quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Imprensa internacional diz que Flávio replica padrão de reacionários que ‘recorrem aos EUA para fugir de crimes’

Veículos da mídia internacional repercutiram na terça-feira (27/10) a fuga de Flávio Bolsonaro (PL), dois dias após a derrota na disputa eleitoral. O jornal norte-americano The New York Times (NYT) lembra que a assistência prometida pelos Estados Unidos ao senador pode escalar as tensões entre o governo de Donald Trump e o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que em diversos momentos denunciou interferência do republicano em assuntos internos do Brasil.

Por sua vez, o jornal britânico The Guardian a fuga do senador “torna o futuro da extrema direita ainda mais incerto”, lembrando que o seu pai, Jair Bolsonaro, está em prisão domiciliar por tentativa de golpe, enquanto um de seus irmãos, já está nos Estados Unidos com status de residente permanente – atualmente Eduardo Bolsonaro tem um mandado de prisão pendente no Brasil em decorrência da tentativa de interferir no julgamento de seu pai, pressionando Trump para sancionar juízes à frente do caso.

“Desde que Jair Bolsonaro, então deputado de carreira com poucas leis, surpreendentemente venceu a presidência em 2018, efetivamente não houve mais direita no Brasil, apenas o movimento bolsonarista de extrema direita”, destacou The Guardian.

O The Washington Post comparou a situação com os acontecimentos após o pleito de 2022, quando Jair Bolsonaro foi derrotado por Lula. “A saída dramática foi um eco marcante da eleição presidencial de 2022, quando o pai de Bolsonaro, o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, fugiu do país rumo à Flórida”.

“Dois dias atrás, Flávio Bolsonaro era projetado para vencer a eleição. Na segunda-feira, ele efetivamente cedeu a Lula. Agora, ele desapareceu do Brasil”, acrescentou.

A emissora catari Al Jazeera resgata as palavras de Eduardo ao podcaster Steven Crowder, ocasião em que defendeu que seu irmão mais velho deixasse o Brasil caso não ganhasse as eleições. “O irmão mais novo de Bolsonaro, Eduardo, que mora nos Estados Unidos e foi condenado à revelia em junho por fazer lobby ilegal junto à administração Trump, disse em uma entrevista em podcast no início deste mês que Flavio deveria deixar o Brasil caso perdesse a disputa”, relatou.

A venezuelana Telesur destacou que a fuga coincide com o avanço dos processos judiciais “que pesam sobre o ambiente do clã de extrema direita brasileiro”, mencionando as investigações por suposto crime de lavagem de dinheiro, processo no qual seu advogado e amigo próximo Willer Tomaz também está envolvido. De acordo com o veículo, o comportamento adotado pelo senador é tradicional para setores da extrema direita.

“A fuga para território dos Estados Unidos busca evitar as ações do sistema judiciário brasileiro e proteger o parlamentar de possíveis medidas de precaução contra ele. A possível transferência para a Flórida replica o comportamento de setores reacionários da região que recorrem a refúgio nos Estados Unidos para escapar de responsabilidades criminais derivadas de esquemas de corrupção e ataques contra instituições democráticas em seus respectivos países”, disse.

•        Fuga é destaque na imprensa da Europa

A fuga do candidato derrotado nas eleições Flávio Bolsonaro do Brasil é destaque nos sites de notícias europeus nesta quarta-feira (28/10). As reportagens detalham o roteiro da saída do senador do país, associam o episódio às investigações que pesam contra ele e lembram fugas de outros membros do clã.

Na Alemanha, o site da revista Der Spiegel, em uma reportagem intitulada O verdadeiro motivo para a fuga de Bolsonaro, afirma que o episódio é um presente para Lula ao enfraquecer o clã Bolsonaro e dividir a direita brasileira.

"Em fevereiro termina o mandato de Flávio como senador, e então ele perderá a imunidade parlamentar. Esse provavelmente é o verdadeiro motivo de sua fuga. O político é alvo de duas investigações por lavagem de dinheiro e corrupção", afirma a revista. O texto afirma ainda que a operação também é uma "espécie de reunião familiar", citando que o irmão de Flávio, Eduardo também fugiu para os EUA.

A reportagem lembra ainda o episódio da ida de Jair Bolsonaro aos EUA, após a vitória de Lula nas eleições de 2022, temendo a Justiça brasileira. "Se seu amigo Donald Trump estivesse no poder naquela época, ele provavelmente ainda hoje viveria em Orlando, e não estaria em prisão domiciliar em Brasília como um golpista fracassado condenado. Mas o governo do então presidente Joe Biden deixou claro que não concederia asilo a Bolsonaro", destaca.

O jornal conservador alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) narra a história da "complicada fuga de Flávio para a América de Trump", destacando que o presidente republicano quer admiti-lo nos EUA, "mas para isso ele [Flávio Bolsonaro] precisa primeiro chegar lá". O periódico lembra que o senador é alvo de duas investigações no Brasil

"A fuga provocou inquietação no PL. A cúpula da legenda, que na segunda-feira havia reconhecido a vitória eleitoral de Lula e pretendia confiar a Bolsonaro a liderança da oposição, aparentemente não havia sido informada da decisão. Integrantes do círculo próximo do ex-presidente afirmam que ele pretende solicitar asilo político nos Estados Unidos e, de lá, liderar a oposição. No entanto, o campo conservador vem se distanciando cada vez mais de Bolsonaro e considera que chegou o momento de questionar a pretensão da família Bolsonaro de liderar esse grupo político", diz o FAZ.

A fuga também é destaque no jornal Süddeutsche Zeitung (SZ) que cita as investigações contra Flávio e lembra que, com a derrota na eleição, ele ficaria sem mandato na política pela primeira vez em 24 anos. "A pressão sob Flávio aumentou no Brasil. Ao deixar de ser senador, ele ficou menos protegido de processos criminais. Ele está sendo investigado no atual maior escândalo de corrupção do Brasil, que foi revelado no ano passado com a quebra do Banco Master."

<><> Casos de corrupção

Na França, o diário Le Monde noticia que "o candidato da extrema direita, envolvido em vários casos de corrupção e intimado pela Justiça brasileira a entregar seus passaportes, deixou o país rumo ao Equador, após cruzar a fronteira terrestre com a Argentina". O texto acrescenta que, "para estupefação geral", a fuga se deu "apenas dois dias" após sua derrota na eleição presidencial.

"Uma fonte anônima do governo brasileiro procurou, no entanto, tranquilizar os interlocutores. ‘Não vamos romper as relações com os Estados Unidos, é exatamente isso que eles [o clã Bolsonaro] querem’, afirma, lembrando que o governo já precisou lidar com episódios semelhantes. Após sua derrota para Lula em 2022, Jair Bolsonaro passou três meses na Flórida e teria considerado fugir para a Hungria e a Argentina antes de retornar ao Brasil. Washington também recebeu de braços abertos o ex-chefe da inteligência brasileira, Alexandre Ramagem, poucos dias antes de sua condenação, em setembro de 2025, a 16 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado contra Lula", afirma o jornal francês.

Já o jornal espanhol El País publica texto intitulado A fuga de Flávio: do Brasil à Argentina para viajar aos EUA, após fazer escala no Equador, no qual relata que Flávio Bolsonaro "saiu de seu país para evitar uma investigação por lavagem de dinheiro" e que Trump diz que aceita acolhê-lo nos EUA.

"Não está claro o paradeiro do filho do ex-presidente golpista Jair Bolsonaro. A Flórida é considerado um destino provável, mas seu irmão, o ex-deputado Eduardo, vive no Texas, por isso também se suspeita que ele pode ter ido para lá", escreve o El País.

<><> Cidadania italiana

O jornal britânico Financial Times também relembra as investigações contra Flávio e avalia que a presença do senador no EUA "provavelmente agravará as já tensas relações entre Brasília e Washington. Um aliado afirmou que sua esposa e suas duas filhas também deixaram o Brasil".

"O governo Trump, que ainda não reconheceu formalmente a vitória de Lula, anunciou na terça-feira que concederia um visto a Flávio, cujo pai, Jair Bolsonaro, foi aliado do presidente republicano durante seu mandato", afirma o texto.

O também britânico The Guardian também dá destaque ao episódio e aponta que o senador possui a cidadania italiana.

"Um ministro do Supremo Tribunal Federal cancelou o passaporte de Flávio poucos minutos após a divulgação do resultado eleitoral, em uma decisão relacionada a um processo criminal contra o senador. Ele tinha até as 11h para entregar o documento à Polícia Federal, mas não compareceu. Flávio possui cidadania italiana desde 2023 e, segundo relatos, também tem um passaporte emitido pelo país europeu", diz.

•        O papel da Argentina de Milei na fuga de Flávio Bolsonaro

A Argentina confirmou na madrugada desta quarta-feira (28/10) que o senador Flávio Bolsonaro, candidato derrotado à Presidência da República, fugiu do Brasil para a Argentina e seguiu a caminho do Equador acompanhado da esposa e das duas filhas.

O senador e sua família receberam vistos dos Estados Unidos no dia anterior, concedidos pelo governo do presidente Donald Trump, segundo a agência de notícias AP.

A fuga de Flávio Bolsonaro pelo país vizinho deverá piorar ainda mais as já desgastadas relações diplomáticas entre Brasil e Argentina, que se deterioraram com declarações feitas pelo presidente argentino, Javier Milei, durante a recente disputa pela Presidência.

Milei foi ao Brasil para participar de atos de campanha de Bolsonaro e, em solo brasileiro, chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de "ladrão", "presidiário" e "delinquente". Depois disso, o Brasil comunicou a dispensa do embaixador da Argentina em Brasília e decidiu não enviar o embaixador brasileiro a Buenos Aires, efetivamente rebaixando as relações diplomáticas entre os dois países.

O governo argentino também se recusou inicialmente a reconhecer a vitória de Lula nas eleições. O porta-voz da Presidência da Argentina, Adrián Ravier, disse que o Executivo registrou o resultado do pleito e afirmou que Lula também não parabenizou Milei após a vitória do argentino em 2023.

"Quando em 2023 Javier Milei foi eleito, não houve nenhum gesto do presidente Lula para cumprimentá-lo pessoalmente nem nada. Por enquanto, não há nenhum comunicado que vamos fazer", destacou.

A fuga de Flávio Bolsonaro pelo país vizinho se dá apesar de o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ter proibido o senador de deixar o país e determinar que ele entregasse seus passaportes, no âmbito de uma investigação criminal sobre seu suposto envolvimento num esquema de lavagem de dinheiro. Bolsonaro não entregou os passaportes, e os documentos foram cancelados pela Polícia Federal.

<><> Argentina negou enfaticamente

O jornal argentino Clarín diz ter sido informado de que não havia, na Argentina, nenhum alerta vigente contra Flávio Bolsonaro que impedisse sua entrada e lembrou que o senador também tem passaporte italiano, documento que ele poderia ter utilizado ao cruzar a fronteira por via terrestre, passando pelo controle migratório. Além disso, brasileiros Não precisam de passaporte para entrar na Argentina, basta um documento de identidade.

A autoridade migratória argentina assinalou que "os que ingressaram no país possuíam documentação de viagem válida e não enfrentavam qualquer impedimento legal para entrar; além disso, sua passagem foi registrada pela autoridade competente sem qualquer incidente".

Durante o dia, o governo de Milei negou "enfaticamente" que Flávio Bolsonaro tivesse entrado na Argentina, e também as autoridades de migração disseram que não havia registro de entrada dele no país.

Só na madrugada desta quarta-feira, às 2h01, a autoridade migratória argentina comunicou, por meio de uma postagem na rede social X, que Flávio Bolsonaro e sua família cruzaram a fronteira para entrar no país às 22h50. Até então, o paradeiro dele era desconhecido.

"A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, entraram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, os cidadãos Flavio Nantes Bolsonaro, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, Carolina Figueira Bolsonaro e Luiza Figueira Bolsonaro. Eles apresentaram documentação de viagem válida, sem qualquer impedimento legal para a entrada no país; a passagem foi registrada pela autoridade competente, sem incidentes", comunicou a autoridade.

"Além disso, às 23h30, o grupo embarcou em um voo privado, operado pela empresa Baires Fly S.A., com destino à cidade de Guayaquil, no Equador, conforme consta no plano de voo", concluiu.

<><> A fuga

O comunicado oficial foi divulgado três horas após a passagem do grupo pela fronteira. Por volta das 23h, duas vans da empresa brasileira Iguaçu Dallas Travel atravessaram a fronteira em Puerto Iguazú, vindas do lado brasileiro, informou o Clarín.

Segundo a emissora TN, os veículos seguiram em velocidade máxima, escoltados por uma viatura da Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA), até entrarem diretamente na pista do Aeroporto de Puerto Iguazú, em Misiones.

A emissora argentina C5N, que transmitia ao vivo do aeroporto no momento da chegada das vans, informou que a comitiva era composta de quatro veículos, com escolta da polícia, e ao menos um deles entrou na pista do aeroporto.

A bordo de um dos veículos, de vidros escurecidos, havia uma pessoa usando boné, sentada no banco traseiro, que o Clarín identificou como sendo Flávio Bolsonaro. O jornal observou que a movimentação de segurança vista no local era incomum para um aeroporto que, àquela hora, quase não recebe voos.

Segundo o jornal argentino La Nación, o estrategista de Milei, Santiago Caputo, estava na província de Misiones no momento da partida da aeronave privada, o que aumentariam as suspeitas de colaboração do governo argentino na fuga de Flávio. A Casa Rosada negou qualquer envolvimento no caso.

Ainda de acordo com o La Nación, perfis ligados ao campo libertário comemoram nas redes sociais a saída de Flávio Bolsonaro pela Argentina, um deles seria Juan Pablo Carreira, conhecido nas redes como Juan Doe, que ocupa o cargo de diretor de Comunicação Digital da Presidência.

"O governo de Milei é o governo com mais coragem da história. Flávio Bolsonaro está a salvo das garras do comunismo, que quer prender todos os opositores; e agora poderá continuar a luta a partir dos Estados Unidos, em vez de fazê-lo de uma cela em Brasília, como seu pai", escreveu nas redes sociais.

 

Fonte: Opera Mundi/DW Brasil

 

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