Gibran
Jordão: Os significados da vitória de Lula para o futuro do Brasil, do Sul
Global e do mundo
A
virada eleitoral espetacular de Lula no segundo turno das eleições no Brasil
contrariou 99% das previsões e probabilidades apontadas pela grande mídia e
institutos de pesquisas, que indicavam uma vitória quase certa do candidato da
extrema-direita, que já negociava a montagem do seu ministério. O mundo se
surpreendeu quando as urnas foram abertas, pois Lula bateu seu próprio recorde
alcançando 64 milhões de votos, quatro milhões a mais comparados ao seu recorde
anterior atingido no segundo turno de 2022. A campanha de Lula conseguiu
derrubar a abstenção, como também virou votos em centenas de cidades,
mobilizando 10 milhões de votos a mais comparados ao primeiro turno.
Essa
vitória aqueceu a esperança de quem está lutando contra a extrema-direita em
todo o mundo, elevou a admiração global à figura lendária de Lula e à
resiliência do Partido dos Trabalhadores (PT), instigando a curiosidade sobre
como o Brasil conseguiu interromper uma onda reacionária que estava avançando
em toda a América do Sul sob o comando da Casa Branca. Ao mesmo tempo, o
resultado da eleição presidencial no Brasil reforçou a frente que se articula
no Sul Global, através de parcerias estratégicas que visam diminuir o poder do
império de chantagear e explorar países da periferia.
Em
2026, a Casa Branca ficou para trás na corrida industrial tecnológica com a
China em vários nichos estratégicos, sofreu uma grave derrota militar contra o
Irã e agora uma derrota política no maior país da América Latina. Soma-se a
esse processo o fato de que a Otan/Ucrânia está longe de retomar o controle da
situação no Leste Europeu, e que a Europa sofre as consequências amargas de uma
aposta totalmente equivocada em romper com os russos. Reparem que China,
Brasil, Rússia e Irã são países do Brics, o que aponta que essa articulação
estratégica de países do Sul Global está dando demonstrações significativas de
força na disputa contra o imperialismo ocidental em distintas dimensões. São
Estados-nacionais que estão demonstrando capacidade de impor outro desenho na
geopolítica global para o próximo período.
Mas
temos a obrigação de alertar que, na atual etapa histórica reacionária, as
respostas do imperialismo ocidental (G7 liderado pelos EUA) serão cada vez mais
agressivas, e a instabilidade política será parte do cotidiano dos povos em
todo o mundo, gerando insatisfação popular permanente, que pode ser capturada
em muitos momentos por forças de extrema-direita que estão em ascensão. O
xadrez global está sendo jogado, reviravoltas acontecem em espaços curtos de
tempo, a disputa pelo futuro está em aberto e quem errar na análise concreta da
realidade e na elaboração tática poderá ficar pelo caminho…
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Lula Tetra: Brasil em perspectiva
Numa
perspectiva conjuntural, precisamos comemorar a vitória no segundo turno da
frente ampla formada em torno de Lula, com a predominância de pautas populares
(o fim da escala 6×1 foi o carro-chefe), e com mobilização de massas. Esse
último elemento precisa ser bem analisado, pois as 64 milhões de pessoas que
votaram em Lula expressaram o desejo de futuro da juventude que assumiu a
campanha nas ruas e nas redes, mas também o reconhecimento afetuoso de uma
velha guarda geracional, que é detentora de uma memória histórica de ter
testemunhado como o Brasil mudou para melhor depois dos governos do PT. O êxito
da campanha de Lula foi conseguir alertar o povo brasileiro para o perigo de
perder, ao mesmo tempo, a janela do futuro e as conquistas do passado. Movendo,
assim, imensas frações da sociedade brasileira para impedir que uma candidatura
sem passado e sem futuro sentasse na cadeira da Presidência da República com
amplos poderes no Congresso e no STF.
Mas ao
fazermos uma análise não só dos fatos que envolveram a disputa no segundo
turno, e observarmos para além da conjuntura imediata todo o fenômeno,
precisamos reconhecer que, embora a extrema-direita não tenha conseguido
retomar a Presidência do Brasil, eles venceram com uma larga vantagem as
disputas mais importantes que estavam colocadas no primeiro turno.
Senão,
vejamos: o PL (sigla liderada pela família Bolsonaro) conquistou o maior número
de estados elegendo 6 governadores. Conseguiu formar a maior bancada partidária
da Câmara Federal (121 deputados), aumentando a sua votação para essa Casa em
41,9%, saltando de 18,2 milhões de votos para 25,8 milhões em relação a 2022. O
Partido Liberal também liderou a votação para as assembleias legislativas, teve
22,7 milhões de votos para deputados estaduais e distritais, um crescimento de
quase 70%, ante os 13,4 milhões de votos conquistados em 2022.
O PT
elegeu 4 governadores e a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados (70
deputados); sua votação foi de 13,2 milhões para 14,7 milhões, um aumento de
apenas 11%. Ao compararmos o crescimento das bancadas em número de deputados, o
PT teve um crescimento de 2 deputados, e o PL cresceu 22. Para as assembleias
legislativas, o PT obteve em 2022 cerca de 13,4 milhões de votos e aumentou sua
votação em 2026 para 15,5 milhões de votos, uma variação de 15%.
No caso
do Senado, o PL novamente liderou elegendo 19 senadores; no total, a sua
bancada fica com 28 senadores. Mas se somarmos os aliados do mesmo espectro
político eleitos por outros partidos, o número tende a 43 senadores. Lembrando
que com 27 senadores é possível abrir uma CPI, com 41 senadores se elege o
presidente da Casa, com esse mesmo número é possível barrar uma indicação do
presidente ao STF, e com 54 senadores é possível aprovar o impeachment de um
ministro do STF. Reparem que, a depender do tema e dos interesses em questão, o
Senado está praticamente interditado para a tramitação de projetos do governo,
bem como as condições para uma ofensiva golpista estão mais facilitadas.
Os
números mostram um avanço avassalador da extrema-direita em todas as estruturas
do Poder Legislativo do país entre 2022 e 2026. O que não nos autoriza a dizer
que a vitória de Lula foi uma “revolução democrática” que enterrou a
extrema-direita no país; pelo contrário, o levante que proporcionou a virada no
segundo turno foi uma façanha defensiva da resistência à extrema-direita, que
evitou momentaneamente o avanço de uma contrarrevolução que ainda está em
curso. Até porque o resultado eleitoral do segundo turno revela que o Brasil
segue dividido politicamente e que metade da sociedade brasileira
deliberadamente quis entregar o país para o candidato de Trump.
Então
não é difícil prever que os próximos quatro anos serão de tensões, turbulências
e dificuldades para garantir a governabilidade. Lula foi reeleito, mas a
correlação de forças no Congresso Nacional piorou substancialmente. Enquanto
escrevemos este artigo, a patronal aliada da extrema-direita iniciou um
movimento para demitir trabalhadores petistas. Além disso, a notícia de que
Flávio Bolsonaro fugiu para os EUA já está em toda a imprensa brasileira. Até
agora, o presidente Donald Trump não reconheceu oficialmente o resultado das
eleições no Brasil, e todos os sinais emitidos apontam que a família Bolsonaro,
em parceria com o governo americano, vai trabalhar permanentemente para
desestabilizar o governo brasileiro, criando um ambiente de golpismo latente.
A
situação colocada indica que não haverá paz no Brasil, a polarização ainda está
na ordem do dia e o governo vai ser obrigado a organizar uma articulação ampla
no Congresso que tem custos políticos desagradáveis para aprovar projetos. Mas
não poderá contar somente com movimentações institucionais; será absolutamente
necessário organizar um plano de mobilização permanente nas ruas e nas redes. A
experiência bem-sucedida do canal “Exército do Lula” precisa ser incorporada ao
cotidiano do governo em conjunto com a participação popular. Assim como o
processo de mobilização em torno do fim da escala 6×1 também foi um diálogo
muito exitoso do governo com a classe trabalhadora brasileira. Uma frente ampla
liderada pela esquerda precisa atuar em unidade permanente com Lula na
Presidência em torno de pautas populares que têm a simpatia das amplas massas
para conseguir colocar o Congresso na defensiva. Isso significa que figuras
ligadas à articulação nas redes e com movimentos populares nas ruas, como
Janones e Guilherme Boulos, precisam fazer parte do próximo governo para
aprimorar o poder de comunicação e mobilização. Como também as bancadas dos
partidos de esquerda precisam ter a maturidade política em saber fazer o bom
combate, mas com a flexibilidade tática necessária para proteger o governo de
derrotas fatais.
Na
dimensão estratégica que envolve um projeto de futuro para o desenvolvimento do
país, o governo Lula precisa focar em programas que avancem na superação da
dependência tecnoindustrial do Brasil, para gerar milhões de empregos
especializados com bons salários. Isso significa ampliar e fortalecer as atuais
missões do programa Nova Indústria Brasil em parceria com países do Sul Global,
incluindo a construção de uma infraestrutura digital nacional para competir com
as plataformas estrangeiras. O país que criou o Pix pode também desenvolver
redes sociais e plataformas para comércio e logística com qualidade igual ou
superior às que operam hoje no país e que estão interferindo em nossas questões
internas para satisfazer os interesses americanos.
Dar
hierarquia à questão nacional e saber envolver o povo brasileiro na defesa de
nossos recursos naturais e de nossa soberania será outro desafio que não poderá
falhar. Isso também significa envolver, nessa frente ampla em construção,
setores das Forças Armadas e da segurança pública simpáticos à construção de um
projeto nacional para o país, ainda que, hoje, essas frações militares sejam
minoritárias. Não podemos negligenciar por mais nenhum minuto a elaboração de
uma política que dialogue com setores das forças militares “não bolsonaristas”
da ativa e da reserva para iniciativas comuns, construindo uma nova relação que
crie as condições não só para projetos de desenvolvimento nacional, mas para
isolar ou mitigar qualquer possibilidade de reações golpistas influenciadas
pela Casa Branca.
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A posição do Brasil no tabuleiro global
Como já
assinalamos, Lula venceu a eleição presidencial, mas terá que lidar com um
Congresso ainda mais hostil, com um número imenso de parlamentares alinhados
com os interesses americanos e da grande burguesia brasileira. Mas, como se não
bastasse, a situação fica ainda mais preocupante, pois o Brasil está
politicamente isolado na América Latina, contando com poucos governos aliados.
Será praticamente impossível articular a curto prazo um movimento de integração
regional capaz de fazer frente aos interesses do imperialismo ocidental na
região. Pelo contrário, o Brasil está ainda mais vulnerável a possíveis
ofensivas que podem desestabilizar politicamente o país no próximo período, o
que nos obriga a buscar articulações ainda mais sólidas para além da América
Latina.
A
próxima presidência do Brics estará sob a liderança da China, gerando uma
expectativa promissora para o avanço de projetos que podem fortalecer as
relações entre os países do Sul Global. O próximo governo Lula precisa se
apoiar nessa articulação para acumular forças no cenário internacional, mas
também para impulsionar iniciativas de cooperação que impulsionem o
desenvolvimento tecnoindustrial do Brasil. Estamos diante de muitas ameaças
perigosas, mas também de janelas de oportunidades únicas no tempo histórico em
que vivemos, no qual podemos ampliar nossa capacidade de liderar nichos
econômicos estratégicos na fronteira tecnológica e diminuir a drenagem de
riqueza que sai do Brasil para enriquecer o Norte Global. Ampliando as
oportunidades de gerar mais qualidade de vida para o povo brasileiro,
especialmente para as novas gerações que desejam arrancar alegria do futuro.
Campanha
da Japonesa movimenta consumidores no BrasilOfertas em Destaque
Nos
próximos dias, teremos o resultado eleitoral em países que formam o núcleo
dirigente do imperialismo ocidental (EUA e Israel). Donald Trump e Benjamin
Netanyahu vão estar sob o julgamento de americanos e israelenses; protestos
significativos são vistos nas ruas desses dois países, expressando que a
insatisfação popular cresceu, mas não é possível afirmar se o resultado será
desfavorável ao ponto de bloquear as iniciativas desses países no cenário
global. Além disso, no final de novembro haverá também eleições na Espanha, que
é um dos poucos países europeus que têm questionado os abusos americanos, os
absurdos promovidos por Israel e as guerras promovidas pela Otan. A eleição de
Lula no Brasil significou esperança para todos que estão lutando neste momento
contra o avanço da extrema-direita em todo o mundo. Esperamos que os ventos da
resistência que sopraram no Brasil possam inspirar vitórias que ajudem a
modificar o tabuleiro global e impor derrotas ainda mais expressivas para as
forças que comandam o imperialismo.
¨
Sayid Marcos Tenório: A vitória de Lula e os desafios da
política externa
A
emblemática vitória de Lula no segundo turno afirma um Brasil que decide seu
próprio destino e atua pela construção de uma ordem internacional menos
desigual. Na minha avaliação, o resultado impõe uma derrota ao projeto
bolsonarista de subordinar a política externa brasileira aos interesses dos
Estados Unidos e de “Israel”.
O
balanço eleitoral apresentado registra 64.256.232 votos para Lula, equivalentes
a 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro, ou 48,21%. A
vantagem foi de 4.430.191 votos. No primeiro turno, Lula havia recebido 45,16%,
diante dos 47,03% do adversário.
A
vitória de virada revelou a reação de uma candidatura que retomou a mobilização
popular e conseguiu ampliar sua votação em mais de dez milhões de votos.
A
vitória de Lula e a centralidade da soberania em seu discurso abrem caminho
para um novo patamar de atuação do Brasil no cenário internacional. Ao afirmar
o direito de decidir seu próprio destino, o país pode fortalecer a luta de
povos que enfrentam a ocupação e a negação de seus direitos, como o palestino e
o saaraui, oferecendo uma referência de autonomia e solidariedade.
Lula
denunciou o genocídio em Gaza, condenou a perseguição sionista ao povo
palestino e cobrou uma resposta internacional à devastação. Sua postura
confrontou a complacência de governos que oferecem proteção política e apoio
militar a “Israel”, reafirmando que nenhum Estado está acima do direito
internacional, tampouco os Estados Unidos e “Israel”.
Na
Palestina, Lula recebeu 1.000 votos, ou 95,60%, contra 46 de Flávio. Embora o
voto tenha múltiplas motivações, interpreto essa preferência como afinidade com
a defesa dos direitos palestinos sustentada pelo presidente.
Em
“Israel”, Flávio recebeu 699 votos, contra 166 de Lula. Na minha leitura, essa
preferência sugere identificação com o apoio de Jair e Flávio Bolsonaro às
políticas de Netanyahu, orientadas pelo supremacismo sionista em detrimento dos
direitos palestinos.
A
relação de Lula com a Palestina tem história. Em 2010, seu governo reconheceu o
Estado palestino nas fronteiras de 1967. Como examino em meu livro Palestina:
do mito da terra prometida à terra da resistência, reconhecer a
autodeterminação palestina significa tratar esse povo como sujeito de direitos
e de soberania.
O novo
mandato do Lula precisa converter essa posição em medidas concretas, como
interromper o fornecimento de petróleo e aço a “Israel” e rever e cancelar
contratos de compra de armas e equipamentos tecnológicos israelenses.
O
Brasil deve contribuir para encerrar a ocupação e proteger a população
palestina. A solidariedade exige decisões diplomáticas, comerciais e militares
coerentes, capazes de enfrentar a impunidade e sustentar o direito palestino à
liberdade.
Ao
condenar os ataques dos Estados Unidos e de “Israel” contra a República
Islâmica do Irã, o Brasil afirmou sua autonomia diplomática e a defesa da
soberania iraniana. O novo mandato precisa transformar essa posição em
iniciativas diplomáticas pela paz, pelo respeito à autodeterminação do povo
iraniano e pela rejeição de novas agressões militares.
A
autonomia brasileira exige diálogo, rejeição às agressões militares e defesa do
direito de todos os países, inclusive Brasil e Irã, de desenvolver tecnologia
nuclear para fins pacíficos, sob salvaguardas internacionais. Se Estados
Unidos, “Israel” e outros países utilizam essa tecnologia, seu domínio não pode
constituir privilégio de poucos.
A
Declaração de Teerã, firmada por Brasil, Turquia e Irã em maio de 2010,
demonstrou que o Sul Global pode construir alternativas negociadas. Essa
experiência deve orientar iniciativas pela paz, pela não proliferação e pelo
acesso à energia nuclear para fins científicos, médicos e de desenvolvimento.
Sob
Lula, o Brasil deve fortalecer o BRICS e o Mercosul como eixos de sua inserção
internacional, aprofundando a cooperação, ampliando alternativas de
financiamento e consolidando parcerias científicas, econômicas e tecnológicas.
Essa atuação deve transformar a integração regional e a articulação do Sul
Global em desenvolvimento, autonomia e maior capacidade de decisão no cenário
mundial.
O
fortalecimento do Mercosul é estratégico para a soberania brasileira, porque
amplia mercados, articula cadeias produtivas e viabiliza projetos de
infraestrutura que conectam nossas economias.
A
integração regional fortalece a indústria, gera empregos e amplia o poder de
negociação dos países do bloco diante das grandes potências. Uma região capaz
de coordenar interesses e compartilhar capacidades tem melhores condições de
transformar autonomia política em desenvolvimento.
O
Brasil deve afirmar seu compromisso com o Sul Global e a soberania dos povos,
defender a liberdade da Palestina, respeitar a soberania do Irã e trabalhar
pelo fim definitivo do colonialismo na África, com o reconhecimento da
República Árabe Saaraui Democrática.
O novo
mandato do presidente Lula precisa transformar solidariedade em ação
diplomática e autodeterminação em compromisso efetivo. Nenhum povo pode ter seu
destino submetido à ocupação ou à agressão militar. Nosso futuro não pode ser
entregue às prioridades dos Estados Unidos e de “Israel”.
Fonte:
Brasil 247

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