quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ricardo Henrique: A alegria de seguir construindo o futuro

Há momentos em que a alegria é também uma forma de compromisso com o futuro. Hoje, sinto essa alegria ao celebrar a democracia e a oportunidade de seguir melhorando o Brasil.

É uma alegria que convive com a consciência do tamanho dos nossos desafios. Conhecemos as desigualdades que atravessam o país, as dificuldades cotidianas de milhões de famílias e a distância que ainda separa os direitos assegurados das oportunidades efetivamente disponíveis. Justamente por isso, ter a possibilidade de avançar, corrigir caminhos e construir novas respostas é motivo de esperança.

A democracia nos oferece algo precioso: a capacidade de transformar o país com liberdade, participação e respeito às diferenças. Podemos discordar, disputar prioridades, cobrar resultados e rever decisões. Podemos reconhecer conquistas e exigir mais. Podemos fazer escolhas sobre o futuro que desejamos compartilhar.

Essa possibilidade merece ser celebrada. E merece ser aproveitada com generosidade, responsabilidade e ambição.

Agora podemos pensar no Brasil 4.0.

Um Brasil que enfrente suas dívidas históricas e, ao mesmo tempo, se prepare para as transformações que já estão reoryganizando a vida no planeta. Um país capaz de conectar o combate à pobreza e às desigualdades com a inteligência artificial, a transição ecológica, as mudanças no mundo do trabalho e o envelhecimento da população.

Essas agendas se encontram na vida concreta. Estão na escola que precisa preparar os jovens para um mundo em transformação. No trabalhador que busca segurança para aprender uma nova profissão. Na mulher que precisa de uma rede de cuidados para estudar, trabalhar e realizar seus projetos. Na família cuja casa e cuja renda estão ameaçadas por eventos climáticos extremos. No pequeno empreendedor que precisa de crédito, conhecimento e condições para prosperar.

Pensar o Brasil 4.0 é organizar nossas capacidades para que essas pessoas tenham mais escolhas e possam construir suas trajetórias com dignidade.

Temos condições de fazer isso. O Brasil reúne uma enorme diversidade de talentos, instituições de pesquisa, experiências de políticas públicas, capacidade produtiva e um patrimônio ambiental extraordinário. Há criatividade e conhecimento em nossas universidades, empresas, organizações sociais, serviços públicos e territórios. Há muita gente fazendo a diferença todos os dias.

Precisamos conectar essas forças em torno de um projeto de desenvolvimento que tenha as pessoas no centro.

A educação é decisiva nessa construção. Cada criança que aprende a ler na idade certa ganha condições de ampliar seu universo. Cada jovem que encontra sentido na escola e conclui a educação básica com aprendizagem tem mais possibilidades de escolher seu caminho. Cada professor valorizado, apoiado e bem preparado fortalece nossa capacidade coletiva de construir o futuro.

Uma sociedade que deseja inovar precisa cuidar das condições que permitem a todos aprender. Isso exige enfrentar as desigualdades de renda, raça, gênero e território que ainda distribuem de maneira tão injusta as oportunidades no país. Nenhum país se desenvolve desperdiçando talento.

Também podemos avançar para uma nova política social: uma proteção que acolha as pessoas diante das dificuldades e amplie suas possibilidades de autonomia. Isso requer serviços conectados, atenção às diferentes vulnerabilidades e capacidade de acompanhar as famílias ao longo de suas trajetórias. Renda, educação, saúde, moradia, cuidado e trabalho precisam conversar entre si.

Esse projeto também exige responsabilidade com as contas públicas. Precisamos construir um equilíbrio fiscal duradouro, que assegure ao Estado condições de investir e sustentar políticas públicas de qualidade. O ajuste fiscal deve preservar os programas sociais e a renda das famílias mais pobres. Seu caminho passa por enfrentar privilégios, rever benefícios tributários sem resultados comprovados e tornar a arrecadação mais justa. Melhorar a qualidade do gasto e exigir maior contribuição de quem tem maior capacidade de contribuir são escolhas que permitem cuidar das contas públicas e reduzir desigualdades. A responsabilidade fiscal ganha sentido quando fortalece nossa capacidade de garantir direitos e ampliar oportunidades.

A tecnologia pode nos ajudar muito nesse esforço de melhorar a atuação do Estado. Pode qualificar os serviços públicos, apoiar professores, facilitar o acesso a direitos e ampliar a capacidade de responder às necessidades da população. Precisamos orientar seu uso por escolhas públicas claras, com transparência e compromisso com a redução das desigualdades.

O mesmo vale para a transição ecológica. Temos a oportunidade de associar a proteção dos nossos biomas à geração de conhecimento, trabalho e renda. De preparar cidades, escolas e serviços para um clima que já mudou. De fazer da nossa diversidade ambiental uma fonte de prosperidade compartilhada, reconhecendo os direitos e os conhecimentos das populações que cuidam desses territórios.

Construir esse Brasil exige capacidade de realização. Objetivos claros, cooperação entre os diferentes níveis de governo, continuidade, avaliação e disposição para aprender com o que funciona. Exige reconhecer boas experiências, independentemente de sua origem política, e dar escala às soluções que melhoram a vida das pessoas.

Há espaço para muita gente nessa tarefa. A democracia se fortalece quando diferentes visões encontram condições de disputar projetos e de cooperar. Quando conseguimos enxergar no outro alguém com quem compartilhamos a responsabilidade pelo país.

É esse horizonte que me anima: a possibilidade de recuperar nossa capacidade de imaginar um futuro generoso e de trabalhar para realizá-lo. Um futuro em que os jovens encontrem razões para ter esperança. Em que o lugar de nascimento de uma criança deixe de determinar suas oportunidades. Em que viver com dignidade seja uma experiência acessível a todos.

A alegria de hoje renova minha disposição para essa construção. Temos a oportunidade de seguir melhorando, com mais ambição e com tudo o que aprendemos ao longo do caminho.

Celebremos a democracia. E façamos dessa esperança uma força para construir o Brasil 4.0.

•        Primavera do Povo. Por André Naves

Noite de 25 de outubro de 2026. Naquele momento em que o frio na barriga ainda reinava, o Brasil se reconheceu na rua, na emoção, no coração, na Esperança! Flores, luzes… Primavera brasileira!

Pensa comigo…

Os números falam alto. O Presidente Lula recebeu 64.256.232 votos — 51,75% dos válidos.

No primeiro turno, em 4 de outubro, ele havia perdido: 53,8 milhões de votos, 45,16%, contra os quase 47% de Flávio Bolsonaro. Medo. Desespero. Aflição!

Entre um turno e outro, o presidente conquistou 10.376.694 votos. O adversário, 3.721.538. A desvantagem de 2,1 milhão virou vantagem de 4.392.907. A abstenção caiu ao menor patamar de um segundo turno desde 2018: brancos e nulos somaram apenas 3,24%. Nunca, desde a redemocratização, alguém havia virado um placar presidencial entre o primeiro e o segundo turno. Nunca ninguém havia sido eleito quatro vezes presidente da República.

No entanto, nenhum número explica o que aconteceu numa padaria de Pirituba quando a TV anunciou o resultado. Nenhum número explica a senhora de setenta anos que abriu a janela e cantava com os olhos molhados. Alma lavada! Nenhum número explica o motorista que parou o carro, desceu e abraçou um estranho. Nenhum número explica o menino que vestiu a camiseta vermelha pela primeira vez.

A campanha venceu nas ruas, nas redes, nos corações, nas mentes… A campanha venceu porque despertou Pertencimento. Despertou a Esperança!

Pertencer é se sentir autor. É olhar para uma vitória e enxergar nela um pedaço do próprio trabalho. Do próprio esforço! É aquela sensação: “essa vitória também é minha!” Era vibrante! Todo mundo querendo fazer parte. Todo mundo querendo ser um pouco co-autor da vitória.

Nas ruas e nas redes, milhões se tornaram protagonistas — não apenas espectadores. Sem vergonha. Sem pedir licença. A camiseta, o adesivo, o vídeo caseiro, a selfie, o grupo da família que antes era só “bom dia”… No fundo, a campanha deixou de ser sobre só um candidato e passou a ser sobre todo o povo… Todos nós!

Assim que as ruas se encheram. Começou naquela faísca dos alunos da Universidade Federal Fluminense que se espalhou, igual rastilho de pólvora, para todo o Brasil. Era a Esperança ganhando corpo… Virando canto de Esperançar! Virando companhia, caminhada, carreata, gente reunida!

Essa histórica vitória foi construída da diversidade inteira do povo brasileiro!

Foi construída pelas mulheres, que são a maioria do eleitorado brasileiro e que, nesta campanha, foram mais do que maioria: foram corpo, voz e resistência. A mãe que saiu do trabalho e foi votar. A avó que levou a neta pela mão. A chefe de família que criou três filhos sozinha e nunca teve tempo de acreditar em nada além do dia seguinte — e que, desta vez, acreditou. A mulher que atravessou a violência e ainda assim encontrou Esperança em novos dias.

As mulheres sustentaram essa campanha com a mesma força com que sustentam este país!

Foi construída pelos idosos (E aqui eu preciso parar, enxugar a emoção dos meus olhos, e pedir palmas para eles).

Os idosos foram votar. Foram de bengala, de andador, de cadeira de rodas, de braço dado ao filho. Foram debaixo de chuva, em transportes falhos e precarizados, em prédios com degrau e sem rampa, em seções eleitorais onde a acessibilidade não existe… Mas foram! Contra tudo e todos… Foram!

Enfrentaram o preconceito e foram. Sabe aquela ideia insensível de que idoso só serve pra ser conduzido, tutelado… De que sua opinião é ridícula, seu voto é inválido, sua presença é incômoda?

Com elegância e força eles provaram que nada disso é verdade.

Foram, ainda, enfrentando riscos. Saúde frágil, a chuva, a violência, o medo… E ainda assim os idosos foram…

Por quê?

Porque lembram. Viveram o suficiente para ver o Brasil sem esperança. Atravessaram a ditadura, viram a fome voltar, viram pandemias, descaso e mortes, viram torturas e injustiças… Viram a exclusão, olhos nos olhos…

Gritaram “eu ainda estou aqui”!

Foi construída pelos jovens.

Os jovens articularam, estimularam, levantaram a chama. Foram eles que ocuparam as redes nesse dialeto tão charmoso deles. Foram eles que ensinaram pro avô como funcionava o aplicativo, que gravaram o vídeo, que colaram o adesivo, que organizaram o grupo, que levaram a campanha nas costas e no celular.

Os jovens foram a primeira faísca. Desde Niterói para todo o Brasil.

Cresceram vendo o mundo em crise, o emprego precarizado, o futuro só prometido, a mentira… Mas escolheram a Esperança. Não a esperança vazia de quem não sabe o tamanho do problema, mas a Esperança de quem conhece, e ainda assim toma a decisão de resolver. Foi ela que saiu da indignação pra organização e ação. Que trocou o comodismo pela construção.

Enxergue a Beleza da cena: ontem, na mesma fila, estavam a menina de dezesseis anos e a senhora de oitenta. A primeira votando pela primeira vez. A segunda, talvez, uma das últimas. As duas, juntas, votando pela mesma coisa — um Brasil onde ninguém seja deixado para trás.

Essa é a verdadeira diversidade do povo brasileiro. É gente de carne e osso, de idades, cores, credos, corpos e histórias diferentes, fazendo a mesma escolha. É a trabalhadora da indústria e o estudante da escola pública, a benzedeira do interior e a pesquisadora da universidade, o ribeirinho e o quilombola, a pessoa com deficiência, o homem que empurrou a cadeira de rodas da mãe…

Esse é o ponto que o outro lado é incapaz de entender. Apostaram no medo. O medo a curto prazo paralisa, cala, faz baixar a cabeça. Mas não constrói nada. O medo não convoca ninguém para o dia seguinte. O medo não vira mutirão, não vira campanha, não vira voto. É impossível construir uma vitória sustentável baseada no medo.

A Esperança venceu o medo!

Paulo Freire ensinava que esperança não é esperar, é esperançar. Esperançar é verbo: é levantar, é ir atrás, é construir. Foi isso que o Brasil fez. Não esperou que o futuro chegasse. “Esperançou” e foi construir — de bengala, de celular, de mãos dadas…

E o povo brasileiro deu um exemplo importantíssimo para todo o planeta. Nos dias de hoje a extrema-direita, o fascismo, avançam pelo mundo com seus planos de ódio, sua indústria de mentira, seu desprezo pela dignidade. E o Brasil — este país tantas vezes visto como eterno vira-lata, mostrou que não cabe no quintal de ninguém…

Não somos melhores que ninguém. Mas o dado concreto é que provamos que a mentira pode ser derrotada, que o negacionismo pode ser vencido, que o medo pode ser superado. O Brasil se tornou uma barreira sanitária contra o avanço do fascismo. Se tornou o campo onde a luz voltou a nascer.

Mostramos o valor da Esperança! Mostramos que só plantando rosas é possível enxergar a Primavera.

Plantar é só o começo, ainda precisa crescer e florescer. Nada está garantido. A vitória precisa ser arada diariamente, com trabalho e disciplina. É que se a vitória é um pouco minha, o sucesso do Brasil é minha responsabilidade. Quem se sentiu parte da vitória, também deve ser responsável pelo desenvolvimento do país.

O pertencimento cria dever.

Somos um povo ordeiro, decente, honesto e trabalhador. Ordem não é silêncio diante da exclusão. Decência não é baixar a cabeça diante da injustiça. Honestidade não é docilidade com o inaceitável. E trabalho não é apenas a força que move a economia — é a inteligência que inventa saídas.

A Esperança venceu o medo. Que essa vitória — fundada na emoção, no pertencimento e na Esperança — não se perca nos gabinetes. Que ela continue sendo do povo. Das mulheres que a sustentaram. Dos idosos que a protagonizaram. Dos jovens que a acenderam.

E a vitória só é histórica quando, depois dela, ninguém fica para trás: A primavera começou. Agora é cuidar dela!

 

Fonte: GGN

 

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