quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Luís Nassif: É hora de Lula montar seu Bolo de Noiva

O fim de semana passado foi histórico, um dos grandes momentos da cidadania nacional. A mobilização popular é um trunfo relevante, mas, por si só, não garante a governabilidade. Por isso, dar o primeiro passo de forma correta é fundamental.

Uma das armadilhas a evitar é a síndrome do “pacote salvador”. O mercado e os veículos de mídia tentam criar um clima de catástrofe com o discurso da gastança, embora se saiba que o verdadeiro dreno de recursos públicos decorre da política monetária, que realiza transferências gigantescas aos rentistas. Dilma caiu no conto de sereia e seu governo caiu com o pacote Joaquim Levy.

Em algum momento, o governo terá de definir limites ao capital especulativo que, por meio de operações de carry trade, é a principal causa da volatilidade cambial e das pressões inflacionárias.

Mas esse é tema para outra coluna.

Lula tem que mostrar que o governo Lula 4 não será como o Lula 3. Significará uma ruptura com os padrões tradicionais, esgotados, e a preparação do futuro do país.

O ponto inicial é estruturar uma estratégia capaz de atrair o capital produtivo — os setores industrial, de máquinas e equipamentos, de indústria de base, farmacêutico, enfim, o que resta dos antigos campeões nacionais.

O melhor caminho é, desde já, convidá-los para debater temas concretos: terras raras, data centers, bioeconomia da Amazônia e agregação de valor na exportação de commodities.

O caminho racional seria:

1.       Uma ampla discussão, nos moldes do que foi a operação “Bolo de Noiva” no governo Fernando Collor. Seriam convocados empresários com afinidade com cada um dos temas selecionados e institutos de pesquisa para uma conversa inicial, a fim de avaliar a temperatura do setor.

2.       Em um segundo momento, os setores de excelência do Estado brasileiro (técnicos do CGCE, Finep, IPEA e BNDES) aprofundariam os temas debatidos, oferecendo embasamento técnico, estimando as cadeias produtivas que poderão ser desenvolvidas no país, identificando as que exigirão parcerias internacionais, definindo contrapartidas e, sobretudo, estabelecendo um cronograma para o lançamento de cada projeto.

3.       Ao mesmo tempo, o BNDES identificaria as empresas nacionais, ou instaladas no Brasil, em condições de assumir cada um dos elos da cadeia produtiva. A elas seriam oferecidas isenção de impostos, financiamentos competitivos do BNDES e recursos da Finep para pesquisa.

4.       Sondar-se-iam parceiros no exterior caso fossem indispensáveis pelo domínio da tecnologia. Nesse caso, toda a operação deveria fundamentar-se em princípios claros: transferência de tecnologia, garantias de manutenção do controle sob capital brasileiro e contrapartida explícita de transferência tecnológica não apenas para a empresa, mas para institutos de pesquisa nacionais.

Esse modelo serve para aprimorar o Redata — programa que, até agora, oferece incentivo fiscal para importação de máquinas e exige como contrapartida escassos 2% do investimento aplicados em pesquisa interna.

Uma vez que Lula percebeu a relevância dos modelos participativos, abre-se espaço para a lógica do Plano de Metas. Cada setor relevante (infraestrutura, ferrovias, arranjos produtivos) deve ser estruturado em um plano com metas bem definidas, com conversas com cada setor e entregas cujos avanços sejam comunicados periodicamente à opinião pública.

Será a forma de consolidar o grande pacto que Lula busca desde o início e que não pode ficar refém das manobras do Congresso.

•        Presidente, a caneta é sua. A força é do povo. Por Reynaldo Aragon

O povo reelegeu Lula, mas não lhe entregou um Congresso comprometido com seu projeto de país. A vitória eleitoral não desmontou as estruturas de poder que disputam o orçamento, os direitos sociais e a soberania brasileira. Este texto nasce de uma contradição decisiva. O presidente tem a caneta e os instrumentos constitucionais para agir, mas suas decisões enfrentarão a resistência dos interesses que dominam o Parlamento. A disputa vai muito além da governabilidade. O que está em jogo é quem efetivamente governa o Brasil.

<><> O poder que as urnas não entregam

Em 25 de outubro, 64.256.232 brasileiros reconduziram Lula à Presidência. Nas mesmas urnas, o PL consolidou as maiores bancadas partidárias da Câmara e do Senado. A eleição decidiu quem ocupará a Presidência, não quem controlará as condições para governar. É nessa fratura que começa 2027. Os votos não dissolveram os interesses econômicos que atravessam o Estado nem converteram forças reacionárias em defensoras de novos direitos. A vitória merece ser celebrada. Confundi-la com a conquista do poder efetivo seria entregar a iniciativa a quem dispõe dos meios para paralisá-la.

Um projeto pode perder sua força antes do plenário, alterado na relatoria, retido na pauta ou mutilado na negociação orçamentária. Na política, atrasar também é decidir. A extrema direita não precisa convencer todo o Congresso de sua visão de mundo; encontra convergências pontuais com interesses que preferem preservar privilégios a admitir mudanças. O bloqueio pode surgir com aparência de acordo técnico, embora carregue uma escolha profundamente política. Não há resposta à altura se tudo terminar numa sucessão de reuniões reservadas, com o país descobrindo o preço da concessão depois que ela foi feita.

A Presidência dispõe de um instrumento que não pode ser tratado como ornamento. Quando houver relevância e urgência, medidas provisórias produzem efeitos de lei desde a publicação, submetendo-se depois ao Congresso. Foi assim que o Bolsa Família ganhou forma em 2023, antes de ser convertido em lei. A caneta não permite tudo. Há limites constitucionais, exigências de financiamento e decisões que dependem de outros caminhos. Usá-la com precisão significa escolher políticas urgentes, sustentadas em evidências e capazes de alterar a vida concreta. A medida chega à sociedade antes que seus efeitos sejam reduzidos numa negociação parlamentar. A iniciativa deixa de nascer de um pedido de licença.

Mas uma assinatura não derrota, sozinha, um bloqueio organizado. Cada medida deve chegar ao país acompanhada de respostas simples. Que direito passa a valer? Quem será atendido? De onde vêm os recursos? O que muda se o Congresso retirar uma palavra, adiar a votação ou deixar o prazo acabar? Tudo isso precisa estar aberto, na linguagem de quem paga a conta. Um parlamentar pode discordar, votar contra, propor outra solução. O que não pode esperar é que a sociedade desconheça quem alterou o conteúdo de uma decisão e qual foi o efeito dessa escolha sobre sua vida.

É nesse momento que a história brasileira volta a cobrar presença. Nas greves do ABC, o chão da fábrica se tornou lugar de organização contra a ditadura. Nas Diretas Já, as multidões não conseguiram aprovar a emenda de 1984, mas ampliaram uma crise que o regime já não podia conter. Na Constituinte, movimentos sociais levaram suas reivindicações ao texto de 1988. Em setembro de 2025, a PEC da Blindagem, aprovada pela Câmara, encontrou protestos pelo país e terminou arquivada pelo Senado. As circunstâncias foram distintas. O traço comum é que direitos e limites ao poder jamais dependeram exclusivamente da disposição daqueles que ocupavam os gabinetes.

Não se convoca esse povo como figurante de fotografia oficial. Ele está nos sindicatos, nas associações de bairro, nas universidades, nos movimentos do campo, nas periferias e nos locais de trabalho. Está também entre os que não pertencem a organização alguma, mas conhecem o salário curto, a jornada exaustiva e o serviço público que falta. Sua participação não pode terminar com a apuração das urnas. A cada decisão importante, a cobrança precisa ganhar assembleias, debates, manifestações pacíficas e presença constante nas redes. O Congresso também foi eleito pelo povo. É diante dele que deve explicar os votos que dá, as alterações que aprova e os direitos que decide deixar pelo caminho.

Quem estuda guerra híbrida sabe que uma disputa pode ser perdida antes da votação, quando a informação é soterrada e a responsabilidade desaparece na confusão. Uma medida que assegura um direito pode ser apresentada como ameaça; uma mudança que o enfraquece pode ser vendida como aperfeiçoamento. A presença digital precisa, então, servir à inteligência coletiva. Publicar textos, comparar versões, identificar autores de emendas, verificar afirmações e permitir acesso às fontes. Sem robôs, intimidação ou linchamento virtual. Não há emancipação numa operação psicológica de sinal trocado. Há quando as pessoas compreendem os interesses em disputa e encontram fatos para agir por conta própria.

Soberania não é palavra para cerimônia. Está no destino da energia, dos minerais estratégicos, da pesquisa científica, da infraestrutura digital e do trabalho brasileiro. Um país que entrega matéria-prima e compra de volta tecnologia incorpora dependência aos próprios contratos. Cooperar com o Sul Global e proteger direitos sociais exige capacidade produtiva, conhecimento e decisão pública. Uma emenda aparentemente pequena pode definir onde ficará o valor de uma cadeia industrial, quem terá emprego e quem controlará a tecnologia. Por isso o conflito no Congresso não se esgota na política de Brasília. Ele atravessa o território, chega ao preço da comida, à oportunidade de estudar e à possibilidade de o Brasil decidir seu próprio futuro.

Não se trata de pedir fidelidade pessoal a Lula. Democracia não termina na escolha de um presidente nem autoriza os eleitos a governar longe dos olhos de quem os elegeu. A Presidência precisa agir, dentro da Constituição, antes que cada proposta seja desfigurada na barganha. A sociedade civil precisa exercer, com autonomia e firmeza, o direito de sustentar o que considera justo e cobrar publicamente o Congresso, voto por voto. O lugar dessa cobrança é a rua, é a rede, é a organização diária. O governo faz a sua parte quando assume a decisão e responde por ela. O povo faz a sua quando não permite que seus direitos sejam negociados no silêncio. A caneta não substitui a rua. A rua não governa por decreto. É na relação entre iniciativa institucional e mobilização democrática que uma conquista deixa de ser promessa e passa a ter quem a defenda. O país precisa de gente que permaneça na história depois de fechadas as urnas.

 

Fonte: GGN/<código aberto>

 

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