Sérvia:
Os estudantes no poder?
A
vitória da Lista Estudantil nas eleições parlamentares da Sérvia é estrondosa.
Candidatando-se pela primeira vez, conquistou a maioria, garantindo cerca de
140 das 250 cadeiras no Parlamemento. O domínio de 14 anos do presidente
autoritário Aleksandar Vučić, que esperava assumir o cargo de primeiro-ministro
sem dificuldades, levando o poder consigo, foi quebrado por um movimento de
massas liderado por estudantes. Iniciado há dois anos, após o desabamento da
cobertura de uma estação ferroviária em reconstrução na cidade de Novi Sad, que
matou 16 pessoas, o movimento forçou a renúncia de um primeiro-ministro em
2025. Agora, derrotou o presidente.
As
mobilizações desde 2024 têm sido determinadas e incansáveis. Exploram um
profundo descontentamento popular não apenas com Vučić, mas também com a
oposição. Demonstraram que um sistema político estabelecido pode ser derrubado
quando as pessoas que perderam a fé na política convencional se organizam de
forma independente.
Mas,
por mais extraordinária que seja, a vitória levanta uma questão crucial: o que
acontece quando um movimento construído pela ação coletiva e pela participação
democrática entra nas instituições estatais? A resposta precisará surgir agora,
e oscila entre a possibilidade de uma nova fase progressista na política sérvia
e o perigo de mais uma oportunidade perdida. Muito dependerá de o movimento se
manter enraizado nas mobilizações de massa que o levaram ao poder, mas também
de sua capacidade de se conectar com a revolta social mais ampla contra o
neoliberalismo que se espalha pela Europa.
<><>
Da tragédia à revolta
O
trágico desabamento da cobertura em novembro de 2024 expôs a corrupção do
governo Vučić, seu nepotismo e sua preferência por reforçar laços de
clientelismo político e econômico, ao invês de escolher pessoas responsáveis. A
onda de indignação que se seguiu foi liderada por estudantes que exigiam a
publicação de documentos relativos à reconstrução da cobertura e a punição dos
responsáveis.
O que
começou como uma exigência por responsabilização rapidamente se transformou em
uma revolta mais ampla contra Vučić. O movimento questionou não apenas os
abusos individuais, mas também a premissa subjacente: a falta de poder das
pessoas comuns sobre as instituições que governam suas vidas.
Ocupações
universitárias, manifestações, bloqueios de estradas e protestos espalharam-se
por toda a Sérvia. Os estudantes deslocavam-se entre cidades e aldeias,
demonstrando solidariedade com pessoas há muito abandonadas por um sistema
político muito habituado a servir os ricos e poderosos. Professores,
funcionários das universidades, trabalhadores e outros cidadãos juntaram-se a
eles.
Os
estudantes tornaram-se a força mobilizadora da luta. Sua firme independência em
relação à oposição oficial e seu compromisso com a deliberação e a tomada de
decisões coletivas nas assembleias universitárias foram os pontos fortes que
definiram o movimento.
A
decisão de concorrer às eleições foi o passo seguinte na luta. O movimento
elaborou sua própria lista eleitoral com candidatos oriundos das universidades
e da sociedade em geral, nomeados em assembleias onde foram analisados
coletivamente pelos estudantes antes de serem selecionados. Nenhum dos
candidatos era estudante.
Na
verdade, a lista resultante de acadêmicos, médicos, ativistas e cidadãos até
então politicamente não alinhados – entre eles um ex-governador do Banco
Nacional da Sérvia e um ex-astro do basquete – era bastante heterogênea. Embora
sua força resida em se originarem de um movimento democrático de massas, sua
direção política é incerta e, como tal, suscetível a fortes pressões internas e
externas.
A
decisão do movimento de disputar as eleições era compreensível, visto que este
seria um momento decisivo para o regime de Vučić. Mas as eleições são um meio
de promover reivindicações, não podendo ser confundidas com fins em si mesmas.
<><>
Uma vitória contra o neoliberalismo?
Embora
a Lista Estudantil tenha surgido de protestos anticorrupção e priorize o Estado
de Direito e a responsabilização institucional, seu programa também abordou
questões sociais do dia a dia: limitar contratos de trabalho temporários a 12
meses, reduzir drasticamente o preço de medicamentos essenciais, restaurar
clínicas médicas em vilarejos e fornecer livros didáticos gratuitos para todos
os alunos do ensino fundamental e médio.
Essas
reivindicações levaram o movimento para além da reforma institucional,
direcionando-o para as necessidades materiais das pessoas comuns, ainda que de
caráter modesto. Levantam uma questão mais ampla: pode a mudança política
desafiar as prioridades econômicas subjacentes às desigualdades e inseguranças
que as reivindicações visam combater, em vez de simplesmente mudar quem
governa?
Aqui, a
luta se conecta com a revolta europeia mais ampla contra o neoliberalismo e seu
projeto de décadas, de subordinar os serviços públicos e os direitos dos
trabalhadores às prioridades do mercado, à concorrência e à contenção fiscal.
Governos em todo o mundo alegam que os recursos são escassos e que os gastos
públicos devem ser controlados, mas as consequências recaem sobre todos:
estudantes que enfrentam os custos do ensino superior, trabalhadores que lutam
para pagar as contas, famílias que não conseguem comprar suas casas e
funcionários do setor público obrigados a fazer mais com menos.
Se o
novo governo destituir Vučić, mas deixar esses problemas intocados, correrá o
risco de decepcionar as pessoas que tornaram a vitória possível. É por isso que
o poder na sociedade não pode ser reduzido a quem ocupa os cargos ministeriais.
Os
ricos magnatas empresariais da Sérvia, suas redes de influência e o papel de
figuras proeminentes no aparelho estatal não desaparecerão agora que Vučić
perdeu o poder. Eles buscarão proteger seus interesses e pressionar o novo
governo por meios lícitos ou ilícitos. Alguns se apresentarão como
indispensáveis para o funcionamento normal do governo, enquanto outros
argumentarão que a estabilidade econômica exige concessões sucessivas.
O
perigo resultante é que a Lista Estudantil se distancie cada vez mais das
forças sociais que tornaram sua vitória possível, com os representantes
eleitorais considerando as negociações entre políticos, funcionários e líderes
empresariais como a principal arena política. Enquanto isso, a massa de pessoas
cuja mobilização os levou ao poder seria incentivada a ficar em casa e esperar
que o novo governo cumpra suas promessas. Isso seria um grave erro.
A força
democrática do movimento veio da ação coletiva das pessoas, que fiscalizavam
aqueles que alegavam representá-las e se recusavam a aceitar que a política
devesse ser deixada nas mãos de uma elite profissional. Esses princípios devem
ser aplicados tanto antes quanto depois de uma eleição.
As
assembleias universitárias não devem se tornar meramente cerimoniais e formais.
O movimento precisa de mecanismos contínuos por meio dos quais estudantes,
trabalhadores e comunidades possam debater políticas, responsabilizar
representantes e se mobilizar quando necessário. Sindicatos independentes e a
organização no local de trabalho são particularmente importantes para garantir
melhorias nos padrões de vida, mesmo diante da resistência de empregadores e
interesses poderosos.
Democracia
não pode significar simplesmente trocar as pessoas no poder. Deve significar
ampliar a capacidade das pessoas comuns de influenciar as decisões que afetam
suas vidas.
<><>
A União Europeia não é uma aliada
A
pressão externa representa outro perigo significativo. A UE acolherá
favoravelmente a derrota de Vučić, dadas as tensões nas relações devido aos
seus laços com a Rússia, apesar do seu desejo de aderir ao bloco europeu.
Embora algumas instituições e governos da UE tenham criticado os abusos
democráticos na Sérvia, isso não torna a UE uma apoiadora desinteressada da
democracia popular.
Pelo
contrário, Bruxelas tem seus próprios objetivos estratégicos. Quer fortalecer
seu papel nos Balcãs, garantir o alinhamento geopolítico da Sérvia e limitar a
influência russa na região. Uma vitória da Lista Estudantil será vista como uma
oportunidade para trazer a Sérvia de forma mais decisiva para o bloco
ocidental. Haverá membros da Lista Estudantil que ficarão felizes, senão
ansiosos, para auxiliar nessa mudança, como demonstraram o comboio de
bicicletas estudantis até Estrasburgo e a corrida de revezamento até Bruxelas
no ano passado, com o objetivo de angariar apoio da UE. É provável que isso
provoque divisões nas fileiras da lista estudantil, além de divisões mais
amplas na Sérvia.
Na
verdade, a abordagem da UE em relação à Sérvia expôs repetidamente tensões
entre seu compromisso declarado com os padrões democráticos e sua disposição em
acomodar líderes políticos quando estes servem aos interesses estratégicos
europeus. Apesar das críticas às controversas eleições sérvias de 2023, a UE e
a Alemanha buscaram uma parceria estratégica com o governo de Vučić para
garantir as vastas reservas de lítio da Sérvia. Em 2024, o chanceler alemão
Olaf Scholz visitou Belgrado quando o acordo foi formalizado, priorizando as
necessidades industriais da Europa em detrimento da democracia sérvia, apesar
das manifestações em massa contra o impacto ambiental do projeto de mineração.
O novo
governo enfrentará, portanto, uma pressão significativa da UE para demonstrar
que a transformação política da Sérvia também representa um realinhamento
geopolítico. Assistência financeira, investimento, negociações de adesão e
reconhecimento diplomático se tornarão instrumentos de influência. Vučić alegou
que a Lista Estudantil imporá sanções à Rússia por causa da Ucrânia. Alguns dos
novos eleitos negaram explicitamente que isso aconteça; outros permanecem
reticentes, sugerindo possíveis divisões acentuadas também sobre essa questão.
Este
argumento não se destina a defender Vučić ou a aproximar-se de Moscou. A
Rússia, tal como as potências ocidentais, procura protegera seus próprios
interesses. A Sérvia também não deve imaginar que o investimento chinês oferece
uma fuga às pressões da economia internacional. Substituir um patrono externo
por outro não constitui progresso. Impor sanções à Rússia significaria atrair a
Sérvia para o bloco ocidental, e isso precisa ser combatido.
O
melhor caminho para a Sérvia é, portanto, o não alinhamento, que lhe permite
manter a liberdade de desenvolver relações com diferentes países sem subordinar
a política nacional a qualquer grande potência. Isso significa resistir à
pressão para se tornar um instrumento da estratégia ocidental contra a Rússia,
assim como significa resistir às tentativas russas de exercer influência sobre
a Sérvia.
Tal não
alinhamento não implica isolamento diplomático. implica buscar a cooperação
internacional com base em relações mais igualitárias e mutuamente benéficas,
permitindo à Sérvia a liberdade de criticar a UE, a Rússia, a China ou os
Estados Unidos quando e se necessário. Isso é particularmente importante para
um futuro governo cuja legitimidade se baseia em um movimento que exige que as
decisões sejam tomadas no interesse público, e não a portas fechadas.
<><>
França, Bélgica e uma revolta europeia
As
pressões internas e externas serão, portanto, significativas. Não se pode
resistir a elas a partir dos corredores do poder, razão pela qual o movimento
deve continuar a se mobilizar e, ao fazê-lo, unir-se aos protestos que se
espalham pela Europa.
Na
França, as manifestações que começaram com estudantes protestando contra a
deterioração das condições escolares tomaram a forma de um movimento mais amplo
em relação ao custo de vida, salários e serviços públicos. Na Bélgica,
estudantes mobilizaram-se contra cortes na educação, aumento das mensalidades e
piora das condições de vida. Descontentamento semelhante com relação à moradia,
emprego, educação e corrupção eclodiu na Itália, Espanha, Portugal e Albânia.
Esses movimentos têm suas próprias reivindicações e circunstâncias políticas,
mas suas queixas se sobrepõem.
Os
protestos não são simplesmente geracionais. Os jovens estão na linha de frente,
como na Sérvia, porque enfrentam perspectivas sombrias, mas também porque suas
queixas fazem parte de uma crise social muito mais ampla. O neoliberalismo
promete que a competição de mercado e a disciplina fiscal trarão prosperidade.
Em vez disso, milhões sofrem com a deterioração dos serviços públicos, o alto
custo da habitação, a insegurança no emprego e governos que alegam não haver
alternativa a não ser fazer as pessoas comuns pagarem.
A
derrota de Viktor Orbán na Hungria, no início deste ano, após 16 anos no poder,
serve de alerta. Ela demonstra que a questão crucial é se a mudança política
abre espaço para uma transformação social mais profunda ou se simplesmente
produz um novo governo, que opera sob as mesmas restrições econômicas. Para
evitar um cenário semelhante na Sérvia, o movimento de massas terá que
continuar se mobilizando para desafiar as prioridades econômicas neoliberais
que reproduzem a desigualdade e a insegurança. A melhor maneira de alcançar
esse objetivo é articulando-se com outros movimentos europeus e balcânicos.
<><>
Solidariedade balcânica contra a política de dividir para governar.
A luta
estudantil na Albânia, onde os estudantes também participaram de uma
mobilização antigovernamental mais ampla contra a corrupção, em favor de
educação e serviços públicos, acrescenta uma dimensão balcânica de importância
crucial a tudo isso. Sua luta reflete o mesmo descontentamento central com o
sistema político, seja no poder ou na oposição, que tem motivado a juventude
sérvia.
Isto
representa uma oportunidade de começar a enfrentar os antagonismos
nacionalistas que dividem os Balcãs há gerações. Quando pessoas comuns de
diferentes nações se mobilizam por interesses comuns na educação, emprego
seguro, serviços públicos e ausência de corrupção, aumenta a possibilidade de
superar injustiças históricas e queixas não resolvidas, particularmente as do
Estado sérvio contra os albaneses.
Debates
conjuntos, intercâmbios e solidariedade prática entre estudantes, trabalhadores
e movimentos sociais poderiam começar a estabelecer uma base diferente para as
relações entre os países vizinhos. As grandes potências, em conjunto com as
corporações multinacionais, têm buscado repetidamente influência na região,
explorando as divisões e rivalidades existentes. Uma maior cooperação regional
daria à Sérvia, à Albânia e aos seus vizinhos mais espaço para determinarem
seus próprios futuros, em vez de serem manobrados para campos geopolíticos
concorrentes.
<><>
A luta deve continuar
A
derrota de Vučić é um momento para celebrar. Mas a tarefa não é apenas
substituí-lo. É construir uma sociedade em que a participação democrática, os
serviços públicos e os recursos econômicos sirvam à maioria, e não a uma
minoria rica, e em que a cooperação internacional comece a superar a
hostilidade nacionalista e a manipulação das grandes potências.
O poder
que torna essa mudança possível não reside apenas nas urnas, mas na ação
coletiva de pessoas dispostas a lutar por um futuro diferente.
É por
isso que a mobilização em massa não pode ser abandonada só porque se alcançou
uma vitória eleitoral. Pois a vitória também representa um momento de perigo
que precisa ser enfrentado preservando a organização independente das massas e
reforçando a solidariedade entre estudantes e trabalhadores na Sérvia e além
das fronteiras nacionais com albaneses, mas também com estudantes franceses,
belgas e de outros países europeus. A vitória eleitoral dos estudantes precisa
marcar uma nova fase da luta. Como dizia uma faixa comemorativa em Belgrado: “O
regime caiu. A luta apenas começou.”
Fonte: Por
Dragan Plavsic, no Brave New Europe | Tradução: Antonio Martins, em Outras
Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário