Daniel
Costa: A última dança de Lula - os desafios do PT e o futuro da esquerda
A
última dança do presidente Lula teria que ser mesmo emocionante. Não apenas por
representar o último capítulo de sua trajetória à frente do Palácio do
Planalto, mas porque sua história se confunde com alguns dos episódios mais
emblemáticos da política brasileira nas últimas décadas. Das greves do ABC
paulista à chegada à Presidência, em 2002, das derrotas eleitorais à prisão
pela Lava Jato, Lula atravessou momentos em que muitos apostavam que sua
carreira política havia chegado ao fim. Em diferentes ocasiões, porém, os
acontecimentos trataram de demonstrar o contrário.
Derrotado
por Fernando Collor de Mello em 1989 e por Fernando Henrique Cardoso em 1994 e
1998, Lula chegou à Presidência em 2002 e foi reeleito quatro anos depois. Em
2010, conseguiu eleger sua sucessora, Dilma Rousseff, que venceria novamente em
2014. A sequência foi interrompida pelo golpe jurídico-parlamentar de 2016.
Dois anos depois, preso no contexto da Operação Lava Jato, Lula ficou impedido
de disputar as eleições, vencidas por Jair Bolsonaro. Em 2021, o Supremo
Tribunal Federal anulou suas condenações por questões relacionadas à
competência da Justiça Federal de Curitiba e reconheceu a parcialidade do então
juiz Sergio Moro no caso do tríplex. Em 2022, Lula retornou à Presidência após
derrotar Bolsonaro em uma das disputas mais acirradas da história recente do
país.
A
vitória deste último domingo acrescenta um capítulo inédito a essa trajetória.
Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, com 45,16% dos
votos válidos, contra 47,03% do adversário, Lula conseguiu reverter o resultado
e venceu o segundo turno com 64,2 milhões de votos, equivalentes a 51,79%.
Flávio recebeu 59,8 milhões, ou 48,21%. A diferença de aproximadamente 4,4
milhões de votos garantiu a Lula mais quatro anos no Palácio do Planalto e
marcou a primeira virada desse tipo em uma eleição presidencial brasileira
desde a redemocratização.
O
resultado tem importância histórica, mas não deve ser confundido com a
resolução dos problemas que marcaram os últimos anos. Lula derrotou novamente
um representante da família Bolsonaro, mas a votação expressiva de seu
adversário demonstra que a extrema direita continua mobilizando uma parcela
significativa da sociedade brasileira. A eleição impediu uma nova vitória do
bolsonarismo, mas não eliminou as condições políticas e sociais que alimentam
seu crescimento. A vitória abre uma oportunidade; não dispensa a organização, a
mobilização e a disputa de ideias necessárias para aproveitá-la.
É nesse
ponto que a idade do presidente ganha relevância política. Lula completa 81
anos neste 27 de outubro. Sua trajetória é excepcional, mas seria um erro
transformar essa excepcionalidade em justificativa para adiar indefinidamente a
renovação do campo progressista. O desafio não consiste apenas em identificar
quem poderá ocupar o lugar de Lula no futuro. Trata-se de construir condições
para que a esquerda tenha capacidade de formular projetos, organizar maiorias e
disputar os rumos do país sem depender permanentemente da presença de uma única
liderança.
Os
resultados eleitorais do PT ajudam a dimensionar essa tarefa. O partido elegeu
70 deputados federais, enquanto a federação formada com PCdoB e PV conquistou
88 cadeiras. Também elegeu quatro governadores, todos no Nordeste: Bahia,
Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. Há, portanto, uma presença institucional
relevante, mas ela não resolve, por si só, o problema da renovação. A questão
decisiva é o que o partido fará com essa força e em que medida ela será capaz
de produzir novas lideranças, ampliar sua participação social e formular
respostas para os desafios que se apresentam.
A
renovação política não pode ser reduzida à substituição de nomes antigos por
nomes mais jovens. Ela exige mudanças nas condições de participação e decisão,
na formação de quadros e na relação entre o partido, os movimentos sociais e a
população. Novas lideranças precisam ter espaço para formular propostas,
disputar os rumos da organização e assumir responsabilidades que não se
restrinjam às campanhas eleitorais. Caso contrário, a renovação corre o risco
de se limitar a uma mudança geracional sem alterar as estruturas que concentram
as decisões.
A
história do PT oferece experiências importantes para essa reflexão. O orçamento
participativo, desenvolvido inicialmente em Porto Alegre, mostrou que a atuação
do partido podia ir além da disputa eleitoral, criando mecanismos para que a
população participasse da definição das prioridades do poder público. Essa
experiência não deve ser idealizada, nem tratada como uma fórmula que possa ser
simplesmente reproduzida em qualquer contexto. Seu legado, porém, ajuda a
lembrar que a participação popular precisa ter consequências concretas sobre as
decisões de governo. Renovar a esquerda também significa recuperar sua
capacidade de construir formas de organização e participação que aproximem a
política institucional das necessidades cotidianas da sociedade.
A
chegada de novas lideranças à Câmara dos Deputados pode contribuir para esse
processo. Ana Júlia, no Paraná, e Ana Elisa, em Minas Gerais, estão entre os
quadros mais jovens eleitos pelo PT. No Nordeste, Rosa Amorim, em Pernambuco, e
Lucas Reis, na Bahia, também representam trajetórias que podem contribuir para
renovar a representação parlamentar do partido. Esses nomes não constituem,
evidentemente, uma lista definitiva de sucessores ou uma garantia de renovação.
O que importa é que tenham condições de participar efetivamente da formulação
política e das decisões estratégicas, contribuindo para construir um projeto
coletivo que não dependa indefinidamente de suas figuras históricas.
O
Nordeste merece atenção especial nesse debate. A região tem papel decisivo nos
resultados eleitorais do campo progressista e reúne experiências políticas,
lideranças e organizações sociais que precisam ocupar um lugar mais importante
na definição dos rumos nacionais da esquerda. Não basta reconhecer sua
importância quando se trata de conquistar votos. É necessário que essa força
também se traduza em participação nas instâncias de decisão, na formulação do
programa político e na construção das estratégias nacionais do partido. Uma
renovação que mantenha as mesmas concentrações de poder corre o risco de
reproduzir, sob novos nomes, as estruturas que pretende transformar.
Outro
desafio diz respeito à relação entre o governo e a chamada frente ampla. A
escolha de Geraldo Alckmin para a vice-presidência e a composição de uma
aliança que reuniu partidos e lideranças de diferentes orientações políticas
foram importantes para ampliar as possibilidades eleitorais de Lula em 2022. A
construção de alianças voltou a desempenhar papel relevante na disputa de 2026.
Em um sistema político fragmentado, a negociação com diferentes forças é parte
da realidade de qualquer governo. O problema começa quando a necessidade de
construir maiorias passa a ser tratada como justificativa suficiente para o
afastamento das prioridades que deram sentido à vitória eleitoral.
A
experiência recente mostra os limites dessa relação. Em maio de 2023, a Câmara
dos Deputados aprovou o texto-base do novo arcabouço fiscal por 372 votos a
108, em uma negociação que expôs as dificuldades do governo para conciliar suas
prioridades com as exigências do Congresso. Em outra frente, o Congresso
derrubou a maior parte dos vetos presidenciais relacionados ao marco temporal
das terras indígenas. Em setembro de 2025, a Câmara aprovou, por 311 votos a
163, a urgência de um projeto de anistia relacionado às manifestações
antidemocráticas posteriores a 30 de outubro de 2022.
Esses
episódios têm naturezas distintas e não devem ser tratados como se fossem
equivalentes. Tampouco significam que todos os partidos de centro e de direita
atuem da mesma maneira ou que a negociação política deva ser abandonada. Eles
evidenciam, entretanto, que a existência de uma coalizão ampla não garante
apoio automático às prioridades do governo, muito menos ao conjunto de
compromissos assumidos diante do eleitorado. É preciso distinguir a negociação
necessária para governar da acomodação política que pode esvaziar o programa
eleito nas urnas.
A
questão, portanto, não é escolher entre uma aliança ampla e o isolamento
político. É construir uma relação em que a busca por maiorias parlamentares não
impeça o governo de sustentar suas prioridades e de enfrentar interesses
contrários à ampliação de direitos e à melhoria das condições de vida da
população. Uma frente ampla pode ser um instrumento importante para derrotar a
extrema direita e garantir governabilidade, mas não substitui a organização
social, a mobilização popular e a disputa política fora do Congresso. Sem essas
bases, o governo corre o risco de ficar excessivamente dependente de
negociações institucionais cujos resultados nem sempre correspondem às
expectativas de seus eleitores.
O
desafio dos próximos quatro anos, assim, vai além de concluir o mandato com
bons índices de aprovação ou de apresentar resultados como marcas da gestão. É
preciso transformar a vitória eleitoral em avanços concretos, fortalecer as
organizações políticas e sociais do campo democrático e criar condições para
que novas lideranças assumam responsabilidades. Isso exige enfrentar as
contradições internas da esquerda, rever práticas que limitam a participação e
compreender que a unidade eleitoral, embora necessária em determinados
momentos, não substitui a construção de um projeto político de longo prazo.
A
última dança de Lula no Palácio do Planalto precisa ser emocionante, sim. Não
porque encerre a história de um personagem que continuará a exercer influência
na política brasileira, mas porque pode ajudar a preparar o que virá depois
dele. A vitória eleitoral impediu uma nova vitória do bolsonarismo, mas não
eliminou as condições que alimentam a extrema direita, tampouco resolveu os
dilemas do PT, as dificuldades da esquerda ou os limites da conciliação
política. O legado desse mandato não será medido apenas pelas realizações do
governo, mas também pela capacidade de fortalecer organizações, ampliar a
participação popular e criar condições para que novas lideranças assumam
responsabilidades. Isso exigirá organização, disputa de ideias, capacidade de
mobilização e disposição para enfrentar conflitos que não desaparecerão apenas
porque Lula venceu o pleito.
• Vitória de Lula vira esperança para onda
progressista global. Por Camila Bezerra
A
vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na campanha de reeleição
no último domingo (25) inspirou outros chefes de Estado, que passaram a
enxergar no Brasil um modelo a ser seguido, assim como um sopro de esperança
diante do avanço da extrema-direita no mundo.
“Como
aconteceu no Brasil, se o Brasil pôde, a Espanha pode. No próximo dia 29 de
novembro, a esperança vencera o retrocesso votando no Partido Socialista”,
afirmou o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez.
O
entusiasmo do político com o desempenho de Lula nas urnas é tamanho que ele
chegou a convidar o deputado federal André Janones (Rede-MG), responsável pela
criação do canal Exército do Lula no WhatsApp, para ajudá-lo na campanha.
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“Grande
vitória de Lula! O que aconteceu no Brasil acontecerá na Espanha. A virada do
progressismo global acaba de começar”, publicou Sanchéz no X.
A
presidente do México, Claudia Sheinbaum, também celebou a vitória do petista
com um L, símbolo da campanha petista, antes de iniciar seu discurso.
“Estamos
felizes. Muito contentes com o triunfo de Lula no Brasil. Muitas e muitas
felicidades ao presidente Lula e ao povo do Brasil”, iniciou Sheinbaum.
A
mexicana ressaltou ainda que a campanha histórica de Lula, assim como a
vitória, “é um sopro de esperança para a América Latina e o Caribe”.
Fonte:
GGN

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