Fiscais
apontam exposição a mercúrio de garimpeiros resgatados do trabalho escravo
COM
ÁGUA ATÉ A CINTURA, um garimpeiro se banhava no lago formado em uma cratera
aberta pela extração de ouro e “possivelmente contaminado” por mercúrio,
escreveram auditores fiscais do Trabalho que participaram de uma operação que
resgatou duas pessoas do trabalho escravo em um garimpo em Novo Mundo (MT), em
fevereiro de 2020.
Segundo
o relatório do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) sobre o caso, acessado
pela Repórter Brasil, os trabalhadores manuseavam a substância sem luvas,
óculos ou respiradores adequados, “provavelmente inalando os vapores
extremamente tóxicos do mercúrio”.
“O
trabalhador é a primeira pessoa a sofrer as consequências do meio ambiente
degradado e a se contaminar por mercúrio”, afirma Eduardo Serra, procurador do
Trabalho em Santarém (PA) e coordenador do grupo Trabalho Decente na Mineração
do MPT (Ministério Público do Trabalho).
Altamente
tóxico, o mercúrio é usado na mineração para separar o ouro de impurezas. Parte
da substância utilizada na atividade chega aos rios e pode se acumular nos
peixes consumidos por indígenas e populações ribeirinhas.
A
intoxicação pelo metal pode causar tremores e danos aos rins, além de
comprometer movimentos, equilíbrio, memória, fala, visão e audição. Gestantes
são especialmente vulneráveis, já que o metal pode prejudicar a formação do
cérebro do feto.
Uma
análise da Repórter Brasil identificou 11 relatórios de fiscalizações
trabalhistas em garimpos de ouro na Amazônia Legal onde é relatado o risco de
intoxicação por mercúrio. Os documentos, relativos a operações de campo
realizadas entre 2020 e 2024, estão disponíveis no site do MTE.
As
operações ocorreram no Pará, Mato Grosso e Amazonas, e resultaram no resgate de
134 pessoas do trabalho escravo. Em pelo menos 8 dos 11 casos, os garimpos não
tinham autorização para funcionar ou extraíam ilegalmente o minério.
Apesar
de fiscalizações ambientais continuarem encontrando mercúrio em áreas de
mineração de ouro, não existe hoje no Brasil estoque de origem lícita da
substância para uso na atividade, afirmou o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) à Repórter Brasil em reportagem
publicada em agosto.
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Sem equipamentos de proteção e roupas adequadas
As duas
vítimas resgatadas no garimpo em Novo Mundo estavam alojadas em um barracão de
madeira sem instalações sanitárias e local para refeições adequados. Os
trabalhadores também não recebiam equipamentos de proteção individual ou
vestimentas próprias para a atividade.
Por
isso, “suas roupas e pertences pessoais ficassem contaminados” com mercúrio,
outras substâncias tóxicas, terra e poeira, afirma o relatório de fiscalização.
No
momento da inspeção, o garimpeiro que se banhava na cratera aberta pela
mineração — um dos dois resgatados do trabalho escravo — tentava retirar o
excesso de lama do corpo e das roupas antes de comer, diz o documento.
Essa
situação, segundo os auditores, “demonstra a preocupação do empregado para com
o asseio pessoal, que não podia ser atendida por conta da falta de estrutura
mínima de higiene e conforto, trazendo claros prejuízos de ordem física e
moral”.
Na
avaliação dos fiscais, as condições degradantes às quais os dois trabalhadores
eram submetidos permitiram caracterizar a redução à condição análoga à de
escravo, crime previsto no Código Penal brasileiro.
Também
por condições degradantes, quatro trabalhadores foram resgatados do trabalho
escravo em um garimpo em Rio Maria, no Sul do Pará, em maio de 2021.
No
relatório de fiscalização, os auditores registraram que o meio ambiente estava
contaminado pelo mercúrio utilizado na atividade. Segundo o documento, a
substância “escoava para a água acumulada nas áreas exploradas, podendo
contaminar diretamente o solo, coleções de água, lençóis freáticos, vegetações
e animais”.
“Foi
verificado ainda que não havia nenhuma proteção coletiva para a execução do
processo final de obtenção do ouro”, quando os trabalhadores eram expostos ao
“risco de intoxicação por mercúrio na sua forma gasosa”, afirma o relatório.
Outro
caso ocorreu em um garimpo ilegal em Jacareacanga (PA), na bacia do Tapajós,
onde 31 trabalhadores foram resgatados do trabalho escravo em outubro de 2020.
O
relatório da operação destaca a “manipulação de mercúrio” pelos trabalhadores e
o “risco potencial de poluição da água e do solo” pela substância.
Apesar
da exposição a mercúrio, máquinas pesadas, ruídos, quedas e desmoronamentos de
terra das minas, não havia exames ocupacionais nem acompanhamento médico no
local.
Além
disso, nenhum equipamento de proteção era fornecido gratuitamente. As poucas
botas utilizadas tinham sido levadas pelos próprios garimpeiros ou compradas no
estabelecimento por valores estipulados pela empregadora.
Nos
outros oito resgates levantados pela reportagem, os relatórios de fiscalização
citam situações semelhantes ou apenas fazem menção ao uso de mercúrio na
atividade.
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Informalidade é a regra nos garimpos, diz auditor fiscal do Trabalho
A bacia
do Tapajós, no Sudoeste do Pará, está entre as regiões brasileiras com maior
concentração de mineração de ouro em pequena escala, segundo um estudo de 2024
do UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) sobre as condições
de trabalho na atividade.
De
acordo com a publicação, 40% dos 863 garimpeiros entrevistados podem ter sido
vítimas de tráfico de pessoas para fins de trabalho escravo, segundo
indicadores considerados pelos autores. A jornada média de trabalho era de 12,5
horas por dia, durante seis dias e meio por semana. Mais da metade dos
trabalhadores recebia pagamentos abaixo do salário mínimo ou do valor
combinado.
Outros
44% disseram que exerciam funções diferentes das prometidas durante o
recrutamento, e 40% relataram que
mercadorias e serviços fornecidos pelos empregadores tinham preços
inflacionados.
Dois
terços dos entrevistados tiveram de providenciar os próprios equipamentos de
proteção, 44% relataram ter ficado gravemente feridos no trabalho em garimpos e
85% disseram necessitar de atendimento médico profissional.
“A
informalidade é a regra nos garimpos”, afirma o auditor fiscal do Trabalho
Magno Riga, coordenador do GEFM (Grupo Especial de Fiscalização Móvel) do
Ministério do Trabalho.
“O
garimpeiro se enxerga como um trabalhador por conta própria. No entanto, sua
autonomia é mínima, pois depende totalmente do dono do garimpo para o
transporte aéreo, alojamento e suprimentos”, avalia.
Segundo,
ele, a inspeção trabalhista frequentemente identifica uma estratégia comum dos
empregadores para obter a PLG (Permissão de Lavra Garimpeira): a criação de
cooperativas de garimpo.
“Elas
funcionam como empresas disfarçadas apenas para obter essa autorização, sem que
os trabalhadores sejam de fato cooperados ou recebam qualquer benefício”,
explica.
No caso
do garimpo de Jacareacanga, por exemplo, nenhum dos garimpeiros entrevistados
pelos fiscais sabia da existência ou mencionou ligação com a cooperativa
presidida pela empregadora.
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Adoecimento por mercúrio nem sempre chega à fiscalização
A falta
de exames médicos e a subnotificação do adoecimento dificultam dimensionar o
problema, avalia o procurador do Trabalho Eduardo Serra.
Segundo
ele, casos de trabalhadores atendidos por lesões ou contaminação por mercúrio
nos serviços de saúde nem sempre são comunicados ao MPT ou ao MTE. A falha
prejudica tanto o diagnóstico do problema quanto a formulação de políticas
públicas.
Magno
Riga, do MTE, reforça que “os garimpeiros raramente recebem equipamentos de
proteção individual, treinamento ou exames médicos”.
As
denúncias feitas por trabalhadores também são escassas.
“Diferentemente
do que acontece em outros setores como a pecuária, dos quais recebemos
denúncias detalhadas com localização e nomes de proprietários, nos garimpos as
denúncias diretas são raras e genéricas”, diz o auditor fiscal.
Segundo
Riga, a fiscalização trabalhista chega aos garimpos principalmente motivada por
investigações de crimes ambientais ou outros delitos, em operações conjuntas
com a Polícia Federal, o Ibama e o MPT.
Além
disso, ir aos locais de exploração exige percorrer grandes distâncias por
estradas precárias ou acessar áreas isoladas na floresta.
“Há uma
crônica falta de estrutura estatal em todos os níveis, evidenciada pelo déficit
de auditores fiscais do trabalho e de fiscais ambientais para cobrir a extensão
territorial”, afirma Serra, do MPT.
“Se
houvesse uma fiscalização trabalhista atuante e estruturada, garantindo a
observância das normas regulamentadoras, os exames preventivos e o registro
formal, os graves desastres socioambientais que presenciamos não atingiriam
essas proporções”, afirma.
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Norma de segurança não acompanha a realidade do garimpo, avalia auditor
A
NR-22, norma do Ministério do Trabalho sobre segurança na mineração, determina
que os responsáveis pelos garimpos identifiquem os perigos e protejam os
trabalhadores. Também exige a interrupção de atividades que os exponham a
“condições de grave e iminente risco para sua saúde e segurança”.
Embora
não mencione o mercúrio pelo nome, a regra exige proteção respiratória. Na
atividade garimpeira, isso inclui avaliar e controlar a exposição a vapores
durante a separação do ouro e fornecer gratuitamente equipamentos individuais
adequados aos riscos.
A NR-22
determina também que os empregadores mantenham instalações adequadas para o
banho de quem trabalha com substâncias tóxicas que possam ter contato com a
pele e as roupas.
Para
Magno Riga, porém, essas exigências não respondem adequadamente às
particularidades do garimpo de pequeno porte. O auditor considera “torta” a
aplicação dessas normas, porque os fiscais precisam adaptar regras gerais a uma
atividade marcada pelo improviso e pela informalidade.
“A
NR-22 foi concebida e atualizada tendo em vista a mineração industrial e de
grande porte. Embora seja juridicamente a norma aplicável aos garimpos, do
ponto de vista técnico ela não foi desenhada para a realidade do garimpo
artesanal de ouro do Tapajós”, afirma.
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Combate deve alcançar financiadores, defende procurador
Para o
procurador Eduardo Serra, interromper o ciclo de exploração e adoecimento dos
trabalhadores exige distinguir quem trabalha no garimpo de quem o financia.
Ele
explica que até para deixar o local os garimpeiros dependem dos empregadores,
enquanto estes têm recursos para comprar escavadeiras e repor equipamentos
destruídos pelas fiscalizações.
“O MPT
busca atuar nos elos fortes da cadeia produtiva do ouro para responsabilizar os
grandes financiadores e grupos econômicos que efetivamente lucram com essa
exploração”, afirma o procurador.
Depois
do resgate do trabalho escravo, o desafio é oferecer condições para que o
trabalhador não volte ao garimpo para sobreviver. Serra defende medidas para
além do seguro-desemprego e do encaminhamento à assistência social.
“Sem
programas estruturados de reinserção socioeconômica e formação profissional, os
trabalhadores resgatados permanecem em vulnerabilidade e acabam reingressando
no ciclo do trabalho escravo”, afirma.
Fonte:
Repórter Brasil

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