A
vitória de Lula e o debate adiado: o Brasil precisa olhar para além das
manchetes sobre Moraes e Bolsonaro
A
vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria ocupar, neste momento,
o centro do debate político nacional. Não somente pela importância do resultado
eleitoral, mas, principalmente, pelo que ele representa em termos de
expectativas, compromissos e responsabilidades. Afinal, uma vitória nas urnas
não encerra o debate político. Entretanto, mais uma vez, o nosso país é
arrastado para o terreno das ocorrências policiais, com a determinação do
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de que o senador
Flávio Bolsonaro entregasse seus passaportes à Polícia Federal.
Ao
menos em tese, esse momento do Brasil deveria inaugurar um novo ciclo de
cobranças, de vigilância cidadã e de exigências em torno das promessas feitas à
sociedade brasileira pelo presidente reeleito. É sobre isso que deveríamos
estar falando, discutindo, analisando. É a partir daí que deveríamos organizar
nossas reflexões e nossas inquietações. Não porque a investigação deva ser
ignorada, muito menos porque agentes públicos devam ser poupados de responder
por seus atos, mas porque precisamos refletir sobre o lugar que essas questões
vêm ocupando na vida nacional.
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“Teto de vidro”
Começo
por reconhecer aquilo que me cabe reconhecer, ou seja, não tenho competência
para questionar os fundamentos técnico-jurídicos da decisão de um ministro do
STF. E, pelos motivos óbvios, não pretendo substituir as/os profissionais do
Direito nessa tarefa. Mas a ausência de competência jurídica para contestar
tecnicamente uma decisão não me retira o direito de exercer o pensamento
crítico, formular perguntas e refletir sobre suas consequências políticas e
institucionais. Afinal, as decisões dos integrantes da mais alta Corte, embora
devam ser examinadas à luz da lei, também produzem efeitos que ultrapassam os
limites dos autos.
Portanto,
algumas perguntas se impõem.
Era
realmente necessário adotar essa medida neste momento? Havia razões concretas
que tornassem indispensável a restrição à saída do país — ou seria possível
conduzir a investigação sem produzir mais um episódio de forte repercussão
política? A decisão tomada logo após o resultado eleitoral não corre o risco de
ser interpretada como uma intervenção capaz de aprofundar as divisões que já
marcam a sociedade brasileira? E, ainda que existam fundamentos jurídicos
consistentes para a providência, não seria legítimo questionar a oportunidade
de sua adoção, considerando o ambiente político que atravessamos?
Não
quero afirmar que a proximidade temporal entre uma eleição e uma decisão
judicial seja suficiente para invalidá-la. Também não se trata de insinuar, sem
provas, que houve motivação política por parte do magistrado. Mas minhas
indagações buscam reconhecer que, em sociedades marcadas por conflitos
intensos, como é o caso da nossa, a prudência institucional também deveria
estar em pauta. A legalidade é indispensável, mas a responsabilidade pública
exige atenção aos efeitos das decisões, à sua proporcionalidade e à confiança
que as instituições precisam inspirar. Sobretudo quando o país ainda tenta
encontrar caminhos para diminuir a temperatura de uma disputa política que
parece não conhecer trégua.
Apesar
disso, quero ressaltar que não podemos perder de vista outro aspecto
fundamental: Flávio Bolsonaro é investigado por suspeitas de crimes
gravíssimos, entre eles possíveis irregularidades relacionadas à lavagem de
dinheiro. Há apurações em curso, e seus desdobramentos precisam, sim, ser
elucidados pelas autoridades competentes. Não seria nem um pouco razoável,
portanto, transformar a crítica à medida judicial em argumento para
desqualificar a investigação ou mesmo conferir ao senador qualquer espécie de
imunidade política (ou moral). Lógico que não!
A
atuação pública de qualquer autoridade está sujeita ao escrutínio da sociedade
(embora muitas estejam “se lixando” para isso, ao que parece). O próprio Moraes
não está acima de críticas, de questionamentos ou de cobranças. Sua trajetória
e as controvérsias que cercam sua atuação que o digam. Por isso, também é
preciso que tenha cautela — inclusive para que não se ofereçam novos argumentos
àqueles que pretendem deslegitimar as instituições democráticas. Quando me
refiro ao “teto de vidro” do ministro, estou me referindo à necessidade de
reconhecer que ninguém, por mais poder que detenha, está imune ao exame público
de suas escolhas. E de seus atos.
Também
penso ser importante ressaltar que o problema não está, necessariamente, no
caso específico de Flávio Bolsonaro. Está também na forma como a política
brasileira vem sendo consumida por uma sucessão interminável de episódios
policiais, investigações, acusações e decisões judiciais. Há um tempo
considerável, questões fundamentais para a vida da população acabam relegadas a
segundo plano, enquanto o debate público se concentra no que poderíamos chamar
de um permanente “boletim de ocorrências”. Mais recentemente, as repercussões
do caso envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master passaram a ocupar a maior
parte das atenções, em meio a denúncias, suspeitas e desdobramentos.
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Precisamos discutir nosso futuro
Não
estou defendendo que essas investigações sejam interrompidas, silenciadas ou
tratadas como assuntos menores. Ao contrário. Se há indícios de
irregularidades, que sejam apurados com o rigor e a transparência necessários
ao devido processo legal, como costumam dizer as/os especialistas em Direito. O
que questiono, entretanto, é a desproporção entre o espaço dedicado a esses
episódios e aquele reservado às questões que deveriam orientar nossas
prioridades coletivas.
Até
quando o país permanecerá girando em torno de conflitos protagonizados por
figuras poderosas, enquanto milhões de brasileiros continuam esperando
respostas para problemas concretos que atravessam seu cotidiano?
A
educação pública, a saúde, a segurança, o desemprego, a precarização do
trabalho, a desigualdade social, a crise climática e as dificuldades
enfrentadas por tantas famílias não podem desaparecer do horizonte nacional
sempre que uma nova ocorrência política ou policial ganha as manchetes. O
Brasil não pode se resumir aos seus investigados, aos seus magistrados, aos
seus escândalos e às suas disputas de poder. Há uma sociedade inteira para além
desse círculo restrito — uma população que precisa de políticas públicas
eficazes, de oportunidades, de dignidade e de perspectivas de futuro.
E é por
isso que considero tão importante recuperar o protagonismo da vitória de Lula.
O presidente foi reeleito e, com isso, recebeu uma responsabilidade política de
enormes proporções.
O que a
sociedade deve cobrar dele? Quais compromissos precisam ser cumpridos? Como seu
governo pretende enfrentar os problemas estruturais do país? Que respostas
serão oferecidas à classe trabalhadora, às mulheres, aos jovens, às populações
mais vulnerabilizadas e a todas as pessoas que depositaram nas urnas suas
esperanças de mudança? E como assegurar que o resultado eleitoral se traduza em
melhorias efetivas para a vida das pessoas?
Essas
são perguntas que merecem ocupar o centro do debate público. Não porque os
assuntos judiciais sejam irrelevantes, mas porque uma sociedade não pode viver
exclusivamente de suas crises. O voto popular não encerra a responsabilidade da
cidadania. Pelo contrário. Amplia-a. Cabe a nós o acompanhamento, a
fiscalização, o questionamento, a sugestão. E, sobretudo, a cobrança. Quero
aqui também chamar a atenção para a imprensa, que deve dar visibilidade não
somente aos conflitos entre os poderosos, mas, principalmente, às necessidades
de quem raramente encontra espaço para fazer ouvir sua voz.
Também
me parece oportuno dirigir uma reflexão ao ministro Alexandre de Moraes. O STF
tem uma função essencial na preservação da ordem constitucional e, por isso
mesmo, seus integrantes precisam atuar com independência e firmeza. Mas é
igualmente necessário que fique patente que a autoridade de uma instituição não
se fortalece somente pela capacidade de impor medidas. Fortalece-se, também,
pela prudência, pela sobriedade e pela percepção dos limites que acompanham o
exercício do poder.
Em
tempos de polarização — como a que estamos vivenciando desde 2018 —, cada
decisão de grande repercussão exige fundamentação jurídica consistente, mas,
sobretudo, especial cuidado para que a atuação institucional não seja
confundida com o protagonismo político. Por isso, talvez o melhor que Moraes
possa fazer, neste momento, seja recolher-se um pouco, evitar a exposição
desnecessária e, principalmente, permitir que os procedimentos judiciais sigam
seu curso, com a discrição e a serenidade que situações dessa natureza exigem.
Não
estou pedindo omissão diante de ilícitos. Nem defendo qualquer forma de
complacência nesses casos. Mas pergunto se toda medida precisa ser acompanhada
de tamanha repercussão, sobretudo quando o ambiente político já se encontra tão
“inflamado”. O Judiciário não precisa disputar com o Executivo e com o
Legislativo o lugar de protagonista do país, porque todos têm seu lugar de
destaque.
Que as
investigações prossigam. Que os fatos sejam elucidados. Que a lei seja aplicada
sem privilégios. E que eventuais responsabilidades sejam apuradas com rigor.
Mas,
como sociedade, necessitamos que isso não nos impeça de enxergar o que há de
mais urgente e mais importante diante de nós.
A
vitória de Lula precisa ser acompanhada de cobranças, de compromissos e,
principalmente, de resultados. O Brasil precisa voltar a discutir seu futuro —
e não permanecer indefinidamente prisioneiro de seu passado e de suas crises.
Não já
passou da hora de os poderosos falarem menos de si mesmos, de suas disputas e
de seus embates, para que a sociedade possa voltar a falar de suas
necessidades?
• Apreensão de passaporte e fuga: como a
família Bolsonaro reagiu a momentos semelhantes no passado?
A
imprensa brasileira tem repercutido a afirmação de aliados do senador Flávio
Bolsonaro sobre o parlamentar ter deixado o país. Aliados e apoiadores têm
tratado o caso nas redes sociais como perseguição política. Em outros momentos,
como a família Bolsonaro agiu em contextos parecidos sobre esse tipo de ação?
Segundo
a Folha de S.Paulo, aliados confirmaram a fuga de Flávio do Brasil para a
Argentina. Do país vizinho, ele estaria em viagem para os Estados Unidos. Na
tarde desta terça-feira (27), um aliado do presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, o advogado mexicano Simón Levy afirmou que o senador deixou o
Brasil e desembarcou nos Estados Unidos. Segundo Levy, o secretário de Estado
norte-americano, Marco Rubio, teria articulado a saída do parlamentar do
território brasileiro.
Aliados
do parlamentar, por sua vez, justificam a fuga ao pedido feito pelo ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre Moraes de pedir o recolhimento do
passaporte de Flávio Bolsonaro.
A
Polícia Federal (PF), por sua vez, apontou riscos de fuga do senador em caso de
derrota. Por isso, pediu o cancelamento do documento.
Nas
redes sociais, o líder do Partido Liberal (PL) na Câmara dos Deputados,
Sóstenes Cavalcante, fez uma publicação com a seguinte legenda: "Eu apoio
Flávio Bolsonaro e sua família. Contem comigo!". A postagem foi realizada
às 14h36, quando a imprensa já noticiava a suspeita de fuga do senador. Nas
redes sociais, apoiadores de Flávio têm endossado o discurso de
"perseguição política" e também, em tom de apoio, legitimado a
eventual fuga.
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Como a família Bolsonaro reagiu a contextos parecidos?
A
politização de decisões jurídicas tem sido capítulo recorrente no cenário
político brasileiro. Em janeiro de 2018, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
teve seu passaporte apreendido pelo juiz federal Ricardo Leite, da 10ª Vara
Federal em Brasília. No dia anterior, 24 de janeiro, o Tribunal Regional
Federal da 4 ª Região (TRF-4) confirmou a condenação de Lula na ação penal
envolvendo o triplex no Guarujá (SP) e aumentou a pena do ex-presidente para 12
anos e um mês de prisão.
Nas
redes sociais naquele momento, Flávio Bolsonaro reagiu com a seguinte
publicação: "Jair Bolsonaro avisou! Ainda não foi dessa vez que 'Luladrão'
[sic] fugiu para escapar da prisão!".
Em
outro contexto, mas também em 2018, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro também fez
um comentário relacionado à fuga do Brasil do ex-ativista político italiano
Cesare Battisti, quando o então presidente Michel Temer assinou um decreto
ordenando sua extradição.
Eduardo
Bolsonaro, ao comentar a situação, escreveu: "Ué, mas se ele não deve
nada, por que fugiu???", questionou.
Fonte:
Por Verbena Córdula, em Diálogos do Sul Global/Sputnik Brasil

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