Ricardo
Henrique: A alegria de seguir construindo o futuro
Há
momentos em que a alegria é também uma forma de compromisso com o futuro. Hoje,
sinto essa alegria ao celebrar a democracia e a oportunidade de seguir
melhorando o Brasil.
É uma
alegria que convive com a consciência do tamanho dos nossos desafios.
Conhecemos as desigualdades que atravessam o país, as dificuldades cotidianas
de milhões de famílias e a distância que ainda separa os direitos assegurados
das oportunidades efetivamente disponíveis. Justamente por isso, ter a
possibilidade de avançar, corrigir caminhos e construir novas respostas é
motivo de esperança.
A
democracia nos oferece algo precioso: a capacidade de transformar o país com
liberdade, participação e respeito às diferenças. Podemos discordar, disputar
prioridades, cobrar resultados e rever decisões. Podemos reconhecer conquistas
e exigir mais. Podemos fazer escolhas sobre o futuro que desejamos
compartilhar.
Essa
possibilidade merece ser celebrada. E merece ser aproveitada com generosidade,
responsabilidade e ambição.
Agora
podemos pensar no Brasil 4.0.
Um
Brasil que enfrente suas dívidas históricas e, ao mesmo tempo, se prepare para
as transformações que já estão reoryganizando a vida no planeta. Um país capaz
de conectar o combate à pobreza e às desigualdades com a inteligência
artificial, a transição ecológica, as mudanças no mundo do trabalho e o
envelhecimento da população.
Essas
agendas se encontram na vida concreta. Estão na escola que precisa preparar os
jovens para um mundo em transformação. No trabalhador que busca segurança para
aprender uma nova profissão. Na mulher que precisa de uma rede de cuidados para
estudar, trabalhar e realizar seus projetos. Na família cuja casa e cuja renda
estão ameaçadas por eventos climáticos extremos. No pequeno empreendedor que
precisa de crédito, conhecimento e condições para prosperar.
Pensar
o Brasil 4.0 é organizar nossas capacidades para que essas pessoas tenham mais
escolhas e possam construir suas trajetórias com dignidade.
Temos
condições de fazer isso. O Brasil reúne uma enorme diversidade de talentos,
instituições de pesquisa, experiências de políticas públicas, capacidade
produtiva e um patrimônio ambiental extraordinário. Há criatividade e
conhecimento em nossas universidades, empresas, organizações sociais, serviços
públicos e territórios. Há muita gente fazendo a diferença todos os dias.
Precisamos
conectar essas forças em torno de um projeto de desenvolvimento que tenha as
pessoas no centro.
A
educação é decisiva nessa construção. Cada criança que aprende a ler na idade
certa ganha condições de ampliar seu universo. Cada jovem que encontra sentido
na escola e conclui a educação básica com aprendizagem tem mais possibilidades
de escolher seu caminho. Cada professor valorizado, apoiado e bem preparado
fortalece nossa capacidade coletiva de construir o futuro.
Uma
sociedade que deseja inovar precisa cuidar das condições que permitem a todos
aprender. Isso exige enfrentar as desigualdades de renda, raça, gênero e
território que ainda distribuem de maneira tão injusta as oportunidades no
país. Nenhum país se desenvolve desperdiçando talento.
Também
podemos avançar para uma nova política social: uma proteção que acolha as
pessoas diante das dificuldades e amplie suas possibilidades de autonomia. Isso
requer serviços conectados, atenção às diferentes vulnerabilidades e capacidade
de acompanhar as famílias ao longo de suas trajetórias. Renda, educação, saúde,
moradia, cuidado e trabalho precisam conversar entre si.
Esse
projeto também exige responsabilidade com as contas públicas. Precisamos
construir um equilíbrio fiscal duradouro, que assegure ao Estado condições de
investir e sustentar políticas públicas de qualidade. O ajuste fiscal deve
preservar os programas sociais e a renda das famílias mais pobres. Seu caminho
passa por enfrentar privilégios, rever benefícios tributários sem resultados
comprovados e tornar a arrecadação mais justa. Melhorar a qualidade do gasto e
exigir maior contribuição de quem tem maior capacidade de contribuir são
escolhas que permitem cuidar das contas públicas e reduzir desigualdades. A
responsabilidade fiscal ganha sentido quando fortalece nossa capacidade de
garantir direitos e ampliar oportunidades.
A
tecnologia pode nos ajudar muito nesse esforço de melhorar a atuação do Estado.
Pode qualificar os serviços públicos, apoiar professores, facilitar o acesso a
direitos e ampliar a capacidade de responder às necessidades da população.
Precisamos orientar seu uso por escolhas públicas claras, com transparência e
compromisso com a redução das desigualdades.
O mesmo
vale para a transição ecológica. Temos a oportunidade de associar a proteção
dos nossos biomas à geração de conhecimento, trabalho e renda. De preparar
cidades, escolas e serviços para um clima que já mudou. De fazer da nossa
diversidade ambiental uma fonte de prosperidade compartilhada, reconhecendo os
direitos e os conhecimentos das populações que cuidam desses territórios.
Construir
esse Brasil exige capacidade de realização. Objetivos claros, cooperação entre
os diferentes níveis de governo, continuidade, avaliação e disposição para
aprender com o que funciona. Exige reconhecer boas experiências,
independentemente de sua origem política, e dar escala às soluções que melhoram
a vida das pessoas.
Há
espaço para muita gente nessa tarefa. A democracia se fortalece quando
diferentes visões encontram condições de disputar projetos e de cooperar.
Quando conseguimos enxergar no outro alguém com quem compartilhamos a
responsabilidade pelo país.
É esse
horizonte que me anima: a possibilidade de recuperar nossa capacidade de
imaginar um futuro generoso e de trabalhar para realizá-lo. Um futuro em que os
jovens encontrem razões para ter esperança. Em que o lugar de nascimento de uma
criança deixe de determinar suas oportunidades. Em que viver com dignidade seja
uma experiência acessível a todos.
A
alegria de hoje renova minha disposição para essa construção. Temos a
oportunidade de seguir melhorando, com mais ambição e com tudo o que aprendemos
ao longo do caminho.
Celebremos
a democracia. E façamos dessa esperança uma força para construir o Brasil 4.0.
• Primavera do Povo. Por André Naves
Noite
de 25 de outubro de 2026. Naquele momento em que o frio na barriga ainda
reinava, o Brasil se reconheceu na rua, na emoção, no coração, na Esperança!
Flores, luzes… Primavera brasileira!
Pensa
comigo…
Os
números falam alto. O Presidente Lula recebeu 64.256.232 votos — 51,75% dos
válidos.
No
primeiro turno, em 4 de outubro, ele havia perdido: 53,8 milhões de votos,
45,16%, contra os quase 47% de Flávio Bolsonaro. Medo. Desespero. Aflição!
Entre
um turno e outro, o presidente conquistou 10.376.694 votos. O adversário,
3.721.538. A desvantagem de 2,1 milhão virou vantagem de 4.392.907. A abstenção
caiu ao menor patamar de um segundo turno desde 2018: brancos e nulos somaram
apenas 3,24%. Nunca, desde a redemocratização, alguém havia virado um placar
presidencial entre o primeiro e o segundo turno. Nunca ninguém havia sido
eleito quatro vezes presidente da República.
No
entanto, nenhum número explica o que aconteceu numa padaria de Pirituba quando
a TV anunciou o resultado. Nenhum número explica a senhora de setenta anos que
abriu a janela e cantava com os olhos molhados. Alma lavada! Nenhum número
explica o motorista que parou o carro, desceu e abraçou um estranho. Nenhum
número explica o menino que vestiu a camiseta vermelha pela primeira vez.
A
campanha venceu nas ruas, nas redes, nos corações, nas mentes… A campanha
venceu porque despertou Pertencimento. Despertou a Esperança!
Pertencer
é se sentir autor. É olhar para uma vitória e enxergar nela um pedaço do
próprio trabalho. Do próprio esforço! É aquela sensação: “essa vitória também é
minha!” Era vibrante! Todo mundo querendo fazer parte. Todo mundo querendo ser
um pouco co-autor da vitória.
Nas
ruas e nas redes, milhões se tornaram protagonistas — não apenas espectadores.
Sem vergonha. Sem pedir licença. A camiseta, o adesivo, o vídeo caseiro, a
selfie, o grupo da família que antes era só “bom dia”… No fundo, a campanha
deixou de ser sobre só um candidato e passou a ser sobre todo o povo… Todos
nós!
Assim
que as ruas se encheram. Começou naquela faísca dos alunos da Universidade
Federal Fluminense que se espalhou, igual rastilho de pólvora, para todo o
Brasil. Era a Esperança ganhando corpo… Virando canto de Esperançar! Virando
companhia, caminhada, carreata, gente reunida!
Essa
histórica vitória foi construída da diversidade inteira do povo brasileiro!
Foi
construída pelas mulheres, que são a maioria do eleitorado brasileiro e que,
nesta campanha, foram mais do que maioria: foram corpo, voz e resistência. A
mãe que saiu do trabalho e foi votar. A avó que levou a neta pela mão. A chefe
de família que criou três filhos sozinha e nunca teve tempo de acreditar em
nada além do dia seguinte — e que, desta vez, acreditou. A mulher que
atravessou a violência e ainda assim encontrou Esperança em novos dias.
As
mulheres sustentaram essa campanha com a mesma força com que sustentam este
país!
Foi
construída pelos idosos (E aqui eu preciso parar, enxugar a emoção dos meus
olhos, e pedir palmas para eles).
Os
idosos foram votar. Foram de bengala, de andador, de cadeira de rodas, de braço
dado ao filho. Foram debaixo de chuva, em transportes falhos e precarizados, em
prédios com degrau e sem rampa, em seções eleitorais onde a acessibilidade não
existe… Mas foram! Contra tudo e todos… Foram!
Enfrentaram
o preconceito e foram. Sabe aquela ideia insensível de que idoso só serve pra
ser conduzido, tutelado… De que sua opinião é ridícula, seu voto é inválido,
sua presença é incômoda?
Com
elegância e força eles provaram que nada disso é verdade.
Foram,
ainda, enfrentando riscos. Saúde frágil, a chuva, a violência, o medo… E ainda
assim os idosos foram…
Por
quê?
Porque
lembram. Viveram o suficiente para ver o Brasil sem esperança. Atravessaram a
ditadura, viram a fome voltar, viram pandemias, descaso e mortes, viram
torturas e injustiças… Viram a exclusão, olhos nos olhos…
Gritaram
“eu ainda estou aqui”!
Foi
construída pelos jovens.
Os
jovens articularam, estimularam, levantaram a chama. Foram eles que ocuparam as
redes nesse dialeto tão charmoso deles. Foram eles que ensinaram pro avô como
funcionava o aplicativo, que gravaram o vídeo, que colaram o adesivo, que
organizaram o grupo, que levaram a campanha nas costas e no celular.
Os
jovens foram a primeira faísca. Desde Niterói para todo o Brasil.
Cresceram
vendo o mundo em crise, o emprego precarizado, o futuro só prometido, a
mentira… Mas escolheram a Esperança. Não a esperança vazia de quem não sabe o
tamanho do problema, mas a Esperança de quem conhece, e ainda assim toma a
decisão de resolver. Foi ela que saiu da indignação pra organização e ação. Que
trocou o comodismo pela construção.
Enxergue
a Beleza da cena: ontem, na mesma fila, estavam a menina de dezesseis anos e a
senhora de oitenta. A primeira votando pela primeira vez. A segunda, talvez,
uma das últimas. As duas, juntas, votando pela mesma coisa — um Brasil onde
ninguém seja deixado para trás.
Essa é
a verdadeira diversidade do povo brasileiro. É gente de carne e osso, de
idades, cores, credos, corpos e histórias diferentes, fazendo a mesma escolha.
É a trabalhadora da indústria e o estudante da escola pública, a benzedeira do
interior e a pesquisadora da universidade, o ribeirinho e o quilombola, a
pessoa com deficiência, o homem que empurrou a cadeira de rodas da mãe…
Esse é
o ponto que o outro lado é incapaz de entender. Apostaram no medo. O medo a
curto prazo paralisa, cala, faz baixar a cabeça. Mas não constrói nada. O medo
não convoca ninguém para o dia seguinte. O medo não vira mutirão, não vira
campanha, não vira voto. É impossível construir uma vitória sustentável baseada
no medo.
A
Esperança venceu o medo!
Paulo
Freire ensinava que esperança não é esperar, é esperançar. Esperançar é verbo:
é levantar, é ir atrás, é construir. Foi isso que o Brasil fez. Não esperou que
o futuro chegasse. “Esperançou” e foi construir — de bengala, de celular, de
mãos dadas…
E o
povo brasileiro deu um exemplo importantíssimo para todo o planeta. Nos dias de
hoje a extrema-direita, o fascismo, avançam pelo mundo com seus planos de ódio,
sua indústria de mentira, seu desprezo pela dignidade. E o Brasil — este país
tantas vezes visto como eterno vira-lata, mostrou que não cabe no quintal de
ninguém…
Não
somos melhores que ninguém. Mas o dado concreto é que provamos que a mentira
pode ser derrotada, que o negacionismo pode ser vencido, que o medo pode ser
superado. O Brasil se tornou uma barreira sanitária contra o avanço do
fascismo. Se tornou o campo onde a luz voltou a nascer.
Mostramos
o valor da Esperança! Mostramos que só plantando rosas é possível enxergar a
Primavera.
Plantar
é só o começo, ainda precisa crescer e florescer. Nada está garantido. A
vitória precisa ser arada diariamente, com trabalho e disciplina. É que se a
vitória é um pouco minha, o sucesso do Brasil é minha responsabilidade. Quem se
sentiu parte da vitória, também deve ser responsável pelo desenvolvimento do
país.
O
pertencimento cria dever.
Somos
um povo ordeiro, decente, honesto e trabalhador. Ordem não é silêncio diante da
exclusão. Decência não é baixar a cabeça diante da injustiça. Honestidade não é
docilidade com o inaceitável. E trabalho não é apenas a força que move a
economia — é a inteligência que inventa saídas.
A
Esperança venceu o medo. Que essa vitória — fundada na emoção, no pertencimento
e na Esperança — não se perca nos gabinetes. Que ela continue sendo do povo.
Das mulheres que a sustentaram. Dos idosos que a protagonizaram. Dos jovens que
a acenderam.
E a
vitória só é histórica quando, depois dela, ninguém fica para trás: A primavera
começou. Agora é cuidar dela!
Fonte:
GGN

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