Ilan
Pappé: Israel e a arquitetura da barbárie
Ao
chegarmos à marca de três anos desde a operação Dilúvio de Al-Aqsa e o início
do genocídio em Gaza, podemos nos beneficiar da passagem do tempo e enxergar
com mais clareza alguns dos aspectos e questões cruciais ligados àquela data
fatídica que permaneceram turvos ou invisíveis quando examinados no rescaldo
imediato da operação e do genocídio que se seguiu.
É
importante refletir sobre essas questões e aspectos, pois eles também se
relacionam com o fato de que demasiadas pessoas no mundo, inclusive algumas das
que demonstraram apoio à luta palestina, acreditam que este capítulo horrível
ficou para trás. O genocídio continua, ainda que de forma incremental, na Faixa
de Gaza e agora transbordou para a Cisjordânia, onde a intensificação da
violência do exército e dos colonos tem por objetivo transformar a Cisjordânia
em outra Faixa de Gaza.
A
passagem do tempo nos permite aprender muito mais sobre os motivos do pequeno
grupo de líderes do Hamas que planejou a operação. É importante analisar esses
motivos de maneira profissional, a fim de refutar a narrativa enganosa e
fabricada construída por Israel sobre uma operação concebida em Teerã como
parte de um plano para destruir o Estado judeu.
Essa
narrativa já foi devidamente contestada por ignorar deliberadamente o contexto
histórico da longa trajetória de opressão sionista e do bloqueio desumano
imposto à Faixa de Gaza nos anos mais recentes. Mas ela também oculta uma
realidade mais complexa, que se desenrolou nos anos imediatamente anteriores à
Operação Dilúvio de Al-Aqsa e que também foi negligenciada por comentaristas
palestinos e pró-palestinos.
Um
olhar mais atento a esse período específico lança luz sobre os dilemas
enfrentados pelo Hamas e, de modo mais amplo, pelo movimento de libertação
palestino em sua luta existencial contra o projeto sionista de eliminação.
A
reconstituição desse contexto imediato me faz lembrar como a historiografia da
Nakba de 1948 se beneficiou da abertura dos arquivos israelenses até então
classificados como secretos. A combinação de documentos dos arquivos
israelenses com a história oral e escrita palestina permitiu construir um
quadro mais completo daquela catástrofe. Hoje, graças ao trabalho rigoroso de
alguns jornalistas israelenses que têm acesso a materiais que, por enquanto,
estão fora do alcance da maioria de nós, compreendemos melhor os acontecimentos
que levaram a outubro de 2023.
As
pesquisas desses jornalistas lançam luz sobre as difíceis escolhas que se
apresentaram ao líder do Hamas, Yahya Sinwar — e que, na verdade, se apresentam
a qualquer liderança do movimento de resistência palestino — diante de
dezessete anos de bloqueio à Faixa de Gaza e de opressão na Cisjordânia.
Essas
pesquisas ajudam a refutar a imagem, difundida no Ocidente, de Sinwar como um
líder fanático e messiânico que lançou uma operação com o objetivo de instaurar
um califado islâmico sobre as ruínas de Israel. Essa representação decorre de
uma abordagem racista e orientalista da Palestina em geral e dos palestinos que
depositam sua confiança em movimentos políticos islâmicos.
Sinwar
confrontou Israel de maneira semelhante à adotada por líderes árabes, como
Anwar Sadat, em 1971, e por lideranças palestinas, como Yasser Arafat, em 2000.
Sadat advertiu os dirigentes israelenses de que, se não devolvessem o Sinai ao
Egito por meio da diplomacia, o país iria à guerra. Arafat, por sua vez,
alertou Ehud Barak e Bill Clinton de que, se não pudesse retornar da cúpula de
Camp David, em 2000, com a promessa de redução da opressão imposta ao povo
palestino, uma nova revolta seria inevitável.
No caso
de Sinwar, sabemos hoje que ele negociou com Israel — mais precisamente, de
forma indireta, com Netanyahu — em torno das reivindicações básicas da
população de Gaza: o fim do cerco, o aumento da entrada de alimentos e
matérias-primas no território sitiado e a libertação de presos políticos
palestinos.
Sinwar
advertiu os israelenses de que a rejeição dessas reivindicações levaria a uma
operação da magnitude da Dilúvio de Al-Aqsa. O Exército israelense sugeriu que
Netanyahu respondesse a essas demandas com um ataque em larga escala à Faixa de
Gaza — precisamente o ataque que acabaria executando em resposta à Operação
Dilúvio de Al-Aqsa.
Também
está claro que Netanyahu hesitou em autorizar uma operação desse tipo, mas é
igualmente evidente que os comandantes do Hamas, entre eles Sinwar, sabiam que
um ataque dessa natureza à Faixa de Gaza era iminente. Nesse sentido, Sinwar
parece ter sido um líder em busca de conquistas limitadas, deixando para um
futuro muito mais distante uma visão mais ambiciosa e de longo prazo. Assim
como Sadat, acabou recorrendo à opção militar quando ficou claro que Israel
havia rejeitado por completo a via política. Além disso — e este é o aspecto
mais importante que começa a vir à tona —, o Exército acabaria convencendo
Netanyahu a lançar esse ataque devastador contra a Faixa de Gaza. A Operação
Dilúvio de Al-Aqsa foi uma tentativa de antecipar esse ataque.
O que
não sabemos é em que momento e por que a Operação Dilúvio de Al-Aqsa degenerou,
em alguns lugares, em massacres de civis, tanto nos assentamentos judaicos
quanto no festival Nova. Tratou-se de uma ruptura do cerco por parte de um povo
que havia sofrido milhares de mortes, dezenas de milhares de feridos — entre
eles, crianças e mulheres — e a perda das casas de centenas de milhares de
pessoas durante a ofensiva israelense de 2014, que ainda permaneciam deslocadas
em 2023. Era uma população traumatizada, submetida à fome como política
deliberada durante os dezessete anos de bloqueio israelense e a frequentes
bombardeios por terra, mar e ar.
O que
sabemos é que Sinwar deixou claro, desde muito cedo, que, do seu ponto de
vista, o sequestro de idosos e crianças não fazia parte da operação. Por isso,
propôs imediatamente libertá-los, mas não obteve resposta de Israel.
A
destruição de Gaza como parte de uma política genocida não foi uma reação
irracional de Israel à morte de tantos soldados e civis em 7 de outubro de
2023. Foi a execução de planos militares preparados antes de 2023, cujas
origens remontam a 2004, quando o Exército israelense construiu uma cidade
cenográfica no deserto para treinar a destruição de áreas urbanas em um
possível ataque à Faixa de Gaza. Essa estratégia foi ensaiada em 2006, no
bombardeio indiscriminado e massivo do subúrbio de Dahieh, em Beirute.
Assim
como em 1948, também em 2023 Israel buscava um pretexto para levar adiante seu
projeto irrealizável de uma Palestina sem árabes. “É um milagre!”, exclamou
Ben-Gurion ao ver centenas de milhares de palestinos “fugirem” da Palestina,
embora ele próprio fosse o arquiteto dessa limpeza étnica. “É um milagre!”,
declarou Orit Strock, ministra do governo Netanyahu, referindo-se à
oportunidade histórica de cometer genocídio contra a população de Gaza.
“Quem
está afogado não pode se molhar” é um conhecido provérbio árabe que sintetiza o
dilema palestino, hoje claramente perceptível, na perspectiva de 2026. Qualquer
tentativa armada do Hamas de pôr fim ao cerco e à ocupação foi usada por Israel
como pretexto para intensificar suas políticas de eliminação. A alternativa de
se resignar à realidade do cerco, tentada pela Autoridade Palestina em
Ramallah, resultou em uma limpeza étnica gradual e em uma sucessão de pogroms
perpetrados por colonos, com a conivência do Exército israelense.
Pergunto-me
quantas pessoas fora da Palestina conseguem compreender plenamente esse dilema,
que levou adolescentes de campos de refugiados na Cisjordânia a confrontar o
Exército israelense, mesmo sabendo que não poderiam vencê-lo. Preferiam isso a
continuar sendo vítimas de abusos, ferimentos e mortes infligidos por um
exército de ocupação.
Esse é
o dilema desumano que o projeto sionista de eliminação impõe aos palestinos,
mais uma manifestação de sua condição de sofrimento desde a chegada dos colonos
sionistas à Palestina, no final do século XIX.
Não é
difícil responder à pergunta sobre como libertar os palestinos — e,
indiretamente, os israelenses — dessa realidade insustentável. Isso só será
possível com a criação de uma Palestina democrática, pós-Israel. Tal Estado não
resolveria todos os problemas dos que vivem entre o rio e o mar e daqueles que
retornarão a esse território, mas eliminaria a ameaça existencial permanente
que paira diariamente sobre todos os palestinos que vivem ali.
Nessa
nova realidade, a Palestina não estaria dividida em territórios separados, como
Gaza e a Cisjordânia, mas constituiria uma pátria única e integrada. Enquanto
Gaza continuar sendo uma Faixa isolada, não haverá paz nem reconciliação.
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Quem venceu a eleição em Israel e o que acontece agora?
O
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e seus aliados
parecem estar a caminho de conquistar o maior número de cadeiras no Knesset
(Parlamento) após as eleições desta
terça-feira (27/10).
No
entanto, nem ele nem seu principal concorrente, Gadi Eisenkot, têm um caminho
claro para formar maioria, pois, ao que tudo indica, nenhum dos dois
blocos alcançará o número necessário de 61 cadeiras.
Com 85%
dos votos apurados, o bloco de direita de Netanyahu tem 53 das 120 cadeiras do
Knesset, enquanto o bloco oposicionista de Gadi Eisenkot tem 48. A ausência de
uma maioria clara para qualquer dos lados pode significar semanas de
negociações para formar uma coalizão, com a possibilidade de novas eleições
caso as sondagens fracassem.
Tanto
Netanyahu, que serviu como primeiro-ministro por mais de 19 anos em mandatos
intercalados e é aliado de partidos de extrema direita e ultraortodoxos, quanto
Eisenkot, ex-chefe militar que lidera uma ampla coalizão de oposição,
prometeram tentar a formação de um governo.
Os
resultados nesta quarta-feira ainda não são finais, mas um avanço já
perceptível ocorreu entre os partidos árabes israelenses, que alcançam 19
cadeiras. Um líder da minoria árabe apelou à oposição para unir forças e pôr
fim ao governo de Netanyahu.
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Maioria só com os árabes
Esta é
a primeira eleição desde o ataque terrorista de 7 de outubro de 2023, que levou Israel a
iniciar uma guerra devastadora na Faixa de Gaza.
Os
eleitores da comunidade árabe, descendentes dos palestinos que permaneceram no
território após a criação de Israel e que representam cerca de 20% da
população, demonstraram forte indignação com a visão ultranacionalista judaica
do governo Netanyahu para Israel e para os territórios palestinos.
A
escolha é entre "a continuação do racismo, da exclusão e da supremacia ou
uma verdadeira parceria judaico-árabe", afirmou Yousef Jabareen, líder da
coligação árabe de esquerda Joint List.
Para
ele, o público israelense votou por uma nova liderança e "qualquer pessoa
que queira oferecer uma alternativa séria e genuína ao governo ensanguentado de
Netanyahu terá de conversar conosco".
Netanyahu,
que fez campanha com o slogan "ou a direita ou a Palestina", atacou
repetidamente a oposição, afirmando que ela colocaria os árabes no poder.
Mas
Eisenkot resiste a se aliar aos partidos árabes. Yair Golan, líder do principal
partido de esquerda de Israel e integrante do campo de Eisenkot, tornou-se o
primeiro membro da oposição a defender uma aliança com eles. "Netanyahu
perdeu. Não devemos mais aceitar a divisão racista de Netanyahu entre votos
judeus e votos árabes", declarou.
Mas o
campo de Eisenkot também inclui políticos de direita que compartilham muitas
das posições duras de Netanyahu e rejeitam categoricamente trabalhar com
parlamentares árabes.
"Talvez
todos tenham perdido nestas eleições, exceto os partidos árabes. Mas, para
eles, ainda não está claro se conseguirão transformar esse enorme sucesso em
influência política", avaliou o cientista político Gideon Rahat, da
Universidade Hebraica de Jerusalém.
Os
parlamentares árabes também poderiam sustentar um governo minoritário de
Eisenkot sem ingressar formalmente em uma coalizão, embora poucos analistas
acreditem que tal arranjo sobreviveria por muito tempo.
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Quando o resultado final será conhecido?
A
autoridade eleitoral de Israel ainda está contabilizando votos nesta
quarta-feira, e provavelmente levará até quinta-feira para que os resultados
definitivos sejam conhecidos.
O órgão
ainda terá de contabilizar centenas de milhares de votos de soldados
israelenses e diplomatas que votaram fora de Israel.
As
pesquisas de boca de urna divulgadas pelos principais canais de televisão
israelenses ajudam a identificar a força relativa de cada partido, mas não são
consideradas um indicador confiável dos resultados exatos, especialmente no
fragmentado sistema político israelense.
As
cadeiras do Knesset são distribuídas proporcionalmente às listas partidárias
nacionais. Para entrar no Parlamento, os partidos precisam superar a cláusula
de barreira de 3,25% dos votos nacionais.
Cerca
de uma dúzia de partidos é considerada capaz de ultrapassar esse limite, o que
torna a contagem final e a distribuição das cadeiras processos demorados.
A
totalização dos votos é esperada para 30 de outubro, e os resultados oficiais
serão publicados formalmente uma semana após a eleição, em 4 de novembro.
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O que acontece depois da divulgação dos resultados?
Após a
conclusão da contagem, todas as atenções se voltam para o presidente Isaac
Herzog, que normalmente exerce um papel cerimonial discreto, mas que decidirá
quem terá a primeira oportunidade de formar governo.
Herzog
tem uma semana para consultar os partidos, que lhe recomendarão um candidato a
primeiro-ministro, e encarregar da formação do governo quem considerar ter mais
chances de sucesso. A partir daí, começa a correr um prazo de 28 dias,
prorrogável por mais 14.
A
incumbência não precisa ser dada ao líder do partido mais votado. Em 2009, por
exemplo, o então presidente, Shimon Peres, designou Netanyahu para formar
governo, embora o Likud tivesse conquistado 27 cadeiras, contra 28 do Kadima,
de Tzipi Livni, porque Netanyahu dispunha de mais apoio potencial para
construir uma coalizão.
Nenhum
partido em Israel jamais conquistou maioria absoluta. Por isso, os governos são
formados por coalizões partidárias, e as negociações para sua formação
frequentemente duram várias semanas. Cada cadeira no Knesset conta, e pequenos
partidos podem desempenhar papel decisivo ao se tornarem fiadores da maioria.
Se o
primeiro candidato fracassar, o presidente pode encarregar um segundo nome, que
terá 28 dias sem possibilidade de prorrogação. Se ele também fracassar, os
deputados terão 21 dias para que ao menos 61 deles proponham um candidato. Esse
candidato terá então mais 14 dias para formar um governo. Caso não consiga, o
Knesset será dissolvido e novas eleições serão convocadas.
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Haverá governo interino
Um
impasse político poderia beneficiar Netanyahu no curto prazo, já que ele
permaneceria como primeiro-ministro interino até que o Knesset conceda voto de
confiança a um novo governo. Essa situação é limitada pela jurisprudência da
Suprema Corte e pelas orientações da Procuradoria-Geral, que restringem
nomeações importantes e outras decisões não urgentes.
Se as
negociações entre os partidos fracassarem e novas eleições forem necessárias,
Israel poderá permanecer até meados do primeiro semestre de 2027 com um governo
interino.
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Fim da era Netanyahu?
Muitos
observadores consideram esta eleição um referendo sobre Netanyahu, o
primeiro-ministro que governou Israel por mais tempo e que tem dividido
profundamente a sociedade israelense.
Diante
de acusações criminais por corrupção, que ele nega, Netanyahu procurou
reformular o sistema judiciário.
Ele
também se aliou a líderes da extrema direita que apoiam colonos radicais
acusados de atacar palestinos na Cisjordânia com ampla impunidade.
Netanyahu
também é procurado pelo Tribunal Penal Internacional em razão da
devastadora guerra de Israel na Faixa de Gaza.
Fonte: Other
News | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras/DW Brasil

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