação Dilúvio de Al-Aqsa e que também foi negligenciada por comentaristas palestinos e pró-palestinos.

Um olhar mais atento a esse período específico lança luz sobre os dilemas enfrentados pelo Hamas e, de modo mais amplo, pelo movimento de libertação palestino em sua luta existencial contra o projeto sionista de eliminação.

A reconstituição desse contexto imediato me faz lembrar como a historiografia da Nakba de 1948 se beneficiou da abertura dos arquivos israelenses até então classificados como secretos. A combinação de documentos dos arquivos israelenses com a história oral e escrita palestina permitiu construir um quadro mais completo daquela catástrofe. Hoje, graças ao trabalho rigoroso de alguns jornalistas israelenses que têm acesso a materiais que, por enquanto, estão fora do alcance da maioria de nós, compreendemos melhor os acontecimentos que levaram a outubro de 2023.

As pesquisas desses jornalistas lançam luz sobre as difíceis escolhas que se apresentaram ao líder do Hamas, Yahya Sinwar — e que, na verdade, se apresentam a qualquer liderança do movimento de resistência palestino — diante de dezessete anos de bloqueio à Faixa de Gaza e de opressão na Cisjordânia.

Essas pesquisas ajudam a refutar a imagem, difundida no Ocidente, de Sinwar como um líder fanático e messiânico que lançou uma operação com o objetivo de instaurar um califado islâmico sobre as ruínas de Israel. Essa representação decorre de uma abordagem racista e orientalista da Palestina em geral e dos palestinos que depositam sua confiança em movimentos políticos islâmicos.

Sinwar confrontou Israel de maneira semelhante à adotada por líderes árabes, como Anwar Sadat, em 1971, e por lideranças palestinas, como Yasser Arafat, em 2000. Sadat advertiu os dirigentes israelenses de que, se não devolvessem o Sinai ao Egito por meio da diplomacia, o país iria à guerra. Arafat, por sua vez, alertou Ehud Barak e Bill Clinton de que, se não pudesse retornar da cúpula de Camp David, em 2000, com a promessa de redução da opressão imposta ao povo palestino, uma nova revolta seria inevitável.

No caso de Sinwar, sabemos hoje que ele negociou com Israel — mais precisamente, de forma indireta, com Netanyahu — em torno das reivindicações básicas da população de Gaza: o fim do cerco, o aumento da entrada de alimentos e matérias-primas no território sitiado e a libertação de presos políticos palestinos.

Sinwar advertiu os israelenses de que a rejeição dessas reivindicações levaria a uma operação da magnitude da Dilúvio de Al-Aqsa. O Exército israelense sugeriu que Netanyahu respondesse a essas demandas com um ataque em larga escala à Faixa de Gaza — precisamente o ataque que acabaria executando em resposta à Operação Dilúvio de Al-Aqsa.

Também está claro que Netanyahu hesitou em autorizar uma operação desse tipo, mas é igualmente evidente que os comandantes do Hamas, entre eles Sinwar, sabiam que um ataque dessa natureza à Faixa de Gaza era iminente. Nesse sentido, Sinwar parece ter sido um líder em busca de conquistas limitadas, deixando para um futuro muito mais distante uma visão mais ambiciosa e de longo prazo. Assim como Sadat, acabou recorrendo à opção militar quando ficou claro que Israel havia rejeitado por completo a via política. Além disso — e este é o aspecto mais importante que começa a vir à tona —, o Exército acabaria convencendo Netanyahu a lançar esse ataque devastador contra a Faixa de Gaza. A Operação Dilúvio de Al-Aqsa foi uma tentativa de antecipar esse ataque.

O que não sabemos é em que momento e por que a Operação Dilúvio de Al-Aqsa degenerou, em alguns lugares, em massacres de civis, tanto nos assentamentos judaicos quanto no festival Nova. Tratou-se de uma ruptura do cerco por parte de um povo que havia sofrido milhares de mortes, dezenas de milhares de feridos — entre eles, crianças e mulheres — e a perda das casas de centenas de milhares de pessoas durante a ofensiva israelense de 2014, que ainda permaneciam deslocadas em 2023. Era uma população traumatizada, submetida à fome como política deliberada durante os dezessete anos de bloqueio israelense e a frequentes bombardeios por terra, mar e ar.

O que sabemos é que Sinwar deixou claro, desde muito cedo, que, do seu ponto de vista, o sequestro de idosos e crianças não fazia parte da operação. Por isso, propôs imediatamente libertá-los, mas não obteve resposta de Israel.

A destruição de Gaza como parte de uma política genocida não foi uma reação irracional de Israel à morte de tantos soldados e civis em 7 de outubro de 2023. Foi a execução de planos militares preparados antes de 2023, cujas origens remontam a 2004, quando o Exército israelense construiu uma cidade cenográfica no deserto para treinar a destruição de áreas urbanas em um possível ataque à Faixa de Gaza. Essa estratégia foi ensaiada em 2006, no bombardeio indiscriminado e massivo do subúrbio de Dahieh, em Beirute.

Assim como em 1948, também em 2023 Israel buscava um pretexto para levar adiante seu projeto irrealizável de uma Palestina sem árabes. “É um milagre!”, exclamou Ben-Gurion ao ver centenas de milhares de palestinos “fugirem” da Palestina, embora ele próprio fosse o arquiteto dessa limpeza étnica. “É um milagre!”, declarou Orit Strock, ministra do governo Netanyahu, referindo-se à oportunidade histórica de cometer genocídio contra a população de Gaza.

“Quem está afogado não pode se molhar” é um conhecido provérbio árabe que sintetiza o dilema palestino, hoje claramente perceptível, na perspectiva de 2026. Qualquer tentativa armada do Hamas de pôr fim ao cerco e à ocupação foi usada por Israel como pretexto para intensificar suas políticas de eliminação. A alternativa de se resignar à realidade do cerco, tentada pela Autoridade Palestina em Ramallah, resultou em uma limpeza étnica gradual e em uma sucessão de pogroms perpetrados por colonos, com a conivência do Exército israelense.

Pergunto-me quantas pessoas fora da Palestina conseguem compreender plenamente esse dilema, que levou adolescentes de campos de refugiados na Cisjordânia a confrontar o Exército israelense, mesmo sabendo que não poderiam vencê-lo. Preferiam isso a continuar sendo vítimas de abusos, ferimentos e mortes infligidos por um exército de ocupação.

Esse é o dilema desumano que o projeto sionista de eliminação impõe aos palestinos, mais uma manifestação de sua condição de sofrimento desde a chegada dos colonos sionistas à Palestina, no final do século XIX.

Não é difícil responder à pergunta sobre como libertar os palestinos — e, indiretamente, os israelenses — dessa realidade insustentável. Isso só será possível com a criação de uma Palestina democrática, pós-Israel. Tal Estado não resolveria todos os problemas dos que vivem entre o rio e o mar e daqueles que retornarão a esse território, mas eliminaria a ameaça existencial permanente que paira diariamente sobre todos os palestinos que vivem ali.

Nessa nova realidade, a Palestina não estaria dividida em territórios separados, como Gaza e a Cisjordânia, mas constituiria uma pátria única e integrada. Enquanto Gaza continuar sendo uma Faixa isolada, não haverá paz nem reconciliação.

¨      Quem venceu a eleição em Israel e o que acontece agora?

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e seus aliados parecem estar a caminho de conquistar o maior número de cadeiras no Knesset (Parlamento) após as eleições desta terça-feira (27/10).

No entanto, nem ele nem seu principal concorrente, Gadi Eisenkot, têm um caminho claro para formar maioria, pois, ao que tudo indica, nenhum dos dois blocos alcançará o número necessário de 61 cadeiras.

Com 85% dos votos apurados, o bloco de direita de Netanyahu tem 53 das 120 cadeiras do Knesset, enquanto o bloco oposicionista de Gadi Eisenkot tem 48. A ausência de uma maioria clara para qualquer dos lados pode significar semanas de negociações para formar uma coalizão, com a possibilidade de novas eleições caso as sondagens fracassem.

Tanto Netanyahu, que serviu como primeiro-ministro por mais de 19 anos em mandatos intercalados e é aliado de partidos de extrema direita e ultraortodoxos, quanto Eisenkot, ex-chefe militar que lidera uma ampla coalizão de oposição, prometeram tentar a formação de um governo.

Os resultados nesta quarta-feira ainda não são finais, mas um avanço já perceptível ocorreu entre os partidos árabes israelenses, que alcançam 19 cadeiras. Um líder da minoria árabe apelou à oposição para unir forças e pôr fim ao governo de Netanyahu.

<><> Maioria só com os árabes

Esta é a primeira eleição desde o ataque terrorista de 7 de outubro de 2023, que levou Israel a iniciar uma guerra devastadora na Faixa de Gaza.

Os eleitores da comunidade árabe, descendentes dos palestinos que permaneceram no território após a criação de Israel e que representam cerca de 20% da população, demonstraram forte indignação com a visão ultranacionalista judaica do governo Netanyahu para Israel e para os territórios palestinos.

A escolha é entre "a continuação do racismo, da exclusão e da supremacia ou uma verdadeira parceria judaico-árabe", afirmou Yousef Jabareen, líder da coligação árabe de esquerda Joint List.

Para ele, o público israelense votou por uma nova liderança e "qualquer pessoa que queira oferecer uma alternativa séria e genuína ao governo ensanguentado de Netanyahu terá de conversar conosco".

Netanyahu, que fez campanha com o slogan "ou a direita ou a Palestina", atacou repetidamente a oposição, afirmando que ela colocaria os árabes no poder.

Mas Eisenkot resiste a se aliar aos partidos árabes. Yair Golan, líder do principal partido de esquerda de Israel e integrante do campo de Eisenkot, tornou-se o primeiro membro da oposição a defender uma aliança com eles. "Netanyahu perdeu. Não devemos mais aceitar a divisão racista de Netanyahu entre votos judeus e votos árabes", declarou.

Mas o campo de Eisenkot também inclui políticos de direita que compartilham muitas das posições duras de Netanyahu e rejeitam categoricamente trabalhar com parlamentares árabes.

"Talvez todos tenham perdido nestas eleições, exceto os partidos árabes. Mas, para eles, ainda não está claro se conseguirão transformar esse enorme sucesso em influência política", avaliou o cientista político Gideon Rahat, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Os parlamentares árabes também poderiam sustentar um governo minoritário de Eisenkot sem ingressar formalmente em uma coalizão, embora poucos analistas acreditem que tal arranjo sobreviveria por muito tempo.

<><> Quando o resultado final será conhecido?

A autoridade eleitoral de Israel ainda está contabilizando votos nesta quarta-feira, e provavelmente levará até quinta-feira para que os resultados definitivos sejam conhecidos.

O órgão ainda terá de contabilizar centenas de milhares de votos de soldados israelenses e diplomatas que votaram fora de Israel.

As pesquisas de boca de urna divulgadas pelos principais canais de televisão israelenses ajudam a identificar a força relativa de cada partido, mas não são consideradas um indicador confiável dos resultados exatos, especialmente no fragmentado sistema político israelense.

As cadeiras do Knesset são distribuídas proporcionalmente às listas partidárias nacionais. Para entrar no Parlamento, os partidos precisam superar a cláusula de barreira de 3,25% dos votos nacionais.

Cerca de uma dúzia de partidos é considerada capaz de ultrapassar esse limite, o que torna a contagem final e a distribuição das cadeiras processos demorados.

A totalização dos votos é esperada para 30 de outubro, e os resultados oficiais serão publicados formalmente uma semana após a eleição, em 4 de novembro.

<><> O que acontece depois da divulgação dos resultados?

Após a conclusão da contagem, todas as atenções se voltam para o presidente Isaac Herzog, que normalmente exerce um papel cerimonial discreto, mas que decidirá quem terá a primeira oportunidade de formar governo.

Herzog tem uma semana para consultar os partidos, que lhe recomendarão um candidato a primeiro-ministro, e encarregar da formação do governo quem considerar ter mais chances de sucesso. A partir daí, começa a correr um prazo de 28 dias, prorrogável por mais 14.

A incumbência não precisa ser dada ao líder do partido mais votado. Em 2009, por exemplo, o então presidente, Shimon Peres, designou Netanyahu para formar governo, embora o Likud tivesse conquistado 27 cadeiras, contra 28 do Kadima, de Tzipi Livni, porque Netanyahu dispunha de mais apoio potencial para construir uma coalizão.

Nenhum partido em Israel jamais conquistou maioria absoluta. Por isso, os governos são formados por coalizões partidárias, e as negociações para sua formação frequentemente duram várias semanas. Cada cadeira no Knesset conta, e pequenos partidos podem desempenhar papel decisivo ao se tornarem fiadores da maioria.

Se o primeiro candidato fracassar, o presidente pode encarregar um segundo nome, que terá 28 dias sem possibilidade de prorrogação. Se ele também fracassar, os deputados terão 21 dias para que ao menos 61 deles proponham um candidato. Esse candidato terá então mais 14 dias para formar um governo. Caso não consiga, o Knesset será dissolvido e novas eleições serão convocadas. 

<><> Haverá governo interino

Um impasse político poderia beneficiar Netanyahu no curto prazo, já que ele permaneceria como primeiro-ministro interino até que o Knesset conceda voto de confiança a um novo governo. Essa situação é limitada pela jurisprudência da Suprema Corte e pelas orientações da Procuradoria-Geral, que restringem nomeações importantes e outras decisões não urgentes.

Se as negociações entre os partidos fracassarem e novas eleições forem necessárias, Israel poderá permanecer até meados do primeiro semestre de 2027 com um governo interino.

<><> Fim da era Netanyahu?

Muitos observadores consideram esta eleição um referendo sobre Netanyahu, o primeiro-ministro que governou Israel por mais tempo e que tem dividido profundamente a sociedade israelense.

Diante de acusações criminais por corrupção, que ele nega, Netanyahu procurou reformular o sistema judiciário.

Ele também se aliou a líderes da extrema direita que apoiam colonos radicais acusados de atacar palestinos na Cisjordânia com ampla impunidade.

Netanyahu também é procurado pelo Tribunal Penal Internacional em razão da devastadora guerra de Israel na Faixa de Gaza.

 

Fonte: Other News | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras/DW Brasil

 

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