Redução
das desigualdades: por que crescimento econômico não significa renda melhor
distribuída?
Uma
economia em crescimento produz mais bens e serviços, movimenta empresas, pode
gerar empregos e ampliar a arrecadação. Ainda assim, o aumento da atividade
econômica não informa sozinho quem recebeu a renda criada nesse processo.
É nesse
intervalo que entra a redução das desigualdades. O conceito envolve a
distribuição de renda e patrimônio, mas também as diferenças de acesso ao
trabalho, educação, saúde, moradia e outras condições que interferem nas
oportunidades de uma pessoa ao longo da vida.
Por
isso, entender se um país se tornou menos desigual exige acompanhar mais do que
o Produto Interno Bruto (PIB). É preciso observar como os ganhos do crescimento
são distribuídos e quais mecanismos permitem que essas diferenças diminuam ou
atravessem gerações.
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Qual é a relação entre pobreza e redução das desigualdades?
A
pobreza está relacionada à insuficiência de recursos para alcançar determinado
padrão de vida. Já a desigualdade observa como renda e riqueza estão
distribuídas entre diferentes parcelas da população. Por isso, um país pode
retirar pessoas da pobreza e continuar apresentando uma distância elevada entre
a base e o topo da distribuição.
Essa
diferença também aparece nos indicadores usados para acompanhar cada fenômeno.
A taxa de pobreza mostra quantas pessoas vivem abaixo de determinada linha de
renda. A desigualdade pode ser observada pela parcela da renda apropriada por
diferentes grupos ou pelo índice de Gini. O indicador varia de 0 a 1: quanto
mais próximo de 0, mais equilibrada é a distribuição; quanto mais próximo de 1,
maior é a concentração.
O caso
do Brasil ajuda a visualizar como essas medidas se relacionam. Entre 2023 e 2024,
8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza, e a proporção da população nessa
condição caiu de 27,3% para 23,1%. Os dados são da Síntese de Indicadores
Sociais, um estudo anual do IBGE que analisa as condições de vida da população
brasileira e as desigualdades sociais.
No
mesmo período, o Gini do rendimento domiciliar per capita chegou a 0,506, menor
resultado da série iniciada em 2012. Mesmo com essa redução, os 10% de maior
renda ainda recebiam 13,4 vezes o rendimento dos 40% de menor renda.
O
exemplo mostra por que a redução das desigualdades precisa ser analisada para
além da saída da pobreza. Uma política pode elevar a renda de quem está na base
e reduzir privações, enquanto diferenças de renda e patrimônio continuam
separando grupos sociais. Para saber se essa distância diminuiu, é preciso
acompanhar tanto as condições de quem tem menos recursos quanto a parcela da
renda e da riqueza concentrada nos demais grupos.
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O crescimento do PIB não revela quem ganhou mais
O Produto Interno Bruto (PIB) calcula o valor dos
bens e serviços produzidos em determinado período. Se ele cresce, houve
expansão da atividade econômica. Para saber como a renda foi distribuída, são
necessárias outras medidas, como o índice de Gini, por exemplo. Outra
possibilidade é dividir a população e comparar quanto da renda fica com cada
parcela.
A
diferença fica evidente no topo da distribuição brasileira. Entre 2017 e 2023, a
renda do 0,01% mais rico cresceu quase 8% ao ano, enquanto a renda média das
famílias avançou 1,4%.
No período analisado, o crescimento médio do PIB foi de 1,8%.
Assim,
a renda média pode aumentar enquanto determinados grupos avançam em velocidade
muito superior aos demais. O crescimento informa quanto a economia se expandiu.
Para avaliar a redução das desigualdades, é necessário acompanhar quem recebeu
seus ganhos.
Essa
diferença também aparece em um retrato mais amplo do país. Em 2026, o Observatório
Brasileiro das Desigualdades registrou melhora em 34 dos 48 indicadores,
incluindo renda média, mercado de trabalho, pobreza, segurança alimentar e
serviços básicos. Ao mesmo tempo, houve piora em dimensões relacionadas à
concentração de renda e às desigualdades tributárias, territoriais, raciais e
de gênero.
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O mercado de trabalho distribui parte da renda gerada
Para
grande parte dos brasileiros, o trabalho é a principal fonte de renda. Por
isso, número de empregos e evolução dos salários interferem na maneira como os
ganhos econômicos são distribuídos.
Mas
estar ocupado não encerra a análise. A Síntese de
Indicadores Sociais do IBGE acompanha posição profissional, rendimento,
formalização, contribuição previdenciária, jornada, subocupação, duração do
desemprego e subutilização da força de trabalho.
Esses
recortes permitem diferenciar empregos com remuneração e proteção social
distintas. Também mostram que a escolaridade não explica sozinha as diferenças
de rendimento. Sexo, cor ou raça, região, ocupação e formalização aparecem
associados a posições diferentes no mercado de trabalho.
O
crescimento econômico, portanto, passa por diferentes canais. Salários, lucros
e rendimentos financeiros podem avançar em ritmos distintos e alterar a
participação de cada grupo na renda nacional.
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A concentração de patrimônio amplia as diferenças econômicas
As
diferenças econômicas não se limitam ao dinheiro que entra na conta a cada mês.
Elas também envolvem os bens que uma pessoa acumula ao longo da vida ou recebe
como herança — e que podem oferecer segurança financeira e oportunidades às
próximas gerações. Para compreender como essa concentração interfere na redução
das desigualdades, é preciso distinguir renda de patrimônio:
- Renda: corresponde aos
recursos recebidos em determinado período, como salários, aposentadorias,
lucros e rendimentos financeiros.
- Patrimônio: é a riqueza
acumulada em imóveis, terras, investimentos, participações empresariais e
outros ativos.
Essa
diferença importa porque o patrimônio pode gerar novas fontes de renda e ser
transmitido entre gerações.
No
Brasil, a concentração de riqueza permanece elevada mesmo quando muda a
composição do patrimônio ao longo do tempo. Imóveis, terras e ativos
financeiros podem ganhar ou perder participação, mas a propriedade desses
recursos continua concentrada em uma parcela menor da população. As próprias
limitações das bases brasileiras dificultam estabelecer com precisão o tamanho
dessa concentração, especialmente entre os mais ricos.
Isso
ajuda a entender por que pessoas com rendimentos mensais semelhantes podem
ocupar posições econômicas muito diferentes. Quem possui um imóvel, aplicações
ou patrimônio herdado dispõe de recursos que podem gerar renda, servir como
garantia financeira ou ser transferidos aos filhos. Quem não possui esses
ativos depende em maior medida do rendimento do trabalho.
A
desigualdade patrimonial também ajuda a explicar por que períodos de aumento
dos salários ou do emprego podem reduzir diferenças de renda sem produzir, na
mesma velocidade, uma redistribuição da riqueza acumulada. É por isso que
analisar apenas quanto cada pessoa recebe por mês oferece uma visão incompleta
da redução das desigualdades.
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Tributação e transferências redistribuem a renda
A
tributação também influencia a redução das desigualdades, pois altera a parcela
da renda que permanece com cada grupo da população. Esse efeito depende de como
os impostos são cobrados sobre salários, lucros, consumo e patrimônio, além das
diferenças na carga tributária suportada por famílias de diferentes faixas de
renda.
Em
2023, o 0,01% de maior renda
pagou, em média, uma alíquota efetiva de 4,6% de Imposto de Renda, segundo dados da
Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Apenas 2,3% da renda
total desse grupo era classificada como tributável. Entre os brasileiros de
menor renda, os tributos
comprometiam 32% dos rendimentos, evidenciando o peso da tributação sobre o
consumo.
Uma
tentativa de reduzir essa diferença veio com a Lei nº 15.270,
sancionada em novembro de 2025. Desde janeiro de 2026, trabalhadores com
rendimentos mensais de até R$ 5 mil têm isenção do Imposto de Renda, enquanto
aqueles que recebem até R$ 7.350 contam com redução parcial. A legislação
também estabelece tributação mínima progressiva para rendas anuais superiores a
R$ 600 mil, chegando a 10% a partir de R$ 1,2 milhão.
Já as
transferências de renda atuam por outro caminho. Em vez de reter, injetam
recursos diretamente na renda disponível das famílias atendidas. Esse dinheiro
retorna à economia na forma de consumo básico, movimentando o comércio local e
estimulando a atividade econômica. Trata-se de um mecanismo essencial no
combate à pobreza e na redução das desigualdades, mas que não atua sozinho —
seus resultados de longo prazo dependem da integração com a geração de
empregos, a valorização salarial e o acesso a serviços públicos de qualidade.
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Como o acesso a serviços públicos influencia a redução das desigualdades?
Renda
mensal não resume as condições materiais de uma família. Educação, saúde,
moradia, transporte e proteção social interferem nas despesas e nas
oportunidades disponíveis. O acesso a esses serviços também influencia quanto
da renda precisa ser destinado às necessidades básicas e quais recursos
permanecem disponíveis para outras áreas da vida.
A
educação interfere na entrada no mercado de trabalho e nos rendimentos futuros,
mas a origem familiar continua associada à posição econômica alcançada pelos
filhos. Essa relação é medida pela mobilidade intergeracional, que observa
quanto a posição de uma geração na distribuição de renda se reproduz na
seguinte. Segundo o Atlas da Mobilidade
Social Brasil, a cada avanço de 10 posições dos pais na distribuição de renda,
os filhos avançam, em média, 5,5 posições quando adultos. As possibilidades
de ascensão também variam conforme a renda familiar de origem, gênero, raça,
escolaridade e território.
A
dificuldade de mudar de posição econômica também aparece em comparações
internacionais. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE), para famílias
brasileiras situadas entre os 10% de menor renda, a distância até a renda média
pode atravessar várias gerações caso sejam mantidos os níveis de mobilidade
observados.
O
patrimônio reforça esse mecanismo porque imóveis, empresas e recursos
financeiros podem ser transmitidos entre gerações. Famílias sem esses ativos
dependem em maior medida da renda obtida ao longo da vida, enquanto aquelas que
acumulam patrimônio podem transferir recursos aos descendentes. A tributação
sobre renda, patrimônio e herança também interfere nessa transmissão e,
consequentemente, nas possibilidades de mobilidade social.
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Crescer a economia pode abrir espaço para reduzir desigualdades
Crescimento
econômico aumenta os recursos disponíveis em uma sociedade e pode favorecer
emprego, salários, arrecadação e investimento público. O efeito distributivo
depende de como esses recursos circulam entre trabalhadores, empresas,
proprietários de patrimônio e Estado.
Reduzir
desigualdades envolve, assim, diferentes etapas do mesmo processo. Passa pelas
condições de trabalho e pela remuneração, pela distribuição do patrimônio, pela
tributação e pelas transferências, e pelo acesso à educação, saúde, moradia e
outros serviços. Também exige observar as condições que uma geração transmite à
seguinte.
O PIB
continua sendo uma medida da atividade econômica. Para saber se a expansão
também aproximou as condições materiais de diferentes grupos, é preciso olhar
para a distribuição dos seus resultados. É nesse percurso entre a riqueza
produzida e a forma como ela chega à população que a redução das desigualdades
pode ser medida.
¨ Renda dos 0,01% mais
ricos no Brasil cresce quase 8% ao ano, 5 vezes acima da média nacional
O
relatório da Oxfam Brasil divulgado nesta quarta-feira (19) revela
uma imensa disparidade no crescimento da renda no país nos últimos
anos. Enquanto a média do avanço da renda das famílias brasileiras em geral foi
de apenas 1,4%, a parcela correspondente ao 0,01% mais rico da população, os
comumente chamados de “super-ricos”, viu seus ganhos saltarem quase 8% ao ano.
Esse
ritmo de enriquecimento é mais de cinco vezes superior à média nacional e
supera inclusive o crescimento médio do PIB brasileiro, que foi de 1,8% no
mesmo período, evidenciando uma concentração de riqueza extrema no topo da
pirâmide social.
Para
Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil, existe “uma proteção da
extrema riqueza”. Além disso, ela aponta que essa realidade não é um fenômeno
acidental, mas, sim, um reflexo da estrutura política e social do país. “A
desigualdade, de fato, é um projeto, uma intenção”, afirma ao Conversa Bem
Viver.
Segundo
a especialista, o Brasil enfrenta um problema estrutural em que políticas
públicas pontuais de redistribuição de renda são importantes, mas insuficientes
para reverter o cenário, pois existe uma manutenção histórica de privilégios
que permite que o dinheiro circule de forma a favorecer quem já detém o poder.
Santiago avalia que a chave de tudo é rever a forma como o dinheiro circula no
país.
“Isso é
importante, porque desigualdade não é só pobreza. Quando a gente está falando
de desigualdade, a gente está falando fundamentalmente da concentração de
riqueza. A desigualdade é, ao mesmo tempo que a gente tem muitos pobres, a
gente tem algumas pessoas extremamente ricas que concentram uma renda maior que
a da maioria dos pobres. Isso é desigualdade”, reforça.
O
estudo também aponta que o poder econômico se transforma em poder político,
criando um ciclo de manutenção de privilégios. Santiago ressalta que “as
pessoas que são muito ricas enriquecem numa velocidade muito maior do que as
pessoas que são mais pobres conseguem superar a pobreza”. Essa dinâmica é
alimentada por uma “blindagem” do patrimônio dos mais ricos e por uma rede de
influências e lobby que atua constantemente no ambiente político, garantindo
que esse grupo capture uma parcela desproporcional da renda total do país,
enquanto a maioria da população vê sua renda comprometida pelo consumo e pelo
endividamento.
Santiago
encoraja as pessoas a buscarem candidaturas que desafiem justamente esse status
quo: mulheres negras, LGBT+, pessoas com deficiência, indígenas. “Essas
pessoas, chegando ao poder, vão receber essa mesma pressão [do lobby], mas
tendem a atuar muito mais de maneira conectada com as agendas do conjunto da
população”, acredita.
Fonte:
ICL Notícias

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