Gustavo
Guerreiro: Os algoritmos não conseguem decifrar o Brasil profundo
Ou é
zero, ou é um. Gostou ou ignorou, adorou ou detestou, permaneceu na bolha da
direita ou se isolou no cercado da esquerda. Para os programadores e
engenheiros que produzem modelos sofisticados de algoritmos e têm a ambição de
criar uma representação do mundo a partir de confortáveis escritórios
climatizados na Califórnia, a totalidade da experiência humana se encaixa em
uma lógica decisória simplista, quase ingênua, mas bastante presunçosa. Por
anos — e admito que eu mesmo caí nessa armadilha —, acreditamos que tudo não
passava de um jogo de cartas marcadas. E tudo soava com uma lógica cortante e
friamente evidente. As gigantescas empresas de tecnologia, como a Meta, do
Instagram, construindo seu império invisível de manipulação da razão e do
coração, finalmente descobriram a fórmula necessária para controlar o
comportamento político das multidões. Converteu cidadãos comuns em usuários e,
mais do que isso, em ratos de laboratório, contra os quais aciona a alavanca do
ódio sempre que a tela de seu celular se move.
Observemos
mais de perto o que está acontecendo nas profundezas deste país e poderemos
notar algo estranhamente dissonante dos modelos computacionais do Vale do
Silício; um erro que nenhum especialista em dados formado em Stanford pode
corrigir simplesmente lançando uma atualização de software da noite para o dia.
Os números estão aí para quem quiser ver: a partir da TIC Domicílios, que o
Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostraram que mais de 84% da
população brasileira utiliza a internet, passando horas a fio imersos no
Whatsapp e Instagram, tornando assim o Brasil estatisticamente uma das
populações mais conectadas e incessantemente expostas a bombardeios
algorítmicos em todo o mundo. De acordo com a lógica infalível da programação
de modelos ditos preditivos, o povo brasileiro deveria ser a horda mais
obediente e, portanto, uma cobaia ideal. A engenharia comportamental levaria
populações inteiras ao vazio abissal de um comportamento político premeditado
sem oposição. No entanto, na realidade, tudo tende a desafiar o que acontece
nos laboratórios da Meta, nas últimas eleições. Isso foi provado
inequivocamente pelas inúmeras pesquisas Datafolha, Quaest, CNT/MDA, etc. e
verificado pelos próprios registros de apuração de votos do TSE. Foi visto como
os milhões de eleitores, bombardeados incessantemente em grupos familiares de
Whatsapp todos os dias por uma avalanche de desinformação serializada,
simplesmente fizeram uma curva cega no último momento para votar no candidato
que lhes garantiria o seu sustento diário: a Farmácia Popular ou os programas
de habitação social continuados sem se importar se era ou não a guerra cultural
que se acendia em suas mãos.
A
solução não está nos livros de ciência da computação ou mesmo naqueles que
lemos. A alta cúpula das gigantes da tecnologia não tem, e, francamente, nem os
membros da nossa esquerda acadêmica, que adoram trazer conceitos já elaborados
de Paris ou Nova York, uma leitura cuidadosa de Roberto DaMatta em sua bagagem.
Todo o mecanismo de funcionamento da máquina digital segue a lógica inquebrável
do que o antropólogo carioca gostava de descrever como o espaço da rua.
Enquanto a rua, segundo a sociologia de DaMatta, é o espaço regido pela lei
abstrata anônima, hipercompetição implacável onde somos apenas um número de CPF
e, na metáfora agora modernizada: um pedaço de metadado pronto para ser vendido
ao anunciante que pagar mais. Enquanto o código computacional é a vitória
imperecível da rua: lá o que é permitido e o que não é permitido impera acima
de tudo, juntamente com a verdade e a falsidade sob declarações lógicas; um
livro de regras inflexível que estabelece cada ser humano como um indivíduo
estatístico isolado. A questão é que os brasileiros se recusam categoricamente
a viver apenas na rua, muito menos das redes digitais. Porque a verdadeira vida
social, aquela que estabelece quem deve proteger, em quem devemos confiar faça
chuva ou faça sol e para quem devemos estar quando a cortina se fecha depois de
encerrada a urna eletrônica aconteceu na gramática da casa, lá os humanos
abstratos anônimos dão lugar ao indivíduo, um ser imbuído em suas teias de
relações familiares, compadrio, dívidas e favores devidos e vizinhos que não se
pode escolher, relações afetivas que não podem ser encaixadas em um gráfico de
engajamento.
O
algoritmo alimenta o eleitor com puro ódio. O faz lutar luta contra o vizinho
que petista, querer “acabar com os índios” e defender uma ruptura absoluta com
o “sistema”. No domingo, porém, ele tem um churrasco com os amigos, a madrinha
que empresta um botijão de gás quando o dinheiro para ele acaba no dia 20 do
mês, o sobrinho que conserta seu computador de graça e a igreja que acolhe suas
angústias (para o bem ou para o mal). A vida se impõe de tal modo, que nenhum
feed de notícias pode traduzir. Entre o “sim” e o “não” do modelo de algoritmo
estadunidense reside o bom e velho “mais ou menos” brasileiro que vira solução
para tudo. O “jeitinho brasileiro” não compraz com o moralismo porque é uma
forma de resistência contra uma externalidade fria, distante e arrogante.
Chega a
dar pena dos analistas de dados olhando para suas planilhas, vendo esses
milhões de interações sintéticas, pensando que entenderam a alma de um
país-continente, sem nunca ter a menor ideia de que foram solenemente enganados
pela nossa ambiguidade plurirreligiosa.
Mas a
questão é mais profunda do que a simples astúcia cotidiana das relações
pessoais, mais profunda ainda, porque se DaMatta nos ajuda a descobrir como
podemos contornar o código em suas entrelinhas, é o velho e imenso Darcy
Ribeiro que explica a natureza vulcânica dessa nossa força indomável. Sempre
que releio O Povo Brasileiro, e o faço quase, como quem busca água mineral no
sertão cearense, surpreende-me o que Darcy teria a dizer se pudesse ver esses
bilionários pálidos tentando nos encaixar nas caixas comportamentais que eles
projetaram. Toda a nossa formação histórica de mais de cinco séculos foi
definida por uma luta permanente de dois movimentos confrontantes: de um lado,
o racionalismo burocrático e exógeno das elites coloniais; imperiais ou empresariais,
sempre de cima para baixo tentando impor o “molde” inflexível, o projeto
administrativo que deveria converter a população em simples engrenagens
produtivas e do outro, a expansão anárquica, selvagem e espontânea das massas.
O que
são os algoritmos das grandes plataformas digitais senão a versão do século 21
das velhas ordenanças, o novo feitor eletrônico que pretende ditar o ritmo do
nosso desejo e da nossa cólera? Ocorre que do lado de cá não há um povo europeu
fatigado nem uma classe média suburbana norte-americana, domada pelo
puritanismo. Há o que Darcy batizou como o “Povo Novo”. Viemos do contato
brutal de que resultou o arrebatamento inicial de matrizes indígenas, africanas
e ibéricas, moídas na engrenagem colonial, atiradas para aquilo que, com uma
beleza poética, ele chamou um “vácuo de nulidade”. Quem já não era mais
indígena, quem já não podia ser somente africano, quem já era português por
direito, tinha de se reinventar do zero pela improvisação na dor.
Não se
trata de romantizar a miséria, longe disso; quem acompanha os indicadores da
PNAD Contínua do IBGE ou os relatórios do Ipea sobre concentração de renda tem
a dimensão da tragédia material que o país ainda carrega nas costas. O problema
central da política continua sendo essa brutal desigualdade regional; ou, de
fato, a união nacional, que nunca foi definida como um projeto de país. É
sintomático quando são morstrados os estados em que cada candidato teve mais
votos. Há uma clivagem evidente entre o Sul e o Nordeste.
Também
é preciso observar a verdadeira política brasileira quando ela pega fogo nas
ruas. Ela tem a estrutura do Carnaval. Enquanto o mundo corporativo das redes
sociais gira em torno de uma contabilidade rígida, contando segundos de
visualização, taxas de rejeição, conversões de anúncios através de análises
sofisticadas em suas fazendas de servidores, muitas vezes, a tomada de decisão
do povo brasileiro explode em uma festa “anárquica”, da celebração, do corpo,
do suor e do levante. DaMatta argumenta prazer e a invenção no Carnaval
subvertem a ordem burocrática; na política real das periferias e do interior, a
sabedoria popular e rústica desafia a contabilidade tecnocrática e decide por
instinto, através do olhar nos olhos, da memória afetiva daqueles que estiveram
ao nosso lado quando a corda apertou demais no pescoço. Nenhum código binário
pode calcular o valor político de um abraço orgulhoso da mãe em sua filha que
entrou na faculdade pelo Enem.
É óbvio
que as big techs continuarão tentando. O modelo de negócio dessa gente se
baseia em reduzir a complexidade humana a mercadorias previsíveis em pacotes de
ódio e consumo imediato e eles já possuem seu exército de lobistas em Brasília
para impedir qualquer legislação séria que mexa com seus lucros
extraordinários.
Confiar
apenas a essa resistência orgânica da nossa cultura seria uma
irresponsabilidade política imperdoável. A antropologia explica porque
sobrevivemos ao ataque. Mas a política exige que desarmemos o inimigo antes que
ele engula o Estado. É aqui que o governo Lula precisa pular da trincheira
meramente defensiva para tomar a liderança com a ousadia que o momento exige.
Não basta destravar a lei de transparência econômica e algorítmica engavetadas
no Congresso Nacional ou sair publicando paliativos no Diário Oficial toda vez
que uma crise de desinformação ameaça políticas de saúde ou segurança públicas.
Não bastam medidas paliativas da Secretaria de Comunicação e Advocacia Geral da
União. O Executivo Federal tem o dever de traduzir em infraestrutura pública e
soberania tecnológica, essa sociabilidade brasileira, sobre a qual falava
DaMatta.
Se a
força dos brasileiros reside, nos elos comunitários e na invenção de uma
sociabilidade única, por que o Estado ainda insiste em se comunicar quase que,
exclusivamente, nas pocilgas privadas de Mark Zuckerberg, Elon Musk e Bill
Gates, pagando pedágio ao capataz digital para conseguir falar com sua própria
população? Lula tem a faca, o queijo e o orçamento da união na mão para
articular os ministérios da Cultura, Ciência e Tecnologia e Comunicações num
projeto nacional que financie redes sociais próprias, que fortaleça os “Pontos
de Cultura” criados há tempos por Gilberto Gil convertendo-os em verdadeiros
centros de letramento crítico e crie, uma nuvem pública soberana que retire
dados estratégicos do SUS, MEC e Cadastro Único das garras de corporações estrangeiras.
Só quando o Estado Brasileiro tiver a coragem de proteger institucionalmente
essa “nova Roma” de Darcy Ribeiro, uma civilização tropical, banhada em sangue
preto e sangue indígena, tão endurecida na resistência e desafeita ao freio nos
livraremos de fugir aos bocados pelas frestas do muro digital. Com o orçamento
público a serviço da vida e a lei enquadrando a barbárie das big techs
estaremos aptos a levar uma cadeira para calçada sem um algoritmo apontado em
nossas cabeças convertendo nosso velho “jeitinho” de sobreviver em projeto de
soberania e utopia definitiva.
Fonte:
Brasil 247

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