O
que diz o maior arquivo de casos atribuídos à reencarnação
Um novo
estudo baseado no maior acervo do mundo de supostas memórias de vidas passadas
identificou um padrão em relatos de crianças em meio a 1.678 casos analisados.
Os pesquisadores afirmam que os resultados não comprovam a reencarnação, mas
consideram que o fenômeno merece investigação, já que não pôde ser totalmente
explicado por fatores culturais ou psicológicos.
É
possível que a reencarnação tenha pouco espaço na ciência atual, já que ainda
não se encontrou evidências de que ela realmente exista. Mesmo assim, a ideia
de nascer de novo está longe de ser estranha para muitas formas de tentar
compreender o mundo.
Para
certas tradições do hinduísmo e do budismo – ainda que encarem esse processo de
maneiras diferentes –, o ciclo de mortes e renascimentos não é uma mera
curiosidade sobre o que acontece após a morte, mas sim um elemento central na
concepção da existência.
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Arquivo sobre reencarnação
A falta
de evidências não impediu que alguns pesquisadores se aventurassem em um
terreno pouco comum para a ciência. Entre eles estava o psiquiatra Ian
Stevenson (1918-2007), que já na década de 1960 viajava por diversos países
para investigar testemunhos de supostas vidas passadas.
Seu
trabalho está ligado à Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, onde há
mais de seis décadas são compilados relatos tão inusitados quanto controversos:
crianças que, segundo os depoimentos, contam espontaneamente detalhes que
parecem corresponder à vida de pessoas já falecidas.
A
Divisão de Estudos Perceptivos, que vem compilando esses relatos desde a década
de 1960, formou assim o maior acervo do mundo dos chamados "casos do tipo
reencarnação". E uma recente análise, publicada na revista Psychology of
Consciousness: Theory, Research, and Practice, identificou nesse acervo um
padrão que fatores culturais e psicológicos não conseguiram explicar
completamente.
Para se
ter uma ideia do tipo de depoimentos que esse arquivo reúne, é preciso conhecer
dois casos descritos pela revista Popular Mechanics.
James,
um menino do estado da Louisiana, tinha pesadelos com um avião em chamas. Aos
três anos, ele afirmou ter sido piloto durante a Segunda Guerra Mundial e
mencionou um porta-aviões chamado Natoma Bay, além de um colega chamado Jack
Larsen. Os pesquisadores relacionaram suas declarações com a biografia de James
Huston Jr., um piloto cujo avião foi derrubado no Oceano Pacífico em 1945.
Outro
caso é o de Ryan, um menino de quatro anos do estado de Oklahoma. Ao ver uma
fotografia de Hollywood dos anos 30, ele afirmou se reconhecer em uma das
pessoas, que nem sequer aparecia nos créditos. O relato acabou sendo associado
a Marty Martyn, um agente de Hollywood já falecido. Dos detalhes que o menino
forneceu sobre sua suposta vida anterior, os pesquisadores conseguiram
confirmar 55 com a biografia de Martyn.
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O que busca o novo estudo
O mais
recente levantamento não se concentrou em determinar se esses relatos são
memórias autênticas de outras vidas, mas sim investigar padrões entre os
depoimentos. Para isso, uma equipe da Universidade da Virgínia, liderada pela
pesquisadora em neurociência cognitiva Saeedeh Sadeghi, examinou 1.678 casos
que tinham algo em comum: em todos eles, os pesquisadores haviam identificado
possíveis correspondências entre o que uma criança contava e a biografia de uma
pessoa já falecida.
Uma das
questões levantadas foi quanto tempo separava os dois eventos: o falecimento da
pessoa identificada e o nascimento da criança – o que, nessa área, é conhecido
como "tempo de intervalo". Segundo a Popular Mechanics, havia
informações suficientes para calculá-lo em 1.319 casos: a média foi de 16
meses, embora o intervalo mais longo registrado tenha chegado a 150 anos.
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Mortes inesperadas e intervalos mais curtos
O que
realmente chamou a atenção foi a comparação das circunstâncias das mortes.
Quanto mais inesperado fosse o falecimento, menor tenderia a ser esse
intervalo. Nos casos de mortes completamente imprevistas, a média era de 12
meses. Por outro lado, quando as mortes eram mais previsíveis, esse intervalo
chegava a 21 meses.
Ou
seja, o intervalo entre a morte e o suposto renascimento era aproximadamente
43% mais curto quando o falecimento havia sido inesperado, de acordo com os
dados coletados pela publicação Science Alert.
O
arquivo também apresenta outra particularidade: entre os casos analisados, 57%
das mortes foram classificadas como não naturais e 68% como completamente
inesperadas. A idade média das pessoas falecidas era de apenas 30 anos, números
que traçam um perfil pouco comum. Segundo a Popular Mechanics, a proporção de
mortes não naturais e inesperadas supera amplamente a registrada nas
estatísticas gerais de mortalidade.
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Precedente de quase quatro décadas
A
possível relação entre uma morte violenta e um suposto renascimento mais rápido
já havia sido levantada décadas atrás. Em 1988, o psicólogo N. K. Chadha e o
psiquiatra Ian Stevenson analisaram 326 casos e observaram uma tendência
semelhante. No entanto, como lembra a publicação IFL Science, a associação só
atingiu significância estatística na Índia e no conjunto dos casos estudados.
Justamente
por causa dessas limitações, a nova equipe quis verificar se o padrão persistia
em uma amostra muito maior e, sobretudo, se poderia ser explicado por fatores
culturais ou psicológicos.
Uma das
objeções mais evidentes é que as famílias que acreditam na reencarnação
poderiam favorecer esse tipo de relato. Para verificar se esse poderia ser o
caso, os pesquisadores examinaram possíveis fontes de viés, como o contato
entre as famílias, a confiabilidade dos dados, as crenças religiosas e se as
crianças poderiam ter tomado conhecimento prévio das informações que relatavam.
Mesmo
após considerar esses fatores, a associação permaneceu: "Para nossa
surpresa, a relação continuava existindo quando a analisamos em um número muito
maior de casos, e os fatores sociais e psicológicos que examinamos não
conseguiam explicá-la", observou Sadeghi, de acordo com um comunicado da
Universidade da Virgínia (UVA Health).
Na
verdade, o efeito era mais acentuado entre famílias cujas religiões não
aceitavam a reencarnação: "Esses resultados não corroboram a ideia de que
as crenças sociais estejam determinando esse padrão", afirmou o psicólogo
social da UVA, Philip Cozzolino.
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As limitações da descoberta
Apesar
do que foi observado no estudo, esses resultados estão longe de comprovar a
reencarnação. A relação identificada é fraca: saber se uma morte foi inesperada
permite explicar estatisticamente apenas entre 2% e 3% das diferenças na
duração dos intervalos entre uns casos e outros. Além disso, por se basear em
dados observacionais, o estudo não permite estabelecer uma relação de causa e
efeito nem concluir que a consciência sobreviva à morte.
Outras
explicações também não podem ser totalmente descartadas. Como aponta a IFL
Science, as informações podem circular entre famílias e comunidades sem que os
pesquisadores consigam reconstruir como elas chegaram até a criança. Soma-se a
isso a possibilidade de identificar retrospectivamente uma pessoa falecida
cujos dados se encaixem em parte do relato. Até mesmo o maior impacto das
mortes violentas poderia influenciar os depoimentos coletados.
A
capacidade de prever os intervalos é limitada. Mesmo assim, chama a atenção dos
pesquisadores o fato de existir uma associação estatística entre as
circunstâncias de uma morte e o nascimento de uma criança que supostamente se
lembra dessa vida. Segundo os pesquisadores, ainda não foi estabelecido nenhum
mecanismo convencional que vincule diretamente esses dois eventos.
A ideia
também apresenta um curioso paralelo com algumas crenças religiosas. Os
pesquisadores apontam que, em certas tradições hindus, budistas e indígenas da
América do Norte, uma morte repentina pode estar associada a desejos, laços ou
obrigações que ficaram para ser resolvidos. Segundo sua interpretação, essas
questões pendentes poderiam favorecer um renascimento mais rápido. No entanto,
não se trata de uma crença compartilhada por todas essas tradições nem de uma
explicação científica para o fenômeno.
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Questão que continua em aberto
Por
enquanto, o mistério permanece. Os resultados não comprovam a existência da
reencarnação, algo que a própria Sadeghi faz questão de ressaltar: "Isso é
uma prova de algo metafísico? Os dados são observacionais, e tomamos muito
cuidado para manter uma postura agnóstica em relação ao mecanismo", afirma
a pesquisadora.
No
entanto, ela considera que a descoberta merece atenção: "O que posso dizer
é que o padrão é real nos dados", ressalta, e isso constitui um motivo
"para continuar pesquisando, não para ignorar o assunto".
Uma
postura que é compartilhada pela pesquisadora Marieta Pehlivanova, que, segundo
a UVA Health, considera que a falta de uma explicação clara oferece novos
motivos para continuar estudando esses padrões.
No fim
das contas, o trabalho levanta mais perguntas do que respostas. A correlação
aparece nos dados analisados, mas ainda não está claro quais fatores a
explicam. E enquanto não for encontrada uma explicação convincente, a
reencarnação continuará despertando fascínio e curiosidade, mesmo que sua
existência continue sem contar com provas científicas sólidas. Ao menos até
agora.
Fonte:
DW Brasil

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